INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

Geena




                No rincão das matas enegrecidas, onde as árvores carbonizadas se assemelhavam a costelas fraturadas do corpo de uma baleia gigantesca, os homens e as máquinas começaram a limpar uma área do tamanho de três campos de futebol que subia da estrada larga pela aba dos montes até à crista rochosa e estéril onde só os feros arbustos conseguiam sobreviver com as suas raízes enclavinhadas como garras ao mineral. Os troncos enegrecidos eram cortados junto às raízes e empilhados por meios mecânicos em pequenos montículos triangulares que decresciam da base para o topo, dando a vez na cadeia de processamento a outras máquinas que levantavam com tenazes de aço esses troncos em número de três ou quatro de cada vez para os depositar nos camiões parados ao longo da estrada, que logo abandonavam temporariamente o local quando ficavam carregados. Nas áreas onde já não havia troncos, outras máquinas juntavam os ramos subsidiários em montes crescentes, aos quais se somariam as raízes quando fossem arrancadas do solo numa operação posterior. O trabalho era intenso e quase ininterrupto, prolongando-se desde os primeiros alvores do dia até ao ocaso, havendo casos em que se prosseguia depois disso à luz de faróis e holofotes potentes; e a dimensão da zona que tinha de ser limpa justificara a instalação numa área adjacente de contentores-dormitório onde os operários dormiam, e de cozinhas e posto de enfermagem para os apoiar. Querendo controlar e supervisionar todo o processo, o engenheiro que coordenava os trabalhos, requisitou também um desses contentores-dormitório para si e para a sua família – a esposa trabalhava no posto de atendimento médico, enquanto a filha adolescente, Sophie (o nome fora escolhido quando estavam emigrados na Bélgica) de gozo de férias escolares, quisera vir com eles por sentir uma enorme curiosidade pelo trabalho do pai. O engenheiro andava sempre muito atarefado durante o dia, organizava o trabalho e verificava a correta articulação de todas as fases da operação, procurando suprir qualquer lacuna técnica ou logística que surgisse do nada, e era seguido de perto pela filha, com um capacete na cabeça, que cumpria as recomendações do engenheiro sobre a distância que deveria guardar das máquinas em movimento, e a proibição que este lhe levantara de se aventurar sozinha por aqueles montes e vales. Sophie depressa se aborreceu, circunstância agravada pelo facto de a mãe não poder acompanhá-la porque passava quase todo o dia no posto de enfermagem; e depressa começou a sair da órbita do pai para percorrer os montes e vales proscritos pela sua interdição. Não a viam durante quase todo o dia, e nunca se preocupavam com isso, porque ambos a julgavam vagamente na companhia do cônjuge. Quando os três jantavam juntos ao anoitecer, antes de se recolherem para um merecido repouso, narrava-se por vezes as peripécias dos dias mas Sophie fechava-se sempre em copas, o que os pais não estranhavam porque eram atitudes habituais naquelas idades. Foi o pai quem primeiro se sentiu alertado ao avistá-la no meio da poeira levantada pelas rodas gigantescas das máquinas, a caminhar na direção dos montes com um garrafão de água em cada mão. Tentou segui-la, mas perdeu-a de vista. Ligou à mulher, e entre os dois percorreram as imediações em busca dela sem a avistarem ou darem pelo seu regresso, mas à tardinha, encontraram-na junto às acomodações a alimentar o gato de pelo acobreado que haviam trazido com eles da cidade. Num acordo tácito, mudo e implícito, foi a mãe quem ficou encarregue de a sondar sobre o seu passeio. Esperou que o pai não estivesse por perto e disse-lhe que a tinha visto passar enquanto fazia um curativo num homem que esfolara o cotovelo nuns ramos. Sophie não adiantou grande coisa, limitando-se a contar que dera uns passeios pelo recinto de intervenção. Ao saber do resultado da conversa, o pai limitou-se a contar à filha com uma forçada ligeireza que um dos trabalhadores que operava as motosserras ia partindo a perna quando a enfiou por um buraco no chão encoberto por folhas e cinzas, e desse modo reforçou o seu discurso sobre a periculosidade daquelas paragens inóspitas e bravias.
                No dia seguinte, o casal alargou um pouco as suas rotinas no fito de um deles estar sempre próximo de Sophie e o engenheiro encarregou os seus homens de confiança de a terem também debaixo de olho, mas uma vez mais, ela desvaneceu-se da vista de todos como se fosse alguma miragem imaterial, e no final do dia reapareceu junto do pai enquanto ele assinava uma autorização de combustível. Os pais de Sophie toleraram os seus misteriosos desaparecimentos por uns dias, conscientes de que estavam a exigir muito dela ao manterem-na com eles naquele fim-de-mundo, mas a crescente suspeita de que estivesse envolvida com algum dos operários, todos homens maduros e muitos deles de meia-idade, angustiava-os e empurrou a mãe de Sophie para uma conversa mais séria, que teve lugar próximo do lusco-fusco, longe da sua casa precária e junto a um camião em repouso. A mãe abordou o assunto depois de muitos rodeios, precisava de saber por onde ela andava, até para se sentir mais tranquila e conseguir estar mais concentrada no seu trabalho.
                - Tenho visto uma pessoa – explicou ela por fim.
                A mãe alarmou-se, era um homem? Tinham tido relações? Sophie riu-se. Encontrara uma mulher na encosta, estava deitada entre as pedras e parecia muito fraca porque o coração quase não batia. Tinha a pele enegrecida pelo carvão e pela fuligem e pedira-lhe água porque tinha muita sede.
                A mãe ligou para o marido e os dois contrainterrogaram Sophie – podia ser uma sobrevivente do incêndio que lavrara naquelas paragens? Tal hipótese era absurda porque o incêndio fora dois meses antes, e ninguém sobreviveria sozinho por esse tempo todo – mas a jovem continuava muito tranquila. A mulher não lhe parecia ferida nem com fome, apenas com muita sede, mas depois de lhe levar água durante dois dias seguidos, ela recobrara forças e já se conseguira levantar e conversava com ela, sentadas as duas nas pedras.
                Conversavam sobre quê? A pergunta impunha-se, e Sophie evocou-lhe o teor das conversas enquanto regressavam ao contentor-dormitório.
                - Ela primeiro quis saber de mim, como é que eu me chamava, quem eram os meus pais e os meus amigos. Falei-lhe de como era o comum dos meus dias, os meus sonhos, os segredos que mantinha com as minhas amigas. Falamos mais demoradamente dos sonhos, que era o nosso tema dileto, ela disse-me que tudo o que existe - objetos, criações, pedras e animais - compõem-se dos sonhos que lhe deram origem mas também daqueles que não os chegaram a integrar mas que de uma forma peculiar comungam da sua existência e a enriquecem. Nada existia que fosse acessório e excedente, mas todas as coisas, seres e ideias eram como rebentos diferentes de uma mesma planta e estavam ligados por uma estrutura diáfana que era invisível à maior parte das pessoas.
                - Uma filósofa, em suma – sentenciou o engenheiro, não conseguindo velar o tom irónico das suas palavras.
                - Sim, aquela mulher pareceu-me muito… amadurecida, daquelas pessoas que estão continuamente a refletir sobre as coisas e a descobrir novos sentidos em tudo. Quando lhe pedi para me falar dela, ela preferiu contar-me uma das lendas da sua aldeia que os anciãos transmitem aos mais novos junto a uma lareira a rescender a giestas e a lenha de sobro. E era mais ou menos assim – na sua aldeia existia há muitas centenas de anos um homem cúpido a quem fazia impressão o que os outros homens comiam e bebiam, e o prazer que pareciam ter nisso, e por tal começou ele a devorar todos os alimentos e a beber toda a água que encontrava, comeu frutos e animais, emborcou a água dos riachos, rios e lagos, e tudo ficou seco como um selha cheia de areia, e quanto mais comia, mais crescia, e já de proporções gigantescas e depois de beber a água que as nuvens soltavam, lembrou-se de comer o próprio Sol, que era coisa de que todos gostavam, o que muita inveja lhe fazia, e por isso abocanhou o Sol até o ter inteiro dentro da barriga. Depois de engolir o Sol, já não havia água na terra que lhe acalmasse o ardor que sentia na barriga, e o Sol começou a queimá-lo por dentro até que ardeu e explodiu num fogaréu pavoroso. As águas, as sementes e os frutos foram libertados de novo e germinaram no mundo, e os ossos calcinados do gigante cúpido sobrevivem até hoje nos rochedos de negro basalto dos planaltos. Quando lhe perguntei porque é que me contava aquela lenda, ela disse-me que as lendas eram como as parábolas, serviam para explicar o que se tem muita dificuldade em transmitir.
                Os pais de Sophie entreolharam-se. Sophie, três anos antes, ainda mantinha fecundas conversas com uma amiga imaginária de quem lhes descrevia com uma profusão de detalhes o aspeto, as roupas, ou as conversas, talvez a mulher de pele encarvoada fosse uma reminiscência dessa amiga desaparecida.
                - E podemos conhecer essa tua amiga? Eu gostava muito! – disse-lhe a mãe.
                - Hoje ela já não estava lá, mas eu podia sentir a sua presença, uma impressão desolada de tristeza e dor, como daquela vez que fomos para visitar a avó e ela já estava morta, e os cães dela cá fora ganiam todos ao mesmo tempo, tomados de uma dor imensa.
                - Sim, lembro-me desse dia triste. Mas podemos ver o lugar onde ela estava, pelo menos?
                - Claro! Amanhã levo-vos lá.
                O engenheiro falou pelo telefone ainda nessa noite com o encarregado para o avisar que na manhã seguinte tinha uma tarefa a desempenhar e que iria chegar mais tarde, e a esposa fez o mesmo em relação ao posto de enfermagem. Quando os dois se juntaram sob as cobertas, e notando que a filha já dormia, o engenheiro colocou por palavras a questão que deambulava no seu espírito:
                - Achas que ela viu mesmo alguém, ou será apenas uma fantasia?
                - Não te sei dizer – murmurou a esposa – estou inclinado a pensar que ela sentiu alguma coisa. A idade dela é uma idade complexa em que as tempestades mordem e o poder despe os seus véus.
                - O poder?!
                - Já falamos sobre isso, bel de jour, as mulheres têm poderes, quase nunca chegam a tomar posse deles, mas existem em latência no seu espírito e na sua libido. Umas são janelas abertas para forças e seres de mundos paralelos, outras escrutinam ou sentem o futuro… - o marido encostou dois dedos aos seus lábios e ela calou-se, suspensos os três no silêncio da divisão. Sophie mexera-se no leito como se estivesse quase desperta e o engenheiro aproveitara para concluir a conversa, porque já conhecia o seu curso.
                - Amanhã já vemos! – sussurrou na penumbra – vamos dormir…
                Ao romper da alvorada, notaram que Sophie já estava acordada e vestida, e comia os seus cereais da manhã – os pais apressaram-se e os três tomaram o caminho dos montes sob um nevoeiro cerrado, quando já se ouvia as primeiras máquinas e as primeiras motosserras a laborar. Sophie parecia muito segura do caminho, guiada por detalhes que lhes ia indicando – um castanheiro calcinado, uma rocha isolada semelhante a uma coroa, o ésse do leito seco de um riacho, com as suas escadas de pedra e os fundo de areia e seixos. Enquanto caminhavam, o engenheiro olhou em volta. Ali o fogo parecia ter sido ainda mais intenso do que na zona do vale, com tudo enegrecido e as árvores consumidas quase até à medula, observou também vasos de resina estilhaçados pelo calor infernal. Devia ter sido ali o ponto extremo do incêndio, e talvez se tivesse propagado a partir dali para o resto do vale.

                - Foi aqui que a encontrei! – exclamou a jovem, a apontar uma pedras ao pé deles no meio da encosta. Ela estava deitada entre estas duas pedras compridas, parecia ter caído ali, arfava como se lhe faltasse o ar, e pedia-me água.
                - E estava suja do carvão – lembrou a mãe – o que é normal, porque aqui está tudo queimado, mato, árvores e pedras. Não tinha feridas ou cortes?
                - Não que eu visse…
                - É estranho que houvesse aqui alguém – refletiu o pai em voz alta, procurando racionalizar o sucedido – podia ser uma mulher que morasse aqui perto a apanhar madeira, mas as casas mais próximas estão a dez quilómetros do nosso acampamento no vale.
                - Ou alguém que tivesse morrido aqui – adiantou a esposa. Acusou o olhar de desagrado do engenheiro e justificou – eu também sinto, como Sophie, uma espécie de funda tristeza neste lugar, mas pode ser efeito de estarmos no meio de tanto negrume e devastação. Achas que ela irá voltar aqui, filha?
                Sophie acenou negativamente, com algum desalento.
                O engenheiro dobrou-se ao lado das duas pedras que Sophie indicara, no meio da cama de cinzas recurvava-se um fragmento metálico circular como o rebordo de um vaso. Sabia tratar-se do vestígio de uma botija de fogão de campismo, que era um dos componentes dos engenhos incendiários que se havia usado ali. A esposa notara o seu gesto.
                - Encontraste alguma coisa?
                - Um vaso de resina partido.
                Com a sola das botas curvou o fragmento até o enterrar por completo na cinza.
                - Devíamos voltar de imediato, porque temos muito trabalho pela frente – considerou – Se Sophie voltar a ver a senhora, voltamos aqui para conversar com ela, ou pode convidá-la para ir a nossa casa beber um chá e narrar as suas lendas.
                E sem esperar pela aquiescência da família, tomou resolutamente o caminho de regresso, carregando a impressão de desconforto de estar a ser observado por uma infinidade de olhos, dissimulados na noite telúrica do carvão e das cinzas.


A flor do sal


                Manoel Estevão dos Santos, filho e neto de prósperos empresários terratenentes e também ele dotado de intuição – e dinheiro – para se aperceber do valor das terras e lucrar com isso, foi o primeiro da sua família a manifestar um comportamento francamente excêntrico, pelo menos, na ótica dos seus familiares e amigos mais chegados - que outra interpretação se podia dar ao facto de Manoel Estevão dos Santos, entre muitas iniciativas e transações lucrativas, levar sempre a cabo um entre comas negócio no qual oferecia uma propriedade ou um imóvel a alguém que ele achasse merecedor dela – pela sua pobreza e não como retribuição por algum trabalho ou favor à sua própria pessoa. O seu gesto não tinha qualquer fundamento evangélico ou religioso, porque o dito empresário era aquilo que num arcaísmo se poderia designar por um incréu, e de religioso tinha de próprio uma tranquila veneração panteísta pelas belezas e fúrias da natureza (também o tomava de espanto os estados e sensações humanas extremas como o desespero ou o orgasmo, mas aí a sua admiração recaía sobre a riqueza e a complexidade do corpo e da psique, manifestações diversas da mesma e absoluta natureza no que ela tinha de mais belo e de mais terrível); e o motivo principal do repúdio que a sua parentela tinha para com as suas doações, era o receio doentio de que aquilo que ele oferecia suplantasse um dia os lucros do seu negócio, delapidando o património acumulado, não sendo de afastar a possibilidade de ele vir a legar os seus bens a uma chusma de desafortunados, ou a instituições de caridade, em prejuízo dos seus dignos e respeitáveis familiares.
                Com todos os cuidados e preocupações que a sua generosidade despertava na família, ela era unânime em admitir que a sua excentricidade era coerente, manifestava-se através de padrões comuns e reconhecíveis. Quando havia vindimas ou apanha da fruta na sua propriedade, todos o viam a entregar ao solo as primícias do que ela lhe tinha dado, os primeiros frutos, ou primeiro vinho que se fazia – uma pequena pirâmide de frutos empilhados num gesto de respeitosa gratidão, um copo generosamente cheio de vinho novo derramado sobre as vides despidas de bagos depois do proprietário ter tocado timidamente o líquido com os seus lábios como se o beijasse.
                O seu fascínio pelas riquezas da natureza compeliu-o a investir na salicultura, com marnotos adquiridos por compra ou aforados, e ao mesmo tempo, fazendo o papel de intermediário na comercialização do sal de outros produtores; a sua sagacidade e talento para o negócio levaram-no à criação de uma etiqueta apelativa que lhe trouxe dividendos monetários depois de a explorar com campanhas comerciais de venda. Quando a salicultura se converteu em mais uma prova do seu bom instinto empresarial, Manoel Estevão dos Santos iniciou uma nova tradição excêntrica que se encaixava nos moldes das precedentes. Todos os meses, enchia-se com sal dos cristalizadores um caixa de madeira, pregavam-lhe uma tampa, e era carregada numa carroça tradicional de rodas de raios em madeira, puxada por um muar (o empresário fazia questão nesse particular), o percurso da carga levava-a a um trecho da costa não muito distante da casa e propriedade de Manoel Estevão dos Santos. Aí, na maré baixa, a costa formava uma restinga aprazível com um pequeno banco de areia e rochas no seu centro. A carroça era conduzida até onde era possível, e logo dois varapaus eram passados através de umas argolas de ferro que o caixote de madeira tinha de um lado, a um terço do topo da caixa, e ela era carregada como uma padiola por quatro homens para o dito banco no meio da restinga (muitas vezes, o empresário era um desses homens). Aí, desarmavam uma das laterais do caixote, e o sal era vazado, formando um cone branco que rebrilhava ao sol na infinidade dos seus cristais.

                Acomodado na margem, Manoel Estevão dos Santos ficava a aguardar a subida das águas enquanto bebericava um pouco do seu vinho e conversava com trabalhadores, convidados ou espetadores acidentais. Admiravam o cone de sal, e o modo como ele se dissolvia nas ondas, por vezes como uma ilha flutuante esbranquiçada, outras como uma língua ou uma espiral salgada e efémera. A quem o inquiria, por não o conhecer ou não fazer ideia do que ali se passava, Manoel Estevão dos Santos atirava-lhes com o seu lema pessoal que, a seu ver, era eloquente que chegasse para carecer de mais desenvolvimentos: tudo tende para o equilíbrio.

Um caso de bullying

O Minotauro, de George F. Watts
      As folhas secas dos plátanos sob a sola das sapatilhas soavam a folhas de papel mal carbonizadas a serem esmifradas entre os dedos. Michel reteve esse pensamento enquanto subia com cuidados redobrados a ladeira de terra barrenta entre os dois blocos de salas da escola. Era sempre essa a estratégia, optar pela ladeira e não pelas escadas de tijolo e cimento, plus, evitar cruzar os pátios concorridos de gente entre os blocos, plus, queimar o tempo dos intervalos e da hora de almoço em sítios pouco apetecíveis como as áreas envolventes das portarias de entrada na escola e a restinga verdescente ao lado dos contentores da reciclagem. Foi aqui que reviu os seus dois amigos, estavam sentados num murete caiado e trocavam cartas repetidas, descrevendo com pequenas exclamações as habilidades e poderes dos personagens das cartas. Cumprimentou-os com um aceno e sentou-se por perto, a explorar um novo jogo que descarregara para o seu telemóvel.
                - Demoraste… - comentou Lucas.
                - Depois de comer, fui comprar senhas de almoço e quando vinha para aqui, a Rute meteu conversa comigo, precisa de ajuda para um trabalho de geografia que tem para fazer.
                - E vais ajudá-la?
                - Sim, ela é minha prima direita, se não a ajudar isso ainda chega aos ouvidos da minha mãe e fico marcado para o resto da vida.
                Michel guardou o telemóvel. O jogo que escolhera era uma seca e não lhe apetecia ficar ali mais uma hora sem nada para fazer.
                - Vou subir até ao campo da bola – disse-lhes – a esta hora não há é-éfe e pode ser que esteja lá malta fixe e consiga jogar um pouco ou dar uns toques. Deixo aqui a minha mochila.
                Largou-a ao pé deles e subiu mais uma ladeira de terra e no fim desta caminhou paralelamente à vedação de rede que envolvia o campo. O campo de jogos situava-se no topo nascente dos terrenos da escola, era a última coisa que havia antes da rampa alcatroada que dava para uma das saídas. Enquanto contornava a rede, ouviu vozes no recinto, acelerou o passo na subida e cruzou a entrada do campo de jogos para logo se imobilizar. Quatro alunos mais velhos brincavam com uma bola de básquete, mas um deles, o mais alto, virou-se de imediato para ele com um sorriso sardónico que lhe gelou o sangue. Douglas, assim se chamava o aluno do nono ano, deu dois passos na sua direção, como se o quisesse demover de tentar fugir. Douglas não trajava de modo diferente dos outros, e quem o ouvisse falar, não conseguiria distingui-lo dos demais. Mas ninguém o confundiria com os colegas pelo arco que as suas clavículas formavam acima dos ombros, com a sua cabeça bovina fundida nos ombros, o queixo proeminente e olhos oblíquos e aquele altivo par de cornos que a todos infundia respeito pelas suas ameaçadoras pontas aceradas.
                - Queres jogar connosco, puto? Precisamos de alguém na equipa que consiga encaixar uma bola no peito – e antes que Michel pudesse responder, Douglas já o alcançara, encostou a palma da mão direita ao seu plexo solar e empurrou-o com força, fazendo cambalear e cair contra a vedação de rede.
                Michel enclavinhou os dedos na rede e pôs-se de pé num instante com medo de levar mais pancada. Sentia-se indisposto, e a vibração metálica dos elos da rede soava-lhe como risos.
                - Eu não posso, tenho aulas agora e preciso de ir, porque estou tapado a faltas em quatro disciplinas – respondeu num jorro de palavras. Mentia, e sentiu vergonha por isso, mas achou que isso podia apaziguar os ânimos, porque era o que os bullies da escola faziam, faltavam até deixarem de poder faltar.
                - Douglas – chamou um dos outros – vamos continuar o jogo.
                Douglas hesitou, a cornamenta a oscilar ligeiramente com os movimentos da sua cabeça, e nesse ínterim Michel começou a correr, e desceu a ladeira, só parando quando se juntou aos amigos.Trazia lágrimas nos olhos e estava capaz de vomitar. Lucas e Belisário coibiram-se de lhe fazer perguntas, tal era o estado em que o viam. Michel tirou o telemóvel da mochila, e voltou ao jogo que antes o enfastiara, tentando disfarçar o choro remordido. Quando se aproximou a hora do primeiro tempo da tarde, Michel levantou-se de um salto e encaminhou-se para a sala de aulas.
                - Belisário – murmurou Lucas, fazendo-o deter-se quando ia seguir o amigo – posso fazer-te uma pergunta algo estúpida?
                - Diz…
                - Porque é que nos escondemos deles? Sei que eles são a força e que o poder é a prerrogativa do uso da força e tenho perfeita noção de todas essas coisas mais ou menos darwinianas em que todos acreditam, mas não era mais fácil tentarmos anular os bullies, participar deles ao diretor e obrigá-los a andarem na linha?
                Belisário riu-se, pousou amistosamente as manápulas nos ombros de Lucas e olhou-o, muito sério.
                - Lucas! – suspirou – por vezes a tua ingenuidade comove-me. Primeiro os tipos não olham para ti e veem uma pessoa, eles não veem nada, são massas brutas de violência cega, tão éticos e sensíveis como um punho atirado ao nariz de um tipo. E depois, ninguém faz nada contra os chifrudos porque é assim que o sistema funciona e o sistema é autofágico e não conseguiria criar ou imaginar um outro sistema diferente ou uma outra realidade. Imagina que a escola é um enorme galinheiro numa quinta, e que o diretor e os profes são os empregados da quinta que entram no galinheiro para dar comida à criação e recolher os ovos e de vez em quando levar um galináceo para ser morto. Achas que eles realmente se importam se a ninhada de uma galinha é morta pelo peru, ou que o galo vaze com bicadas os olhos dos franganitos? Não lhes tira o sono as rixas entre os animais porque as galinhas e os frangos estão onde deveriam estar, e continua a haver ovos para recolher e tudo o mais que seria regular e comum esperar-se de um galinheiro. Um diretor ou um profe não tem necessidade de interferir nesse podre equilíbrio feito de sujeição e domínio, e se eu ou tu tentássemos forçá-los a tomar uma atitude, as coisas não ficariam muito famosas para o nosso lado.
                - Ainda assim, deve haver alguma coisa que possamos fazer… quantos bullies existem na escola toda? Quatro? Cinco?
                - Quatro! O Douglas, o Pedro Sá e o Mário Zé no nono ano, e temos o Estilhas na nossa turma. Mas se queres organizar uma luta épica contra os ogres do Senhor dos Anéis, tens de contar com uns quantos que orbitam em volta deles, que são os tristes que se riem das piadas deles e que contribuem para as suas sessões de humilhação pública.
                - Tenho um plano! – confessou Lucas, com os olhos brilhantes, enquanto os dois respondiam ao toque de entrada, encaminhando-se para a sala – só mais uma questão, se pudesses colocar os quatro num ringue de boxe para lutarem entre eles, em qual dos quatro apostarias?
                - No Estilhas, sem dúvida, é o mais velho dos quatro, e nenhum dos outros lhe faz sombra. Porque perguntas?
                - Temos plano! – respondeu, furtando-se a mais explicações.
                No dia seguinte, logo no primeiro tempo, Lucas faltou a Educação Cívica e foi à procura do Estilhas. Queria encontrá-lo mas sem correr muitos riscos. Posicionou-se perto da portaria à espera que ele entrasse na escola, era um lugar ideal porque estava encostado de viés à coluna de alpendre na entrada de uma sala de aulas e um arbusto Hibisco ao seu lado, despojado de flores, coroava com a sua rama um canteiro no meio do pátio de cimento, dissimulando a sua presença ali. A atenção que dispensava às escadas de acesso à escola e à entrada exígua foi desviada por breves instantes por uma aluna de cabelos negros como azeviche que desenrolava no chão alcatroado um novelo de fio de guita, aparentemente sem nenhuma razão plausível, desenrolava-o apenas como se isso a divertisse, e quando o fio que a brisa ameaçava levantar nos ares já tinha uns bons metros de extensão, Lucas ergueu os olhos, e viu que na outra extremidade, junto à aluna e ao seu novelo fútil, o Estilhas acabara de passar pelo portão pequeno. Lucas abandonou o seu precário refúgio e pisando no fio para o manter colado ao chão, caminhou sobre ele e aproximou-se do Estilhas, que estacou à sua frente num misto de surpresa e divertimento. Lucas olhou para os seus pés, evitando fixar a sua cabeça de cornos largos, ou os punhos que adivinhava cerrados como martelos, prontos a esmagá-lo.
                - O que é que tu queres, totó?
                Deixou passar a referência, gostaria de lhe dizer que se chamava Lucas, e que estava confiante de que esse nome lhe vinha de Loki, o deus ardiloso, mas isso não era importante naquele momento.
                - Tenho um ne-ne-gócio a propor-te… a pr-propor a si… - gaguejou com os nervos.
                - E porque é que eu iria fazer negócio contigo? Tens alguma irmã bonita para mim?
                Lucas negou com um aceno de cabeça.
                - O negócio que quero propor seria benéfico para os dois, seria um acordo simbiótico, como diria a nossa professora de Ciências – e sabendo que ele não entenderia o sentido do que lhe dissera, estendeu-lhe de imediato umas quantas folhas de papel, presas por um clipe.
                - O que é isto? Um pacto de sangue?
                - Nas primeiras três folhas, imprimi as respostas às fichas de trabalho de Português, Geografia e Ciências, só tens de copiá-las com a tua letra. Respondi a essas perguntas com a ajuda do Belisário. Na terceira folha tens os exercícios de matemática que o professor nos deu para o fim-de-semana, e que foram resolvidos pelo Michel. Nós três podemos ajudar-te, fazemos os teus trabalhos, damos-te explicações para os testes, e até podemos ensaiar algumas formas de te passarmos as respostas durante as provas.
                - A ideia interessa-me, puto, mas se é um negócio, o que é que vocês querem em troca? Dinheiro?
                - É muito simples, precisamos de proteção, precisamos que tu expliques ao Douglas ou ao Pedro Sá que não podem bater em nós, porque somos da tua turma e só tu o podes fazer, ainda que nós – é claro! -esperemos que tal nunca venha a ser preciso, isto é, tu bateres em nós, percebes?
                - Percebo! – respondeu o Estilhas, ainda pensativo. Na sua reiterada carreira de aluno repetente, aquela fora a proposta mais estranha que alguma vez lhe tinham feito – se vocês cumprirem com a vossa parte, eu cumpro com a minha…
                - Já começamos a cumprir, e vamos cumprir enquanto houver aulas no universo – respondeu Lucas, vibrante de entusiasmo, ansioso para relatar o acordo ao Michel e ao Belisário.
                Pegou na mochila e saiu a correr à procura dos amigos. Soou o toque de saída e os alunos abandonaram as salas numa algazarra algaraviada, e na sua euforia Lucas abandonou todo o tipo de prudência, e começou a arrepiar caminho por entre os grupos de alunos no pátio quando sentiu uma mão forte a prender-lhe um braço. Era o Douglas.
                - Onde é que vais com tanta pressa, Coxo? Pensei que os coxos não corriam – e sem lhe largar o braço, deu dois passos em volta dele, manquejando com nítido exagero.
                Lucas avaliou a situação. Fora fisgado num canto do pátio de cimento, o Pedro Sá e o Mário Zé também lá estavam e estrategicamente olhavam em volta para topar onde paravam os funcionários da escola ou os professores. Quando o Douglas desempenhou aquela momice, Lucas ouviu uns risinhos abafados saídos de um grupo de raparigas ali ao pé, pelo que teve a certeza de que o suplício iria continuar. Douglas, soprando pelas ventas, aproximou-se dele até a curva áspera de um dos seus cornos lhe tocar no couro cabeludo, e continuou com uma voz bem audível.
                - Sabes como é que deixavas de coxear, Coxo? Coxeando dos dois pés! – ouviu rir e prosseguiu – se te partissem o pé bom, ficavam os dois pés iguais e já não coxeavas.
                - Douglas!
                A voz roufenha do Estilhas surpreendeu a todos. Aproximara-se calmamente dos dois, e ordenou-lhe:
                - Larga o puto! Ele é da minha turma e não tocas em ninguém que seja da minha turma, ouviste!?
                Douglas largou o braço de Lucas e consultou os dois aliados com o olhar, que lhe confirmaram que não havia ninguém a recear por perto. Douglas saltou em frente com um braço fletido no ar para esmurrar o Estilhas, mas este já esperava essa reação, porque se desviou de través, e estendeu-lhe a perna, fazendo-o cair aparatosamente no chão. Os alunos em volta cerraram fileiras para que olhares indesejáveis não descobrissem a contenda, e Douglas, enraivecido, levantou-se e avançou para o Estilhas com os braços retesados, os cornos de um e de outro entrechocaram-se com estrondo antes que o Estilhas tomasse a iniciativa e o esmurrasse repetidamente nos pulmões, fê-lo cair com um violento puxão, e assestou-lhe em seguida alguns pontapés no corpo caído, que venceram todo o tipo de resistência. Sob alguns gritos de auxiliares que acorriam ao local, dois alunos ajudaram Douglas a levantar-se e arrastaram-no dali seguro pelos ombros, enquanto o Estilhas descia as escadas no sentido oposto, com a mão direita a esfregar o ombro onde a ponta de um corno de Douglas lhe causara uma pequena laceração. Lucas seguiu atrás dele e alcançou-o quase no último degrau das escadas.
                - Obrigado! – agradeceu com visível comoção – obrigado mesmo!
                - Não agradeças, puto, é só um negócio, e vocês vão ter de trabalhar muito para merecer a minha proteção.
                Lucas concordou, intima e profundamente grato, e até ao fim dos tempos. Voltou a subir apressadamente as escadas na direção da sala de aulas, Michel e Belisário reuniram-se a ele pelo caminho, sorrindo abertamente e trocando como mimos pequenas palmadas nos ombros, esquecidos por fim do denso medo de todos os dias.

Um soldado




                Lucio Cardinales era um jovem imberbe, praticamente um adolescente, quando terminou a sua rudimentar instrução militar e foi colocado nas traseiras de uma Unimog verde-alface com outros soldados para ir servir nos postos fronteiriços. Lucio encolheu-se sobre si, ladeado pelos camaradas, o queixo enterrado no pescoço, cheio de dúvidas e receios, nada sabia do trabalho que o esperava e, sobretudo, tinha uma quase certeza de que iria falhar no seu papel e em tudo, e ser a vergonha da companhia e ser preso e torturado por isso. Quando estavam perto de chegar ao destino, um sargento pôs-se de pé, seguro a uma barra de ferro soldada no teto da cabine da Unimog, e fez-lhes uma pequena palestra sobre o que esperava deles na linha de fronteira. Garantiu-lhes que de início não fariam mais do que estarem de sentinela nas torres de vigia e depois, à medida que dessem provas da sua dedicação e caso mostrassem vontade de aprender e progredir, outros trabalhos e rotinas lhes seriam confiados.
                Lucio sentiu-se mais tranquilo, e os dias que sucederam à sua chegada à fronteira, reforçaram a sua confiança. A torre de vigia em que foi colocado ficava apenas a uns duzentos metros do QG da unidade, e quando era rendido no seu posto escapulia-se até ao aquartelamento, onde os cozinheiros lhe arranjavam sempre alguma coisa para complementar a ração que levava na mochila.
                Cedo se apercebeu de que fronteira tinha duas barreiras distintas para quem a procurasse cruzar. A linha de torres de vigia como a sua, que se elevavam dos bosques e serranias como sonhículos de torres de Babel, e as patrulhas de fronteira, grupos de homens armados - no mínimo cinco porque os contrabandistas tinham fama de ardilosos e traiçoeiros - que avançavam e regrediam no espaço entre as torres de forma espontânea e inesperada de forma a iludir a astúcia de eventuais observadores.
                Apesar da preleção do sargento no caminho para ali, Lucio permaneceu na mesma função durante meses, a maturar o seu olhar e a sua paciência para o que quer que pudesse depois encontrar no terreno – se alguma vez o elegessem para tal mester. Passava ali dias consecutivos com a ração de campanha e a água à medida, enregelando com o frio da noite, ou sudando a cântaros nos dias de maior calor. O vento também era impiedoso para aquele solitário jovem de olhar de águia, fazendo-o rememorar em desvairada nostalgia o mavioso aconchego do lar e da lareira odorífera que lhe fazia companhia nas noites de temporal.
                A fronteira era longa e não havia efetivos que dessem para ter mais do que uma sentinela em cada torre de vigia. Em horas pré-estabelecidas comunicavam via rádio com o QG para darem conta se havia alguma anomalia nas redondezas ou se tudo se encontrava correto e verificado. A diminuição dos dias e as primeiras chuvadas de Junho coincidiram com a transferência de Lucio para outra torre de vigia, esta uma estrutura decrépita de madeira erguida no pontão de rocha de uma colina, a uma vintena de metros acima do vale cavado preenchido por uma vegetação luxuriante e impenetrável. A sua situação era desfavorável, porque se os contrabandistas estivessem camuflados a preceito, dificilmente os descortinaria no coberto vegetal, e este por sua vez seria contornado e não atravessado pelas patrulhas de fronteira, o que deixava o terreno livre à ação clandestina dos contrabandistas. Nervoso e angustiado, e sob a luz débil de um candeeiro de querosene releu o manual de campo, as instruções e conselhos nele contidos, e quando a noite se fechou por completo em volta da torre, Lucio equipou-se como se fosse integrar uma patrulha de fronteira, vestiu o colete, conferiu o estado da pistola e colocou-a na cintura, e muniu-se também da bolsa para munições, a luz química, o cantil, e a espingarda. Apoiado no varandim da torre, percorreu com os seus binóculos o negrume da noite sem luar, e bastaram umas horas de atenção para que a sua vigília se revelasse justificada. Distinguiu diminutos halos de luz que ascendiam do vale por um carreiro entre as rochas, a poente da torre, moviam-se muito devagar, talvez pelas dificuldades levantadas pelo terreno, ou pelos cuidados impostos pela carga que levavam. Três contrabandistas, refletiu o jovem, não era irrealista pensar que seria capaz de anular três contrabandistas. Lucio sentiu-se muito calmo, para surpresa sua, ignorou o convencionado alerta via rádio, porque não serviria para nada, e limitou-se a confirmar as munições da espingarda. Colocou-a ao ombro e com movimentos rápidos desceu as escadas da torre, e progrediu em passo de corrida por um caminho de cumeeira de forma a intersectá-los. Quando os contrabandistas alcançaram a crista do monte, já Lucio se encontrava lá, emboscado, acionou um bastão de luz química e atirou para a frente deles, e antes que pudessem reagir alvejou-os com a espingarda, os dois primeiros caíram redondos no chão com tiros irrepreensíveis na fronte, mas o terceiro disparo havia falhado e viu-o fugir por entre as rochas. Sob a luz colorida da luz química e pela forma como corria, Lucio apercebeu-se de que o tinha ferido. Largou a espingarda e correu no seu encalço enquanto desembainhava a pistola, saltou sobre os corpos mortos das duas mulheres no chão e alcançou o contrabandista que entretanto tropeçara numa pedra e estava caído na sua frente. Era também uma mulher jovem, que se soergueu sobre os braços a olhá-lo, e Lúcio enquadrou-a no foco da lanterna. Estava ferida numa perna, que sangrava em abundância, e levantou-se do chão com nítidas dificuldades, como se o desafiasse. Era estranho, uma bala disparada à cabeça ter-lhe acertado na perna, era improvável que tivesse saltado tão alto na fuga, pelo que a explicação deveria residir naquelas armas velhas que lhes haviam entregue na recruta. Fez baixar o círculo de luz da lanterna para o seu ventre apenas para admirar o que só conhecia de ouvir falar e de ler nos manuais. Os olhos da mulher pareciam brilhar no escuro e os seus cabelos longos e brancos emitiam uma luz alva e lunar que se propagava em volta da cabeça num halo de luz. Completo o exame, e antes que o contrabandista o tentasse ludibriar, disparou um tiro certeiro que lhe vazou um dos olhos e lhe atravessou o crânio. Deu dois passos em frente e, cumprindo as instruções do manual e da instrução, disparou um segundo tiro de confirmação no coração. Notou que um dos braços do seu corpo imóvel rodeava a mochila volumosa caída ao seu lado, como se mesmo depois de morta a tentasse resguardar do mal.
                No cumprimento das normas do manual, confirmou que os dois outros contrabandistas estavam efetivamente mortos e voltou de imediato à torre e relatou o sucedido pela rádio. Menos de uma hora depois, uma patrulha de fronteira alcançou a torre. Em silêncio e com método, enterraram os três corpos na terra macia, e carregaram as mochilas dos contrabandistas. Um tenente de cabelos encanecidos aproximou-se dele sob a luz intensa da torre de vigia, colocou-lhe uma mão pesada sobre o ombro e exclamou.
                - Tu és um herói, meu rapaz. Esta tua proeza vai abrir-te as portas na unidade. Vou deixar contigo um camarada para tomar conta da torre. Tu vais dormir e de manhã vais ter ao quartel-general, porque o major quer conhecer-te!
                Lucio agradeceu com um aceno de cabeça e repetiu a continência ao superior, esfusiante de contida alegria. Naquela noite, mal conseguiu dormir, a entrevista, os nervos, a eliminação dos contrabandistas, que revia com incomensurável satisfação e orgulho, tudo isso prolongou a duração das horas e da vigília, e às primeiras horas do dia já se encontrava equipado e de imediato se pôs em marcha, vencendo num par de horas a distância que o separava do QG. Lá chegado, identificou-se, e logo um ordenança veio buscá-lo para o conduzir ao gabinete do major. O major Quispe veio recebê-lo à porta, parecia francamente alegre, e dispensando as normas e preceitos, abraçou-o como a um simples camarada de armas, e indicou-lhe uma cadeira junto à sua mesa para se sentar. Enquanto Lucio se sentava, um pouco constrangido por aquela insólita familiaridade do oficial, este vazou dois dedos de conhaque num copo e estendeu-lhe. Aceitou, e bebericou um pouco do conhaque.
                - Então, soldado Lucio Cardinales? Qual é o trabalho que gostaria de realizar aqui?
                - Eu… - hesitou, com receio de estar ser ousado – eu gostava de ir para as patrulhas, se o senhor major achar que sou capaz, e se não for pedir muito.
                - Considera-o feito, soldado Cardinales. Vou-te dar uma medalha e passas para as patrulhas, com o talento que tens vais dar um bom Caçador – riu-se, por razões que Lucio não entendeu, e continuou num tom mais grave – tu percebes que ao passar para as patrulhas, a tua responsabilidade aumenta bastante?
                Lucio acenou que sim, mas não deve ter convencido o major.
                - Sabes dizer porque é que nós estamos a vigiar as fronteiras, soldado Cardinales?
                - Para impedir que entrem no nosso amado país produtos que minem as suas forças, e indivíduos armados que nele possam causar morte, instabilidade e caos – respondeu, debitando o texto do manual.
                - Não o podias ter dito de melhor forma. O nosso país é um corpo único, os nossos governantes são a sua cabeça, e os trabalhadores e militares os seus pés e mãos. Neste corpo, só pode circular na sua corrente sanguínea aquilo que o revigora e o torna mais forte, tudo o mais é excedente e perigoso e deve ser limpo sem contemplações. Não há lugar para a arte, a improdutiva contemplação da beleza, a literatura, a poesia, a música, o pensamento não-doutrinado. É disso que nos devemos defender, e é isso que tentam introduzir no nosso amado país depois de os termos erradicado daqui. Tudo o que os contrabandistas trazem até nós possui o perverso malefício de nos tentar afastar da nossa sagrada missão e de infetar o corpo da nossa nação. Vem comigo, vou mostrar-te o que transportavam os contrabandistas que anulaste ontem à noite!
                Saiu do gabinete em passos rápidos, e Lucio secundou-o. Cruzaram a praça de armas até o que parecia ser um complexo de armazéns ao lado da caserna. Cruzaram a entrada com sentinelas e no caminho para o âmago do complexo, passaram por três duplas de soldados fortemente armados.
                - Esses contrabandistas que tentam fazer crer que estão a devolver à nação um pouco da sua alma transportam quase sempre itens absurdos e desprezíveis como livros, manuscritos, telas enroladas, pequenas obras de arte e outros artigos de semelhante calibre. Os propagandistas e falsários que os dirigem, intitulam-se génios da terra-mãe e guardiães da nação ancestral, mas tudo o que pretendem é danificar a nossa determinação e a nossa saúde mental com os seus esquemas e operações maquiavélicos. São agentes do caos e temos de os aniquilar sem hesitações, tal como tu fizeste ontem.
                Pararam diante de uma porta blindada. O major digitou um código num terminal e a porta destrancou-se. De uma estante à direita, o major recolheu dois pares de óculos escuros, estendo-lhe um par e colocando o outro sobre os seus olhos.
                - As lentes escurecidas desfocam um pouco os itens do armazém, só para nos precavermos contra possíveis danos psicológicos.
                Lucio colocou os óculos, e sentiu receio de chocar contra alguma coisa, tão pouco era aquilo que descortinava com eles. Seguiu a imagem esbatida do major.
                - Venha por aqui – dizia este – o que eles tentavam passar ontem é um artigo um pouco insólito, veja! – exclamou, apontando uma mesa entre as estantes, onde reconheceu as silhuetas das mochilas da véspera, e um feixe de formas delgadas que pareciam sair de pequenos vasos, alinhadas na mesa como se estivessem estado a inventariá-las. Pareciam flores.
                - Orquídeas - explicou o major, respondendo às suas dúvidas - ontem tentaram introduzir orquídeas no país, selecionaram os híbridos mais vistosos e coloridos para perverter e enfraquecer os nossos espíritos. Está a ver até onde esta gente consegue chegar, soldado!
                E num repente, o major começou às punhadas às orquídeas, esmagando as suas flores como se estivesse a aniquilar os génios-da-terra. Depois de descarregar a sua fúria, tomou o caminho da porta por onde haviam entrado. Depositaram os óculos na mesma estante, e alguém voltou a fechar a porta blindada atrás deles depois de saírem. Abandonaram o edifício e o major inspirou profundamente o ar.
                - Percebe agora a importância de patrulhar e defender a fronteira, soldado Cardinales?
                - Sim, meu major! – respondeu com energia – não defendemos apenas a fronteira, defendemos o país de ser corroído e destruído.

                O major sorriu de satisfação, despediu-o com um gesto e tomou o caminho do gabinete onde o entrevistara, com as mãos unidas atrás das costas. Lucio Cardinales ficou a vê-lo afastar-se, pensativo. No seu espírito não havia lugar para a arte ou para a poesia que nunca conhecera, nem mesmo para as orquídeas que suspeitara mais do que vira. A sua única dúvida, paciente e promissora como a primeira fissura num muro de betão, tinha os olhos femininos e brilhantes, e longos cabelos brancos que se acendiam de uma luz lunar.

A sombra dos dias




               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes, porque aquele cliente, um cliente muito especial, fazia sempre o mesmo pedido todos os dias, quase sempre à mesma hora, sentava-se de preferência na mesa de canto ao pé da janela munido do jornal que capturava na entrada, distante e misterioso. Enquanto esperava, ela olhou-se ao espelho do balcão e passou a ponta humedecida do dedo indicador por uma sobrancelha. Estivera a arranjá-las, e parecia-lhe que não estavam iguais. Levou-lhe o pequeno-almoço, que ele agradeceu polidamente na sua voz grave, mas sem entoação. Ela foi servir outros clientes, mas sempre com ele no canto da retina, bebia-lhe os gestos e as expressões, descobria entre sobressaltada e incrédula quando ele tinha uma palavra inusitada ou um movimento insólito, como se ele o fizesse para sair da rotina, para lhe dar a entender em silêncio que sabia que ela estava ali, a olhá-lo, e que vivia como ela numa pálida e morna ansiedade, a esperar por algo na névoa dos gestos de todos os dias. Ela também notou que ele se demorava sempre na página dos classificados, escrutinando com gravidade os anúncios como se procurasse algum anúncio específico, talvez fosse daqueles homens que não são capazes de estar com uma mulher sem ter de pagar por isso e, ao mesmo tempo, isso parecia-lhe uma ideia absurda, porque ele emanava uma confiança viril e uma tranquila segurança, que fora o que a atraíra nele. Quando ele abandonava o café, ela sentia a saudade sofrida de quem fica no cais, só desanuviada por saber que o voltaria a ver na manhã seguinte, enamorada de um estranho, e afeiçoada ao sentimento de se sentir assim enamorada. Durante a noite, no seu quartinho dos fundos, quando o dono do café entrava nele à socapa para vencer com o seu peso as relutâncias do seu corpo crispado e ausente, vinham-lhe aos olhos lágrimas de infelicidade e desespero, que o homem nojento interpretava como se fosse dor por ele a penetrar, mas encolhia os ombros e masquindo de passagem, servia-se do seu corpo e largava-a prostrada e suja sobre a cama como restos de comida na beira de um prato.
                Durante o dia, ela só amanhecia com a chegada do cliente misterioso. Mas será que ele dava por ela? - angustiava-se ela em segredo. Discretamente, tentou acentuar aquela relação cúmplice entre os dois. Começou a providenciar flores novas todos os dias para a jarra da mesa do canto, e punha lá o jornal que já lá o esperava quando ele se encaminhava para a mesa, dobrado ao alto a exibir a página dos classificados com a impressão ténue dos seus lábios com bâton no topo da página, e sempre um guardanapo de papel dobrado e espalmado num origami de fantasia a um canto da mesa. Estranhamente, quando a sua expetativa por uma reação aumentava, ele deixou de aparecer. Ela sentiu-se angustiada. Teria ido depressa demais? Ele podia ser incorrigivelmente tímido e ter-se recolhido na carapaça. Também podia ter acontecido alguma desgraça, e ela não tinha como saber. Passaram-se três, quatro, cinco dias, e ele sem aparecer. Ela foi-se abaixo, chorava pelos cantos ao mínimo pretexto, e desfazia-se em lágrimas no seu quarto dos fundos. Um dia, o patrão fora visitá-la ao quarto a meio da noite e surpreendeu-a em pranto e disse que não iria tolerar por muito tempo aquela choradeira. Deu-lhe uns dias de licença, para ela ir ver a família ou o campo para espairecer, para depois voltar e retomar o seu trabalho e os seus deveres como antes. Ela ripostou que isso não era suficiente e que se ia embora dali, ia morar para a casa de uma amiga e procuraria um novo trabalho, e a conversa entre os dois resolveu-se em gritos e insultos mútuos. Reuniu os seus parcos haveres e rumou à casa da colega de café, que a alojou e ajudou-a na busca de um outro emprego. A oportunidade surgiu apenas dois dias depois, para o balcão de uma perfumaria situada na mesma rua do café onde trabalhara. A perfumaria abria mais tarde do que o café, mas ela habituou-se a sair para a rua mais cedo do que era preciso, apenas para passar diante do café, e espreitar de relance a mesa de canto junto à janela, mas eram sempre outras pessoas, outros estranhos, que surpreendia sentados nela. Com poucos dias dessa rotina inusitada, a sua procura surtiu efeito. Encontrou-o junto à entrada da perfumaria, a fumar, ela sentiu-se eufórica e a um tempo assustada, e levada por movimentos quase involuntários, caminhou na direção dele e parou à sua frente. Olharam-se demoradamente num silêncio de devaneio. Ela notou a bata branca de padeiro sob o casaco de napa, e um traço de massa seca na face.
                - Agora trabalho de noite – disse-lhe ele, quando começava a duvidar de que ele a reconhecesse e que poderia estar a tomá-la por uma louca – encontrei este emprego depois de muitas semanas à procura. Na minha folga fui ao café para te ver, mas a tua amiga contou-me que já não trabalhavas lá.
                - Quase dei em maluca porque pensei que lhe tivesse acontecido alguma coisa! - ripostou ela, sem acreditar que fora capaz de dizer aquilo.
                Ele atirou fora o cigarro, puxou da carteira e tirou do porta-moedas um dos origamis que ela lhe havia deixado na mesa do café. Ela sentiu-se serenar, as dúvidas, o medo, a solidão, tudo se aquietou como uma onda que se estende no areal. Desprezando as palavras, que as palavras não eram para eles, ela tomou entre as suas, as mãos frias que expunham a figura de papel, e recolheu-se no seu peito entre os braços que se abriam.


Dicionário

                O “seu” dicionário não tinha muitas palavras, e entre estas, havia muitas quase virginais, intocadas, outras devassadas e puídas pelos seus olhos ansiosos.
                Apenas algumas:
                Ausência, ciúme, comida, desejo, desprezo, dor, horário, insónia, perda, resignação, rotina, saudade, sonho, sono, trabalho, trabalho [outra vez, mas não é lapso, as palavras mais usuais vinham repetidas duas e três vezes, outras havia de tão pequenas que quase não se conseguiam ler], vanidade, volúpia…
                Complicado se tornava acrescentar uma nova palavra. Um dia, achou que estava apaixonado por uma vizinha que caminhava diante de si e o deixava numa vertigem inebriante. Não era bem desejo ou volúpia porque havia outros sintomas associados, uma lufada fresca no peito e uma inquietação sonhadora que lhe fazia estremecer as pupilas. Tinha de ser paixão, mas para estar apaixonado, tinha de existir paixão no seu dicionário. Consultou o seu editor, mas aquele ancião muito atarefado com a sua infindável Biblioteca de Babel, perguntou-lhe se ele conseguia definir paixão, premissa incontornável para a criação de um novo étimo. Aquela questão ocupou-o durante dias, dias infinitamente cruéis porque todos os dias via a sua vizinha e os sintomas agravavam-se. Por fim levou-lhe a sua definição possível (que o ancião acabou por aceitar) e que apresentou assim: sentimento indefinível, que se fosse definido não seria paixão. Acrescentado a paixão ao seu dicionário, e ao procurar explorar os seus sinónimos, fez acrescentar ao verbete: (ver também: desprezo).

                Outras vezes, a palavra era acrescentada pelo próprio editor, por se ter imposto à sua vida. Melancolia foi uma dessas palavras, e não era apenas uma palavra isolada, inerte, era uma doença, um verme do papel que cavou túneis para baixo e para cima nas folhas mais próximas, a comer letras e acentuação de outras palavras. O pó e os pedacinhos de papel que o verme de melancolia espalhava sobre outras palavras, ocultava-as do seu olhar, aumentando a sua confusão e a sua melancolia. A palavra melancolia foi das últimas que o seu dicionário recebeu, mais precisamente, a última adição que ele teve em vida, porque a palavra morte foi acrescentada depois pelo editor, antes de selar e cintar o dicionário e o arquivar na biblioteca sem fim de galerias hexagonais.


A segunda Parca

                «Sê a minha bússola» pediu ela, enquanto ele, estremunhado, se tentava lembrar de como era o rosto dela, e ter presente a maciez das suas coxas ou o cheiro do seu sexo. Muita coisa reunida para se ter êxito numa reflexão em meio à penumbra numa cama de refúgio depois de uma noite regada com álcool, e comprimidos.
                - Só nos conhecemos esta noite, e acho que nem sei o teu nome – protestou, e logo se arrependeu da arrevesada súplica de intimidade e partilha que parecia existir naquela frase de improviso.
                - Não importa! Eu não podia pedir isso a alguém que eu amasse, um irmão ou um amante. Mas tu não és nada para mim, apenas um estranho que eu pedi emprestado para não acordar completamente sozinha, e isso simplifica as coisas. Apenas te peço que sejas a minha bússola, que me guies durante alguns dias através dos lugares do mundo que tu conheces e sentes como teus. Isso é importante para mim, porque pode acrescentar algo à minha vida seca e sem interesse.
                Ele emudeceu, refreou um forte impulso para fugir dali ou responder-lhe com escárnio. Mas por fim recolheu as suas defesas, os espinhos e barreiras, e suspirou na obscuridade, tentou racionalizar a experiência que estava a ter enquanto ela brincava com ele como uma gata brincaria com um novelo de lã, acariciando-lhe e prendendo os seus mamilos entre os dedos.
                - E isso vai levar muito …tempo…isso…da bússola? – titubeou, a sentir-se de novo excitado.
                Ela riu-se, vencera as suas hesitações.
                - Três manhãs, vens-me buscar e vamos de pé ou de carro aos lugares de que tu gostas. Vais guiar-me durante três dias.
                Ele concordou com um aceno, procurando alcançar os seios dela com as mãos abertas em taça, mas ainda replicou: um dia chegava, gosto de poucos lugares e de poucas pessoas!
                Na manhã seguinte, ele foi buscá-la de carro, tinha a ideia algo lasciva de subir ao apartamento dela, mas ela já o aguardava cá em baixo junto à entrada do prédio. Ao entrar no carro, beijaram-se de fugida, um pouco intimidados por uma intimidade que nenhum dos dois sentia como real. Ela tinha o cabelo ainda húmido, e toda ela cheirava a lavanda e madressilvas, também notara agora as sardas rosadas que pontilhavam as suas faces pálidas.
                - Aonde vamos?
                Ele não respondeu, como se não a tivesse ouvido. Ela abriu mais o vidro da janela, capturou um maço de tabaco que ele deixara largado entre os dois assentos da frente e acendeu um cigarro que cravou na ponta de uma boquilha da cor do marfim que tirou da carteira. Como ele parecia desaprovar o gesto, ela oferecia-lhe pequenos anelos de fumo que se desfaziam na sua face carrancuda. Saíram da cidade, e o carro rodou uma meia hora por estradas secundárias de alcatrão em mau estado, até o condutor o encostar na berma.
                Saíram ambos. Estavam diante da entrada de um portão. Divisava-se o acesso a uma mansão que se erguia entre as árvores da propriedade, e um poço com tampa de betão e alguns cepos de madeira a apodrecer numa pilha ao lado. Tudo tinha o aspeto de ruína e de degradação, o ferro forjado e enferrujado do portão, as árvores de folhas amarelecidas, o mato e as folhas mortas naquilo que fora antes o jardim da casa. Ela ia admirando o que via, a aguardar uma explicação.
                - A casa onde nasci e onde vivi até ser maior – adiantou – durante quinze ou vinte anos o meu mundo não tinha mais do que dois quilómetros quadrados, dentro dos quais está esta casa, a escola primária um pouco mais abaixo e a mercearia da aldeia onde íamos comprar géneros alimentares e outras coisas de que precisávamos. Também levávamos lá fruta do nosso pomar para vender, e figos, carnudos e enormes, das árvores da banda de baixo do terreno. Eu disse-te que um dia chegava para te mostrar tudo.
                - Quem é que vivia na casa? Quantos eram e para onde é que foram?
                Ele fez um esforço para continuar, contrariado.
                - Fomos oito irmãos nascidos, e nenhum deles além de mim chegou à idade adulta. Eram todos muito fracos, morriam de febres palustres ou até de constipações. Se espirravam muito ficavam quase em coma, pálidos como cadáveres. Além destes, e antes de todos nós, houve cinco mais que a minha mãe abortou por morrerem de fraqueza dentro dela. Ela tinha horror de os enterrar e atirava-os para dentro do poço. Nunca bebemos água daquele poço.
                - E os teus pais?
                - O meu pai ainda é vivo. Os miolos dele deram o nó com tanta tragédia e nunca mais deu conta de si. Disseram-me que ele vive nas ruas de Braga a pedir às portas, já lá fui á procura dele mas nunca o consegui encontrar, mas confesso que também não procurei muito porque eu queria tirá-lo das ruas para o enfiar num asilo para velhos, e não sei onde é que ele estaria melhor, porque os asilos são como covas onde enterramos os nossos até os trasladarem para a cova definitiva no cemitério. A minha mãe, essa viveu até eu fazer vinte anos, com uma saúde muito débil mas sempre aterrorizada pela possibilidade de eu morrer também de fraqueza, e quando lhe disseram que eu nessa idade continuava vivo e de saúde, deixou de resistir, e morreu.
                - E não te lembras de mais nada?
                - Nada de que valha a pena falar – cortou, enfastiado de falar de si mesmo.
                Ele fechara-se novamente e ela resignou-se. Para surpresa dele, ela disse-lhe para voltar sozinho de carro que ela ia caminhar um pouco por ali mesmo e depois procurava um transporte. Ele fez-lhe a vontade, aliviado por se livrar dela. Na manhã seguinte, ele experimentou passar pelo prédio, um pouco na dúvida se o acordo dos dois se mantinha, mas ela já lá se encontrava à espera. Deteve o carro, e ela entrou, e como na véspera sorveu tranquilamente o fumo do seu cigarro com boquilha como se ele não tivesse direito a uma palavra a respeito disso.
                Vendo-o tomar as mesmas estradas que na véspera, ela julgou que fossem voltar à casa de família, mas depois de um desvio ele estacionou o carro junto á antiga escola primária, no extremo de uma aldeia desolada onde não se via quase ninguém. Abandonaram o carro e ele sentou-se sobre a bagageira do carro com os pés assentes no para-choques. Ela olhou em redor e transpôs a cerca baixa da escola, andando ao acaso pelo recinto degradado. A escola era um edifício geminado, com uma sala de aulas para cada um dos sexos e uma seção mais baixa ao centro que unia as duas partes do edifício, janelas de vidros grandes – partidos e depois forrados por dentro as janelas com placas de contraplacado. A entrada fazia-se pela parte central, por uma porta grande com cercadura em xisto com forma ogival e um escudo de Portugal ao alto. Como ele permanecesse sem dizer nada, ela começou com as perguntas.
                - Brincavas muito aqui? Tinhas amigos?
                - Sim e não, o mesmo que qualquer criança naquelas idades, suponho eu. O ensino era muito rígido, demasiada disciplina, punham-nos de castigo quando revelávamos ignorância ou se nos ríamos um tom acima do que seria desejável e aconselhado. E se as infrações fossem mais graves eram convocados os pais para continuarem a reabilitação em casa com castigos, privações e sovas.
                - E tu aguentavas as sovas? Não eras fraco como os teus irmãos?
                - Não me lembro bem…sei que quando vim para aqui, uma vez o diretor pôs-me de castigo, ajoelhado durante uma hora virado para a parede, e dessa vez desmaiei e tiveram de chamar um médico. Mas também me lembro de mais tarde jogar e correr no recreio como qualquer criança normal.
                - E os teus amigos, eram todos como tu? gostavam de jogar e de brincar? Não havia daquelas crianças de que quase nunca se fala, com problemas físicos ou mentais?
                - Havia uma miúda muito gorda que trazia de casa puré de batata-doce numa caixa de lata e comia com as mãos, besuntando-se toda, parecia um animal, e também havia uma menina atrasada que vinha numa cadeira de rodas e era deixada no fundo da sala a babujar-se e a guinchar palavras que ninguém percebia.
                - Se ela não estudava, porque é que a levavam para a escola?
                - Suponho que os pais tinham de deixá-la em algum lugar, naquele tempo quase toda a gente trabalhava nos campos, de sol a sol, e eles deviam conhecer o diretor para a deixarem lá, talvez lhe dessem em paga produtos do campo, aves de criação ou ovos. Mas essa menina devia ser alguma coisa à minha família, talvez fôssemos parentes, porque me lembro dela passar uns tempos na nossa casa, vem-me à memória a figura dela no jardim com aquele sorriso pateta, e a baba a escorrer-lhe para o pescoço e da minha mãe estar por trás da cadeira de rodas a pentear-lhe os longos cabelos com uma escova. E a minha mãe sorria, um sorriso radioso e enternecido, como se a vida só lhe tivesse dado motivos para estar feliz e expor o lado bonito das coisas.
                - E depois da Primária não estudaste mais?
                - Para quê? Não preciso de estudos, estive a aprender numa oficina e hoje sou mecânico automóvel. Trabalho quando aparece trabalho ou quando preciso de dinheiro, e estou muito bem assim.
                Entraram de novo para o carro, e ele comunicou-lhe a decisão que andara a congeminar durante aquela viagem.
                - Amanhã não te vou buscar! Pensei que pudéssemos ter uma relação boa para ambos, mas isto ficou muito chato. Fazes-me falar e lembrar do passado, e isso incomoda-me e é a última coisa de que eu preciso.
                - E se fizermos uma pequena variação a esse nosso arranjo? Hoje levas-me a um lugar aqui muito perto a que eu já não vou há algum tempo, e amanhã de manhã, para te compensar por todo o aborrecimento que tens sentido, em vez de sairmos vais ter ao meu apartamento, e lá havemos de improvisar alguma coisa que seja do agrado dos dois.
                A expressão dele iluminara-se, e rodou a chave na ignição.
                - A mim parece-me uma ideia ótima! Onde é que fica esse sítio onde queres ir?
                Ele pôs o carro em marcha enquanto ela lhe ia dando indicações, acompanhando-as com gestos agitados das mãos pálidas, e por fim mandou-o parar o carro. Outra casa degradada, e curiosamente, não muito distante da casa onde ele nascera e fora criado. Ela saiu com movimentos pausados, sendo seguido por ele que interrogava mudamente o seu silêncio. A casa quase não se via da estrada, erguida na encosta que declinava da estrada de alcatrão, soerguendo na linha de visão apenas a parte superior das paredes e os telhados abaulados a ameaçar ruína. Mas ela não se aproximou muito da casa, detendo-se a meio caminho, na sombra de um castanheiro vivaz. Quando ela se ajoelhou na sombra, é que ele se apercebeu que no meio das ervas se encontrava a lápide de uma campa. Apenas uma lápide, e a silhueta retangular do féretro sepulto recordado por lajes de granito colocadas de perfil. Ela passou as mãos pelos dizeres da lápide numa tentativa vã de a limpar do musgo seco que os velava e depois de longos momentos de recolhido pranto, regressou com ele ao carro, e não pronunciou mais palavra alguma até regressarem a casa. Quando o carro se deteve diante do prédio, ela avisou-o numa voz tranquila:
                - Amanhã, antes de vires, faz-me o favor de tomares banho, já não deves tomar banho há semanas e pareces um porco, aliás, o teu carro está como tu, imundo como um chiqueiro. Não tens vergonha de ser assim?
                E sem esperar pela resposta, saiu do carro. No outro dia, ele hesitou de novo quando deteve o carro defronte do mesmo prédio. Uma espécie de instinto como um aperto no peito dizia-lhe que o mais prudente a fazer era voltar à sua vida e deixar para trás aquela mulher meio desequilibrada que o desconcertava com o inesperado das suas palavras e atos. Mas acabou por abandonar a viatura e subir para o apartamento dela com algum medo e muita insegurança, aproximando-se do seu destino inexorável com cada falso passo que dava nas escadas. Ela abriu-lhe a porta mas escondeu-se dele com a porta de permeio.
                - Fecha os olhos e não te mexas – ordenou-lhe.
                Ele assim fez e ela colocou-lhe uma venda de veludo sobre os olhos, e em seguida, com gestos acariciantes, despiu-o da cintura para cima, fazendo roçar por ele o seu corpo inteiramente nu. Pegou-lhe pela mão e conduziu-o pelo apartamento, fazendo-o sentar-se numa cadeira onde o atou, ligando primeiro os pulsos e os pés pelos tornozelos com cordas de náilon, e depois com laços fortes prendeu o seu peito e braços às costas da cadeira e as pernas às pernas dianteiras da cadeira. Ele aguardou, expetante e excitado, pelo próximo passo, e o próximo passo dela foi aproximar-se do seu rosto, sentiu o toque delicado e macio de um mamilo na sua face, mas deu-se conta de que ela apenas lhe desatava a venda, e a atava de novo sobre a boca como uma mordaça apertada. Ele emitiu um protesto abafado, mas ela saiu do seu campo de visão, e enquanto ele se interrogava sobre o que ela tinha ido buscar, talvez uma chibata ou correias de couro, ela reapareceu de novo com um robe vestido sobre o seu corpo nu e empunhando um corta-papéis com o feitio de um sabre, ele arregalou os olhos de pavor e sacudiu-se na cadeira, mas era impossível soltar-se sozinho daqueles nós.
                Como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo, ela aproximou-se dele por trás, encostou a lâmina ao seu peito e fê-la correr ao de leve sobre a pele, abrindo-a num corte pouco profundo que ficou a gotejar sangue. Ele gritou como podia, sabendo que ninguém o ouvia, e ela tranquilizou-o.
                - Acalma-te, porque quero só conversar contigo.
                Puxou de uma cadeira e sentou-se à sua frente, a olhar pensativa para o sangue do sabre.
                - Como não te apetece falar, acena com a cabeça se eu te perguntar alguma coisa. De acordo? – Ele acenou afirmativamente, e ela prosseguiu – há vinte anos atrás tu eras uma criança débil como o fruto seco de uma árvore raquítica e sem seiva, o último sobrevivente de uma geração condenada, os teus pais andavam angustiados com a possibilidade de te perder, e então entrou em cena o médico da aldeia, um homem mesquinho e ganancioso a quem os teus pais recompensavam generosamente pelos seus cuidados e pelos seus conselhos. Esse homem, um criminoso, disse-lhes que a menina atrasada da escola tinha o mesmo tipo de sangue do que tu e que bastaria uma transfusão de sangue para garantir que tu sobrevivias. Essa criança atrasada era minha irmã, e viste ontem a sepultura dela sob o castanheiro. Com dinheiro ou com promessas de que a iriam criar e fazer-lhe também os bens, os teus pais convenceram os meus a fazer a transfusão de sangue. O médico mexeu os cordelinhos e fez-se a transfusão num hospital pequeno e as coisas correram mal, tiraram sangue a mais à minha irmã ou algo foi mal feito porque ela morreu de imediato, uma criança, percebes? uma criança que precisava de cuidados e de dedicação, que tinha problemas mas que era uma criatura doce que chorava de alegria quando lhe fazíamos festas nos cabelos ou lhe enchíamos a cara de beijos. Mataram-na para tu estares aqui, um traste de gente e um monte de lixo. Os teus pais devem ter-se sentido felizes com a transfusão, mas o remorso bateu forte no teu pai que era o mais sensível dos dois, começou a ir a minha casa, meio tresloucado, para rezar e pedir perdão diante da campa da minha irmã, a ponto do meu pai ter de o expulsar de lá de cada vez que ele aparecia, e ele nunca mais foi o mesmo, nem nós.
                Ela levantou-se e encostou a lâmina ao seu plexo solar, ele arfava de aflição e começara a chorar.
                - Eu devia cravar-te esta lâmina e sangrar-te como a um porco, retirar-te o sangue que foi roubado e não te pertence. Vou-te dar alguns minutos para pensares se é isso que desejas para ti, enquanto me visto para sair.
                Ela deixou-o sozinho na sala, e ele voltou a debater-se na cadeira a tentar libertar-se, e com tanta energia que a cadeira tombou para o lado sem que a sua situação melhorasse porque continuava preso a ela. Ela regressou e endireitou a cadeira do prisioneiro. Vestira-se e calçara-se, com uma mala de viagem aos pés.
                - Vou tirar-te a mordaça, e se gritares ou tentares gritar, ninguém te salvará de teres o pescoço cortado. Compreendes?
                Ele anuiu e ela desatou-lhe a mordaça.
                - O que me move é o desejo de justiça, esse é o meu norte, a flor-de-lis da minha bússola, e a justiça é sempre um equilíbrio entre os atos e os seus reflexos, entre o crime e a punição. Racionalmente, compreendo que não foste tu quem matou a minha irmã, mas também percebo que a morte da minha irmã possibilitou estares aqui e seres quem és. Vou fazer-te um repto, uma proposta de vida ou de morte que vai condicionar a duração da tua vida – eu vou soltar-te com a condição de fazeres alguma coisa por ti, de tentares ser uma pessoa melhor de alguma forma que esteja ao teu alcance, estuda ou aprende um outro ofício, ajuda os outros ou salva os animaizinhos abandonados, não me interessa. Vou-te dar dois anos para seres uma pessoa diferente, melhor, que não converta o sacrifício da minha irmã num absoluto desperdício. Ao fim desse tempo, decidirei se conservas o sangue da minha irmã ou se deves ser castigado. Temos acordo?
                - Sim! – respondeu ele num tom desesperado.

                Ela usou o pequeno sabre e libertou-o das cordas. Ele curvou-se sobre si mesmo a esfregar os pulsos, imóvel na raiz de dois rumos distintos, e ela abandonou o apartamento, saindo por uns tempos da vida dele como um juiz que entrasse em férias.

O poço

Detalhe do mapa da fortaleza de Alcoutim
(inLivro das fortalezas situadas no extremo de Portugal e Castela por Duarte de Armas, escudeiro da casa do rei D. Manuel I,
cota DGA/ANTT, Códices e documentos de proveniência desconhecida, n.º 159, fl.3


«Assevera o Doutor Correia das Neves na sua Monografia de Reguengo do Mondego, que a bela e jovem fidalga se apaixonou por esse homem horripilante que a brutalizava, e que acossados no seu amor maldito, os dois amantes sacrificaram a vida, atirando-se de olhos fechados para dentro de um poço».
(Armindo Garçães, “Elêusia”, jornal Correio do Mondego,
Ano II, nº 37, 4 de Setembro de 1921)

                O nome de Elêusia, hoje, dirá pouco aos habitantes da aldeia de Mugartes, concelho de Reguengo do Mondego, recordarão ainda a sua história trágica algumas pessoas de mais idade que em pequeno a ouviram contar da boca dos avoengos, ou então aqueles que porventura a leram na sua forma embelezada em pasquins e jornais regionais da primeira metade do século XX. Elêusia foi uma jovem nascida na dita aldeia em finais do século XVIII que o pai, um fidalgo semiarruinado com uma verdadeira devoção pelos mitos e cultura dos antigos gregos, encaminhou para a casa de familiares em Coimbra para estudar e aprender com reconhecidos mestres. Completados os vinte anos, e com a morte do pai, Elêusia regressou a Mugartes. Havia muita coisa para fazer, deslindar a situação confusa dos bens do pai, e tratar de vender ou recuperar a Quinta que se contava ainda entre as suas parcas propriedades, e cuja vedação altaneira se estendia por quilómetros quando se saía de Mugartes em direção a Montemor-o-Velho. Quando regressou à Quinta, só encontrou nela uma mão-cheia de trabalhadores que cuidavam dos animais e viviam no casario da Quinta, os outros o pai costumava contratar à jorna quando necessitava de mais braços para os trabalhos agrícolas. A proprietária providenciou e alienação de outros bens esparsos, mesmo as joias da família, para concentrar os réditos na manutenção e prosperidade daquela herdade. Entre os que viviam na Quinta em permanência, contava-se um homem que tinha a reputação de ser gafo, e que ninguém queria a viver em casa de gente, pelo que dormia numa cabana feita com ramos e colmo junto aos estábulos e que ele próprio erguera com as suas mãos. Fora em tempos mendigo, pedindo pelas estradas e no adro da igreja com as suas roupas largas e o capuz em que mantinha sempre oculta a cabeça, até ao dia em que o pai de Elêusia o acolheu e lhe deu guarida e trabalho. O suposto leproso foi o primeiro assunto que os moradores da Quinta discutiram com Elêusia quando ela ali chegou porque ninguém queria que ele continuasse a viver ali, o patrão velho protegera-o, era verdade, mas o patrão velho falecera e já estava nos céus com todos os anjos e santos, pelo que competia à sua filha sanar esse erro e expulsar das suas terras aquela abominação de gente. Elêusia quis compreender porque é que o queriam fora dali – Não trabalhava e não cumpria com o que lhe era ordenado? Todos reconheceram que não era por isso, era um bom trabalhador, e não ficava atrás dos outros, tanto que nem parecia gafo, mas era como um animal em figura de gente, e não podia viver ali. A Elêusia, pareceu-lhe injusto expulsar um trabalhador sem sequer saber o que ele sentia ou pensava sobre o assunto. Procurou-o na sua cabana, mas ela estava vazia, pelo que desceu ociosamente o caminho entre as ervas até ao arroio que corria a nascente da Quinta perseguindo o rumorejar das águas do ribeiro e foi nas suas margens que avistou o seu empregado, estava despido da cintura para cima, e lavava-se de joelhos na água da concavidade de uma rocha. Elêusia sentiu um choque profundo. Aquele homem não era nenhum leproso mas também não tinha a pele como a de um homem comum, a epiderme parecia esticada e espessa, e da base do pescoço aos ombros exibia o que pareciam ser escamas largas de desenho ogival. Quando ele deu pela sua presença ficou estarrecido e apressou-se a vestir o gibão de capuz sobre a pele encharcada. Mantinha o rosto baixo, mas Elêusia poderia jurar que conseguia distinguir os seus olhos a refulgir na penumbra do capuz. O seu rosto também era diferente de tudo o que conhecia, de formato triangular com a testa larga e olhos encovados, o nariz era estreito e a boca apenas um traço acima do queixo afilado.                
                 Aos poucos o medo da jovem foi diminuindo, talvez mais depressa do que a do homem surpreendido. Ela sentou-se numa rocha a alguns metros dele, enquanto ele se mantinha imóvel, em pé, com o gibão manchado de água. Agora já não lhe via os olhos, ele olhava para baixo, para os seixos da margem do ribeiro, não sabia ela que o fazia por se sentir intimidado pela sua beleza, pela tez muito branca de olhos escuros e pelos cabelos ruivos que pareciam incendiados pela luz do sol.
                - Como é que te chamas?
                - O seu pai disse para eu me chamar Pedro, mas ele gostava de me chamar Tritão.
                A jovem riu-se, mas depois sentiu-se constrangida com receio de que ele se sentisse melindrado. A voz dele era um pouco cava e sibilava no final das frases, mas tranquilizou-a saber que ele falava e que podia comunicar com ele.
                - Foste batizado, Pedro?
                Ele encolheu os ombros.
                - Não me lembro, também não sei em que terra nasci ou a quem devo a minha geração. Não tenho casa mas o seu pai disse que eu podia viver na Quinta enquanto quisesse.
                Ela assentiu, tivera as respostas para as perguntas que lhe desejava fazer, e no seu íntimo afastou de imediato a possibilidade de o expulsar das suas terras. E estranhamente, desejou conhecer melhor aquele homem singular.
                - Costumas vir muito até ao rio, Pedro?
                - Sempre que não estou a trabalhar! – confessou – as árvores e a água não me odeiam e não me desejam ver morto.
                - Voltarei então aqui! – comunicou-lhe. E afastou-se, subindo a ladeira de regresso às casas a preencher o olhar dele com o brilho ígneo dos seus cabelos e os seus passos desenvoltos de criatura dócil dos bosques.
                A partir daí Elêusia voltou ao rio sempre que podia. Andava um pouco ao acaso para iludir os olhares perscrutadores dos que a rodeavam antes de tomar a direção do rio, e reunia-se a Pedro, e conversavam sentados na sua margem pedregosa. Pela sua educação, e porque via Pedro como um órfão largado no mundo sem educação nem catecismo, Elêusia adquiriu o costume de levar um livro consigo, e lia-lhe passagens de Ronsard ou Balzac e, porque se sentia compelida a isso, algum trecho casual dos Evangelhos ou dos Antigo Testamento. Pedro ouvia atentamente, e fazia-lhe perguntas sobre alguma palavra mais escusa ou sobre os quadros que ela esboçava com as suas leituras. Mas mostrava-se sempre agradado com as leituras e as explicações que ela lhe concedia, ainda que fosse evidente que a ideia de Deus era completamente estranha ao seu espírito, pelo que ela se coibiu de desenvolver questões de natureza espiritual ou teológica. Os laços entre os dois desenvolveram-se durante semanas e para ambos era cada vez mais necessário estarem juntos, e embalados pelo murmúrio das águas ou pela frescura do final do dia depois da canícula do Estio, a sua cumplicidade enriqueceu-se de ternura e desejo, e tornaram-se amantes sob o enleio da Hespéride do entardecer.
                O seu amor de segredos e mistérios urdiu-se com todos os cuidados na cumplicidade do ocaso e da noite, e no refúgio das margens do rio ou no quarto da jovem, que Pedro alcançava furtivamente depois de escalar a parede da casa grande como um ladrão. Mas as suspeitas não tardaram em nascer à volta deles, suscitadas pelas frequentes deambulações de Elêusia e por a verem a conversar com Pedro, criatura estranhíssima que não falava com mais ninguém. As suspeitas eram de natureza visceral nos Oliveiras, os caseiros da Quinta, Rosa, a mulher, que era a um tempo criada e cozinheira da patroa, tinha um ódio profundo por aquele gafo asqueroso, e já rogara ao pároco que o denunciasse por heresia ao Santo Ofício, a ver se o prendiam e queimavam de uma vez, que para ela aquele homem era o diabo em figura de gente, e não havia quem se lembrasse de o ter visto alguma vez a entrar numa igreja ou a persignar-se diante dos símbolos sagrados da Santa Madre Igreja. Rosa tomou sobre si uma empresa que a seu modo considerava abençoada e salvífica, transmitindo à jovem patroa conselhos avisados sobre a maldade dos homens e os meios que o Maligno usava para perdermos a alma e, não satisfeita com isso, protegia a casa onde viviam, ocultando no interior e junto às portas e janelas por onde se podia entrar nela, variegados talismãs de inspiração mais ou menos cristã; no átrio da entrada, qualquer morador ou visitante podia admirar aí um vaso solitário com flores, sem suspeitarem que eram flores benzidas pelo pároco a pedido de Rosa.
                Tendo em conta os rodeios e insinuações de Rosa, Elêusia redobrou de cuidados, os seus encontros com Pedro tornaram-se mais espaçados, e multiplicou-se as suas precauções para não serem vistos juntos, ele deixou de ir à casa grande e ela impôs-se fazer um longo périplo de cada vez que o queria encontrar nas margens do rio ou no seu modesto tugúrio. Havia dois caminhos sensatos, o que levava à estrada concelhia, fazendo-a sair dos terrenos da Quinta para regressar a eles um pouco mais abaixo, por um portão de cancela em madeira por onde as reses eram conduzidos aos baldios com pasto e pelo qual chegava facilmente à cabana dele que se erguia num extremo do casario da Quinta, e um outro caminho que se iniciava nas traseiras da casa grande e no sentido oposto ao primeiro, que serpenteava entre celeiros e cabanas antes de descer para as margens do rio por uma enxara apenas povoada por mato e salgueiros. Na noite em que tudo aconteceu, foi o primeiro desses caminhos que ela tomou na luz mortiça do entardecer, saindo pelos portões da Quinta com passos temerosos, a colar-se aos muros para não ser vista, e quando começava a sentir-se mais tranquila e confiante com cada passo que a aproximava mais de Pedro, o seu íntimo gelou-se de terror quando sentiu que alguém a agarrava pelo braço, olhou sobre o ombro e viu apenas a silhueta de um homem junto a si, que a envolvia com os seus braços para a tentar prender e subjugar, procurou libertar-se, mas o desconhecido redobrou a sua força, forcejava para a deitar ao solo, e enquanto ela gritava e se debatia, ele atingiu-a uma e outra vez para a dominar e calar, golpeando-a na cara, no ventre, nas pernas. Mas Elêusia não desistiu e a sacudir-se e a tentar atingi-lo também no desespero aflitivo que a tomara, conseguiu por fim libertar-se daquele estranho, levantou-se do chão e correu até ao portão mais pequeno, que cruzou, tomando o caminho da casa grande, a coxear e a gemer com as dores que sentia, mas sempre a olhar para o negrume da noite atrás de si, com medo que o homem que a atacara continuasse a persegui-la.
                Quando Rosa lhe abriu a porta, ficou estarrecida com a aparência de Elêusia, com as roupas rasgadas, e equimoses e sangue na cara e nos ombros. Gritou para o marido para que fosse buscar o médico, acomodou-a com gestos enérgicos, e começou a limpar e a tratar dos ferimentos. Não parece ter nada partido, repetia-lhe a mulher, cuidando dela sob o olhar perplexo e os trejeitos de dor na expressão de Elêusia. A notícia correu célere, e em poucos minutos aglomerou-se à porta da casa uma pequena multidão de trabalhadores da Quinta e moradores das vizinhanças. Quem foi? Perguntava-lhe Rosa, mas Elêusia não tinha respostas, tudo se passara na estrada, estava escuro, e não pudera perceber quem era. As respostas, criaram-nas no seio da multidão que aguardava lá fora, só podia ter sido aquela criatura a quem chamavam Pedro, um bicho e um diabo em figura de gente. Quando o médico finalmente chegou para a ver, já a multidão clamava por sangue, reuniram-se armas de todo o tipo, tudo o que pudesse ferir, rasgar e matar, machados e chuços, forquilhas e gadanhas - aquele monstro não tinha como levar a melhor. Quando Rosa explicou a Elêusia a causa de tantos gritos, já aqueles servos de Némesis tinham vasculhado a cabana de Pedro sem o encontrar, e discutiam como o deviam procurar ou em que lugares é que ele poderia estar acoitado. Elêusia levantou-se a custo sob os protestos do médico e de Rosa, e sem que a conseguissem deter, acabou de se vestir e calçar, muniu-se de um candeeiro de querosene e saiu pela porta das traseiras. Sentia que ele deveria ter ido para as margens do rio quando se havia dado conta do alvoroço, e talvez se demorasse lá um pouco à espera dela antes de arrepiar caminho e tentar fugir para longe dali. Com o candeeiro seguro na mão esquerda e a coxear com dores, Elêusia venceu a distância até à margem do rio, auxiliada pela poalha prateada do luar que avivava as formas e os detalhes. Encontrou Pedro na rocha onde o vira pela primeira vez, com a sua figura quase invisível no negrume da sombra das árvores. Abraçaram-se num quase desespero, as lágrimas corriam pelo rosto de Elêusia, e ciciaram argumentos, e réplicas. Apesar da insistência de Pedro, Elêusia foi inflexível, não voltaria para a segurança da casa porque queria permanecer ao seu lado. O latido de cães e o rumor de vozes e gritos indicou-lhes que vinham no encalço de Pedro, Rosa devia ter-lhe contado que ela fora ao seu encontro. Cruzaram o riacho, e subiram a encosta na margem oposta, um prado quase sem árvores. Olhando de cima, notaram que o grupo de perseguidores estava cada vez mais próximo, e que se alargara num cordão de gente onde pontilhava a luz dos candeeiros. Os dois avançaram a custo devido ao estado de Elêusia, e ao terreno bravio e sem caminhos abertos por onde pudessem prosseguir mais depressa, e Elêusia estava esgotada e dorida, e insistiu até não conseguir andar mais. Pedro disse-lhe que iria tentar alcançar o poço, asseverando que isso era importante, e ergueu-a nos seus braços e avançou com determinação. Com o som dos gritos e dos latidos cada vez mais próximo, avistaram o poço no cimo do monte, que lhes parecera de início apenas um murete de calcário. Num esforço desmesurado, Pedro alcançou-o o mais depressa que conseguiu, e sentou-a junto ao poço.
                - Foi aqui que tudo começou – disse-lhe Pedro, e ante o seu silêncio perplexo, explicou – quando se mergulha na água do poço atingimos uma correnteza que nos empurra com força. Sabes nadar?
                Ela aquiesceu.
                - Estive a pensar nisso, e acho que quando estivermos dentro da correnteza, temos de nadar contra ela, fazer o caminho inverso. Percebes? É a nossa única chance. Eu ajudo-te! – prometeu.
                Ajudou-a a subir para o topo do murete, e colocou-se ao lado dela, as mãos unidas e o medo e a esperança a disputar os seus íntimos. Foram avistados pelos primeiros perseguidores que se acercavam do poço com os seus cães furiosos, os candeeiros e os archotes, e quando os gritos recrudesciam de intensidade e pareciam quase a alcançá-los, os dois saltaram para o centro da boca circular do poço. Um mergulho vertiginoso, o baque violento na água e viram-se envolvidos pela correnteza que Pedro mencionara - naquela confusão de espuma e água revolta, Elêusia começou a nadar contra a corrente ao longo da caverna escura, auxiliado por Pedro que com um braço rodeava a sua cintura. Longos minutos de luta e desespero com os pulmões como se fossem implodir, e começaram a subir aos primeiros indícios de luz sobre as suas cabeças. Emergiram por fim à tona da água, e inspiraram o ar com sofreguidão a tossir e a cuspir água. Estavam dentro de um poço, ficaram silentes durante alguns momentos, em angústia, mas não ouviram vozes, nem o latido dos cães. Não era o mesmo poço em que haviam mergulhado, e a boca do poço estava próxima, delineada pelo fundo de céu noturno esbranquiçado por Selene.
                Elêusia segurou-se à parede do poço, com os dedos enclavinhados nas reentrâncias das pedras, e Pedro subiu primeiro, avançando os pés e as mãos como um crustáceo, e depois de alcançar a superfície, fez-lhe chegar a ponta de uma corda que achara aí, içando-a para o mundo sublunar. Sentaram-se no solo, encostados à parede do poço, e Elêusia susteve a custo o seu pranto, mas este um pranto de alegria, por estarem vivos e continuarem juntos. Aninharam-se um no outro, minimizando como podiam o frio da noite e das roupas encharcadas. Pedro disse-lhe com uma voz esperançosa que esperariam ali pela manhã para verem em que lugar é que se encontravam, e Elêusia confessou que desconhecia por completo aquele poço, e o lugar, parecia-lhe ouvir o rumor de água ou de coisas a agitarem-se na água, e ouviam-se gorjeios e guinchos de pássaros que não recordava dos terrenos da Quinta. Malgrado o frio e as dores, foi o extremo cansaço dos dois que se sobrepujou a eles, e dormiram profundamente pelo resto da noite, acordando apenas quando o sol ia já bem alto nos céus e o ar estava carregado de sons e cantos.
                Elêusia, sobretudo ela, ficou espantada. O poço abria-se no topo de um monte como aquele em que haviam mergulhado, mas no mais era tudo distinto. No sopé do monte, estendia-se um vale a perder de vista, quase todo ocupado por um rendilhado de dezenas de lagos de dimensões diversas e águas opalinas, entre os quais se erguiam pequenos grupos de casas de aspeto estranho, pareciam feitas de quartzo ou turmalina, e semelhavam-se quer ao quartzo com as suas formas poliédricas e lados facetados, quer a estruturas globulares de cores baças como se tivessem fundido esferas gigantes umas nas outras pulverizando uma parte da sua superfície curva. Alguns desses grupos de casas situavam-se dentro dos próprios lagos, mas Elêusia não divisava pontes nem caminhos enxutos por onde os seus habitantes pudessem alcançar as margens. Os habitantes… Elêusis conseguia vê-los, as suas figuras diminuídas pela distância, movendo-se de um lado para o outro nos campos de cultivo e nos pomares, ou caminhando aos grupos pelos montes como se fosse dia santo e todos tivessem saído para ir dar um passeio. Pedro ajudou-a a levantar-se e começaram a descer o monte. Havia aves por todo o lado, garças ou íbis ou algo de semelhante, mas de cores intensas, vivas, como algumas aves exóticas dos trópicos.
                A presença dos dois não passou despercebida, e aos poucos, os que estavam mais próximos deles, vieram ao seu encontro. Elêusia imobilizou-se, sentia-se perplexa. Os homens e mulheres que se acercavam eram idênticos a Pedro, de epiderme quase lisa e com um tom acinzentado, escamas nos ombros e nuca, e membros longos e delicados. Elêusia achou as mulheres particularmente belas, de olhos grandes e rasgados e longos cabelos negros de tom azulado que caíam lisos como algas marinhas sobre os seios cheios e de formas perfeitas. Uma delas adiantou-se um pouco mais e timidamente tocou-lhe ao de leve com os dedos afilados nas maçãs do rosto, sorrindo em seguida, divertida pelo toque. Elêusia refletiu que talvez ela lhes parecesse tão feia ou hedionda como Pedro pareceria aos humanos se tivesse tido a coragem de se expor à luz do Sol. Mas não sentiu neles qualquer tipo de medo ou repugnância.
                Uma das mulheres indicou-lhes uma rocha para eles se sentarem, enquanto outra chegava com frutos rubros e azuis dispostos sobre uma espadana de folha de bananeira.

                - Estamos em casa! – murmurou-lhe Pedro ao ouvido para a tranquilizar, pondo em palavras aquilo que ela já sentia, na verdade, nunca antes ela se sentira tão em casa como naquele momento.



Geena

                No rincão das matas enegrecidas, onde as árvores carbonizadas se assemelhavam a costelas fraturadas do corpo de uma ...