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fractural

    Na volta da estrada de alcatrão, quando esta desce e descreve uma curva apertada que parece marcar a fronteira entre um mundo quase suburbano de casas velhas com moradores de expressão e olhar pálido e o mundo resolutamente natural de brenhas, arvoredo e fragas da terra que esquece a cidade, o cimento e as pessoas amassadas nele, nessa curva e nessa volta da estrada havia apenas uma casa abeirada dela onde vivia uma velha mulher que cultivava tulipas no jardim e ervas aromáticas em vasinhos dependurados das janelas. A mulher de cabelos brancos que se adivinhavam longos mas apanhados no alto da cabeça por um alegre lenço colorido com cornucópias e margaridas estampadas cuidava do seu jardim e das suas ervas ou cuidava da sua casa, mantendo-a irrepreensível para a visita dos filhos e dos netos, que haviam rareado cada vez mais até quase não ocorrerem, mas isso não tirara o seu esmero e a sua dedicação à casa onde vivia. Uma ou duas vezes por semana passava por ali o carteiro, não era apenas uma viatura que passava, como os carros, os camiões e as motas, era uma pessoa numa motorizada roufenha cujo motor fazia um barulho enorme e que deixava no ar um odor malcheiroso a combustível de mistura. Mas a velha senhora não se importava porque se alegrava quando o via passar, porque ele, um homem bonacheirão de roupas gastas e capacete desusado com viseira de óculos castanhos, cumprimentava-a sempre com um alegre aceno, embora nunca tivesse de parar ao pé da sua caixa de correio, porque ninguém lhe escrevia. Um dado dia, ou numa dada semana, a velha senhora notou que o carteiro não passara por ali, nem nessa semana, nem nas semanas seguintes ou meses. Deixara de passar, e ninguém sequer tomara o seu lugar a distribuir o correio e a velha senhora sentiu uma ponta de tristeza, uma suave mácula, como a primeira fímbria de castanho outonal na folha de um plátano. A senhora não tinha a quem perguntar pelo carteiro, nem sabia como, pelo que continuou a cuidar da sua casa e do seu jardim e a olhar interrogativamente os pardais que devoravam as migalhas que lhes deixava no empedrado do jardim. «Que esteja bem, é só o que peço!» - murmurava para si mesma quando os pardais alçavam voo, ou quando pensava no carteiro na hora teimosa em que o sono tardava à noite quando se recolhia aos seus perfumados lençóis de linho. Se ainda a visitassem os filhos, cada vez mais distantes, e talvez reconhecessem nas palavras com que desenharia o retrato do carteiro, o homem bonacheirão e bondoso que um dia distribuíra correio e que com a velha senhora os trouxera à existência.

saudade



Imagem do filme Le Voyage dans la Lune, de George Méliès (1902)