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arenga sobre o amor

«Tu és a mulher amada: destrói-me! Tua beleza /Corrói minha carne como um ácido! Teu signo / É o da destruição! Nada resta / Depois de ti senão ruínas! Tu és o sentimento / De todo o meu inútil, a causa / De minha intolerável permanência! Tu és / Uma contrafação da aurora!»(In «O Amor dos Homens» de Vinucius de Moraes)


Ao papel me confesso: amo! Ao ecrã de luz repito: amo! Um amor sofrido, estropiado, desprezado, marchetado com pérolas de lágrimas e botões da cor do sangue, difícil como só o verdadeiro e definitivo amor consegue ser. O amor que sinto palpita-me e doí-me no peito como uma ave desasada aprisionada no meio das costelas. O amor que sinto mergulha-me em noites de insónia sacudida por gritos de desespero e pranto irreprimível, o amor que me toma torna-me o mais solitário dos homens na mais miserável das existências. Uma evidência me assalta, tímida e constrangida: se este amor sobrepuja esta vida que nada é, o amor que me norteia os dias brilhará ainda no horizonte como o planeta Vénus quando as últimas réstias de vida se evolarem das minha narinas.



a ficção

A ficção fora o passo que tivera de dar para se explicar de modo mais seguro, antes bastava-lhe dizer - atrasei-me porque estive preso num engarrafamento estúpido nos semáforos da avenida - mas dizer isso agora parecia a ele próprio implausível e insuficiente, ninguém iria acreditar numa coisa em que ele próprio não depositava muita confiança e por isso tinha de acrescentar, desenvolver, adornar, complexificar, não eram semáforos, era uma passadeira onde uma mulher com um bebé de colo o mandara parar para lhe perguntar se achava o filho parecido com ela porque desconfiava que o haviam trocado na maternidade, ou um vendedor de castanhas que fizera parar o trânsito porque uma cartucho de castanhas quentes lhe caíra das mãos e as ditas haviam rolado pelo asfalto e poderiam furar como tições coruscantes a borracha dos pneus dos carros, era um bando de pássaros castanhos pintalgados de azul que fizera os automobilistas pararem as viaturas para saciarem as suas pupilas sedentas de cor ou uma troupe de ballet que atravessara a rua a saltitar e a rodopiar sobre as aceradas pontas dos pés. A ficção fora-se acentuando à medida que percebeu que ela mudara a vida das outras pessoas, a maneira como o olhavam, a expressão dos rostos e a brandura das palavras, e a ficção cresceu e ganhou vida própria e apossou-se dele, que um dia nascia homem de família cônscio da sua história pessoal e das memórias da infância e juventude, outro uma mulher sensual e felina ou ainda uma criança com medo a perscrutar a atmosfera do quarto à procura dos monstros dos seus pesadelos noturnos. Ele, o narrador e protagonista das suas próprias histórias, era a primeira manifestação da realidade imaginada, enérgico no ritmo musculado do seu corpo luzidio de alazão a martelar o alcatrão das avenidas com os seus cascos, ou temeroso no cuidado em que punha ao caminhar entre as pessoas a tentar não as esmagar ou aleijar com o seu corpo disforme de gigante desastrado.

Carne e pedra


«O amor não é feito de palavras / o amor é uma oferenda» (Virgílio)


     A madrugada nasceu tensa e prenhe de perigos e ameaças. Pela noite a coroa de chamas do Vesúvio produzira um espectral halo de luz que convencera os últimos cépticos que era imperioso partir de Pompeia antes que o vulcão a sepultasse. Enquanto o sol subia no horizonte, explosões violentas abalaram a terra e os ares enquanto pedaços gigantes de rocha foram expelidos da cratera, caindo a grande distância, já próximo da cidade. No tumulto de gente que arrebanhava bens e filhos para sair da cidade, Icário procurou Helena, num último e derradeiro esforço para a convencer a partir com os outros. Encontrou-a no jardim do santuário, serena como uma estátua, o semblante iluminado pelos reflexos de luz no tanque da deusa. Ela sentiu a sua presença ao seu lado, a sua figura de ombros largos e estendidos, e a sua mão grande de dedos alongados pousada no seu ombro nu num misto de afago e muda súplica. Ela continuou a fixar os olhos na imagem de Reia, Reia mãe e dadora de vida esculpida na própria rocha do lugar, de amplos e túmidos seios e um sexo esculpido com minúcia de onde corria a água da fonte. O que impressionava os neófitos e adoradores era que, dos braços de Reia, apontados ao chão de ambos os lados da sua cintura, brotavam raízes que mergulhavam no solo, não raízes talhadas na pedra como toda a figura, mas raízes autênticas, enervadas de saliências e protuberâncias, vigorosas de seiva e de vida. Helena recolheu um pouco de água do tanque com as mãos em concha e derramou-a sobre os pés da deusa, humilde e devota. O seu gesto demonstrou a Icário que todos os argumentos seriam excessivos, da mesma forma que não lhe passou pela cabeça subir ao telhado ou fugir dali pela estrada empedrada cheia de gente em desespero. Os pedaços de rocha começaram a cair no centro da cidade, ouviam-se os gritos de dor e pânico, e o fumo e cinzas espessavam o ar. Icário aproximou-se ainda mais da figura reclinada de Helena, com o coração cortado de dor.
     O destino reservado à cidade pelo vulcão em fúria foi a um tempo terrível e misericordioso. Precedido por uma nuvem tóxica que asfixiou os últimos dos seus habitantes, um rio de cinzas e poeiras cobriu o chão das ruas e das casas enquanto os telhados, colunas e frontões eram despedaçados por rochas e nódulos de lava incandescente.
     Mergulhado num véu de lava e cinzas, Pompeia sobreviveu até na forma dos corpos dos seus habitantes, condenados a uma forma perversa de imortalidade. Os arqueólogos e caçadores de relíquias exumaram aqueles corpos preservados pelo vulcão nos seus últimos momentos de vida - pessoas caídas nas ruas ou nas suas casas, abraçadas aos filhos, ou colhidos quando tentavam correr em meio a paredes a ruir. Num edifício circular colunado que parecia um templo os arqueólogos descobriram um pátio interior do que deveria ter sido um jardim, no qual desenterraram um ídolo feminino e, diante dele, uma figura compósita, congregada, do que parecia ser uma mulher de joelhos com um homem de pé nas suas costas, e o que parecia ser um par de asas, coisa absurda, talvez um adereço de teatro grego, irrompia das costas dele e envolvia o corpo da sacerdotisa num último gesto de amor.


Muda ansa


A casa onde Mariana crescera era enorme. Talvez isso seja uma evidência a que não se pode fugir na existência, o mundo, as coisas, a morte, são enormes, gigantes, na pequenez da nossa estatura e da nossa força. Quando somos pequenos tudo é maior, mas a casa de Mariana era, de facto, grande. A enorme porta de madeira de faia da entrada abria para um vestíbulo enorme, com paredes decoradas com hemi-colunas chanfradas nas paredes, e sombrios retratos a óleo a preencherem-nas quase por completo (ela não sabia quem eram aquelas pessoas nos quadros, mas a avó contara-lhe que eram ancestrais, família de antes, graves nas suas expressões serenas e tons baços e aguados das roupas, a fixar nela os seus olhares perfurantes), desse vestíbulo partiam dois corredores que comunicavam com o resto do piso térreo e uma escadaria de mármore que dava passagem para o piso superior onde o mais que havia eram gabinetes, um vestiário privativo da mãe de Mariana e uma biblioteca e sala de fumo onde o pai se refugiava amiúde, escondendo-se nela como se fugisse deles, da família, das colunas e dos retratos a óleo da parentela. Mariana passava o tempo no quintal e na casa grande a brincar, ainda não tinha idade para a escola e deixavam-na fazer um pouco o que lhe apetecia, desde que não perturbasse nada nem ninguém, sobretudo ao pai a quem qualquer som fora de tom ou uma partícula de poeira a dançar nos ares fazia-o franzir o cenho de aborrecimento e invocar a salvaguarda atenta da esposa. Por vezes o pai recebia visitas, Mariana também não sabia que pessoas eram aquelas, e a mãe e a avó não davam pistas, chegavam de carro, subiam a escadaria fronteira com os tacões das botas militares a percurtirem nos degraus de pedra e apresentavam-se na porta de entrada, muito direitos e sérios com os seus uniformes negros e o chapéu militar seguro contra a perna. Quase sempre, subiam para a biblioteca ao encontro do pai ou esperavam aí que ele se reunisse com eles. Por vezes, quando a porta se fechava, Mariana descalçava-se e subia as escadas, aproximando-se o mais que se sentia capaz da porta escura, e daí ouvia as vozes deles lá dentro, falavam apenas, nunca ouviu deles  um riso ou uma gargalhada, ou algo leve e luminoso como um gracejo ou uma espontânea exclamação. Uma tarde em que a mãe se encontrava no vestiário a separar roupa quase nova para dar por caridade aos pobres da paróquia, Mariana voltou a perguntar-lhe sobre aqueles homens de negro que vinham à casa deles para falar com o pai. A mãe, talvez por se encontrar numa disposição favorável, não fechou a porta à conversa com um ralho ou uma interjeição e adiantou-lhe mais alguma coisa do que era costume fazer. O mundo, explicou ela a Mariana, é um sítio muito feio que é preciso educar e corrigir, como se fosse uma criança abandonada pelos pais, e para educar dá-se pão à medida da educação e isso era o que o pai fazia, dava pão e educação ao país e ao mundo. Mariana ficou encantada com a extensão da explicação da mãe, embora não pudesse dizer que tinha passado a perceber melhor quem era aquela pessoa misteriosa que sabia ser o seu pai. A explicação alegórica da mãe originou mesmo alguma confusão no seu espírito, que agora se punha a imaginar com algum desconforto se, quando o pai a fitava com uma expressão desaprovadora, não a estaria a considerar também uma pessoa feia como as pessoas do mundo fora daquela casa. Mas depressa chegou o dia em que aquelas visitas cessaram de repente. Deixou de haver pessoas de uniforme a baterem à porta para falar com o pai e ele permaneceu tão ausente como antes, enfiado no seu gabinete, mas agora acompanhado pelo som roufenho da velha telefonia da casa, onde uma voz agitada falava ininterruptamente durante horas a fio. Nas poucas vezes que se cruzou com o pai, ele pareceu-lhe mais preocupado e carrancudo do que era habitual, e também surpreendera a mãe a avó a conversarem numa voz angustiada entre o cochicho e o choro. Quando começou a ficar preocupada com o que se passava na casa, as visitas voltaram, mas apenas por uma vez. Bateram à porta de entrada, eram três homens de uniforme, um uniforme cinzento, diferente dos uniformes negros de antes. Escondida atrás de um jarrão de louça, Mariana assistia a tudo, a mãe subiu as escadas a correr e a chamar o esposo aos gritos e logo depois desceu ele, muito hirto, a gravata com o nó desatado e uma expressão desesperada na face. Olhou demoradamente cada um dos três militares e então viu a filha atrás do jarrão ao lado das escadas. Aproximou-se dela e afagou-lhe desajeitadamente a cabeça com a palma da mão, antes de lhe virar costas e aproximar-se dos homens de cinza, a mãe a avó de Mariana choravam a um canto. Um dos militares segurou-o pelos antebraços, enquanto um camarada lhe atava as mãos atrás das costas com uma corda grossa de sisal. E os militares abandonaram a casa a escoltar o prisioneiro que um deles mantinha sob o seu jugo com o cano de um fuzil encostado à sua nuca. Mariana sentia-se atordoada, não o sabia na altura mas aquela foi a última vez que viu o pai, roubado deles por um mundo feio que vestia uniformes cinzentos.