Página principal e directório:

A ilha


A ilha muito ilha Muito longe erguia-se de um mar sem fim com as suas costas hostis de rochedos aguçados e algumas árvores espinhosas de troncos e ramos retorcidos e contorcidos pela maresia No âmago da ilha a natureza não era tão inóspita nem desagradável havia bosques e renques de árvores matas de fetos e bambus prados risonhos de flores riachos que alimentavam as plantas e dessedentavam as aves errantes de olhar melancólico e os coelhos minúsculos e intrépidos que paravam amiúde de patitas levantadas como a agradecer ao universo a oportunidade de existir E na ilha também havia um coração Foi a essa ilha de carantonha fechada que chegou sob a luz do luar o náufrago de roupas rasgadas e membros esfacelados pelas pedras e conchas quebradas Ficou estendido inanimado numa nesga de praia no sopé dos rochedos e quando a manhã nasceu a luz e o canto das aves fê-lo levantar-se à procura de algo para comer e algo para beber Escalou as rochas e descobriu as nascentes e os riachos e os coqueiros e árvores que davam frutos esponjosos e açucarados da cor do Sol E foi fácil encontrar água e comida e ver um abrigo num feixe de troncos e folhas de palma caídos Tudo no centro de um prado e tão semelhantes a uma cabana que parecia impossível que não tivessem sido mãos humanas a reuni-los e montá-los aplicadamente O náufrago teve medo Medo do outro De alguém perigoso e emboscado de espada ou mosquete nas mãos Mas não havia ninguém Apenas ele e a ilha E logo o náufrago começou a procurar sair dali A construir barcos e barquinhos que o levassem de novo para o mar E para outros barcos que o resgatassem para junto da mulher e dos filhos numa terra distante O que o náufrago não sabia era que a ilha era o Outro que antes temera Não era um inimigo armado mas um coração que batia com um devaneio e um fascínio por aquele náufrago que ali chegara anos e séculos depois da última figura humana que pusera os pés na ilha E a ilha sentia com ele Admirava-o Encontrava beleza nos seus gritos de desespero no alto dos rochedos ou no pranto com que acordava aos soluços no remanso dos sonhos noturnos E a ilha rodeava-o A confortar e a proteger Diques de bambu forte  que se erguiam das balseiras para fortificar a cabana contra o vento dos temporais Árvores que se reclinavam com a sua sombra sobre a sua tez clara quando adormecia sob o Sol forte E uma vontade terna e feminina que impunha silêncio e quietude a todas as plantas e animais quando ele descansava ou dormia Mas depressa chegou o dia em que o náufrago se sentiu preparado para arrostar as ondas do mar A ilha não o deteve quando o seu barco começou a sulcar as ondas da rebentação e a afastar-se de si Nenhum tronco flutuante varou a frágil embarcação e nenhuma lança de bambu trespassou o ventre do náufrago que se exilava Mas a tristeza estava lá Em cada rocha e em cada folha de erva No silêncio sepulcral das aves e dos animais Nos riachos que desaguavam nas ondas já salgados das lágrimas do coração da ilha.