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Uma nova vida


               Heloísa, a minha mulher, gracejava muito com a minha ânsia de encontrar sentido e significado nas coisas mais insuspeitas - uma estrela cadente, o voo de uma libélula, o trilho de uma formiga-das-canas, e não raras vezes ouvia o seu risinho abafado enquanto eu me afadigava entre cálculos e mapas astrais com o cenho franzido e a transpirar da palma das mãos. Está tudo errado, garantia-me, a previsão é a trigonometria do absurdo, os planetas e as estrelas mudam e nós com eles, e se três planetas se alinham, eles são inocentes do sentido infantil que nós vemos nisso e o alinhamento seria diferente se vivêssemos na Lua, em Marte ou no dito de Judas. Heloísa contestava e eu mergulhava em canhenhos e quimeras, tomado agora de uma nova miragem, comecei por me interessar pelas alusões que encontrara nas Centúrias de Nostradamus aos fenómenos siderais – conjunções de planetas, sinais nos céus e cometas, muitos cometas – e num ápice estava embrenhado nas profecias do astrólogo occitano, revendo cada interpretação de cada quadra ou sextilha, os topónimos e antropónimos codificados nos textos, as espúrias derivações linguísticas que constituíam misteriosos recursos criptográficos, tendo como esperança subjacente a possibilidade de estar a espreitar pela janela do futuro através dos olhos fatigados do velho profeta. Heloísa abandonou o meu leito na noite em que me surpreendeu na cave a tentar repetir o método de profetizar de Nostradamus e das pitonisas, envolvido pelo fumo alucinogénio e com os olhos fixos numa taça com água suspensa de um tripé de bronze.
                Ela enfastiara-se dos meus interesses e partiu, fez-se á estrada com um caixeiro-viajante que nutria a mesma paixão que ela sentia pela dor sofisticada que se podia extrair de realizar incisões na própria carne ou retalhar a epiderme em círculos e volutas que se acendiam de tons sanguíneos. Por ironia do destino, depois de Heloísa partir – ela que era a minha cínica consciência, o meu gafanhoto de Pinóquio com sintomas depressivos – em vez de me sentir mais livre para os meus devaneios e fantasias, comecei a sentir-me cada dia mais prosaico, sem ânimo, com uma crescente aversão pelo que transcendia a minha capacidade de perceber ou explicar sem reservas. Foi um processo lento, uma metamorfose em lume brando, e teve os seus custos. Dececionei e defraudei as pessoas que me procuravam pelo meu Eu de antigamente, clientes que me consultavam e amigos com quem antes debatia com entusiasmo ideias e fantasias borboleteantes. O peregrino e o alquimista em mim vestiram roupa de trabalho, e regressaram comigo às ruas para cumprir tarefas remuneradas, concretas e coletáveis. Na minha casa, à conta desses anos de quimeras acumulara um espólio heterodoxo que se compunha de livros e anotações, alguns devaneios oníricos registados em pergaminho, diagramas astrológicos e mapas astrais, e relíquias mais ou menos avalizadas como unhas de dragão ou um chifre fóssil de unicórnio. Tive de abandonar a casa, reguei-a com gasolina e incendiei-a, chamando os bombeiros com um telefonema anónimo quando as chamas ameaçavam alcançar as casas contíguas. Seguiram-se as cinzas, as perguntas, a investigação de que fui objeto e a pena pecuniária com que arrumaram o assunto.
                Mas as coisas esfriaram, e eu fiz reconstruir a casa, tijolo sobre tijolo, parede contra parede, depois de fechada e rebocada, o seu interior branco e impessoal tornou-se tão acolhedor como os braços de uma morta. Mas era esta a casa que eu precisava em volta de mim, a minha concha do lado de dentro de tantas quimeras inúteis. Sem surpresas, a minha vida começou a mudar, iniciei novas amizades com pessoas que se identificavam com a minha maneira de pensar e viver e mesmo Heloísa regressou, de forma espontânea e inocente como se tivesse saído de casa apenas na véspera e não tivesse tido outra intenção senão ir visitar algum familiar distante ou a ir a um workshopde gestão de empresas.

                Com o regresso de Heloísa, a minha nova vida ficou completa, suficiente, serenada. Ela adorou a minha nova pessoa, e a forma como eu lidava agora com a existência, mas a espaços sugeria que deveríamos procurar uma casa bem longe para nos mudarmos, uma casa construída de raiz num sítio sem resíduos do passado, porque era-lhe difícil entregar-se à sua paixão pela jardinagem e andar pelo jardim  a ouvir as vozes que saíam da cave onde eu guardara o carcomido tripé de bronze, ou o piar lúgubre das gárgulas que se vinham empoleirar na empena da casa.

O Processo de Jesué Nazareno

     Texto original que foi submetido a um concurso literário (sem sucesso), transita aqui para o arquivo morto desta página, para o caso da...