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Uma estória de Natal

Uma estória de Natal
(excerto de um diário de campanha pessoal).

23 de Dezembro do ano de 1850.
O nosso destacamento, sob o comando do tenente Fergus Robertson, começou a subir pela margem do rio Tugela na direção das montanhas do Drakensberg. A caminhada é árdua, e os carreiros na margem, mesmo aplainados pelas cheias do rio, mantém à superfície pedras aguçadas como dentes de Cadmo. Ninguém nos diz qual é o objetivo da campanha, mas o cozinheiro, Mr. Temple, soube pelo sargento Marcus, que procuramos um renegado Boer, que tem pilhado as fazendas do vale na companhia de um grupo de homens a quem confiou armas de fogo, entre os quais se contam alguns Zulus. Eu não posso falar pelos outros, mas parece-me difícil que consigamos capturar um Boer que já viveu nestas paragens, ainda para mais contando com a ajuda de Zulus, que conhecem esta terra como se tivessem nascido do chão, inteiros e armados. O tenente Robertson deu instruções para montarmos acampamento numa plataforma de basalto a uns dez metros das águas do rio. Entre os escolhidos para montarem guarda, coube-me a mim cumprir o primeiro turno de vigília. Hesito em escrever aqui o que penso do meu superior, mas confio em que me acompanham as pessoas mais polidas e educadas de toda a África meridional, e se seria talvez exagero chamar-lhes um escol de cavalheiros, creio que não seria de esperar de qualquer um deles devassar ou espreitar os papéis ou cartas escritos pelos camaradas de armas. Dizia pois, que o tenente Robertson é um oficial com uma carreira promissora pela frente, duro e disciplinador, não esquece nem deixa esquecer que já pertenceu a um batalhão de infantaria com um passado de glória na Índia, e que sente nisso um extravasante orgulho. Mas vou ficar por aqui.

24 de Dezembro de 1-8-5-0.
Continuamos a trilhar caminho na margem do Tugela, na véspera aproveitei a presença do tenente Robertson enquanto eu estava de vigia, para lhe pedir uma vez mais, que se alcançássemos um dos abrigos rochosos de que se fala com gravuras feitas pelos indígenas, se ele me deixava copiar algumas para o meu caderno de esboços. Ele não negou a possibilidade, e tive oportunidade de me aperceber de que teria o seu consentimento, conquanto as minhas ocupações extra-militares não comprometessem o andamento ou a missão da campanha. Ao princípio da tarde alcançamos aquele que seria provavelmente o último aldeamento dos nativos antes dos terrenos escarpados e desertos da montanha. O tenente mandou-nos distribuir em forma de cordão humano em volta da aldeia antes de entrar na aldeia. Aldeia era até um nome generoso para aquelas seis cubatas com telhados de colmo, com cercados para as cabras e algumas hortas na orla das cubatas. O tenente Fergus avançou com um intérprete Zulu, com o sargento e o cabo George, e três ordenanças a quem avisara para terem as armas prontas a disparar. Nós permanecemos um pouco recuados, com o olhar atento e as armas prontas para o que pudesse ocorrer, e não conseguíamos observar o que ocorria no espaço entre as cubatas. O tempo transcorreu de uma forma exasperadamente lenta, até que se ouviu o som de um disparo solitário que ecoou em volta e contra os contrafortes das montanhas. Colocamos as armas em riste, prontos para tudo, mas o sargento saiu um pouco do segredo da aldeia para nos acenar que estava tudo em ordem, e voltou para dentro num ápice. Olhamos uns para os outros, ainda apreensivos e sob tensão, mas não decorreu mais do que uns meros minutos, e todo o grupo liderado pelo tenente abandonou a aldeia, deixando atrás de si o som lancinante de gritos e pranto. O tenente reuniu-nos e indicou-nos que atravessaríamos o rio a vau um pouco mais adiante e subiríamos a montanha do lado oposto, onde os fugitivos se encontravam abrigados numa gruta. O intérprete, alheio às palavras do tenente, chorava de forma contida, e tivemos uma segura suspeita de como o tenente tinha obtido as informações.
Seguimos marcha consoante nos havia sido ordenado, em passo rápido devido ao declinar da tarde. Atravessamos o rio num ponto onde uma queda de água apresentava no topo uma ponte de pedra dúctil por onde podíamos alcançar a margem oposta apenas com água até aos joelhos. No outro lado o tenente conferenciou um pouco com o guia Zulu, gesticulando bastante e envolvendo as montanhas nos seus gestos enérgicos, e recomeçamos a caminhada pelo terreno em declive, por onde os pés resvalavam por vezes em pedras soltas, fazendo-nos perder o equilíbrio ou mantendo-o a muito custo. Nem meia-hora de progressão tínhamos, quando o tenente levantou a mão aberta para nos determos. Ele agachara-se na crista de um monte e apontava lá para baixo. Juntamo-nos ele a rastejar, tentando não levantar poeira. Os perseguidos estavam sentados sobre pedras no recinto natural diante da entrada de uma gruta, tinham ateado uma fogueira e conversavam com as armas pousadas displicentemente junto a eles. Interroguei-me sobre que fenómeno de acústica os teria privado de ouvir o tiro no aldeamento, porque pareciam francamente tranquilos e alheados de tudo. Sob as ordens do tenente, um pequeno contigente no qual me incluiu, desceu pela encosta por onde havíamos subido, e fizemos um grande rodeio até nos aproximarmos bastante da entrada da gruta pela aba lateral de um monte vizinho. Quando ficamos posicionados, com as armas apontadas aos renegados, o tenente atacou como gostava, de frente e ao som da trombeta de cavalaria, e a espada desembainhada erguida muito alta para o céu. Quando os renegados tentaram empunhar as armas, uma saraivada de disparos do nosso lado, atingiu alguns deles, levando os outros a renderem-se de imediato, com os braços levantados. Uns e outros avançamos e isolamos os prisioneiros das armas caídas, atando-lhes as mãos atrás das costas. O líder bóer jazia morto no chão, com a cabeça vazada por um disparo. Um dos soldados que acompanhar o tenente na sua carga solene, informou que um dos renegados, um Zulu, conseguira fugir pelo lado oposto àquele em que nós havíamos estado posicionados. O tenente Robertson, atendendo ao cair da tarde, decidiu que acamparíamos no mesmo lugar em que estávamos, e que na madrugada seguinte, iríamos no seu encalço até o capturar. Enquanto se organizava a guarda para a noite, reiterei com voz humilde o meu pedido ao tenente, e este consentiu em me libertar dos meus deveres durante a manhã do dia seguinte, uma vez que os havíamos capturado na quase totalidade e que para apanhar o fugitivo que faltava, não iriam precisar de muitos homens. Foi a melhor coisa que alguém me disse nos últimos tempos, até mesmo, nos últimos anos. Agora que escrevo estas linhas no meu diário sob a luz da candeia, creio que nem sequer conseguirei adormecer, tão feliz e entusiasmado me sinto com o que vou encontrar nos abrigos rochosos.

25 de Dezembro
Aos primeiros fulgores da madrugada, já eu estava fardado e com a mochila de couro às costas e o mosquete Brown Bess seguro na mão. Como uma parte das forças permaneceria instalado ali, havia proposto a mim mesmo explorar outro abrigo rochoso onde pudesse trabalhar sem perturbações. Despedi-me dos meus camaradas, e tomei o que parecia ser um carreiro sinuoso de encosta, por onde persisti em subidas e descidas até encontrar uma cavidade natural que se abria como uma boca de penumbra na rocha basáltica. Bastou aproximar-me para os meus olhos se maravilharem. Logo no arco da entrada, no topo, distribuíam-se algumas figuras dispersas, gnus de corpo castanho aureolado de azul, um varano enorme defronte de um ovo listado, e caçadores de corpo fino e cabeça alongada que perseguiam um antílope. Pensei em começar a desenhar, mas a entrada da gruta apelava à minha curiosidade. Não precisei de nenhuma luminária porque a uns metros da entrada a gruta iluminava-se de novo como benesse de um abertura ogival no teto por onde se conseguia ver o céu e as nuvens. Aí o meu espanto recrudesceu, as pinturas, desta vez, representavam apenas grupos de pessoas, homens e mulheres com lanças e arcos de flechas, o corpo era apenas uma linha alongada estilizada, do qual partiam linhas similares que figuravam os membros, transmitindo o movimento dos braços, o sentido do andar, a intenção do conjunto. Era formidável como, com uma economia de detalhes, conseguiam realizar uma pintura dinâmica, tão viva que me pareceu que seria possível as figuras moverem-se diante dos meus olhos na parede rochosa lisa e pigmentada; e no entanto, não eram desprovidos de arte, eram até singularmente belos e tocantes. Mas o que centrava e dominava o olhar era uma figura um pouco surreal no topo do conjunto, tinha proporções gigantescas, e o seu corpo deitado acompanhava a linha convexa do topo da parede, era um homem ou um deus criador com uma estatura dez vezes superior à das figuras humanas, e as linhas do seu rosto pareciam as de uma máscara com o queixo pontiagudo e duas frestas vermelhas para os olhos. Rendido à pintura, tirei da mochila o bloco de folhas e os lápis e comecei a desenhar, sentado numa pedra oportuna do chão. A minha primeira preocupação foi as dimensões e a relação intrínseca entre os diferentes elementos da pintura, e só depois de assinalar no papel com traços sumidos a sua posição, é que ousei gravar as silhuetas e linhas, o tempo passou num ápice nessa tarefa apaixonada, e quando me dei conta, a luz que atravessava a clarabóia natural parecia aproximar-se da sua posição vertical. Garatujei em siglas as cores da composição para a poder completar mais tarde, e permiti-me alguns momentos de reflexão. As gravuras representavam cenas de caça e pastorícia, lutas entre grupos antagonistas e registos religiosos ou mitológicos como o da gravura do gigante reclinado. Tinham sido sem dúvida produzidos por grupos tribais como os San, com as suas lendas e récitas, e eram já velhas quando os Zulus chegaram à região. Recolhi os meus haveres na mochila e dirigi-me para a saída depois de um último olhar pelas gravuras, ainda não tinha chegado à entrada em arco quando senti uma impressão de perigo, ouvia-se o arfar de uma respiração humana, colei-me às sombras e espreitei para a entrada – o Zulu que todos procuravam estava mesmo ali, a uns dez pés de mim e acocorado por trás de uma rocha a vigiar o vale. Ouvia-se o eco de vozes autoritárias, deveriam ser os seus camaradas que vasculhavam as imediações. Preparei o mosquete, encostei a coronha ao ombro e avancei um passo. O renegado Zulu virou-se de rompante com a mão a aflorar uma pedra do chão, mas renunciou ao seu gesto quando viu o cano da arma apontado ao seu peito. Fitamo-nos no mais completo mutismo, e eu sentia-me aturdido por trepidantes pensamentos. Podia levá-lo preso e exibi-lo como um troféu de caça, mas o que é que isso adiantaria? Não me era difícil imaginar os Zulus a desempenharem aquelas cenas de caça ou a venerarem um ícone gigantesco com máscara. Baixei o mosquete até apoiar a coronha no solo e apontei-lhe a entrada da gruta, instando-o a esconder-se ali. O Zulu passou por mim, ainda com algum receio, e imergiu nas sombras cúmplices.
Desci a encosta no sopé da plataforma da gruta, e não tardei a reunir-me aos meus camaradas.
- Então, cabo artista? – perguntou-me um deles – viste muitas pinturas naquela gruta?
- Do interior daquelas grutas, quarenta séculos nos contemplam – gracejei, e eles riram-se.
- Procuramos em todos os buracos e por trás de todos os arbustos. Aquele maldito deve estar a milhas de distância.

Concordei e voltamos para junto do tenente, os outros relataram os seus esforços infrutíferos para capturarem o fugitivo, e o tenente, em resposta, deu como satisfatórios os resultados da surtida, e decidiu que regressaríamos na manhã seguinte ao aquartelamento onde estávamos destacados. O nosso regresso ocorreria no dia a seguir ao Natal, um Natal que passáramos a trilhar caminhos rochosos e subir montes, mas o que me fazia deveras feliz, e que eu considerava a melhor dádiva que me poderiam ter feito, era ter aquele esboço das pinturas para aperfeiçoar e colorir.



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