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Rainha


                Subiu lesto os parcos degraus que separavam o átrio do hotel do recinto sobrelevado onde haviam instalado a receção. Abriu o saco do correio e entregou ao rececionista um maço de correspondência para o hotel, previamente separada e selada com uma fita dos Correios. O rececionista agradeceu e quando o carteiro iniciava a viagem de regresso à rua, notou um cartaz no átrio a anunciar um evento literário no hotel, era o lançamento de um livro de poesia e, caprichosamente, estava a decorrer naquele mesmo dia e hora na sala de conferências do hotel, mas o que atraiu o seu olhar não foi o evento em si, os caracteres da mensagem, mas a fotografia ampliada da autora, jovem e bonita de longos cabelos negros, rosto oval de lábios cheios e olhos rasgados fitos em si. Fora fotografada sentada, algo tensa, com um braço em esquadria sobre os joelhos, e o cotovelo do outro braço apoiado neste e a mão junto ao queixo, com um amoroso dedo indicador encostado à face de tez muito branca. Emocionado sem saber porquê - uma refrega de sensações no peito, um tropel e um torvelinho de águas frias - o carteiro perguntou onde era a sala de conferências e encaminhou-se para lá. O lançamento do livro já tivera início, numa sala mais pequena do que aquilo que esperava, uma vintena de pessoas sentava-se nos lugares da frente, defronte da mesa corrida onde discursava um homem de cabelo grande e patilhas compridas. Sentou-se umas filas atrás, e pousou no chão aos seus pés o seu saco de carteiro. A autora estava sentada ao centro da mesa, ladeada pelo discursante e por uma mulher de meia-idade gorda e de cabelos ruivos compridos presos por um elástico atrás da nuca. A poetisa vestia uma camisola preta como na fotografia e e sorria com a cabeça ligeiramente inclinada enquanto o dono da palavra falava de mitemas e poemas. Por fim, o homem lá se sentou, e a ruiva do séquito da rainha declamou os versos de um dos poemas com os ésses a quererem evadir-se por um misterioso terceiro orifício que parecia ter na cana do nariz. O poema arrastou-se, parecia ser bom, embora não estivesse a prestar muita atenção por só ter olhos e ouvidos para os movimentos e expressões da autora. Quando a ruiva se sentou, a autora interpelou a audiência a perguntar se alguém tinha alguma questão a colocar ou dizer alguma coisa que achasse pertinente. O carteiro ficou suspenso da sua voz doce como uma aranha gorda e disforme na extremidade de um fino fio de seda, e logo naquele instante, instante urdido pelo universo desde a explosão primordial da matéria e do tempo, a poetisa pousou o cotovelo no colo e ergueu a mão a encostar o dedo indicador à face, e aquele gesto pulverizou a sala, as pessoas, a cidade, transformando-as em sombras ou silhuetas imateriais, fantasmáticas.
                O carteiro levantou-se, com gestos lentos como se temesse quebrar o encanto, e com os olhos dela fixos em si, através de si, perguntou-lhe:
                - Posso escrever-lhe cartas de amor?

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