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Outros dados, e cartas, no final da página

O mentor

Desenho anatómico executado por Leonardo Da Vinci (Royal Library, Castelo de Windsor)

                - Acorda, meu pequeno! Vais chegar atrasado à escola.
                Ela destapou-o, puxando para trás a colcha e os lençóis, e ele muito atrapalhado, sonegou para debaixo da almofada uma revista pornográfica que tinha ao lado de si na cama, levantou-se de mau-humor na penumbra do quarto onde a mãe abria com alarido uma fresta dos estores, urinou na sanita e tomou um banho rápido, sempre com a porta entreaberta porque a mãe tinha medo que ele tivesse um enfarte ou algo do género e precisasse de a chamar. Ouvia a mãe na cozinha a aquecer no micro-ondas o leite para os cereais. Vestiu-se à pressa. Rotina perfeita, ele e a almoçadeira com leite chegaram ao mesmo tempo à mesa. Comeu sem vontade. A mãe falava sem cessar. Do frio, da chuva, para ele não andar desnecessariamente à chuva, e do que a meteorologia previa na rádio, e dos aumentos do princípio do ano porque ouvira um senhor na rádio a falar sobre isso, e do que ele achava, e as justificações do senhor ministro.
                Voltou ao quarto, a preparar a pasta, meteu nela uns exercícios que corrigira na véspera, e deu uma espreitadela no espelho da cómoda antes de sair. Acamou com a mão uns cabelos brancos que teimavam em ficar espetados sobre a calva, e espalhou bâton de cieiro nos lábios. Pensou que parecia o retrato da solidão personificada, um retrato cru em vermelho-sangue e roxo como pinceladas de Bacon. Apertou o lenço colorido em volta do pescoço e passou à sala onde retomou o monólogo da mãe, dizendo que sim com a cabeça como se a ouvisse.
                - E porta-te bem para teres boas notas, porque eu tenho sempre muito orgulho em ti, meu filho.
                «Eles não querem saber, mãe!»
                Não ouvira, sabia que ela não ouvira, na mãe a fala e a audição desembocavam no mesmo canal e devia ter uma espécie de membrana que fechava uma delas quando a outra estava ativa. Não valia a pena falar para ela enquanto ela não se calasse.
                - Quando chegares logo, não devo estar cá, mas deixo-te comida no forno, vou a casa da prima Isaura per...
                «Nem sei porque dou aulas, não querem saber do que falo e atiram-me coisas. Noutro dia deixaram o apagador equilibrado na porta e apanhei com ele na careca quando entrei, foi o momento de maior alegria de toda a história do agrupamento».

                - ...sei que não lavaste os dentes, mas trata disso quando voltares a casa. Até logo, e não deixes que te roubem o lanche!


O Processo de Jesué Nazareno

     Texto original que foi submetido a um concurso literário (sem sucesso), transita aqui para o arquivo morto desta página, para o caso da...