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Amor


O seu amor é feito de vidros que cortam, isso era tudo o que sabia dizer e que poderia até ambicionar dizer-lhe se surtisse a ocasião ou se se alavancasse de coragem. O amor dela não tinha essa fruição abnegada de dois corpos que se tocam e se homenageiam sem pedir explicações nem suplicar coisa alguma, ou a cálida virtude de abrigo e refúgio de uma cabana acolhedora no meio da neve fria. E falava em amor porque era mais fácil para ele exprimir-se assim. Quando ela estava com ele, estava sempre atenta, de garras afiladas, apontando em cruas denúncias todas as suas falhas, os seus erros, os jeitos e trejeitos que eram muito próprios dele mas que ela não tolerava, a sua forma de falar, os seus preceitos e opiniões, o seu modo de andar, os requebros da sua voz, o sibilar da sua respiração. Estar com ela e partilhar o mesmo espaço, era uma tarefa dolorosa e angustiante. Detesto quando fazes essa expressão…odeio que digas isso…não me digas que vais voltar a pegar nesse livro velho…nunca mais deixas de estar ligado a esse botija de oxigénio? E ele prosseguia sem protestos, agindo e fazendo como sempre em meio ao asco e repúdio da companheira. Enquanto ela era apenas a sua enfermeira, mostrara-se mais doce e compreensiva, era prestável e bondosa, mas tudo mudara quando ela se instalou no seu leito e lhe fez retribuir com benesses financeiras e sociais o sacrifício do seu corpo jovem e ardente na ara da velhice, agora que ela geria a sua vida e os seus bens não havia um momento com ela em que se sentisse tranquilo, em paz, os defeitos dele eram todo o tema das palavras que ela lhe dispensava, a ponto dele fingir que dormia até mais tarde para poder estar sozinho, ou refugiar-se no quarto para repousar enquanto ela permanecia acordada na sala, ou saía para se divertir à noite com os amigos. Numa perversa situação, os amigos dele, que se haviam convertido em amigos de ambos, consideravam-no um privilegiado por ter na sua idade quem tomasse conta dele e ao mesmo tempo lhe proporcionasse carinho e afeto. Deixara-se enredar numa armadilha da qual não sabia como sair e notara já que as coisas assumiam formas estranhas, e não era só o comportamento dela - até a indispensável botija de oxigénio denotava estranhas anomalias técnicas que ele não sabia se eram casuais ou causadas. O seu amor é feito de vidros que cortam, pensava ele, vidros que tarde ou cedo o atingiriam como já antes o haviam dilacerado por dentro.

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