Amor


O seu amor é feito de vidros que cortam, isso era tudo o que sabia dizer e que poderia até ambicionar dizer-lhe se surtisse a ocasião ou se se alavancasse de coragem. O amor dela não tinha essa fruição abnegada de dois corpos que se tocam e se homenageiam sem pedir explicações nem suplicar coisa alguma, ou a cálida virtude de abrigo e refúgio de uma cabana acolhedora no meio da neve fria. E falava em amor porque era mais fácil para ele exprimir-se assim. Quando ela estava com ele, estava sempre atenta, de garras afiladas, apontando em cruas denúncias todas as suas falhas, os seus erros, os jeitos e trejeitos que eram muito próprios dele mas que ela não tolerava, a sua forma de falar, os seus preceitos e opiniões, o seu modo de andar, os requebros da sua voz, o sibilar da sua respiração. Estar com ela e partilhar o mesmo espaço, era uma tarefa dolorosa e angustiante. Detesto quando fazes essa expressão…odeio que digas isso…não me digas que vais voltar a pegar nesse livro velho…nunca mais deixas de estar ligado a esse botija de oxigénio? E ele prosseguia sem protestos, agindo e fazendo como sempre em meio ao asco e repúdio da companheira. Enquanto ela era apenas a sua enfermeira, mostrara-se mais doce e compreensiva, era prestável e bondosa, mas tudo mudara quando ela se instalou no seu leito e lhe fez retribuir com benesses financeiras e sociais o sacrifício do seu corpo jovem e ardente na ara da velhice, agora que ela geria a sua vida e os seus bens não havia um momento com ela em que se sentisse tranquilo, em paz, os defeitos dele eram todo o tema das palavras que ela lhe dispensava, a ponto dele fingir que dormia até mais tarde para poder estar sozinho, ou refugiar-se no quarto para repousar enquanto ela permanecia acordada na sala, ou saía para se divertir à noite com os amigos. Numa perversa situação, os amigos dele, que se haviam convertido em amigos de ambos, consideravam-no um privilegiado por ter na sua idade quem tomasse conta dele e ao mesmo tempo lhe proporcionasse carinho e afeto. Deixara-se enredar numa armadilha da qual não sabia como sair e notara já que as coisas assumiam formas estranhas, e não era só o comportamento dela - até a indispensável botija de oxigénio denotava estranhas anomalias técnicas que ele não sabia se eram casuais ou causadas. O seu amor é feito de vidros que cortam, pensava ele, vidros que tarde ou cedo o atingiriam como já antes o haviam dilacerado por dentro.

Uma estória de Natal

Uma estória de Natal
(excerto de um diário de campanha pessoal).

23 de Dezembro do ano de 1850.
O nosso destacamento, sob o comando do tenente Fergus Robertson, começou a subir pela margem do rio Tugela na direção das montanhas do Drakensberg. A caminhada é árdua, e os carreiros na margem, mesmo aplainados pelas cheias do rio, mantém à superfície pedras aguçadas como dentes de Cadmo. Ninguém nos diz qual é o objetivo da campanha, mas o cozinheiro, Mr. Temple, soube pelo sargento Marcus, que procuramos um renegado Boer, que tem pilhado as fazendas do vale na companhia de um grupo de homens a quem confiou armas de fogo, entre os quais se contam alguns Zulus. Eu não posso falar pelos outros, mas parece-me difícil que consigamos capturar um Boer que já viveu nestas paragens, ainda para mais contando com a ajuda de Zulus, que conhecem esta terra como se tivessem nascido do chão, inteiros e armados. O tenente Robertson deu instruções para montarmos acampamento numa plataforma de basalto a uns dez metros das águas do rio. Entre os escolhidos para montarem guarda, coube-me a mim cumprir o primeiro turno de vigília. Hesito em escrever aqui o que penso do meu superior, mas confio em que me acompanham as pessoas mais polidas e educadas de toda a África meridional, e se seria talvez exagero chamar-lhes um escol de cavalheiros, creio que não seria de esperar de qualquer um deles devassar ou espreitar os papéis ou cartas escritos pelos camaradas de armas. Dizia pois, que o tenente Robertson é um oficial com uma carreira promissora pela frente, duro e disciplinador, não esquece nem deixa esquecer que já pertenceu a um batalhão de infantaria com um passado de glória na Índia, e que sente nisso um extravasante orgulho. Mas vou ficar por aqui.

24 de Dezembro de 1-8-5-0.
Continuamos a trilhar caminho na margem do Tugela, na véspera aproveitei a presença do tenente Robertson enquanto eu estava de vigia, para lhe pedir uma vez mais, que se alcançássemos um dos abrigos rochosos de que se fala com gravuras feitas pelos indígenas, se ele me deixava copiar algumas para o meu caderno de esboços. Ele não negou a possibilidade, e tive oportunidade de me aperceber de que teria o seu consentimento, conquanto as minhas ocupações extra-militares não comprometessem o andamento ou a missão da campanha. Ao princípio da tarde alcançamos aquele que seria provavelmente o último aldeamento dos nativos antes dos terrenos escarpados e desertos da montanha. O tenente mandou-nos distribuir em forma de cordão humano em volta da aldeia antes de entrar na aldeia. Aldeia era até um nome generoso para aquelas seis cubatas com telhados de colmo, com cercados para as cabras e algumas hortas na orla das cubatas. O tenente Fergus avançou com um intérprete Zulu, com o sargento e o cabo George, e três ordenanças a quem avisara para terem as armas prontas a disparar. Nós permanecemos um pouco recuados, com o olhar atento e as armas prontas para o que pudesse ocorrer, e não conseguíamos observar o que ocorria no espaço entre as cubatas. O tempo transcorreu de uma forma exasperadamente lenta, até que se ouviu o som de um disparo solitário que ecoou em volta e contra os contrafortes das montanhas. Colocamos as armas em riste, prontos para tudo, mas o sargento saiu um pouco do segredo da aldeia para nos acenar que estava tudo em ordem, e voltou para dentro num ápice. Olhamos uns para os outros, ainda apreensivos e sob tensão, mas não decorreu mais do que uns meros minutos, e todo o grupo liderado pelo tenente abandonou a aldeia, deixando atrás de si o som lancinante de gritos e pranto. O tenente reuniu-nos e indicou-nos que atravessaríamos o rio a vau um pouco mais adiante e subiríamos a montanha do lado oposto, onde os fugitivos se encontravam abrigados numa gruta. O intérprete, alheio às palavras do tenente, chorava de forma contida, e tivemos uma segura suspeita de como o tenente tinha obtido as informações.
Seguimos marcha consoante nos havia sido ordenado, em passo rápido devido ao declinar da tarde. Atravessamos o rio num ponto onde uma queda de água apresentava no topo uma ponte de pedra dúctil por onde podíamos alcançar a margem oposta apenas com água até aos joelhos. No outro lado o tenente conferenciou um pouco com o guia Zulu, gesticulando bastante e envolvendo as montanhas nos seus gestos enérgicos, e recomeçamos a caminhada pelo terreno em declive, por onde os pés resvalavam por vezes em pedras soltas, fazendo-nos perder o equilíbrio ou mantendo-o a muito custo. Nem meia-hora de progressão tínhamos, quando o tenente levantou a mão aberta para nos determos. Ele agachara-se na crista de um monte e apontava lá para baixo. Juntamo-nos ele a rastejar, tentando não levantar poeira. Os perseguidos estavam sentados sobre pedras no recinto natural diante da entrada de uma gruta, tinham ateado uma fogueira e conversavam com as armas pousadas displicentemente junto a eles. Interroguei-me sobre que fenómeno de acústica os teria privado de ouvir o tiro no aldeamento, porque pareciam francamente tranquilos e alheados de tudo. Sob as ordens do tenente, um pequeno contigente no qual me incluiu, desceu pela encosta por onde havíamos subido, e fizemos um grande rodeio até nos aproximarmos bastante da entrada da gruta pela aba lateral de um monte vizinho. Quando ficamos posicionados, com as armas apontadas aos renegados, o tenente atacou como gostava, de frente e ao som da trombeta de cavalaria, e a espada desembainhada erguida muito alta para o céu. Quando os renegados tentaram empunhar as armas, uma saraivada de disparos do nosso lado, atingiu alguns deles, levando os outros a renderem-se de imediato, com os braços levantados. Uns e outros avançamos e isolamos os prisioneiros das armas caídas, atando-lhes as mãos atrás das costas. O líder bóer jazia morto no chão, com a cabeça vazada por um disparo. Um dos soldados que acompanhar o tenente na sua carga solene, informou que um dos renegados, um Zulu, conseguira fugir pelo lado oposto àquele em que nós havíamos estado posicionados. O tenente Robertson, atendendo ao cair da tarde, decidiu que acamparíamos no mesmo lugar em que estávamos, e que na madrugada seguinte, iríamos no seu encalço até o capturar. Enquanto se organizava a guarda para a noite, reiterei com voz humilde o meu pedido ao tenente, e este consentiu em me libertar dos meus deveres durante a manhã do dia seguinte, uma vez que os havíamos capturado na quase totalidade e que para apanhar o fugitivo que faltava, não iriam precisar de muitos homens. Foi a melhor coisa que alguém me disse nos últimos tempos, até mesmo, nos últimos anos. Agora que escrevo estas linhas no meu diário sob a luz da candeia, creio que nem sequer conseguirei adormecer, tão feliz e entusiasmado me sinto com o que vou encontrar nos abrigos rochosos.

25 de Dezembro
Aos primeiros fulgores da madrugada, já eu estava fardado e com a mochila de couro às costas e o mosquete Brown Bess seguro na mão. Como uma parte das forças permaneceria instalado ali, havia proposto a mim mesmo explorar outro abrigo rochoso onde pudesse trabalhar sem perturbações. Despedi-me dos meus camaradas, e tomei o que parecia ser um carreiro sinuoso de encosta, por onde persisti em subidas e descidas até encontrar uma cavidade natural que se abria como uma boca de penumbra na rocha basáltica. Bastou aproximar-me para os meus olhos se maravilharem. Logo no arco da entrada, no topo, distribuíam-se algumas figuras dispersas, gnus de corpo castanho aureolado de azul, um varano enorme defronte de um ovo listado, e caçadores de corpo fino e cabeça alongada que perseguiam um antílope. Pensei em começar a desenhar, mas a entrada da gruta apelava à minha curiosidade. Não precisei de nenhuma luminária porque a uns metros da entrada a gruta iluminava-se de novo como benesse de um abertura ogival no teto por onde se conseguia ver o céu e as nuvens. Aí o meu espanto recrudesceu, as pinturas, desta vez, representavam apenas grupos de pessoas, homens e mulheres com lanças e arcos de flechas, o corpo era apenas uma linha alongada estilizada, do qual partiam linhas similares que figuravam os membros, transmitindo o movimento dos braços, o sentido do andar, a intenção do conjunto. Era formidável como, com uma economia de detalhes, conseguiam realizar uma pintura dinâmica, tão viva que me pareceu que seria possível as figuras moverem-se diante dos meus olhos na parede rochosa lisa e pigmentada; e no entanto, não eram desprovidos de arte, eram até singularmente belos e tocantes. Mas o que centrava e dominava o olhar era uma figura um pouco surreal no topo do conjunto, tinha proporções gigantescas, e o seu corpo deitado acompanhava a linha convexa do topo da parede, era um homem ou um deus criador com uma estatura dez vezes superior à das figuras humanas, e as linhas do seu rosto pareciam as de uma máscara com o queixo pontiagudo e duas frestas vermelhas para os olhos. Rendido à pintura, tirei da mochila o bloco de folhas e os lápis e comecei a desenhar, sentado numa pedra oportuna do chão. A minha primeira preocupação foi as dimensões e a relação intrínseca entre os diferentes elementos da pintura, e só depois de assinalar no papel com traços sumidos a sua posição, é que ousei gravar as silhuetas e linhas, o tempo passou num ápice nessa tarefa apaixonada, e quando me dei conta, a luz que atravessava a clarabóia natural parecia aproximar-se da sua posição vertical. Garatujei em siglas as cores da composição para a poder completar mais tarde, e permiti-me alguns momentos de reflexão. As gravuras representavam cenas de caça e pastorícia, lutas entre grupos antagonistas e registos religiosos ou mitológicos como o da gravura do gigante reclinado. Tinham sido sem dúvida produzidos por grupos tribais como os San, com as suas lendas e récitas, e eram já velhas quando os Zulus chegaram à região. Recolhi os meus haveres na mochila e dirigi-me para a saída depois de um último olhar pelas gravuras, ainda não tinha chegado à entrada em arco quando senti uma impressão de perigo, ouvia-se o arfar de uma respiração humana, colei-me às sombras e espreitei para a entrada – o Zulu que todos procuravam estava mesmo ali, a uns dez pés de mim e acocorado por trás de uma rocha a vigiar o vale. Ouvia-se o eco de vozes autoritárias, deveriam ser os seus camaradas que vasculhavam as imediações. Preparei o mosquete, encostei a coronha ao ombro e avancei um passo. O renegado Zulu virou-se de rompante com a mão a aflorar uma pedra do chão, mas renunciou ao seu gesto quando viu o cano da arma apontado ao seu peito. Fitamo-nos no mais completo mutismo, e eu sentia-me aturdido por trepidantes pensamentos. Podia levá-lo preso e exibi-lo como um troféu de caça, mas o que é que isso adiantaria? Não me era difícil imaginar os Zulus a desempenharem aquelas cenas de caça ou a venerarem um ícone gigantesco com máscara. Baixei o mosquete até apoiar a coronha no solo e apontei-lhe a entrada da gruta, instando-o a esconder-se ali. O Zulu passou por mim, ainda com algum receio, e imergiu nas sombras cúmplices.
Desci a encosta no sopé da plataforma da gruta, e não tardei a reunir-me aos meus camaradas.
- Então, cabo artista? – perguntou-me um deles – viste muitas pinturas naquela gruta?
- Do interior daquelas grutas, quarenta séculos nos contemplam – gracejei, e eles riram-se.
- Procuramos em todos os buracos e por trás de todos os arbustos. Aquele maldito deve estar a milhas de distância.

Concordei e voltamos para junto do tenente, os outros relataram os seus esforços infrutíferos para capturarem o fugitivo, e o tenente, em resposta, deu como satisfatórios os resultados da surtida, e decidiu que regressaríamos na manhã seguinte ao aquartelamento onde estávamos destacados. O nosso regresso ocorreria no dia a seguir ao Natal, um Natal que passáramos a trilhar caminhos rochosos e subir montes, mas o que me fazia deveras feliz, e que eu considerava a melhor dádiva que me poderiam ter feito, era ter aquele esboço das pinturas para aperfeiçoar e colorir.



Rainha


                Subiu lesto os parcos degraus que separavam o átrio do hotel do recinto sobrelevado onde haviam instalado a receção. Abriu o saco do correio e entregou ao rececionista um maço de correspondência para o hotel, previamente separada e selada com uma fita dos Correios. O rececionista agradeceu e quando o carteiro iniciava a viagem de regresso à rua, notou um cartaz no átrio a anunciar um evento literário no hotel, era o lançamento de um livro de poesia e, caprichosamente, estava a decorrer naquele mesmo dia e hora na sala de conferências do hotel, mas o que atraiu o seu olhar não foi o evento em si, os caracteres da mensagem, mas a fotografia ampliada da autora, jovem e bonita de longos cabelos negros, rosto oval de lábios cheios e olhos rasgados fitos em si. Fora fotografada sentada, algo tensa, com um braço em esquadria sobre os joelhos, e o cotovelo do outro braço apoiado neste e a mão junto ao queixo, com um amoroso dedo indicador encostado à face de tez muito branca. Emocionado sem saber porquê - uma refrega de sensações no peito, um tropel e um torvelinho de águas frias - o carteiro perguntou onde era a sala de conferências e encaminhou-se para lá. O lançamento do livro já tivera início, numa sala mais pequena do que aquilo que esperava, uma vintena de pessoas sentava-se nos lugares da frente, defronte da mesa corrida onde discursava um homem de cabelo grande e patilhas compridas. Sentou-se umas filas atrás, e pousou no chão aos seus pés o seu saco de carteiro. A autora estava sentada ao centro da mesa, ladeada pelo discursante e por uma mulher de meia-idade gorda e de cabelos ruivos compridos presos por um elástico atrás da nuca. A poetisa vestia uma camisola preta como na fotografia e e sorria com a cabeça ligeiramente inclinada enquanto o dono da palavra falava de mitemas e poemas. Por fim, o homem lá se sentou, e a ruiva do séquito da rainha declamou os versos de um dos poemas com os ésses a quererem evadir-se por um misterioso terceiro orifício que parecia ter na cana do nariz. O poema arrastou-se, parecia ser bom, embora não estivesse a prestar muita atenção por só ter olhos e ouvidos para os movimentos e expressões da autora. Quando a ruiva se sentou, a autora interpelou a audiência a perguntar se alguém tinha alguma questão a colocar ou dizer alguma coisa que achasse pertinente. O carteiro ficou suspenso da sua voz doce como uma aranha gorda e disforme na extremidade de um fino fio de seda, e logo naquele instante, instante urdido pelo universo desde a explosão primordial da matéria e do tempo, a poetisa pousou o cotovelo no colo e ergueu a mão a encostar o dedo indicador à face, e aquele gesto pulverizou a sala, as pessoas, a cidade, transformando-as em sombras ou silhuetas imateriais, fantasmáticas.
                O carteiro levantou-se, com gestos lentos como se temesse quebrar o encanto, e com os olhos dela fixos em si, através de si, perguntou-lhe:
                - Posso escrever-lhe cartas de amor?

O mentor

Desenho anatómico executado por Leonardo Da Vinci (Royal Library, Castelo de Windsor)

                - Acorda, meu pequeno! Vais chegar atrasado à escola.
                Ela destapou-o, puxando para trás a colcha e os lençóis, e ele muito atrapalhado, sonegou para debaixo da almofada uma revista pornográfica que tinha ao lado de si na cama, levantou-se de mau-humor na penumbra do quarto onde a mãe abria com alarido uma fresta dos estores, urinou na sanita e tomou um banho rápido, sempre com a porta entreaberta porque a mãe tinha medo que ele tivesse um enfarte ou algo do género e precisasse de a chamar. Ouvia a mãe na cozinha a aquecer no micro-ondas o leite para os cereais. Vestiu-se à pressa. Rotina perfeita, ele e a almoçadeira com leite chegaram ao mesmo tempo à mesa. Comeu sem vontade. A mãe falava sem cessar. Do frio, da chuva, para ele não andar desnecessariamente à chuva, e do que a meteorologia previa na rádio, e dos aumentos do princípio do ano porque ouvira um senhor na rádio a falar sobre isso, e do que ele achava, e as justificações do senhor ministro.
                Voltou ao quarto, a preparar a pasta, meteu nela uns exercícios que corrigira na véspera, e deu uma espreitadela no espelho da cómoda antes de sair. Acamou com a mão uns cabelos brancos que teimavam em ficar espetados sobre a calva, e espalhou bâton de cieiro nos lábios. Pensou que parecia o retrato da solidão personificada, um retrato cru em vermelho-sangue e roxo como pinceladas de Bacon. Apertou o lenço colorido em volta do pescoço e passou à sala onde retomou o monólogo da mãe, dizendo que sim com a cabeça como se a ouvisse.
                - E porta-te bem para teres boas notas, porque eu tenho sempre muito orgulho em ti, meu filho.
                «Eles não querem saber, mãe!»
                Não ouvira, sabia que ela não ouvira, na mãe a fala e a audição desembocavam no mesmo canal e devia ter uma espécie de membrana que fechava uma delas quando a outra estava ativa. Não valia a pena falar para ela enquanto ela não se calasse.
                - Quando chegares logo, não devo estar cá, mas deixo-te comida no forno, vou a casa da prima Isaura per...
                «Nem sei porque dou aulas, não querem saber do que falo e atiram-me coisas. Noutro dia deixaram o apagador equilibrado na porta e apanhei com ele na careca quando entrei, foi o momento de maior alegria de toda a história do agrupamento».

                - ...sei que não lavaste os dentes, mas trata disso quando voltares a casa. Até logo, e não deixes que te roubem o lanche!


Uma nova vida


               Heloísa, a minha mulher, gracejava muito com a minha ânsia de encontrar sentido e significado nas coisas mais insuspeitas - uma estrela cadente, o voo de uma libélula, o trilho de uma formiga-das-canas, e não raras vezes ouvia o seu risinho abafado enquanto eu me afadigava entre cálculos e mapas astrais com o cenho franzido e a transpirar da palma das mãos. Está tudo errado, garantia-me, a previsão é a trigonometria do absurdo, os planetas e as estrelas mudam e nós com eles, e se três planetas se alinham, eles são inocentes do sentido infantil que nós vemos nisso e o alinhamento seria diferente se vivêssemos na Lua, em Marte ou no dito de Judas. Heloísa contestava e eu mergulhava em canhenhos e quimeras, tomado agora de uma nova miragem, comecei por me interessar pelas alusões que encontrara nas Centúrias de Nostradamus aos fenómenos siderais – conjunções de planetas, sinais nos céus e cometas, muitos cometas – e num ápice estava embrenhado nas profecias do astrólogo occitano, revendo cada interpretação de cada quadra ou sextilha, os topónimos e antropónimos codificados nos textos, as espúrias derivações linguísticas que constituíam misteriosos recursos criptográficos, tendo como esperança subjacente a possibilidade de estar a espreitar pela janela do futuro através dos olhos fatigados do velho profeta. Heloísa abandonou o meu leito na noite em que me surpreendeu na cave a tentar repetir o método de profetizar de Nostradamus e das pitonisas, envolvido pelo fumo alucinogénio e com os olhos fixos numa taça com água suspensa de um tripé de bronze.
                Ela enfastiara-se dos meus interesses e partiu, fez-se á estrada com um caixeiro-viajante que nutria a mesma paixão que ela sentia pela dor sofisticada que se podia extrair de realizar incisões na própria carne ou retalhar a epiderme em círculos e volutas que se acendiam de tons sanguíneos. Por ironia do destino, depois de Heloísa partir – ela que era a minha cínica consciência, o meu gafanhoto de Pinóquio com sintomas depressivos – em vez de me sentir mais livre para os meus devaneios e fantasias, comecei a sentir-me cada dia mais prosaico, sem ânimo, com uma crescente aversão pelo que transcendia a minha capacidade de perceber ou explicar sem reservas. Foi um processo lento, uma metamorfose em lume brando, e teve os seus custos. Dececionei e defraudei as pessoas que me procuravam pelo meu Eu de antigamente, clientes que me consultavam e amigos com quem antes debatia com entusiasmo ideias e fantasias borboleteantes. O peregrino e o alquimista em mim vestiram roupa de trabalho, e regressaram comigo às ruas para cumprir tarefas remuneradas, concretas e coletáveis. Na minha casa, à conta desses anos de quimeras acumulara um espólio heterodoxo que se compunha de livros e anotações, alguns devaneios oníricos registados em pergaminho, diagramas astrológicos e mapas astrais, e relíquias mais ou menos avalizadas como unhas de dragão ou um chifre fóssil de unicórnio. Tive de abandonar a casa, reguei-a com gasolina e incendiei-a, chamando os bombeiros com um telefonema anónimo quando as chamas ameaçavam alcançar as casas contíguas. Seguiram-se as cinzas, as perguntas, a investigação de que fui objeto e a pena pecuniária com que arrumaram o assunto.
                Mas as coisas esfriaram, e eu fiz reconstruir a casa, tijolo sobre tijolo, parede contra parede, depois de fechada e rebocada, o seu interior branco e impessoal tornou-se tão acolhedor como os braços de uma morta. Mas era esta a casa que eu precisava em volta de mim, a minha concha do lado de dentro de tantas quimeras inúteis. Sem surpresas, a minha vida começou a mudar, iniciei novas amizades com pessoas que se identificavam com a minha maneira de pensar e viver e mesmo Heloísa regressou, de forma espontânea e inocente como se tivesse saído de casa apenas na véspera e não tivesse tido outra intenção senão ir visitar algum familiar distante ou a ir a um workshopde gestão de empresas.

                Com o regresso de Heloísa, a minha nova vida ficou completa, suficiente, serenada. Ela adorou a minha nova pessoa, e a forma como eu lidava agora com a existência, mas a espaços sugeria que deveríamos procurar uma casa bem longe para nos mudarmos, uma casa construída de raiz num sítio sem resíduos do passado, porque era-lhe difícil entregar-se à sua paixão pela jardinagem e andar pelo jardim  a ouvir as vozes que saíam da cave onde eu guardara o carcomido tripé de bronze, ou o piar lúgubre das gárgulas que se vinham empoleirar na empena da casa.

arenga sobre o amor

«Tu és a mulher amada: destrói-me! Tua beleza /Corrói minha carne como um ácido! Teu signo / É o da destruição! Nada resta / Depois de ti ...