Um caso de bullying

O Minotauro, de George F. Watts
      As folhas secas dos plátanos sob a sola das sapatilhas soavam a folhas de papel mal carbonizadas a serem esmifradas entre os dedos. Michel reteve esse pensamento enquanto subia com cuidados redobrados a ladeira de terra barrenta entre os dois blocos de salas da escola. Era sempre essa a estratégia, optar pela ladeira e não pelas escadas de tijolo e cimento, plus, evitar cruzar os pátios concorridos de gente entre os blocos, plus, queimar o tempo dos intervalos e da hora de almoço em sítios pouco apetecíveis como as áreas envolventes das portarias de entrada na escola e a restinga verdescente ao lado dos contentores da reciclagem. Foi aqui que reviu os seus dois amigos, estavam sentados num murete caiado e trocavam cartas repetidas, descrevendo com pequenas exclamações as habilidades e poderes dos personagens das cartas. Cumprimentou-os com um aceno e sentou-se por perto, a explorar um novo jogo que descarregara para o seu telemóvel.
                - Demoraste… - comentou Lucas.
                - Depois de comer, fui comprar senhas de almoço e quando vinha para aqui, a Rute meteu conversa comigo, precisa de ajuda para um trabalho de geografia que tem para fazer.
                - E vais ajudá-la?
                - Sim, ela é minha prima direita, se não a ajudar isso ainda chega aos ouvidos da minha mãe e fico marcado para o resto da vida.
                Michel guardou o telemóvel. O jogo que escolhera era uma seca e não lhe apetecia ficar ali mais uma hora sem nada para fazer.
                - Vou subir até ao campo da bola – disse-lhes – a esta hora não há é-éfe e pode ser que esteja lá malta fixe e consiga jogar um pouco ou dar uns toques. Deixo aqui a minha mochila.
                Largou-a ao pé deles e subiu mais uma ladeira de terra e no fim desta caminhou paralelamente à vedação de rede que envolvia o campo. O campo de jogos situava-se no topo nascente dos terrenos da escola, era a última coisa que havia antes da rampa alcatroada que dava para uma das saídas. Enquanto contornava a rede, ouviu vozes no recinto, acelerou o passo na subida e cruzou a entrada do campo de jogos para logo se imobilizar. Quatro alunos mais velhos brincavam com uma bola de básquete, mas um deles, o mais alto, virou-se de imediato para ele com um sorriso sardónico que lhe gelou o sangue. Douglas, assim se chamava o aluno do nono ano, deu dois passos na sua direção, como se o quisesse demover de tentar fugir. Douglas não trajava de modo diferente dos outros, e quem o ouvisse falar, não conseguiria distingui-lo dos demais. Mas ninguém o confundiria com os colegas pelo arco que as suas clavículas formavam acima dos ombros, com a sua cabeça bovina fundida nos ombros, o queixo proeminente e olhos oblíquos e aquele altivo par de cornos que a todos infundia respeito pelas suas ameaçadoras pontas aceradas.
                - Queres jogar connosco, puto? Precisamos de alguém na equipa que consiga encaixar uma bola no peito – e antes que Michel pudesse responder, Douglas já o alcançara, encostou a palma da mão direita ao seu plexo solar e empurrou-o com força, fazendo cambalear e cair contra a vedação de rede.
                Michel enclavinhou os dedos na rede e pôs-se de pé num instante com medo de levar mais pancada. Sentia-se indisposto, e a vibração metálica dos elos da rede soava-lhe como risos.
                - Eu não posso, tenho aulas agora e preciso de ir, porque estou tapado a faltas em quatro disciplinas – respondeu num jorro de palavras. Mentia, e sentiu vergonha por isso, mas achou que isso podia apaziguar os ânimos, porque era o que os bullies da escola faziam, faltavam até deixarem de poder faltar.
                - Douglas – chamou um dos outros – vamos continuar o jogo.
                Douglas hesitou, a cornamenta a oscilar ligeiramente com os movimentos da sua cabeça, e nesse ínterim Michel começou a correr, e desceu a ladeira, só parando quando se juntou aos amigos.Trazia lágrimas nos olhos e estava capaz de vomitar. Lucas e Belisário coibiram-se de lhe fazer perguntas, tal era o estado em que o viam. Michel tirou o telemóvel da mochila, e voltou ao jogo que antes o enfastiara, tentando disfarçar o choro remordido. Quando se aproximou a hora do primeiro tempo da tarde, Michel levantou-se de um salto e encaminhou-se para a sala de aulas.
                - Belisário – murmurou Lucas, fazendo-o deter-se quando ia seguir o amigo – posso fazer-te uma pergunta algo estúpida?
                - Diz…
                - Porque é que nos escondemos deles? Sei que eles são a força e que o poder é a prerrogativa do uso da força e tenho perfeita noção de todas essas coisas mais ou menos darwinianas em que todos acreditam, mas não era mais fácil tentarmos anular os bullies, participar deles ao diretor e obrigá-los a andarem na linha?
                Belisário riu-se, pousou amistosamente as manápulas nos ombros de Lucas e olhou-o, muito sério.
                - Lucas! – suspirou – por vezes a tua ingenuidade comove-me. Primeiro os tipos não olham para ti e veem uma pessoa, eles não veem nada, são massas brutas de violência cega, tão éticos e sensíveis como um punho atirado ao nariz de um tipo. E depois, ninguém faz nada contra os chifrudos porque é assim que o sistema funciona e o sistema é autofágico e não conseguiria criar ou imaginar um outro sistema diferente ou uma outra realidade. Imagina que a escola é um enorme galinheiro numa quinta, e que o diretor e os profes são os empregados da quinta que entram no galinheiro para dar comida à criação e recolher os ovos e de vez em quando levar um galináceo para ser morto. Achas que eles realmente se importam se a ninhada de uma galinha é morta pelo peru, ou que o galo vaze com bicadas os olhos dos franganitos? Não lhes tira o sono as rixas entre os animais porque as galinhas e os frangos estão onde deveriam estar, e continua a haver ovos para recolher e tudo o mais que seria regular e comum esperar-se de um galinheiro. Um diretor ou um profe não tem necessidade de interferir nesse podre equilíbrio feito de sujeição e domínio, e se eu ou tu tentássemos forçá-los a tomar uma atitude, as coisas não ficariam muito famosas para o nosso lado.
                - Ainda assim, deve haver alguma coisa que possamos fazer… quantos bullies existem na escola toda? Quatro? Cinco?
                - Quatro! O Douglas, o Pedro Sá e o Mário Zé no nono ano, e temos o Estilhas na nossa turma. Mas se queres organizar uma luta épica contra os ogres do Senhor dos Anéis, tens de contar com uns quantos que orbitam em volta deles, que são os tristes que se riem das piadas deles e que contribuem para as suas sessões de humilhação pública.
                - Tenho um plano! – confessou Lucas, com os olhos brilhantes, enquanto os dois respondiam ao toque de entrada, encaminhando-se para a sala – só mais uma questão, se pudesses colocar os quatro num ringue de boxe para lutarem entre eles, em qual dos quatro apostarias?
                - No Estilhas, sem dúvida, é o mais velho dos quatro, e nenhum dos outros lhe faz sombra. Porque perguntas?
                - Temos plano! – respondeu, furtando-se a mais explicações.
                No dia seguinte, logo no primeiro tempo, Lucas faltou a Educação Cívica e foi à procura do Estilhas. Queria encontrá-lo mas sem correr muitos riscos. Posicionou-se perto da portaria à espera que ele entrasse na escola, era um lugar ideal porque estava encostado de viés à coluna de alpendre na entrada de uma sala de aulas e um arbusto Hibisco ao seu lado, despojado de flores, coroava com a sua rama um canteiro no meio do pátio de cimento, dissimulando a sua presença ali. A atenção que dispensava às escadas de acesso à escola e à entrada exígua foi desviada por breves instantes por uma aluna de cabelos negros como azeviche que desenrolava no chão alcatroado um novelo de fio de guita, aparentemente sem nenhuma razão plausível, desenrolava-o apenas como se isso a divertisse, e quando o fio que a brisa ameaçava levantar nos ares já tinha uns bons metros de extensão, Lucas ergueu os olhos, e viu que na outra extremidade, junto à aluna e ao seu novelo fútil, o Estilhas acabara de passar pelo portão pequeno. Lucas abandonou o seu precário refúgio e pisando no fio para o manter colado ao chão, caminhou sobre ele e aproximou-se do Estilhas, que estacou à sua frente num misto de surpresa e divertimento. Lucas olhou para os seus pés, evitando fixar a sua cabeça de cornos largos, ou os punhos que adivinhava cerrados como martelos, prontos a esmagá-lo.
                - O que é que tu queres, totó?
                Deixou passar a referência, gostaria de lhe dizer que se chamava Lucas, e que estava confiante de que esse nome lhe vinha de Loki, o deus ardiloso, mas isso não era importante naquele momento.
                - Tenho um ne-ne-gócio a propor-te… a pr-propor a si… - gaguejou com os nervos.
                - E porque é que eu iria fazer negócio contigo? Tens alguma irmã bonita para mim?
                Lucas negou com um aceno de cabeça.
                - O negócio que quero propor seria benéfico para os dois, seria um acordo simbiótico, como diria a nossa professora de Ciências – e sabendo que ele não entenderia o sentido do que lhe dissera, estendeu-lhe de imediato umas quantas folhas de papel, presas por um clipe.
                - O que é isto? Um pacto de sangue?
                - Nas primeiras três folhas, imprimi as respostas às fichas de trabalho de Português, Geografia e Ciências, só tens de copiá-las com a tua letra. Respondi a essas perguntas com a ajuda do Belisário. Na terceira folha tens os exercícios de matemática que o professor nos deu para o fim-de-semana, e que foram resolvidos pelo Michel. Nós três podemos ajudar-te, fazemos os teus trabalhos, damos-te explicações para os testes, e até podemos ensaiar algumas formas de te passarmos as respostas durante as provas.
                - A ideia interessa-me, puto, mas se é um negócio, o que é que vocês querem em troca? Dinheiro?
                - É muito simples, precisamos de proteção, precisamos que tu expliques ao Douglas ou ao Pedro Sá que não podem bater em nós, porque somos da tua turma e só tu o podes fazer, ainda que nós – é claro! -esperemos que tal nunca venha a ser preciso, isto é, tu bateres em nós, percebes?
                - Percebo! – respondeu o Estilhas, ainda pensativo. Na sua reiterada carreira de aluno repetente, aquela fora a proposta mais estranha que alguma vez lhe tinham feito – se vocês cumprirem com a vossa parte, eu cumpro com a minha…
                - Já começamos a cumprir, e vamos cumprir enquanto houver aulas no universo – respondeu Lucas, vibrante de entusiasmo, ansioso para relatar o acordo ao Michel e ao Belisário.
                Pegou na mochila e saiu a correr à procura dos amigos. Soou o toque de saída e os alunos abandonaram as salas numa algazarra algaraviada, e na sua euforia Lucas abandonou todo o tipo de prudência, e começou a arrepiar caminho por entre os grupos de alunos no pátio quando sentiu uma mão forte a prender-lhe um braço. Era o Douglas.
                - Onde é que vais com tanta pressa, Coxo? Pensei que os coxos não corriam – e sem lhe largar o braço, deu dois passos em volta dele, manquejando com nítido exagero.
                Lucas avaliou a situação. Fora fisgado num canto do pátio de cimento, o Pedro Sá e o Mário Zé também lá estavam e estrategicamente olhavam em volta para topar onde paravam os funcionários da escola ou os professores. Quando o Douglas desempenhou aquela momice, Lucas ouviu uns risinhos abafados saídos de um grupo de raparigas ali ao pé, pelo que teve a certeza de que o suplício iria continuar. Douglas, soprando pelas ventas, aproximou-se dele até a curva áspera de um dos seus cornos lhe tocar no couro cabeludo, e continuou com uma voz bem audível.
                - Sabes como é que deixavas de coxear, Coxo? Coxeando dos dois pés! – ouviu rir e prosseguiu – se te partissem o pé bom, ficavam os dois pés iguais e já não coxeavas.
                - Douglas!
                A voz roufenha do Estilhas surpreendeu a todos. Aproximara-se calmamente dos dois, e ordenou-lhe:
                - Larga o puto! Ele é da minha turma e não tocas em ninguém que seja da minha turma, ouviste!?
                Douglas largou o braço de Lucas e consultou os dois aliados com o olhar, que lhe confirmaram que não havia ninguém a recear por perto. Douglas saltou em frente com um braço fletido no ar para esmurrar o Estilhas, mas este já esperava essa reação, porque se desviou de través, e estendeu-lhe a perna, fazendo-o cair aparatosamente no chão. Os alunos em volta cerraram fileiras para que olhares indesejáveis não descobrissem a contenda, e Douglas, enraivecido, levantou-se e avançou para o Estilhas com os braços retesados, os cornos de um e de outro entrechocaram-se com estrondo antes que o Estilhas tomasse a iniciativa e o esmurrasse repetidamente nos pulmões, fê-lo cair com um violento puxão, e assestou-lhe em seguida alguns pontapés no corpo caído, que venceram todo o tipo de resistência. Sob alguns gritos de auxiliares que acorriam ao local, dois alunos ajudaram Douglas a levantar-se e arrastaram-no dali seguro pelos ombros, enquanto o Estilhas descia as escadas no sentido oposto, com a mão direita a esfregar o ombro onde a ponta de um corno de Douglas lhe causara uma pequena laceração. Lucas seguiu atrás dele e alcançou-o quase no último degrau das escadas.
                - Obrigado! – agradeceu com visível comoção – obrigado mesmo!
                - Não agradeças, puto, é só um negócio, e vocês vão ter de trabalhar muito para merecer a minha proteção.
                Lucas concordou, intima e profundamente grato, e até ao fim dos tempos. Voltou a subir apressadamente as escadas na direção da sala de aulas, Michel e Belisário reuniram-se a ele pelo caminho, sorrindo abertamente e trocando como mimos pequenas palmadas nos ombros, esquecidos por fim do denso medo de todos os dias.

arenga sobre o amor

«Tu és a mulher amada: destrói-me! Tua beleza /Corrói minha carne como um ácido! Teu signo / É o da destruição! Nada resta / Depois de ti ...