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Geena




                No rincão das matas enegrecidas, onde as árvores carbonizadas se assemelhavam a costelas fraturadas do corpo de uma baleia gigantesca, os homens e as máquinas começaram a limpar uma área do tamanho de três campos de futebol que subia da estrada larga pela aba dos montes até à crista rochosa e estéril onde só os feros arbustos conseguiam sobreviver com as suas raízes enclavinhadas como garras ao mineral. Os troncos enegrecidos eram cortados junto às raízes e empilhados por meios mecânicos em pequenos montículos triangulares que decresciam da base para o topo, dando a vez na cadeia de processamento a outras máquinas que levantavam com tenazes de aço esses troncos em número de três ou quatro de cada vez para os depositar nos camiões parados ao longo da estrada, que logo abandonavam temporariamente o local quando ficavam carregados. Nas áreas onde já não havia troncos, outras máquinas juntavam os ramos subsidiários em montes crescentes, aos quais se somariam as raízes quando fossem arrancadas do solo numa operação posterior. O trabalho era intenso e quase ininterrupto, prolongando-se desde os primeiros alvores do dia até ao ocaso, havendo casos em que se prosseguia depois disso à luz de faróis e holofotes potentes; e a dimensão da zona que tinha de ser limpa justificara a instalação numa área adjacente de contentores-dormitório onde os operários dormiam, e de cozinhas e posto de enfermagem para os apoiar. Querendo controlar e supervisionar todo o processo, o engenheiro que coordenava os trabalhos, requisitou também um desses contentores-dormitório para si e para a sua família – a esposa trabalhava no posto de atendimento médico, enquanto a filha adolescente, Sophie (o nome fora escolhido quando estavam emigrados na Bélgica) de gozo de férias escolares, quisera vir com eles por sentir uma enorme curiosidade pelo trabalho do pai. O engenheiro andava sempre muito atarefado durante o dia, organizava o trabalho e verificava a correta articulação de todas as fases da operação, procurando suprir qualquer lacuna técnica ou logística que surgisse do nada, e era seguido de perto pela filha, com um capacete na cabeça, que cumpria as recomendações do engenheiro sobre a distância que deveria guardar das máquinas em movimento, e a proibição que este lhe levantara de se aventurar sozinha por aqueles montes e vales. Sophie depressa se aborreceu, circunstância agravada pelo facto de a mãe não poder acompanhá-la porque passava quase todo o dia no posto de enfermagem; e depressa começou a sair da órbita do pai para percorrer os montes e vales proscritos pela sua interdição. Não a viam durante quase todo o dia, e nunca se preocupavam com isso, porque ambos a julgavam vagamente na companhia do cônjuge. Quando os três jantavam juntos ao anoitecer, antes de se recolherem para um merecido repouso, narrava-se por vezes as peripécias dos dias mas Sophie fechava-se sempre em copas, o que os pais não estranhavam porque eram atitudes habituais naquelas idades. Foi o pai quem primeiro se sentiu alertado ao avistá-la no meio da poeira levantada pelas rodas gigantescas das máquinas, a caminhar na direção dos montes com um garrafão de água em cada mão. Tentou segui-la, mas perdeu-a de vista. Ligou à mulher, e entre os dois percorreram as imediações em busca dela sem a avistarem ou darem pelo seu regresso, mas à tardinha, encontraram-na junto às acomodações a alimentar o gato de pelo acobreado que haviam trazido com eles da cidade. Num acordo tácito, mudo e implícito, foi a mãe quem ficou encarregue de a sondar sobre o seu passeio. Esperou que o pai não estivesse por perto e disse-lhe que a tinha visto passar enquanto fazia um curativo num homem que esfolara o cotovelo nuns ramos. Sophie não adiantou grande coisa, limitando-se a contar que dera uns passeios pelo recinto de intervenção. Ao saber do resultado da conversa, o pai limitou-se a contar à filha com uma forçada ligeireza que um dos trabalhadores que operava as motosserras ia partindo a perna quando a enfiou por um buraco no chão encoberto por folhas e cinzas, e desse modo reforçou o seu discurso sobre a periculosidade daquelas paragens inóspitas e bravias.
                No dia seguinte, o casal alargou um pouco as suas rotinas no fito de um deles estar sempre próximo de Sophie e o engenheiro encarregou os seus homens de confiança de a terem também debaixo de olho, mas uma vez mais, ela desvaneceu-se da vista de todos como se fosse alguma miragem imaterial, e no final do dia reapareceu junto do pai enquanto ele assinava uma autorização de combustível. Os pais de Sophie toleraram os seus misteriosos desaparecimentos por uns dias, conscientes de que estavam a exigir muito dela ao manterem-na com eles naquele fim-de-mundo, mas a crescente suspeita de que estivesse envolvida com algum dos operários, todos homens maduros e muitos deles de meia-idade, angustiava-os e empurrou a mãe de Sophie para uma conversa mais séria, que teve lugar próximo do lusco-fusco, longe da sua casa precária e junto a um camião em repouso. A mãe abordou o assunto depois de muitos rodeios, precisava de saber por onde ela andava, até para se sentir mais tranquila e conseguir estar mais concentrada no seu trabalho.
                - Tenho visto uma pessoa – explicou ela por fim.
                A mãe alarmou-se, era um homem? Tinham tido relações? Sophie riu-se. Encontrara uma mulher na encosta, estava deitada entre as pedras e parecia muito fraca porque o coração quase não batia. Tinha a pele enegrecida pelo carvão e pela fuligem e pedira-lhe água porque tinha muita sede.
                A mãe ligou para o marido e os dois contrainterrogaram Sophie – podia ser uma sobrevivente do incêndio que lavrara naquelas paragens? Tal hipótese era absurda porque o incêndio fora dois meses antes, e ninguém sobreviveria sozinho por esse tempo todo – mas a jovem continuava muito tranquila. A mulher não lhe parecia ferida nem com fome, apenas com muita sede, mas depois de lhe levar água durante dois dias seguidos, ela recobrara forças e já se conseguira levantar e conversava com ela, sentadas as duas nas pedras.
                Conversavam sobre quê? A pergunta impunha-se, e Sophie evocou-lhe o teor das conversas enquanto regressavam ao contentor-dormitório.
                - Ela primeiro quis saber de mim, como é que eu me chamava, quem eram os meus pais e os meus amigos. Falei-lhe de como era o comum dos meus dias, os meus sonhos, os segredos que mantinha com as minhas amigas. Falamos mais demoradamente dos sonhos, que era o nosso tema dileto, ela disse-me que tudo o que existe - objetos, criações, pedras e animais - compõem-se dos sonhos que lhe deram origem mas também daqueles que não os chegaram a integrar mas que de uma forma peculiar comungam da sua existência e a enriquecem. Nada existia que fosse acessório e excedente, mas todas as coisas, seres e ideias eram como rebentos diferentes de uma mesma planta e estavam ligados por uma estrutura diáfana que era invisível à maior parte das pessoas.
                - Uma filósofa, em suma – sentenciou o engenheiro, não conseguindo velar o tom irónico das suas palavras.
                - Sim, aquela mulher pareceu-me muito… amadurecida, daquelas pessoas que estão continuamente a refletir sobre as coisas e a descobrir novos sentidos em tudo. Quando lhe pedi para me falar dela, ela preferiu contar-me uma das lendas da sua aldeia que os anciãos transmitem aos mais novos junto a uma lareira a rescender a giestas e a lenha de sobro. E era mais ou menos assim – na sua aldeia existia há muitas centenas de anos um homem cúpido a quem fazia impressão o que os outros homens comiam e bebiam, e o prazer que pareciam ter nisso, e por tal começou ele a devorar todos os alimentos e a beber toda a água que encontrava, comeu frutos e animais, emborcou a água dos riachos, rios e lagos, e tudo ficou seco como um selha cheia de areia, e quanto mais comia, mais crescia, e já de proporções gigantescas e depois de beber a água que as nuvens soltavam, lembrou-se de comer o próprio Sol, que era coisa de que todos gostavam, o que muita inveja lhe fazia, e por isso abocanhou o Sol até o ter inteiro dentro da barriga. Depois de engolir o Sol, já não havia água na terra que lhe acalmasse o ardor que sentia na barriga, e o Sol começou a queimá-lo por dentro até que ardeu e explodiu num fogaréu pavoroso. As águas, as sementes e os frutos foram libertados de novo e germinaram no mundo, e os ossos calcinados do gigante cúpido sobrevivem até hoje nos rochedos de negro basalto dos planaltos. Quando lhe perguntei porque é que me contava aquela lenda, ela disse-me que as lendas eram como as parábolas, serviam para explicar o que se tem muita dificuldade em transmitir.
                Os pais de Sophie entreolharam-se. Sophie, três anos antes, ainda mantinha fecundas conversas com uma amiga imaginária de quem lhes descrevia com uma profusão de detalhes o aspeto, as roupas, ou as conversas, talvez a mulher de pele encarvoada fosse uma reminiscência dessa amiga desaparecida.
                - E podemos conhecer essa tua amiga? Eu gostava muito! – disse-lhe a mãe.
                - Hoje ela já não estava lá, mas eu podia sentir a sua presença, uma impressão desolada de tristeza e dor, como daquela vez que fomos para visitar a avó e ela já estava morta, e os cães dela cá fora ganiam todos ao mesmo tempo, tomados de uma dor imensa.
                - Sim, lembro-me desse dia triste. Mas podemos ver o lugar onde ela estava, pelo menos?
                - Claro! Amanhã levo-vos lá.
                O engenheiro falou pelo telefone ainda nessa noite com o encarregado para o avisar que na manhã seguinte tinha uma tarefa a desempenhar e que iria chegar mais tarde, e a esposa fez o mesmo em relação ao posto de enfermagem. Quando os dois se juntaram sob as cobertas, e notando que a filha já dormia, o engenheiro colocou por palavras a questão que deambulava no seu espírito:
                - Achas que ela viu mesmo alguém, ou será apenas uma fantasia?
                - Não te sei dizer – murmurou a esposa – estou inclinado a pensar que ela sentiu alguma coisa. A idade dela é uma idade complexa em que as tempestades mordem e o poder despe os seus véus.
                - O poder?!
                - Já falamos sobre isso, bel de jour, as mulheres têm poderes, quase nunca chegam a tomar posse deles, mas existem em latência no seu espírito e na sua libido. Umas são janelas abertas para forças e seres de mundos paralelos, outras escrutinam ou sentem o futuro… - o marido encostou dois dedos aos seus lábios e ela calou-se, suspensos os três no silêncio da divisão. Sophie mexera-se no leito como se estivesse quase desperta e o engenheiro aproveitara para concluir a conversa, porque já conhecia o seu curso.
                - Amanhã já vemos! – sussurrou na penumbra – vamos dormir…
                Ao romper da alvorada, notaram que Sophie já estava acordada e vestida, e comia os seus cereais da manhã – os pais apressaram-se e os três tomaram o caminho dos montes sob um nevoeiro cerrado, quando já se ouvia as primeiras máquinas e as primeiras motosserras a laborar. Sophie parecia muito segura do caminho, guiada por detalhes que lhes ia indicando – um castanheiro calcinado, uma rocha isolada semelhante a uma coroa, o ésse do leito seco de um riacho, com as suas escadas de pedra e os fundo de areia e seixos. Enquanto caminhavam, o engenheiro olhou em volta. Ali o fogo parecia ter sido ainda mais intenso do que na zona do vale, com tudo enegrecido e as árvores consumidas quase até à medula, observou também vasos de resina estilhaçados pelo calor infernal. Devia ter sido ali o ponto extremo do incêndio, e talvez se tivesse propagado a partir dali para o resto do vale.

                - Foi aqui que a encontrei! – exclamou a jovem, a apontar uma pedras ao pé deles no meio da encosta. Ela estava deitada entre estas duas pedras compridas, parecia ter caído ali, arfava como se lhe faltasse o ar, e pedia-me água.
                - E estava suja do carvão – lembrou a mãe – o que é normal, porque aqui está tudo queimado, mato, árvores e pedras. Não tinha feridas ou cortes?
                - Não que eu visse…
                - É estranho que houvesse aqui alguém – refletiu o pai em voz alta, procurando racionalizar o sucedido – podia ser uma mulher que morasse aqui perto a apanhar madeira, mas as casas mais próximas estão a dez quilómetros do nosso acampamento no vale.
                - Ou alguém que tivesse morrido aqui – adiantou a esposa. Acusou o olhar de desagrado do engenheiro e justificou – eu também sinto, como Sophie, uma espécie de funda tristeza neste lugar, mas pode ser efeito de estarmos no meio de tanto negrume e devastação. Achas que ela irá voltar aqui, filha?
                Sophie acenou negativamente, com algum desalento.
                O engenheiro dobrou-se ao lado das duas pedras que Sophie indicara, no meio da cama de cinzas recurvava-se um fragmento metálico circular como o rebordo de um vaso. Sabia tratar-se do vestígio de uma botija de fogão de campismo, que era um dos componentes dos engenhos incendiários que se havia usado ali. A esposa notara o seu gesto.
                - Encontraste alguma coisa?
                - Um vaso de resina partido.
                Com a sola das botas curvou o fragmento até o enterrar por completo na cinza.
                - Devíamos voltar de imediato, porque temos muito trabalho pela frente – considerou – Se Sophie voltar a ver a senhora, voltamos aqui para conversar com ela, ou pode convidá-la para ir a nossa casa beber um chá e narrar as suas lendas.
                E sem esperar pela aquiescência da família, tomou resolutamente o caminho de regresso, carregando a impressão de desconforto de estar a ser observado por uma infinidade de olhos, dissimulados na noite telúrica do carvão e das cinzas.


O Processo de Jesué Nazareno

     Texto original que foi submetido a um concurso literário (sem sucesso), transita aqui para o arquivo morto desta página, para o caso da...