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Cinco breves idades


              Tinha completado TRÊS ANOS quando começou a falar, para alegria da família e da aldeia onde morava. O padre André decretou novenas de louvores a Nossa Senhora pelo milagre, e estralejaram foguetes na rua onde era a sua casa, e as visitas a sua casa sucederam-se, trazendo presentes dignos de reis magos – um capão bom para matar, laranjas sumarentas e luminosas como pequenos sóis, feno para as ovelhas que o pai dele criava no quintal. Todos queriam saber porque só então começara a falar. Cansado de tantas perguntas de tanta gente, o menino ainda assim explicava com uma clareza invulgar para a sua idade que primeiro teve de aprender a língua das galinhas e das ovelhas do quintal, depois das andorinhas do beiral do telhado da casa, dos melros que saqueavam a cerejeira grande, e dos corvos pacientes que rondavam o corpo decrépito do avô velho. Só quando descobriu que não havia mais nenhuma língua importante para falar, achou que era chegada a altura de falar com as pessoas.


                Com SETE ANOS feitos, pela Páscoa, o circo levantou a sua tenda num prado junto à aldeia. Todo o dia havia música e a trupe circense desfilava pelas redondezas, equilibristas sobre andas, lamas e dromedários, palhaços de pinturas garridas e sapatos gigantes. Os pais avisavam-no – cuidado com a gente do circo, que te escondem numa mala e levam-te com eles quando partirem, e nunca mais te vemos! Mas o menino desejou partir, estar com os lamas e os dromedários e rir-se com os palhaços, e por isso infiltrou-se no circo para fazer parte dele, e escondeu-se nele no lugar mais escuro, estreito e secreto que descobriu, incerto se o tinham visto a esconder-se. À noite, armou-se o espetáculo, e o menino ouviu no seu esconderijo as risadas dos espetadores causadas pelos palhaços e os ais! e uis! pela ferocidade das feras e pelas proezas arrojadas dos trapezistas. Depois ouviu-se um rufar de tambores, os focos dos holofotes bailavam diante do seu esconderijo, e num estrépito ensurdecedor o canhão foi disparado, e o menino-bala foi projetado pela entrada do circo, voou pelos ares e foi aterrar no feno empilhado no quintal da sua casa.


                Com QUINZE ANOS, uma amiga de quinze anos também, entrou na sua vida para pô-la em ordem, abriu as janelas e as portadas do seu coração, sacudiu os tapetes e cortinados e pô-los a assoalhar, limpou de sombras e cinzas amargas os recantos da sua morada e trouxe para dentro de si as cores e os olores inebriantes das flores com que preencheu jarrões de louça e solitários de vidro iluminado. Tudo o que ela fazia traduzia-se por sentimentos e ações que tornavam a sua morada mais acolhedora e os seus dias mais leves, metódica e sensível, ajudava-o a ordenar as suas sensações e sentimentos com os seus lábios solícitos, as suas mãos ternas e a sua pele e carne acariciantes. A luz do exterior permanecia dentro de si, mesmo quando fechava as janelas e portadas, e era uma luz tátil, perfumada, como o ar dos prados e dos pomares, ou o cheiro íntimo da sua pele no remanso dos lençóis. Quando ela olhou em volta e apreciou tudo o que fizera pela sua morada, disse-lhe que considerava concluído o seu trabalho, e saiu da sua vida como uma serviçal que se escapulisse pela porta da casa às horas cúmplices da alvorada. Depois dela partir, sentiu-se algo melancólico, incompleto, mas tudo isso desapareceu quando se deu conta de que ela não saíra completamente de si, cada coisa que ela arrumara dentro dele, cada flor, verso, beijo, fotão de luz, tinha o seu toque, estavam presentes, viviam nele.


                Com DEZANOVE ANOS conheceu Heloísa, uma mulher extraordinária, na aceção mais ordinária que essa palavra pode transmitir. Heloísa, pouco tempo antes de o conhecer, tivera uma epifania porque descobrira que os seus pés chegavam sempre onde as suas mãos não alcançavam, esticava as mãos até ao limite e nunca chegava a coisa nenhuma, mas bastava adiantar um pé e chegava onde queria. Os pés dominavam o pensamento e as ações de Heloísa. Com Heloísa passou por uma fase podónica antes de a conhecer na intimidade, e mesmo aí a sua relação era extraordinária porque se compunha de podorícias, podósculos e podorgasmos, e Heloísa não permitia que enquanto estavam juntos, houvesse um momento em que os pés não fossem acariciados e acariciantes, membros de pleno direito do corpo dos dois, oficiantes supremos nos seus ritos de prazer. Mas se a vida íntima com Heloísa era satisfatória, ainda que excêntrica, o que o perturbava, era sair em público com ela, não havia dia em que fosse ao cinema, em que ela não se ajoelhasse aos seus pés diante de si, toda curvada para diante para render tributo aos seus pés com beijos ou carícias, ou então se descalçasse, e a-pontasse uma perna sobre o braço da cadeira só para colocar um dos seus pés ao alcance do seu rosto e boca; e quando namoravam no banco do carro ou num banco do jardim, o seu namoro privilegiava sempre a extremidade inferior do corpo sob o olhar bizarro dos transeuntes. E acabou por dizer que queria acabar com ela, no próprio dia em que almoçavam com os pais dele, e ela desapareceu debaixo da mesa porque sentira um desejo incontrolável de lhe beijar um artelho. Quando se despediu dele, em vez de lhe pedir a devolução de coisas que lhe tinha dado, ou como nos tempos antigos, de cartas que lhe havia escrito, ela só lhe perguntou se podia fazer, para recordação, um molde de gesso dos seus pés.



               Com VINTE E CINCO ANOS, já casado e com filhos, e numa altura em que reuniu a família próxima pela ceia de Natal, uma prima da sua mulher teimou em ler-lhe a sina. Apesar das muitas reservas da sua parte, ela contou-lhe o que a sua mão lhe dizia. Entre outras coisas, dizia que, por exemplo, iria ter sucesso não se sabe em quê se trabalhasse muito, mas disse-lhe logo às primeiras, que ele teria duas mulheres importantes na sua vida. Por estranho que pareça, isso impressionou-o de forma devastadora, e nunca mais deixou de pensar no assunto. Pensava em quem seriam essas duas mulheres. A primeira, para ele, estava identificada, o seu primeiro amor e sua primeira experiência sexual aos quinze anos. A segunda mulher era um mistério. Não era a sua esposa, não fora importante, nem ele para ela, casaram-se para arrumar a vida, porque estava na altura, porque até se davam bem, o que não acontecia com a maioria dos casais, foi um acordo tácito de matrimónio, um casamento amigável. Quem seria então a segunda mulher? Esse pensamento esteve subjacente em cada relação adúltera que encetou, em cada amizade, em cada mulher bonita que cruzava o seu caminho. E como esperou muito e com muita intensidade, ela acabou por aparecer, ou reaparecer, porque era a prima da sua mulher que lera a sina, teve a certeza de que era ela na primeira noite em que se envolveram, a entrega entre os dois foi total, os seus sentimentos entrelaçavam-se, identificados em absoluto um com o outro, e numa dada manhã, enquanto ela se vestia no segredo de um quarto de hotel, ele perguntou-lhe de forma atabalhoada, consciente do aparente ridículo das suas palavras, que se assemelhavam a um frase de adolescente: Tu vais ser a mulher da minha vida? Ela sentou-se ao seu lado na cama, abraçou com força o seu torso, e confidenciou-lhe – Eu leio em ti como num livro abertoe o mesmo poderás dizer de mim. Mas chegamos atrasados um ao outro, construímos existências, arquitetamos vidas autónomas com companheiros e filhos e trabalhos, e criamos um rio de vidas e de pessoas a separar-nos. Ele resistiu: Mas continuas a ser importante para mim! Ela estreitou o abraço, e prosseguiu com voz segura – Acredito que tivemos o nosso momento há cinco ou seis anos atrás, devemos ter estado um ao lado do outro sem nos apercebermos, mas alguma coisa, um pequeno ou um grande incidente, a morte de uma mosca ou a morte de uma pessoa, lançou-nos por caminhos diferentes, caminhos que vão continuar divergentes até nos reunirmos de novo… - Quando? Perguntou ele em tom de súplica. Ela encolheu os ombros, sob o eco da interrogação: Até ao dia em que as nossas arquiteturas de vida perderem o sentido, até os filhos crescerem ou o casamento se desmoronar, ou então ainda mais para além, quando estivermos realmente velhos e pedirmos aos nossos filhos para nos deixarem acabar juntos a vida, o que estiver melhor empurrará a cadeira de rodas do outro, partilharemos leituras, memórias, filmes vistos de mãos dadas…Ele assimilou o que ela lhe disse, fazia sentido, não tinha dúvidas de que ela tinha razão e que identificara a mulher importante das linhas da sua mão. O que ele achava, e começou a pensar nisso enquanto ela abandonava o quarto do hotel, é que o problema, a equação, tinha demasiados elementos, e que tudo seria mais simples e de mais fácil resolução para todos se os dois fossem ambos viúvos.


[em língua castelhana, usa-se a palavra «brevedad» para conto curto, miniconto, micronarrativa. 
As crescentes brevidades ou breves idades desta publicação]

O Processo de Jesué Nazareno

     Texto original que foi submetido a um concurso literário (sem sucesso), transita aqui para o arquivo morto desta página, para o caso da...