A flor do sal


                Manoel Estevão dos Santos, filho e neto de prósperos empresários terratenentes e também ele dotado de intuição – e dinheiro – para se aperceber do valor das terras e lucrar com isso, foi o primeiro da sua família a manifestar um comportamento francamente excêntrico, pelo menos, na ótica dos seus familiares e amigos mais chegados - que outra interpretação se podia dar ao facto de Manoel Estevão dos Santos, entre muitas iniciativas e transações lucrativas, levar sempre a cabo um entre comas negócio no qual oferecia uma propriedade ou um imóvel a alguém que ele achasse merecedor dela – pela sua pobreza e não como retribuição por algum trabalho ou favor à sua própria pessoa. O seu gesto não tinha qualquer fundamento evangélico ou religioso, porque o dito empresário era aquilo que num arcaísmo se poderia designar por um incréu, e de religioso tinha de próprio uma tranquila veneração panteísta pelas belezas e fúrias da natureza (também o tomava de espanto os estados e sensações humanas extremas como o desespero ou o orgasmo, mas aí a sua admiração recaía sobre a riqueza e a complexidade do corpo e da psique, manifestações diversas da mesma e absoluta natureza no que ela tinha de mais belo e de mais terrível); e o motivo principal do repúdio que a sua parentela tinha para com as suas doações, era o receio doentio de que aquilo que ele oferecia suplantasse um dia os lucros do seu negócio, delapidando o património acumulado, não sendo de afastar a possibilidade de ele vir a legar os seus bens a uma chusma de desafortunados, ou a instituições de caridade, em prejuízo dos seus dignos e respeitáveis familiares.
                Com todos os cuidados e preocupações que a sua generosidade despertava na família, ela era unânime em admitir que a sua excentricidade era coerente, manifestava-se através de padrões comuns e reconhecíveis. Quando havia vindimas ou apanha da fruta na sua propriedade, todos o viam a entregar ao solo as primícias do que ela lhe tinha dado, os primeiros frutos, ou primeiro vinho que se fazia – uma pequena pirâmide de frutos empilhados num gesto de respeitosa gratidão, um copo generosamente cheio de vinho novo derramado sobre as vides despidas de bagos depois do proprietário ter tocado timidamente o líquido com os seus lábios como se o beijasse.
                O seu fascínio pelas riquezas da natureza compeliu-o a investir na salicultura, com marnotos adquiridos por compra ou aforados, e ao mesmo tempo, fazendo o papel de intermediário na comercialização do sal de outros produtores; a sua sagacidade e talento para o negócio levaram-no à criação de uma etiqueta apelativa que lhe trouxe dividendos monetários depois de a explorar com campanhas comerciais de venda. Quando a salicultura se converteu em mais uma prova do seu bom instinto empresarial, Manoel Estevão dos Santos iniciou uma nova tradição excêntrica que se encaixava nos moldes das precedentes. Todos os meses, enchia-se com sal dos cristalizadores um caixa de madeira, pregavam-lhe uma tampa, e era carregada numa carroça tradicional de rodas de raios em madeira, puxada por um muar (o empresário fazia questão nesse particular), o percurso da carga levava-a a um trecho da costa não muito distante da casa e propriedade de Manoel Estevão dos Santos. Aí, na maré baixa, a costa formava uma restinga aprazível com um pequeno banco de areia e rochas no seu centro. A carroça era conduzida até onde era possível, e logo dois varapaus eram passados através de umas argolas de ferro que o caixote de madeira tinha de um lado, a um terço do topo da caixa, e ela era carregada como uma padiola por quatro homens para o dito banco no meio da restinga (muitas vezes, o empresário era um desses homens). Aí, desarmavam uma das laterais do caixote, e o sal era vazado, formando um cone branco que rebrilhava ao sol na infinidade dos seus cristais.

                Acomodado na margem, Manoel Estevão dos Santos ficava a aguardar a subida das águas enquanto bebericava um pouco do seu vinho e conversava com trabalhadores, convidados ou espetadores acidentais. Admiravam o cone de sal, e o modo como ele se dissolvia nas ondas, por vezes como uma ilha flutuante esbranquiçada, outras como uma língua ou uma espiral salgada e efémera. A quem o inquiria, por não o conhecer ou não fazer ideia do que ali se passava, Manoel Estevão dos Santos atirava-lhes com o seu lema pessoal que, a seu ver, era eloquente que chegasse para carecer de mais desenvolvimentos: tudo tende para o equilíbrio.

arenga sobre o amor

«Tu és a mulher amada: destrói-me! Tua beleza /Corrói minha carne como um ácido! Teu signo / É o da destruição! Nada resta / Depois de ti ...