Cinco breves idades


              Tinha completado TRÊS ANOS quando começou a falar, para alegria da família e da aldeia onde morava. O padre André decretou novenas de louvores a Nossa Senhora pelo milagre, e estralejaram foguetes na rua onde era a sua casa, e as visitas a sua casa sucederam-se, trazendo presentes dignos de reis magos – um capão bom para matar, laranjas sumarentas e luminosas como pequenos sóis, feno para as ovelhas que o pai dele criava no quintal. Todos queriam saber porque só então começara a falar. Cansado de tantas perguntas de tanta gente, o menino ainda assim explicava com uma clareza invulgar para a sua idade que primeiro teve de aprender a língua das galinhas e das ovelhas do quintal, depois das andorinhas do beiral do telhado da casa, dos melros que saqueavam a cerejeira grande, e dos corvos pacientes que rondavam o corpo decrépito do avô velho. Só quando descobriu que não havia mais nenhuma língua importante para falar, achou que era chegada a altura de falar com as pessoas.


                Com SETE ANOS feitos, pela Páscoa, o circo levantou a sua tenda num prado junto à aldeia. Todo o dia havia música e a trupe circense desfilava pelas redondezas, equilibristas sobre andas, lamas e dromedários, palhaços de pinturas garridas e sapatos gigantes. Os pais avisavam-no – cuidado com a gente do circo, que te escondem numa mala e levam-te com eles quando partirem, e nunca mais te vemos! Mas o menino desejou partir, estar com os lamas e os dromedários e rir-se com os palhaços, e por isso infiltrou-se no circo para fazer parte dele, e escondeu-se nele no lugar mais escuro, estreito e secreto que descobriu, incerto se o tinham visto a esconder-se. À noite, armou-se o espetáculo, e o menino ouviu no seu esconderijo as risadas dos espetadores causadas pelos palhaços e os ais! e uis! pela ferocidade das feras e pelas proezas arrojadas dos trapezistas. Depois ouviu-se um rufar de tambores, os focos dos holofotes bailavam diante do seu esconderijo, e num estrépito ensurdecedor o canhão foi disparado, e o menino-bala foi projetado pela entrada do circo, voou pelos ares e foi aterrar no feno empilhado no quintal da sua casa.


                Com QUINZE ANOS, uma amiga de quinze anos também, entrou na sua vida para pô-la em ordem, abriu as janelas e as portadas do seu coração, sacudiu os tapetes e cortinados e pô-los a assoalhar, limpou de sombras e cinzas amargas os recantos da sua morada e trouxe para dentro de si as cores e os olores inebriantes das flores com que preencheu jarrões de louça e solitários de vidro iluminado. Tudo o que ela fazia traduzia-se por sentimentos e ações que tornavam a sua morada mais acolhedora e os seus dias mais leves, metódica e sensível, ajudava-o a ordenar as suas sensações e sentimentos com os seus lábios solícitos, as suas mãos ternas e a sua pele e carne acariciantes. A luz do exterior permanecia dentro de si, mesmo quando fechava as janelas e portadas, e era uma luz tátil, perfumada, como o ar dos prados e dos pomares, ou o cheiro íntimo da sua pele no remanso dos lençóis. Quando ela olhou em volta e apreciou tudo o que fizera pela sua morada, disse-lhe que considerava concluído o seu trabalho, e saiu da sua vida como uma serviçal que se escapulisse pela porta da casa às horas cúmplices da alvorada. Depois dela partir, sentiu-se algo melancólico, incompleto, mas tudo isso desapareceu quando se deu conta de que ela não saíra completamente de si, cada coisa que ela arrumara dentro dele, cada flor, verso, beijo, fotão de luz, tinha o seu toque, estavam presentes, viviam nele.


                Com DEZANOVE ANOS conheceu Heloísa, uma mulher extraordinária, na aceção mais ordinária que essa palavra pode transmitir. Heloísa, pouco tempo antes de o conhecer, tivera uma epifania porque descobrira que os seus pés chegavam sempre onde as suas mãos não alcançavam, esticava as mãos até ao limite e nunca chegava a coisa nenhuma, mas bastava adiantar um pé e chegava onde queria. Os pés dominavam o pensamento e as ações de Heloísa. Com Heloísa passou por uma fase podónica antes de a conhecer na intimidade, e mesmo aí a sua relação era extraordinária porque se compunha de podorícias, podósculos e podorgasmos, e Heloísa não permitia que enquanto estavam juntos, houvesse um momento em que os pés não fossem acariciados e acariciantes, membros de pleno direito do corpo dos dois, oficiantes supremos nos seus ritos de prazer. Mas se a vida íntima com Heloísa era satisfatória, ainda que excêntrica, o que o perturbava, era sair em público com ela, não havia dia em que fosse ao cinema, em que ela não se ajoelhasse aos seus pés diante de si, toda curvada para diante para render tributo aos seus pés com beijos ou carícias, ou então se descalçasse, e a-pontasse uma perna sobre o braço da cadeira só para colocar um dos seus pés ao alcance do seu rosto e boca; e quando namoravam no banco do carro ou num banco do jardim, o seu namoro privilegiava sempre a extremidade inferior do corpo sob o olhar bizarro dos transeuntes. E acabou por dizer que queria acabar com ela, no próprio dia em que almoçavam com os pais dele, e ela desapareceu debaixo da mesa porque sentira um desejo incontrolável de lhe beijar um artelho. Quando se despediu dele, em vez de lhe pedir a devolução de coisas que lhe tinha dado, ou como nos tempos antigos, de cartas que lhe havia escrito, ela só lhe perguntou se podia fazer, para recordação, um molde de gesso dos seus pés.



               Com VINTE E CINCO ANOS, já casado e com filhos, e numa altura em que reuniu a família próxima pela ceia de Natal, uma prima da sua mulher teimou em ler-lhe a sina. Apesar das muitas reservas da sua parte, ela contou-lhe o que a sua mão lhe dizia. Entre outras coisas, dizia que, por exemplo, iria ter sucesso não se sabe em quê se trabalhasse muito, mas disse-lhe logo às primeiras, que ele teria duas mulheres importantes na sua vida. Por estranho que pareça, isso impressionou-o de forma devastadora, e nunca mais deixou de pensar no assunto. Pensava em quem seriam essas duas mulheres. A primeira, para ele, estava identificada, o seu primeiro amor e sua primeira experiência sexual aos quinze anos. A segunda mulher era um mistério. Não era a sua esposa, não fora importante, nem ele para ela, casaram-se para arrumar a vida, porque estava na altura, porque até se davam bem, o que não acontecia com a maioria dos casais, foi um acordo tácito de matrimónio, um casamento amigável. Quem seria então a segunda mulher? Esse pensamento esteve subjacente em cada relação adúltera que encetou, em cada amizade, em cada mulher bonita que cruzava o seu caminho. E como esperou muito e com muita intensidade, ela acabou por aparecer, ou reaparecer, porque era a prima da sua mulher que lera a sina, teve a certeza de que era ela na primeira noite em que se envolveram, a entrega entre os dois foi total, os seus sentimentos entrelaçavam-se, identificados em absoluto um com o outro, e numa dada manhã, enquanto ela se vestia no segredo de um quarto de hotel, ele perguntou-lhe de forma atabalhoada, consciente do aparente ridículo das suas palavras, que se assemelhavam a um frase de adolescente: Tu vais ser a mulher da minha vida? Ela sentou-se ao seu lado na cama, abraçou com força o seu torso, e confidenciou-lhe – Eu leio em ti como num livro abertoe o mesmo poderás dizer de mim. Mas chegamos atrasados um ao outro, construímos existências, arquitetamos vidas autónomas com companheiros e filhos e trabalhos, e criamos um rio de vidas e de pessoas a separar-nos. Ele resistiu: Mas continuas a ser importante para mim! Ela estreitou o abraço, e prosseguiu com voz segura – Acredito que tivemos o nosso momento há cinco ou seis anos atrás, devemos ter estado um ao lado do outro sem nos apercebermos, mas alguma coisa, um pequeno ou um grande incidente, a morte de uma mosca ou a morte de uma pessoa, lançou-nos por caminhos diferentes, caminhos que vão continuar divergentes até nos reunirmos de novo… - Quando? Perguntou ele em tom de súplica. Ela encolheu os ombros, sob o eco da interrogação: Até ao dia em que as nossas arquiteturas de vida perderem o sentido, até os filhos crescerem ou o casamento se desmoronar, ou então ainda mais para além, quando estivermos realmente velhos e pedirmos aos nossos filhos para nos deixarem acabar juntos a vida, o que estiver melhor empurrará a cadeira de rodas do outro, partilharemos leituras, memórias, filmes vistos de mãos dadas…Ele assimilou o que ela lhe disse, fazia sentido, não tinha dúvidas de que ela tinha razão e que identificara a mulher importante das linhas da sua mão. O que ele achava, e começou a pensar nisso enquanto ela abandonava o quarto do hotel, é que o problema, a equação, tinha demasiados elementos, e que tudo seria mais simples e de mais fácil resolução para todos se os dois fossem ambos viúvos.


[em língua castelhana, usa-se a palavra «brevedad» para conto curto, miniconto, micronarrativa. 
As crescentes brevidades ou breves idades desta publicação]

Geena




                No rincão das matas enegrecidas, onde as árvores carbonizadas se assemelhavam a costelas fraturadas do corpo de uma baleia gigantesca, os homens e as máquinas começaram a limpar uma área do tamanho de três campos de futebol que subia da estrada larga pela aba dos montes até à crista rochosa e estéril onde só os feros arbustos conseguiam sobreviver com as suas raízes enclavinhadas como garras ao mineral. Os troncos enegrecidos eram cortados junto às raízes e empilhados por meios mecânicos em pequenos montículos triangulares que decresciam da base para o topo, dando a vez na cadeia de processamento a outras máquinas que levantavam com tenazes de aço esses troncos em número de três ou quatro de cada vez para os depositar nos camiões parados ao longo da estrada, que logo abandonavam temporariamente o local quando ficavam carregados. Nas áreas onde já não havia troncos, outras máquinas juntavam os ramos subsidiários em montes crescentes, aos quais se somariam as raízes quando fossem arrancadas do solo numa operação posterior. O trabalho era intenso e quase ininterrupto, prolongando-se desde os primeiros alvores do dia até ao ocaso, havendo casos em que se prosseguia depois disso à luz de faróis e holofotes potentes; e a dimensão da zona que tinha de ser limpa justificara a instalação numa área adjacente de contentores-dormitório onde os operários dormiam, e de cozinhas e posto de enfermagem para os apoiar. Querendo controlar e supervisionar todo o processo, o engenheiro que coordenava os trabalhos, requisitou também um desses contentores-dormitório para si e para a sua família – a esposa trabalhava no posto de atendimento médico, enquanto a filha adolescente, Sophie (o nome fora escolhido quando estavam emigrados na Bélgica) de gozo de férias escolares, quisera vir com eles por sentir uma enorme curiosidade pelo trabalho do pai. O engenheiro andava sempre muito atarefado durante o dia, organizava o trabalho e verificava a correta articulação de todas as fases da operação, procurando suprir qualquer lacuna técnica ou logística que surgisse do nada, e era seguido de perto pela filha, com um capacete na cabeça, que cumpria as recomendações do engenheiro sobre a distância que deveria guardar das máquinas em movimento, e a proibição que este lhe levantara de se aventurar sozinha por aqueles montes e vales. Sophie depressa se aborreceu, circunstância agravada pelo facto de a mãe não poder acompanhá-la porque passava quase todo o dia no posto de enfermagem; e depressa começou a sair da órbita do pai para percorrer os montes e vales proscritos pela sua interdição. Não a viam durante quase todo o dia, e nunca se preocupavam com isso, porque ambos a julgavam vagamente na companhia do cônjuge. Quando os três jantavam juntos ao anoitecer, antes de se recolherem para um merecido repouso, narrava-se por vezes as peripécias dos dias mas Sophie fechava-se sempre em copas, o que os pais não estranhavam porque eram atitudes habituais naquelas idades. Foi o pai quem primeiro se sentiu alertado ao avistá-la no meio da poeira levantada pelas rodas gigantescas das máquinas, a caminhar na direção dos montes com um garrafão de água em cada mão. Tentou segui-la, mas perdeu-a de vista. Ligou à mulher, e entre os dois percorreram as imediações em busca dela sem a avistarem ou darem pelo seu regresso, mas à tardinha, encontraram-na junto às acomodações a alimentar o gato de pelo acobreado que haviam trazido com eles da cidade. Num acordo tácito, mudo e implícito, foi a mãe quem ficou encarregue de a sondar sobre o seu passeio. Esperou que o pai não estivesse por perto e disse-lhe que a tinha visto passar enquanto fazia um curativo num homem que esfolara o cotovelo nuns ramos. Sophie não adiantou grande coisa, limitando-se a contar que dera uns passeios pelo recinto de intervenção. Ao saber do resultado da conversa, o pai limitou-se a contar à filha com uma forçada ligeireza que um dos trabalhadores que operava as motosserras ia partindo a perna quando a enfiou por um buraco no chão encoberto por folhas e cinzas, e desse modo reforçou o seu discurso sobre a periculosidade daquelas paragens inóspitas e bravias.
                No dia seguinte, o casal alargou um pouco as suas rotinas no fito de um deles estar sempre próximo de Sophie e o engenheiro encarregou os seus homens de confiança de a terem também debaixo de olho, mas uma vez mais, ela desvaneceu-se da vista de todos como se fosse alguma miragem imaterial, e no final do dia reapareceu junto do pai enquanto ele assinava uma autorização de combustível. Os pais de Sophie toleraram os seus misteriosos desaparecimentos por uns dias, conscientes de que estavam a exigir muito dela ao manterem-na com eles naquele fim-de-mundo, mas a crescente suspeita de que estivesse envolvida com algum dos operários, todos homens maduros e muitos deles de meia-idade, angustiava-os e empurrou a mãe de Sophie para uma conversa mais séria, que teve lugar próximo do lusco-fusco, longe da sua casa precária e junto a um camião em repouso. A mãe abordou o assunto depois de muitos rodeios, precisava de saber por onde ela andava, até para se sentir mais tranquila e conseguir estar mais concentrada no seu trabalho.
                - Tenho visto uma pessoa – explicou ela por fim.
                A mãe alarmou-se, era um homem? Tinham tido relações? Sophie riu-se. Encontrara uma mulher na encosta, estava deitada entre as pedras e parecia muito fraca porque o coração quase não batia. Tinha a pele enegrecida pelo carvão e pela fuligem e pedira-lhe água porque tinha muita sede.
                A mãe ligou para o marido e os dois contrainterrogaram Sophie – podia ser uma sobrevivente do incêndio que lavrara naquelas paragens? Tal hipótese era absurda porque o incêndio fora dois meses antes, e ninguém sobreviveria sozinho por esse tempo todo – mas a jovem continuava muito tranquila. A mulher não lhe parecia ferida nem com fome, apenas com muita sede, mas depois de lhe levar água durante dois dias seguidos, ela recobrara forças e já se conseguira levantar e conversava com ela, sentadas as duas nas pedras.
                Conversavam sobre quê? A pergunta impunha-se, e Sophie evocou-lhe o teor das conversas enquanto regressavam ao contentor-dormitório.
                - Ela primeiro quis saber de mim, como é que eu me chamava, quem eram os meus pais e os meus amigos. Falei-lhe de como era o comum dos meus dias, os meus sonhos, os segredos que mantinha com as minhas amigas. Falamos mais demoradamente dos sonhos, que era o nosso tema dileto, ela disse-me que tudo o que existe - objetos, criações, pedras e animais - compõem-se dos sonhos que lhe deram origem mas também daqueles que não os chegaram a integrar mas que de uma forma peculiar comungam da sua existência e a enriquecem. Nada existia que fosse acessório e excedente, mas todas as coisas, seres e ideias eram como rebentos diferentes de uma mesma planta e estavam ligados por uma estrutura diáfana que era invisível à maior parte das pessoas.
                - Uma filósofa, em suma – sentenciou o engenheiro, não conseguindo velar o tom irónico das suas palavras.
                - Sim, aquela mulher pareceu-me muito… amadurecida, daquelas pessoas que estão continuamente a refletir sobre as coisas e a descobrir novos sentidos em tudo. Quando lhe pedi para me falar dela, ela preferiu contar-me uma das lendas da sua aldeia que os anciãos transmitem aos mais novos junto a uma lareira a rescender a giestas e a lenha de sobro. E era mais ou menos assim – na sua aldeia existia há muitas centenas de anos um homem cúpido a quem fazia impressão o que os outros homens comiam e bebiam, e o prazer que pareciam ter nisso, e por tal começou ele a devorar todos os alimentos e a beber toda a água que encontrava, comeu frutos e animais, emborcou a água dos riachos, rios e lagos, e tudo ficou seco como um selha cheia de areia, e quanto mais comia, mais crescia, e já de proporções gigantescas e depois de beber a água que as nuvens soltavam, lembrou-se de comer o próprio Sol, que era coisa de que todos gostavam, o que muita inveja lhe fazia, e por isso abocanhou o Sol até o ter inteiro dentro da barriga. Depois de engolir o Sol, já não havia água na terra que lhe acalmasse o ardor que sentia na barriga, e o Sol começou a queimá-lo por dentro até que ardeu e explodiu num fogaréu pavoroso. As águas, as sementes e os frutos foram libertados de novo e germinaram no mundo, e os ossos calcinados do gigante cúpido sobrevivem até hoje nos rochedos de negro basalto dos planaltos. Quando lhe perguntei porque é que me contava aquela lenda, ela disse-me que as lendas eram como as parábolas, serviam para explicar o que se tem muita dificuldade em transmitir.
                Os pais de Sophie entreolharam-se. Sophie, três anos antes, ainda mantinha fecundas conversas com uma amiga imaginária de quem lhes descrevia com uma profusão de detalhes o aspeto, as roupas, ou as conversas, talvez a mulher de pele encarvoada fosse uma reminiscência dessa amiga desaparecida.
                - E podemos conhecer essa tua amiga? Eu gostava muito! – disse-lhe a mãe.
                - Hoje ela já não estava lá, mas eu podia sentir a sua presença, uma impressão desolada de tristeza e dor, como daquela vez que fomos para visitar a avó e ela já estava morta, e os cães dela cá fora ganiam todos ao mesmo tempo, tomados de uma dor imensa.
                - Sim, lembro-me desse dia triste. Mas podemos ver o lugar onde ela estava, pelo menos?
                - Claro! Amanhã levo-vos lá.
                O engenheiro falou pelo telefone ainda nessa noite com o encarregado para o avisar que na manhã seguinte tinha uma tarefa a desempenhar e que iria chegar mais tarde, e a esposa fez o mesmo em relação ao posto de enfermagem. Quando os dois se juntaram sob as cobertas, e notando que a filha já dormia, o engenheiro colocou por palavras a questão que deambulava no seu espírito:
                - Achas que ela viu mesmo alguém, ou será apenas uma fantasia?
                - Não te sei dizer – murmurou a esposa – estou inclinado a pensar que ela sentiu alguma coisa. A idade dela é uma idade complexa em que as tempestades mordem e o poder despe os seus véus.
                - O poder?!
                - Já falamos sobre isso, bel de jour, as mulheres têm poderes, quase nunca chegam a tomar posse deles, mas existem em latência no seu espírito e na sua libido. Umas são janelas abertas para forças e seres de mundos paralelos, outras escrutinam ou sentem o futuro… - o marido encostou dois dedos aos seus lábios e ela calou-se, suspensos os três no silêncio da divisão. Sophie mexera-se no leito como se estivesse quase desperta e o engenheiro aproveitara para concluir a conversa, porque já conhecia o seu curso.
                - Amanhã já vemos! – sussurrou na penumbra – vamos dormir…
                Ao romper da alvorada, notaram que Sophie já estava acordada e vestida, e comia os seus cereais da manhã – os pais apressaram-se e os três tomaram o caminho dos montes sob um nevoeiro cerrado, quando já se ouvia as primeiras máquinas e as primeiras motosserras a laborar. Sophie parecia muito segura do caminho, guiada por detalhes que lhes ia indicando – um castanheiro calcinado, uma rocha isolada semelhante a uma coroa, o ésse do leito seco de um riacho, com as suas escadas de pedra e os fundo de areia e seixos. Enquanto caminhavam, o engenheiro olhou em volta. Ali o fogo parecia ter sido ainda mais intenso do que na zona do vale, com tudo enegrecido e as árvores consumidas quase até à medula, observou também vasos de resina estilhaçados pelo calor infernal. Devia ter sido ali o ponto extremo do incêndio, e talvez se tivesse propagado a partir dali para o resto do vale.

                - Foi aqui que a encontrei! – exclamou a jovem, a apontar uma pedras ao pé deles no meio da encosta. Ela estava deitada entre estas duas pedras compridas, parecia ter caído ali, arfava como se lhe faltasse o ar, e pedia-me água.
                - E estava suja do carvão – lembrou a mãe – o que é normal, porque aqui está tudo queimado, mato, árvores e pedras. Não tinha feridas ou cortes?
                - Não que eu visse…
                - É estranho que houvesse aqui alguém – refletiu o pai em voz alta, procurando racionalizar o sucedido – podia ser uma mulher que morasse aqui perto a apanhar madeira, mas as casas mais próximas estão a dez quilómetros do nosso acampamento no vale.
                - Ou alguém que tivesse morrido aqui – adiantou a esposa. Acusou o olhar de desagrado do engenheiro e justificou – eu também sinto, como Sophie, uma espécie de funda tristeza neste lugar, mas pode ser efeito de estarmos no meio de tanto negrume e devastação. Achas que ela irá voltar aqui, filha?
                Sophie acenou negativamente, com algum desalento.
                O engenheiro dobrou-se ao lado das duas pedras que Sophie indicara, no meio da cama de cinzas recurvava-se um fragmento metálico circular como o rebordo de um vaso. Sabia tratar-se do vestígio de uma botija de fogão de campismo, que era um dos componentes dos engenhos incendiários que se havia usado ali. A esposa notara o seu gesto.
                - Encontraste alguma coisa?
                - Um vaso de resina partido.
                Com a sola das botas curvou o fragmento até o enterrar por completo na cinza.
                - Devíamos voltar de imediato, porque temos muito trabalho pela frente – considerou – Se Sophie voltar a ver a senhora, voltamos aqui para conversar com ela, ou pode convidá-la para ir a nossa casa beber um chá e narrar as suas lendas.
                E sem esperar pela aquiescência da família, tomou resolutamente o caminho de regresso, carregando a impressão de desconforto de estar a ser observado por uma infinidade de olhos, dissimulados na noite telúrica do carvão e das cinzas.


A flor do sal


                Manoel Estevão dos Santos, filho e neto de prósperos empresários terratenentes e também ele dotado de intuição – e dinheiro – para se aperceber do valor das terras e lucrar com isso, foi o primeiro da sua família a manifestar um comportamento francamente excêntrico, pelo menos, na ótica dos seus familiares e amigos mais chegados - que outra interpretação se podia dar ao facto de Manoel Estevão dos Santos, entre muitas iniciativas e transações lucrativas, levar sempre a cabo um entre comas negócio no qual oferecia uma propriedade ou um imóvel a alguém que ele achasse merecedor dela – pela sua pobreza e não como retribuição por algum trabalho ou favor à sua própria pessoa. O seu gesto não tinha qualquer fundamento evangélico ou religioso, porque o dito empresário era aquilo que num arcaísmo se poderia designar por um incréu, e de religioso tinha de próprio uma tranquila veneração panteísta pelas belezas e fúrias da natureza (também o tomava de espanto os estados e sensações humanas extremas como o desespero ou o orgasmo, mas aí a sua admiração recaía sobre a riqueza e a complexidade do corpo e da psique, manifestações diversas da mesma e absoluta natureza no que ela tinha de mais belo e de mais terrível); e o motivo principal do repúdio que a sua parentela tinha para com as suas doações, era o receio doentio de que aquilo que ele oferecia suplantasse um dia os lucros do seu negócio, delapidando o património acumulado, não sendo de afastar a possibilidade de ele vir a legar os seus bens a uma chusma de desafortunados, ou a instituições de caridade, em prejuízo dos seus dignos e respeitáveis familiares.
                Com todos os cuidados e preocupações que a sua generosidade despertava na família, ela era unânime em admitir que a sua excentricidade era coerente, manifestava-se através de padrões comuns e reconhecíveis. Quando havia vindimas ou apanha da fruta na sua propriedade, todos o viam a entregar ao solo as primícias do que ela lhe tinha dado, os primeiros frutos, ou primeiro vinho que se fazia – uma pequena pirâmide de frutos empilhados num gesto de respeitosa gratidão, um copo generosamente cheio de vinho novo derramado sobre as vides despidas de bagos depois do proprietário ter tocado timidamente o líquido com os seus lábios como se o beijasse.
                O seu fascínio pelas riquezas da natureza compeliu-o a investir na salicultura, com marnotos adquiridos por compra ou aforados, e ao mesmo tempo, fazendo o papel de intermediário na comercialização do sal de outros produtores; a sua sagacidade e talento para o negócio levaram-no à criação de uma etiqueta apelativa que lhe trouxe dividendos monetários depois de a explorar com campanhas comerciais de venda. Quando a salicultura se converteu em mais uma prova do seu bom instinto empresarial, Manoel Estevão dos Santos iniciou uma nova tradição excêntrica que se encaixava nos moldes das precedentes. Todos os meses, enchia-se com sal dos cristalizadores um caixa de madeira, pregavam-lhe uma tampa, e era carregada numa carroça tradicional de rodas de raios em madeira, puxada por um muar (o empresário fazia questão nesse particular), o percurso da carga levava-a a um trecho da costa não muito distante da casa e propriedade de Manoel Estevão dos Santos. Aí, na maré baixa, a costa formava uma restinga aprazível com um pequeno banco de areia e rochas no seu centro. A carroça era conduzida até onde era possível, e logo dois varapaus eram passados através de umas argolas de ferro que o caixote de madeira tinha de um lado, a um terço do topo da caixa, e ela era carregada como uma padiola por quatro homens para o dito banco no meio da restinga (muitas vezes, o empresário era um desses homens). Aí, desarmavam uma das laterais do caixote, e o sal era vazado, formando um cone branco que rebrilhava ao sol na infinidade dos seus cristais.

                Acomodado na margem, Manoel Estevão dos Santos ficava a aguardar a subida das águas enquanto bebericava um pouco do seu vinho e conversava com trabalhadores, convidados ou espetadores acidentais. Admiravam o cone de sal, e o modo como ele se dissolvia nas ondas, por vezes como uma ilha flutuante esbranquiçada, outras como uma língua ou uma espiral salgada e efémera. A quem o inquiria, por não o conhecer ou não fazer ideia do que ali se passava, Manoel Estevão dos Santos atirava-lhes com o seu lema pessoal que, a seu ver, era eloquente que chegasse para carecer de mais desenvolvimentos: tudo tende para o equilíbrio.

Um caso de bullying

O Minotauro, de George F. Watts
      As folhas secas dos plátanos sob a sola das sapatilhas soavam a folhas de papel mal carbonizadas a serem esmifradas entre os dedos. Michel reteve esse pensamento enquanto subia com cuidados redobrados a ladeira de terra barrenta entre os dois blocos de salas da escola. Era sempre essa a estratégia, optar pela ladeira e não pelas escadas de tijolo e cimento, plus, evitar cruzar os pátios concorridos de gente entre os blocos, plus, queimar o tempo dos intervalos e da hora de almoço em sítios pouco apetecíveis como as áreas envolventes das portarias de entrada na escola e a restinga verdescente ao lado dos contentores da reciclagem. Foi aqui que reviu os seus dois amigos, estavam sentados num murete caiado e trocavam cartas repetidas, descrevendo com pequenas exclamações as habilidades e poderes dos personagens das cartas. Cumprimentou-os com um aceno e sentou-se por perto, a explorar um novo jogo que descarregara para o seu telemóvel.
                - Demoraste… - comentou Lucas.
                - Depois de comer, fui comprar senhas de almoço e quando vinha para aqui, a Rute meteu conversa comigo, precisa de ajuda para um trabalho de geografia que tem para fazer.
                - E vais ajudá-la?
                - Sim, ela é minha prima direita, se não a ajudar isso ainda chega aos ouvidos da minha mãe e fico marcado para o resto da vida.
                Michel guardou o telemóvel. O jogo que escolhera era uma seca e não lhe apetecia ficar ali mais uma hora sem nada para fazer.
                - Vou subir até ao campo da bola – disse-lhes – a esta hora não há é-éfe e pode ser que esteja lá malta fixe e consiga jogar um pouco ou dar uns toques. Deixo aqui a minha mochila.
                Largou-a ao pé deles e subiu mais uma ladeira de terra e no fim desta caminhou paralelamente à vedação de rede que envolvia o campo. O campo de jogos situava-se no topo nascente dos terrenos da escola, era a última coisa que havia antes da rampa alcatroada que dava para uma das saídas. Enquanto contornava a rede, ouviu vozes no recinto, acelerou o passo na subida e cruzou a entrada do campo de jogos para logo se imobilizar. Quatro alunos mais velhos brincavam com uma bola de básquete, mas um deles, o mais alto, virou-se de imediato para ele com um sorriso sardónico que lhe gelou o sangue. Douglas, assim se chamava o aluno do nono ano, deu dois passos na sua direção, como se o quisesse demover de tentar fugir. Douglas não trajava de modo diferente dos outros, e quem o ouvisse falar, não conseguiria distingui-lo dos demais. Mas ninguém o confundiria com os colegas pelo arco que as suas clavículas formavam acima dos ombros, com a sua cabeça bovina fundida nos ombros, o queixo proeminente e olhos oblíquos e aquele altivo par de cornos que a todos infundia respeito pelas suas ameaçadoras pontas aceradas.
                - Queres jogar connosco, puto? Precisamos de alguém na equipa que consiga encaixar uma bola no peito – e antes que Michel pudesse responder, Douglas já o alcançara, encostou a palma da mão direita ao seu plexo solar e empurrou-o com força, fazendo cambalear e cair contra a vedação de rede.
                Michel enclavinhou os dedos na rede e pôs-se de pé num instante com medo de levar mais pancada. Sentia-se indisposto, e a vibração metálica dos elos da rede soava-lhe como risos.
                - Eu não posso, tenho aulas agora e preciso de ir, porque estou tapado a faltas em quatro disciplinas – respondeu num jorro de palavras. Mentia, e sentiu vergonha por isso, mas achou que isso podia apaziguar os ânimos, porque era o que os bullies da escola faziam, faltavam até deixarem de poder faltar.
                - Douglas – chamou um dos outros – vamos continuar o jogo.
                Douglas hesitou, a cornamenta a oscilar ligeiramente com os movimentos da sua cabeça, e nesse ínterim Michel começou a correr, e desceu a ladeira, só parando quando se juntou aos amigos.Trazia lágrimas nos olhos e estava capaz de vomitar. Lucas e Belisário coibiram-se de lhe fazer perguntas, tal era o estado em que o viam. Michel tirou o telemóvel da mochila, e voltou ao jogo que antes o enfastiara, tentando disfarçar o choro remordido. Quando se aproximou a hora do primeiro tempo da tarde, Michel levantou-se de um salto e encaminhou-se para a sala de aulas.
                - Belisário – murmurou Lucas, fazendo-o deter-se quando ia seguir o amigo – posso fazer-te uma pergunta algo estúpida?
                - Diz…
                - Porque é que nos escondemos deles? Sei que eles são a força e que o poder é a prerrogativa do uso da força e tenho perfeita noção de todas essas coisas mais ou menos darwinianas em que todos acreditam, mas não era mais fácil tentarmos anular os bullies, participar deles ao diretor e obrigá-los a andarem na linha?
                Belisário riu-se, pousou amistosamente as manápulas nos ombros de Lucas e olhou-o, muito sério.
                - Lucas! – suspirou – por vezes a tua ingenuidade comove-me. Primeiro os tipos não olham para ti e veem uma pessoa, eles não veem nada, são massas brutas de violência cega, tão éticos e sensíveis como um punho atirado ao nariz de um tipo. E depois, ninguém faz nada contra os chifrudos porque é assim que o sistema funciona e o sistema é autofágico e não conseguiria criar ou imaginar um outro sistema diferente ou uma outra realidade. Imagina que a escola é um enorme galinheiro numa quinta, e que o diretor e os profes são os empregados da quinta que entram no galinheiro para dar comida à criação e recolher os ovos e de vez em quando levar um galináceo para ser morto. Achas que eles realmente se importam se a ninhada de uma galinha é morta pelo peru, ou que o galo vaze com bicadas os olhos dos franganitos? Não lhes tira o sono as rixas entre os animais porque as galinhas e os frangos estão onde deveriam estar, e continua a haver ovos para recolher e tudo o mais que seria regular e comum esperar-se de um galinheiro. Um diretor ou um profe não tem necessidade de interferir nesse podre equilíbrio feito de sujeição e domínio, e se eu ou tu tentássemos forçá-los a tomar uma atitude, as coisas não ficariam muito famosas para o nosso lado.
                - Ainda assim, deve haver alguma coisa que possamos fazer… quantos bullies existem na escola toda? Quatro? Cinco?
                - Quatro! O Douglas, o Pedro Sá e o Mário Zé no nono ano, e temos o Estilhas na nossa turma. Mas se queres organizar uma luta épica contra os ogres do Senhor dos Anéis, tens de contar com uns quantos que orbitam em volta deles, que são os tristes que se riem das piadas deles e que contribuem para as suas sessões de humilhação pública.
                - Tenho um plano! – confessou Lucas, com os olhos brilhantes, enquanto os dois respondiam ao toque de entrada, encaminhando-se para a sala – só mais uma questão, se pudesses colocar os quatro num ringue de boxe para lutarem entre eles, em qual dos quatro apostarias?
                - No Estilhas, sem dúvida, é o mais velho dos quatro, e nenhum dos outros lhe faz sombra. Porque perguntas?
                - Temos plano! – respondeu, furtando-se a mais explicações.
                No dia seguinte, logo no primeiro tempo, Lucas faltou a Educação Cívica e foi à procura do Estilhas. Queria encontrá-lo mas sem correr muitos riscos. Posicionou-se perto da portaria à espera que ele entrasse na escola, era um lugar ideal porque estava encostado de viés à coluna de alpendre na entrada de uma sala de aulas e um arbusto Hibisco ao seu lado, despojado de flores, coroava com a sua rama um canteiro no meio do pátio de cimento, dissimulando a sua presença ali. A atenção que dispensava às escadas de acesso à escola e à entrada exígua foi desviada por breves instantes por uma aluna de cabelos negros como azeviche que desenrolava no chão alcatroado um novelo de fio de guita, aparentemente sem nenhuma razão plausível, desenrolava-o apenas como se isso a divertisse, e quando o fio que a brisa ameaçava levantar nos ares já tinha uns bons metros de extensão, Lucas ergueu os olhos, e viu que na outra extremidade, junto à aluna e ao seu novelo fútil, o Estilhas acabara de passar pelo portão pequeno. Lucas abandonou o seu precário refúgio e pisando no fio para o manter colado ao chão, caminhou sobre ele e aproximou-se do Estilhas, que estacou à sua frente num misto de surpresa e divertimento. Lucas olhou para os seus pés, evitando fixar a sua cabeça de cornos largos, ou os punhos que adivinhava cerrados como martelos, prontos a esmagá-lo.
                - O que é que tu queres, totó?
                Deixou passar a referência, gostaria de lhe dizer que se chamava Lucas, e que estava confiante de que esse nome lhe vinha de Loki, o deus ardiloso, mas isso não era importante naquele momento.
                - Tenho um ne-ne-gócio a propor-te… a pr-propor a si… - gaguejou com os nervos.
                - E porque é que eu iria fazer negócio contigo? Tens alguma irmã bonita para mim?
                Lucas negou com um aceno de cabeça.
                - O negócio que quero propor seria benéfico para os dois, seria um acordo simbiótico, como diria a nossa professora de Ciências – e sabendo que ele não entenderia o sentido do que lhe dissera, estendeu-lhe de imediato umas quantas folhas de papel, presas por um clipe.
                - O que é isto? Um pacto de sangue?
                - Nas primeiras três folhas, imprimi as respostas às fichas de trabalho de Português, Geografia e Ciências, só tens de copiá-las com a tua letra. Respondi a essas perguntas com a ajuda do Belisário. Na terceira folha tens os exercícios de matemática que o professor nos deu para o fim-de-semana, e que foram resolvidos pelo Michel. Nós três podemos ajudar-te, fazemos os teus trabalhos, damos-te explicações para os testes, e até podemos ensaiar algumas formas de te passarmos as respostas durante as provas.
                - A ideia interessa-me, puto, mas se é um negócio, o que é que vocês querem em troca? Dinheiro?
                - É muito simples, precisamos de proteção, precisamos que tu expliques ao Douglas ou ao Pedro Sá que não podem bater em nós, porque somos da tua turma e só tu o podes fazer, ainda que nós – é claro! -esperemos que tal nunca venha a ser preciso, isto é, tu bateres em nós, percebes?
                - Percebo! – respondeu o Estilhas, ainda pensativo. Na sua reiterada carreira de aluno repetente, aquela fora a proposta mais estranha que alguma vez lhe tinham feito – se vocês cumprirem com a vossa parte, eu cumpro com a minha…
                - Já começamos a cumprir, e vamos cumprir enquanto houver aulas no universo – respondeu Lucas, vibrante de entusiasmo, ansioso para relatar o acordo ao Michel e ao Belisário.
                Pegou na mochila e saiu a correr à procura dos amigos. Soou o toque de saída e os alunos abandonaram as salas numa algazarra algaraviada, e na sua euforia Lucas abandonou todo o tipo de prudência, e começou a arrepiar caminho por entre os grupos de alunos no pátio quando sentiu uma mão forte a prender-lhe um braço. Era o Douglas.
                - Onde é que vais com tanta pressa, Coxo? Pensei que os coxos não corriam – e sem lhe largar o braço, deu dois passos em volta dele, manquejando com nítido exagero.
                Lucas avaliou a situação. Fora fisgado num canto do pátio de cimento, o Pedro Sá e o Mário Zé também lá estavam e estrategicamente olhavam em volta para topar onde paravam os funcionários da escola ou os professores. Quando o Douglas desempenhou aquela momice, Lucas ouviu uns risinhos abafados saídos de um grupo de raparigas ali ao pé, pelo que teve a certeza de que o suplício iria continuar. Douglas, soprando pelas ventas, aproximou-se dele até a curva áspera de um dos seus cornos lhe tocar no couro cabeludo, e continuou com uma voz bem audível.
                - Sabes como é que deixavas de coxear, Coxo? Coxeando dos dois pés! – ouviu rir e prosseguiu – se te partissem o pé bom, ficavam os dois pés iguais e já não coxeavas.
                - Douglas!
                A voz roufenha do Estilhas surpreendeu a todos. Aproximara-se calmamente dos dois, e ordenou-lhe:
                - Larga o puto! Ele é da minha turma e não tocas em ninguém que seja da minha turma, ouviste!?
                Douglas largou o braço de Lucas e consultou os dois aliados com o olhar, que lhe confirmaram que não havia ninguém a recear por perto. Douglas saltou em frente com um braço fletido no ar para esmurrar o Estilhas, mas este já esperava essa reação, porque se desviou de través, e estendeu-lhe a perna, fazendo-o cair aparatosamente no chão. Os alunos em volta cerraram fileiras para que olhares indesejáveis não descobrissem a contenda, e Douglas, enraivecido, levantou-se e avançou para o Estilhas com os braços retesados, os cornos de um e de outro entrechocaram-se com estrondo antes que o Estilhas tomasse a iniciativa e o esmurrasse repetidamente nos pulmões, fê-lo cair com um violento puxão, e assestou-lhe em seguida alguns pontapés no corpo caído, que venceram todo o tipo de resistência. Sob alguns gritos de auxiliares que acorriam ao local, dois alunos ajudaram Douglas a levantar-se e arrastaram-no dali seguro pelos ombros, enquanto o Estilhas descia as escadas no sentido oposto, com a mão direita a esfregar o ombro onde a ponta de um corno de Douglas lhe causara uma pequena laceração. Lucas seguiu atrás dele e alcançou-o quase no último degrau das escadas.
                - Obrigado! – agradeceu com visível comoção – obrigado mesmo!
                - Não agradeças, puto, é só um negócio, e vocês vão ter de trabalhar muito para merecer a minha proteção.
                Lucas concordou, intima e profundamente grato, e até ao fim dos tempos. Voltou a subir apressadamente as escadas na direção da sala de aulas, Michel e Belisário reuniram-se a ele pelo caminho, sorrindo abertamente e trocando como mimos pequenas palmadas nos ombros, esquecidos por fim do denso medo de todos os dias.

arenga sobre o amor

«Tu és a mulher amada: destrói-me! Tua beleza /Corrói minha carne como um ácido! Teu signo / É o da destruição! Nada resta / Depois de ti ...