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Dicionário

                O “seu” dicionário não tinha muitas palavras, e entre estas, havia muitas quase virginais, intocadas, outras devassadas e puídas pelos seus olhos ansiosos.
                Apenas algumas:
                Ausência, ciúme, comida, desejo, desprezo, dor, horário, insónia, perda, resignação, rotina, saudade, sonho, sono, trabalho, trabalho [outra vez, mas não é lapso, as palavras mais usuais vinham repetidas duas e três vezes, outras havia de tão pequenas que quase não se conseguiam ler], vanidade, volúpia…
                Complicado se tornava acrescentar uma nova palavra. Um dia, achou que estava apaixonado por uma vizinha que caminhava diante de si e o deixava numa vertigem inebriante. Não era bem desejo ou volúpia porque havia outros sintomas associados, uma lufada fresca no peito e uma inquietação sonhadora que lhe fazia estremecer as pupilas. Tinha de ser paixão, mas para estar apaixonado, tinha de existir paixão no seu dicionário. Consultou o seu editor, mas aquele ancião muito atarefado com a sua infindável Biblioteca de Babel, perguntou-lhe se ele conseguia definir paixão, premissa incontornável para a criação de um novo étimo. Aquela questão ocupou-o durante dias, dias infinitamente cruéis porque todos os dias via a sua vizinha e os sintomas agravavam-se. Por fim levou-lhe a sua definição possível (que o ancião acabou por aceitar) e que apresentou assim: sentimento indefinível, que se fosse definido não seria paixão. Acrescentado a paixão ao seu dicionário, e ao procurar explorar os seus sinónimos, fez acrescentar ao verbete: (ver também: desprezo).

                Outras vezes, a palavra era acrescentada pelo próprio editor, por se ter imposto à sua vida. Melancolia foi uma dessas palavras, e não era apenas uma palavra isolada, inerte, era uma doença, um verme do papel que cavou túneis para baixo e para cima nas folhas mais próximas, a comer letras e acentuação de outras palavras. O pó e os pedacinhos de papel que o verme de melancolia espalhava sobre outras palavras, ocultava-as do seu olhar, aumentando a sua confusão e a sua melancolia. A palavra melancolia foi das últimas que o seu dicionário recebeu, mais precisamente, a última adição que ele teve em vida, porque a palavra morte foi acrescentada depois pelo editor, antes de selar e cintar o dicionário e o arquivar na biblioteca sem fim de galerias hexagonais.


Geena

                No rincão das matas enegrecidas, onde as árvores carbonizadas se assemelhavam a costelas fraturadas do corpo de uma ...