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A sombra dos dias




               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes, porque aquele cliente, um cliente muito especial, fazia sempre o mesmo pedido todos os dias, quase sempre à mesma hora, sentava-se de preferência na mesa de canto ao pé da janela munido do jornal que capturava na entrada, distante e misterioso. Enquanto esperava, ela olhou-se ao espelho do balcão e passou a ponta humedecida do dedo indicador por uma sobrancelha. Estivera a arranjá-las, e parecia-lhe que não estavam iguais. Levou-lhe o pequeno-almoço, que ele agradeceu polidamente na sua voz grave, mas sem entoação. Ela foi servir outros clientes, mas sempre com ele no canto da retina, bebia-lhe os gestos e as expressões, descobria entre sobressaltada e incrédula quando ele tinha uma palavra inusitada ou um movimento insólito, como se ele o fizesse para sair da rotina, para lhe dar a entender em silêncio que sabia que ela estava ali, a olhá-lo, e que vivia como ela numa pálida e morna ansiedade, a esperar por algo na névoa dos gestos de todos os dias. Ela também notou que ele se demorava sempre na página dos classificados, escrutinando com gravidade os anúncios como se procurasse algum anúncio específico, talvez fosse daqueles homens que não são capazes de estar com uma mulher sem ter de pagar por isso e, ao mesmo tempo, isso parecia-lhe uma ideia absurda, porque ele emanava uma confiança viril e uma tranquila segurança, que fora o que a atraíra nele. Quando ele abandonava o café, ela sentia a saudade sofrida de quem fica no cais, só desanuviada por saber que o voltaria a ver na manhã seguinte, enamorada de um estranho, e afeiçoada ao sentimento de se sentir assim enamorada. Durante a noite, no seu quartinho dos fundos, quando o dono do café entrava nele à socapa para vencer com o seu peso as relutâncias do seu corpo crispado e ausente, vinham-lhe aos olhos lágrimas de infelicidade e desespero, que o homem nojento interpretava como se fosse dor por ele a penetrar, mas encolhia os ombros e masquindo de passagem, servia-se do seu corpo e largava-a prostrada e suja sobre a cama como restos de comida na beira de um prato.
                Durante o dia, ela só amanhecia com a chegada do cliente misterioso. Mas será que ele dava por ela? - angustiava-se ela em segredo. Discretamente, tentou acentuar aquela relação cúmplice entre os dois. Começou a providenciar flores novas todos os dias para a jarra da mesa do canto, e punha lá o jornal que já lá o esperava quando ele se encaminhava para a mesa, dobrado ao alto a exibir a página dos classificados com a impressão ténue dos seus lábios com bâton no topo da página, e sempre um guardanapo de papel dobrado e espalmado num origami de fantasia a um canto da mesa. Estranhamente, quando a sua expetativa por uma reação aumentava, ele deixou de aparecer. Ela sentiu-se angustiada. Teria ido depressa demais? Ele podia ser incorrigivelmente tímido e ter-se recolhido na carapaça. Também podia ter acontecido alguma desgraça, e ela não tinha como saber. Passaram-se três, quatro, cinco dias, e ele sem aparecer. Ela foi-se abaixo, chorava pelos cantos ao mínimo pretexto, e desfazia-se em lágrimas no seu quarto dos fundos. Um dia, o patrão fora visitá-la ao quarto a meio da noite e surpreendeu-a em pranto e disse que não iria tolerar por muito tempo aquela choradeira. Deu-lhe uns dias de licença, para ela ir ver a família ou o campo para espairecer, para depois voltar e retomar o seu trabalho e os seus deveres como antes. Ela ripostou que isso não era suficiente e que se ia embora dali, ia morar para a casa de uma amiga e procuraria um novo trabalho, e a conversa entre os dois resolveu-se em gritos e insultos mútuos. Reuniu os seus parcos haveres e rumou à casa da colega de café, que a alojou e ajudou-a na busca de um outro emprego. A oportunidade surgiu apenas dois dias depois, para o balcão de uma perfumaria situada na mesma rua do café onde trabalhara. A perfumaria abria mais tarde do que o café, mas ela habituou-se a sair para a rua mais cedo do que era preciso, apenas para passar diante do café, e espreitar de relance a mesa de canto junto à janela, mas eram sempre outras pessoas, outros estranhos, que surpreendia sentados nela. Com poucos dias dessa rotina inusitada, a sua procura surtiu efeito. Encontrou-o junto à entrada da perfumaria, a fumar, ela sentiu-se eufórica e a um tempo assustada, e levada por movimentos quase involuntários, caminhou na direção dele e parou à sua frente. Olharam-se demoradamente num silêncio de devaneio. Ela notou a bata branca de padeiro sob o casaco de napa, e um traço de massa seca na face.
                - Agora trabalho de noite – disse-lhe ele, quando começava a duvidar de que ele a reconhecesse e que poderia estar a tomá-la por uma louca – encontrei este emprego depois de muitas semanas à procura. Na minha folga fui ao café para te ver, mas a tua amiga contou-me que já não trabalhavas lá.
                - Quase dei em maluca porque pensei que lhe tivesse acontecido alguma coisa! - ripostou ela, sem acreditar que fora capaz de dizer aquilo.
                Ele atirou fora o cigarro, puxou da carteira e tirou do porta-moedas um dos origamis que ela lhe havia deixado na mesa do café. Ela sentiu-se serenar, as dúvidas, o medo, a solidão, tudo se aquietou como uma onda que se estende no areal. Desprezando as palavras, que as palavras não eram para eles, ela tomou entre as suas, as mãos frias que expunham a figura de papel, e recolheu-se no seu peito entre os braços que se abriam.


Geena

                No rincão das matas enegrecidas, onde as árvores carbonizadas se assemelhavam a costelas fraturadas do corpo de uma ...