INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

Um soldado




                Lucio Cardinales era um jovem imberbe, praticamente um adolescente, quando terminou a sua rudimentar instrução militar e foi colocado nas traseiras de uma Unimog verde-alface com outros soldados para ir servir nos postos fronteiriços. Lucio encolheu-se sobre si, ladeado pelos camaradas, o queixo enterrado no pescoço, cheio de dúvidas e receios, nada sabia do trabalho que o esperava e, sobretudo, tinha uma quase certeza de que iria falhar no seu papel e em tudo, e ser a vergonha da companhia e ser preso e torturado por isso. Quando estavam perto de chegar ao destino, um sargento pôs-se de pé, seguro a uma barra de ferro soldada no teto da cabine da Unimog, e fez-lhes uma pequena palestra sobre o que esperava deles na linha de fronteira. Garantiu-lhes que de início não fariam mais do que estarem de sentinela nas torres de vigia e depois, à medida que dessem provas da sua dedicação e caso mostrassem vontade de aprender e progredir, outros trabalhos e rotinas lhes seriam confiados.
                Lucio sentiu-se mais tranquilo, e os dias que sucederam à sua chegada à fronteira, reforçaram a sua confiança. A torre de vigia em que foi colocado ficava apenas a uns duzentos metros do QG da unidade, e quando era rendido no seu posto escapulia-se até ao aquartelamento, onde os cozinheiros lhe arranjavam sempre alguma coisa para complementar a ração que levava na mochila.
                Cedo se apercebeu de que fronteira tinha duas barreiras distintas para quem a procurasse cruzar. A linha de torres de vigia como a sua, que se elevavam dos bosques e serranias como sonhículos de torres de Babel, e as patrulhas de fronteira, grupos de homens armados - no mínimo cinco porque os contrabandistas tinham fama de ardilosos e traiçoeiros - que avançavam e regrediam no espaço entre as torres de forma espontânea e inesperada de forma a iludir a astúcia de eventuais observadores.
                Apesar da preleção do sargento no caminho para ali, Lucio permaneceu na mesma função durante meses, a maturar o seu olhar e a sua paciência para o que quer que pudesse depois encontrar no terreno – se alguma vez o elegessem para tal mester. Passava ali dias consecutivos com a ração de campanha e a água à medida, enregelando com o frio da noite, ou sudando a cântaros nos dias de maior calor. O vento também era impiedoso para aquele solitário jovem de olhar de águia, fazendo-o rememorar em desvairada nostalgia o mavioso aconchego do lar e da lareira odorífera que lhe fazia companhia nas noites de temporal.
                A fronteira era longa e não havia efetivos que dessem para ter mais do que uma sentinela em cada torre de vigia. Em horas pré-estabelecidas comunicavam via rádio com o QG para darem conta se havia alguma anomalia nas redondezas ou se tudo se encontrava correto e verificado. A diminuição dos dias e as primeiras chuvadas de Junho coincidiram com a transferência de Lucio para outra torre de vigia, esta uma estrutura decrépita de madeira erguida no pontão de rocha de uma colina, a uma vintena de metros acima do vale cavado preenchido por uma vegetação luxuriante e impenetrável. A sua situação era desfavorável, porque se os contrabandistas estivessem camuflados a preceito, dificilmente os descortinaria no coberto vegetal, e este por sua vez seria contornado e não atravessado pelas patrulhas de fronteira, o que deixava o terreno livre à ação clandestina dos contrabandistas. Nervoso e angustiado, e sob a luz débil de um candeeiro de querosene releu o manual de campo, as instruções e conselhos nele contidos, e quando a noite se fechou por completo em volta da torre, Lucio equipou-se como se fosse integrar uma patrulha de fronteira, vestiu o colete, conferiu o estado da pistola e colocou-a na cintura, e muniu-se também da bolsa para munições, a luz química, o cantil, e a espingarda. Apoiado no varandim da torre, percorreu com os seus binóculos o negrume da noite sem luar, e bastaram umas horas de atenção para que a sua vigília se revelasse justificada. Distinguiu diminutos halos de luz que ascendiam do vale por um carreiro entre as rochas, a poente da torre, moviam-se muito devagar, talvez pelas dificuldades levantadas pelo terreno, ou pelos cuidados impostos pela carga que levavam. Três contrabandistas, refletiu o jovem, não era irrealista pensar que seria capaz de anular três contrabandistas. Lucio sentiu-se muito calmo, para surpresa sua, ignorou o convencionado alerta via rádio, porque não serviria para nada, e limitou-se a confirmar as munições da espingarda. Colocou-a ao ombro e com movimentos rápidos desceu as escadas da torre, e progrediu em passo de corrida por um caminho de cumeeira de forma a intersectá-los. Quando os contrabandistas alcançaram a crista do monte, já Lucio se encontrava lá, emboscado, acionou um bastão de luz química e atirou para a frente deles, e antes que pudessem reagir alvejou-os com a espingarda, os dois primeiros caíram redondos no chão com tiros irrepreensíveis na fronte, mas o terceiro disparo havia falhado e viu-o fugir por entre as rochas. Sob a luz colorida da luz química e pela forma como corria, Lucio apercebeu-se de que o tinha ferido. Largou a espingarda e correu no seu encalço enquanto desembainhava a pistola, saltou sobre os corpos mortos das duas mulheres no chão e alcançou o contrabandista que entretanto tropeçara numa pedra e estava caído na sua frente. Era também uma mulher jovem, que se soergueu sobre os braços a olhá-lo, e Lúcio enquadrou-a no foco da lanterna. Estava ferida numa perna, que sangrava em abundância, e levantou-se do chão com nítidas dificuldades, como se o desafiasse. Era estranho, uma bala disparada à cabeça ter-lhe acertado na perna, era improvável que tivesse saltado tão alto na fuga, pelo que a explicação deveria residir naquelas armas velhas que lhes haviam entregue na recruta. Fez baixar o círculo de luz da lanterna para o seu ventre apenas para admirar o que só conhecia de ouvir falar e de ler nos manuais. Os olhos da mulher pareciam brilhar no escuro e os seus cabelos longos e brancos emitiam uma luz alva e lunar que se propagava em volta da cabeça num halo de luz. Completo o exame, e antes que o contrabandista o tentasse ludibriar, disparou um tiro certeiro que lhe vazou um dos olhos e lhe atravessou o crânio. Deu dois passos em frente e, cumprindo as instruções do manual e da instrução, disparou um segundo tiro de confirmação no coração. Notou que um dos braços do seu corpo imóvel rodeava a mochila volumosa caída ao seu lado, como se mesmo depois de morta a tentasse resguardar do mal.
                No cumprimento das normas do manual, confirmou que os dois outros contrabandistas estavam efetivamente mortos e voltou de imediato à torre e relatou o sucedido pela rádio. Menos de uma hora depois, uma patrulha de fronteira alcançou a torre. Em silêncio e com método, enterraram os três corpos na terra macia, e carregaram as mochilas dos contrabandistas. Um tenente de cabelos encanecidos aproximou-se dele sob a luz intensa da torre de vigia, colocou-lhe uma mão pesada sobre o ombro e exclamou.
                - Tu és um herói, meu rapaz. Esta tua proeza vai abrir-te as portas na unidade. Vou deixar contigo um camarada para tomar conta da torre. Tu vais dormir e de manhã vais ter ao quartel-general, porque o major quer conhecer-te!
                Lucio agradeceu com um aceno de cabeça e repetiu a continência ao superior, esfusiante de contida alegria. Naquela noite, mal conseguiu dormir, a entrevista, os nervos, a eliminação dos contrabandistas, que revia com incomensurável satisfação e orgulho, tudo isso prolongou a duração das horas e da vigília, e às primeiras horas do dia já se encontrava equipado e de imediato se pôs em marcha, vencendo num par de horas a distância que o separava do QG. Lá chegado, identificou-se, e logo um ordenança veio buscá-lo para o conduzir ao gabinete do major. O major Quispe veio recebê-lo à porta, parecia francamente alegre, e dispensando as normas e preceitos, abraçou-o como a um simples camarada de armas, e indicou-lhe uma cadeira junto à sua mesa para se sentar. Enquanto Lucio se sentava, um pouco constrangido por aquela insólita familiaridade do oficial, este vazou dois dedos de conhaque num copo e estendeu-lhe. Aceitou, e bebericou um pouco do conhaque.
                - Então, soldado Lucio Cardinales? Qual é o trabalho que gostaria de realizar aqui?
                - Eu… - hesitou, com receio de estar ser ousado – eu gostava de ir para as patrulhas, se o senhor major achar que sou capaz, e se não for pedir muito.
                - Considera-o feito, soldado Cardinales. Vou-te dar uma medalha e passas para as patrulhas, com o talento que tens vais dar um bom Caçador – riu-se, por razões que Lucio não entendeu, e continuou num tom mais grave – tu percebes que ao passar para as patrulhas, a tua responsabilidade aumenta bastante?
                Lucio acenou que sim, mas não deve ter convencido o major.
                - Sabes dizer porque é que nós estamos a vigiar as fronteiras, soldado Cardinales?
                - Para impedir que entrem no nosso amado país produtos que minem as suas forças, e indivíduos armados que nele possam causar morte, instabilidade e caos – respondeu, debitando o texto do manual.
                - Não o podias ter dito de melhor forma. O nosso país é um corpo único, os nossos governantes são a sua cabeça, e os trabalhadores e militares os seus pés e mãos. Neste corpo, só pode circular na sua corrente sanguínea aquilo que o revigora e o torna mais forte, tudo o mais é excedente e perigoso e deve ser limpo sem contemplações. Não há lugar para a arte, a improdutiva contemplação da beleza, a literatura, a poesia, a música, o pensamento não-doutrinado. É disso que nos devemos defender, e é isso que tentam introduzir no nosso amado país depois de os termos erradicado daqui. Tudo o que os contrabandistas trazem até nós possui o perverso malefício de nos tentar afastar da nossa sagrada missão e de infetar o corpo da nossa nação. Vem comigo, vou mostrar-te o que transportavam os contrabandistas que anulaste ontem à noite!
                Saiu do gabinete em passos rápidos, e Lucio secundou-o. Cruzaram a praça de armas até o que parecia ser um complexo de armazéns ao lado da caserna. Cruzaram a entrada com sentinelas e no caminho para o âmago do complexo, passaram por três duplas de soldados fortemente armados.
                - Esses contrabandistas que tentam fazer crer que estão a devolver à nação um pouco da sua alma transportam quase sempre itens absurdos e desprezíveis como livros, manuscritos, telas enroladas, pequenas obras de arte e outros artigos de semelhante calibre. Os propagandistas e falsários que os dirigem, intitulam-se génios da terra-mãe e guardiães da nação ancestral, mas tudo o que pretendem é danificar a nossa determinação e a nossa saúde mental com os seus esquemas e operações maquiavélicos. São agentes do caos e temos de os aniquilar sem hesitações, tal como tu fizeste ontem.
                Pararam diante de uma porta blindada. O major digitou um código num terminal e a porta destrancou-se. De uma estante à direita, o major recolheu dois pares de óculos escuros, estendo-lhe um par e colocando o outro sobre os seus olhos.
                - As lentes escurecidas desfocam um pouco os itens do armazém, só para nos precavermos contra possíveis danos psicológicos.
                Lucio colocou os óculos, e sentiu receio de chocar contra alguma coisa, tão pouco era aquilo que descortinava com eles. Seguiu a imagem esbatida do major.
                - Venha por aqui – dizia este – o que eles tentavam passar ontem é um artigo um pouco insólito, veja! – exclamou, apontando uma mesa entre as estantes, onde reconheceu as silhuetas das mochilas da véspera, e um feixe de formas delgadas que pareciam sair de pequenos vasos, alinhadas na mesa como se estivessem estado a inventariá-las. Pareciam flores.
                - Orquídeas - explicou o major, respondendo às suas dúvidas - ontem tentaram introduzir orquídeas no país, selecionaram os híbridos mais vistosos e coloridos para perverter e enfraquecer os nossos espíritos. Está a ver até onde esta gente consegue chegar, soldado!
                E num repente, o major começou às punhadas às orquídeas, esmagando as suas flores como se estivesse a aniquilar os génios-da-terra. Depois de descarregar a sua fúria, tomou o caminho da porta por onde haviam entrado. Depositaram os óculos na mesma estante, e alguém voltou a fechar a porta blindada atrás deles depois de saírem. Abandonaram o edifício e o major inspirou profundamente o ar.
                - Percebe agora a importância de patrulhar e defender a fronteira, soldado Cardinales?
                - Sim, meu major! – respondeu com energia – não defendemos apenas a fronteira, defendemos o país de ser corroído e destruído.

                O major sorriu de satisfação, despediu-o com um gesto e tomou o caminho do gabinete onde o entrevistara, com as mãos unidas atrás das costas. Lucio Cardinales ficou a vê-lo afastar-se, pensativo. No seu espírito não havia lugar para a arte ou para a poesia que nunca conhecera, nem mesmo para as orquídeas que suspeitara mais do que vira. A sua única dúvida, paciente e promissora como a primeira fissura num muro de betão, tinha os olhos femininos e brilhantes, e longos cabelos brancos que se acendiam de uma luz lunar.

A sombra dos dias




               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes, porque aquele cliente, um cliente muito especial, fazia sempre o mesmo pedido todos os dias, quase sempre à mesma hora, sentava-se de preferência na mesa de canto ao pé da janela munido do jornal que capturava na entrada, distante e misterioso. Enquanto esperava, ela olhou-se ao espelho do balcão e passou a ponta humedecida do dedo indicador por uma sobrancelha. Estivera a arranjá-las, e parecia-lhe que não estavam iguais. Levou-lhe o pequeno-almoço, que ele agradeceu polidamente na sua voz grave, mas sem entoação. Ela foi servir outros clientes, mas sempre com ele no canto da retina, bebia-lhe os gestos e as expressões, descobria entre sobressaltada e incrédula quando ele tinha uma palavra inusitada ou um movimento insólito, como se ele o fizesse para sair da rotina, para lhe dar a entender em silêncio que sabia que ela estava ali, a olhá-lo, e que vivia como ela numa pálida e morna ansiedade, a esperar por algo na névoa dos gestos de todos os dias. Ela também notou que ele se demorava sempre na página dos classificados, escrutinando com gravidade os anúncios como se procurasse algum anúncio específico, talvez fosse daqueles homens que não são capazes de estar com uma mulher sem ter de pagar por isso e, ao mesmo tempo, isso parecia-lhe uma ideia absurda, porque ele emanava uma confiança viril e uma tranquila segurança, que fora o que a atraíra nele. Quando ele abandonava o café, ela sentia a saudade sofrida de quem fica no cais, só desanuviada por saber que o voltaria a ver na manhã seguinte, enamorada de um estranho, e afeiçoada ao sentimento de se sentir assim enamorada. Durante a noite, no seu quartinho dos fundos, quando o dono do café entrava nele à socapa para vencer com o seu peso as relutâncias do seu corpo crispado e ausente, vinham-lhe aos olhos lágrimas de infelicidade e desespero, que o homem nojento interpretava como se fosse dor por ele a penetrar, mas encolhia os ombros e masquindo de passagem, servia-se do seu corpo e largava-a prostrada e suja sobre a cama como restos de comida na beira de um prato.
                Durante o dia, ela só amanhecia com a chegada do cliente misterioso. Mas será que ele dava por ela? - angustiava-se ela em segredo. Discretamente, tentou acentuar aquela relação cúmplice entre os dois. Começou a providenciar flores novas todos os dias para a jarra da mesa do canto, e punha lá o jornal que já lá o esperava quando ele se encaminhava para a mesa, dobrado ao alto a exibir a página dos classificados com a impressão ténue dos seus lábios com bâton no topo da página, e sempre um guardanapo de papel dobrado e espalmado num origami de fantasia a um canto da mesa. Estranhamente, quando a sua expetativa por uma reação aumentava, ele deixou de aparecer. Ela sentiu-se angustiada. Teria ido depressa demais? Ele podia ser incorrigivelmente tímido e ter-se recolhido na carapaça. Também podia ter acontecido alguma desgraça, e ela não tinha como saber. Passaram-se três, quatro, cinco dias, e ele sem aparecer. Ela foi-se abaixo, chorava pelos cantos ao mínimo pretexto, e desfazia-se em lágrimas no seu quarto dos fundos. Um dia, o patrão fora visitá-la ao quarto a meio da noite e surpreendeu-a em pranto e disse que não iria tolerar por muito tempo aquela choradeira. Deu-lhe uns dias de licença, para ela ir ver a família ou o campo para espairecer, para depois voltar e retomar o seu trabalho e os seus deveres como antes. Ela ripostou que isso não era suficiente e que se ia embora dali, ia morar para a casa de uma amiga e procuraria um novo trabalho, e a conversa entre os dois resolveu-se em gritos e insultos mútuos. Reuniu os seus parcos haveres e rumou à casa da colega de café, que a alojou e ajudou-a na busca de um outro emprego. A oportunidade surgiu apenas dois dias depois, para o balcão de uma perfumaria situada na mesma rua do café onde trabalhara. A perfumaria abria mais tarde do que o café, mas ela habituou-se a sair para a rua mais cedo do que era preciso, apenas para passar diante do café, e espreitar de relance a mesa de canto junto à janela, mas eram sempre outras pessoas, outros estranhos, que surpreendia sentados nela. Com poucos dias dessa rotina inusitada, a sua procura surtiu efeito. Encontrou-o junto à entrada da perfumaria, a fumar, ela sentiu-se eufórica e a um tempo assustada, e levada por movimentos quase involuntários, caminhou na direção dele e parou à sua frente. Olharam-se demoradamente num silêncio de devaneio. Ela notou a bata branca de padeiro sob o casaco de napa, e um traço de massa seca na face.
                - Agora trabalho de noite – disse-lhe ele, quando começava a duvidar de que ele a reconhecesse e que poderia estar a tomá-la por uma louca – encontrei este emprego depois de muitas semanas à procura. Na minha folga fui ao café para te ver, mas a tua amiga contou-me que já não trabalhavas lá.
                - Quase dei em maluca porque pensei que lhe tivesse acontecido alguma coisa! - ripostou ela, sem acreditar que fora capaz de dizer aquilo.
                Ele atirou fora o cigarro, puxou da carteira e tirou do porta-moedas um dos origamis que ela lhe havia deixado na mesa do café. Ela sentiu-se serenar, as dúvidas, o medo, a solidão, tudo se aquietou como uma onda que se estende no areal. Desprezando as palavras, que as palavras não eram para eles, ela tomou entre as suas, as mãos frias que expunham a figura de papel, e recolheu-se no seu peito entre os braços que se abriam.


Dicionário

                O “seu” dicionário não tinha muitas palavras, e entre estas, havia muitas quase virginais, intocadas, outras devassadas e puídas pelos seus olhos ansiosos.
                Apenas algumas:
                Ausência, ciúme, comida, desejo, desprezo, dor, horário, insónia, perda, resignação, rotina, saudade, sonho, sono, trabalho, trabalho [outra vez, mas não é lapso, as palavras mais usuais vinham repetidas duas e três vezes, outras havia de tão pequenas que quase não se conseguiam ler], vanidade, volúpia…
                Complicado se tornava acrescentar uma nova palavra. Um dia, achou que estava apaixonado por uma vizinha que caminhava diante de si e o deixava numa vertigem inebriante. Não era bem desejo ou volúpia porque havia outros sintomas associados, uma lufada fresca no peito e uma inquietação sonhadora que lhe fazia estremecer as pupilas. Tinha de ser paixão, mas para estar apaixonado, tinha de existir paixão no seu dicionário. Consultou o seu editor, mas aquele ancião muito atarefado com a sua infindável Biblioteca de Babel, perguntou-lhe se ele conseguia definir paixão, premissa incontornável para a criação de um novo étimo. Aquela questão ocupou-o durante dias, dias infinitamente cruéis porque todos os dias via a sua vizinha e os sintomas agravavam-se. Por fim levou-lhe a sua definição possível (que o ancião acabou por aceitar) e que apresentou assim: sentimento indefinível, que se fosse definido não seria paixão. Acrescentado a paixão ao seu dicionário, e ao procurar explorar os seus sinónimos, fez acrescentar ao verbete: (ver também: desprezo).

                Outras vezes, a palavra era acrescentada pelo próprio editor, por se ter imposto à sua vida. Melancolia foi uma dessas palavras, e não era apenas uma palavra isolada, inerte, era uma doença, um verme do papel que cavou túneis para baixo e para cima nas folhas mais próximas, a comer letras e acentuação de outras palavras. O pó e os pedacinhos de papel que o verme de melancolia espalhava sobre outras palavras, ocultava-as do seu olhar, aumentando a sua confusão e a sua melancolia. A palavra melancolia foi das últimas que o seu dicionário recebeu, mais precisamente, a última adição que ele teve em vida, porque a palavra morte foi acrescentada depois pelo editor, antes de selar e cintar o dicionário e o arquivar na biblioteca sem fim de galerias hexagonais.


A segunda Parca

                «Sê a minha bússola» pediu ela, enquanto ele, estremunhado, se tentava lembrar de como era o rosto dela, e ter presente a maciez das suas coxas ou o cheiro do seu sexo. Muita coisa reunida para se ter êxito numa reflexão em meio à penumbra numa cama de refúgio depois de uma noite regada com álcool, e comprimidos.
                - Só nos conhecemos esta noite, e acho que nem sei o teu nome – protestou, e logo se arrependeu da arrevesada súplica de intimidade e partilha que parecia existir naquela frase de improviso.
                - Não importa! Eu não podia pedir isso a alguém que eu amasse, um irmão ou um amante. Mas tu não és nada para mim, apenas um estranho que eu pedi emprestado para não acordar completamente sozinha, e isso simplifica as coisas. Apenas te peço que sejas a minha bússola, que me guies durante alguns dias através dos lugares do mundo que tu conheces e sentes como teus. Isso é importante para mim, porque pode acrescentar algo à minha vida seca e sem interesse.
                Ele emudeceu, refreou um forte impulso para fugir dali ou responder-lhe com escárnio. Mas por fim recolheu as suas defesas, os espinhos e barreiras, e suspirou na obscuridade, tentou racionalizar a experiência que estava a ter enquanto ela brincava com ele como uma gata brincaria com um novelo de lã, acariciando-lhe e prendendo os seus mamilos entre os dedos.
                - E isso vai levar muito …tempo…isso…da bússola? – titubeou, a sentir-se de novo excitado.
                Ela riu-se, vencera as suas hesitações.
                - Três manhãs, vens-me buscar e vamos de pé ou de carro aos lugares de que tu gostas. Vais guiar-me durante três dias.
                Ele concordou com um aceno, procurando alcançar os seios dela com as mãos abertas em taça, mas ainda replicou: um dia chegava, gosto de poucos lugares e de poucas pessoas!
                Na manhã seguinte, ele foi buscá-la de carro, tinha a ideia algo lasciva de subir ao apartamento dela, mas ela já o aguardava cá em baixo junto à entrada do prédio. Ao entrar no carro, beijaram-se de fugida, um pouco intimidados por uma intimidade que nenhum dos dois sentia como real. Ela tinha o cabelo ainda húmido, e toda ela cheirava a lavanda e madressilvas, também notara agora as sardas rosadas que pontilhavam as suas faces pálidas.
                - Aonde vamos?
                Ele não respondeu, como se não a tivesse ouvido. Ela abriu mais o vidro da janela, capturou um maço de tabaco que ele deixara largado entre os dois assentos da frente e acendeu um cigarro que cravou na ponta de uma boquilha da cor do marfim que tirou da carteira. Como ele parecia desaprovar o gesto, ela oferecia-lhe pequenos anelos de fumo que se desfaziam na sua face carrancuda. Saíram da cidade, e o carro rodou uma meia hora por estradas secundárias de alcatrão em mau estado, até o condutor o encostar na berma.
                Saíram ambos. Estavam diante da entrada de um portão. Divisava-se o acesso a uma mansão que se erguia entre as árvores da propriedade, e um poço com tampa de betão e alguns cepos de madeira a apodrecer numa pilha ao lado. Tudo tinha o aspeto de ruína e de degradação, o ferro forjado e enferrujado do portão, as árvores de folhas amarelecidas, o mato e as folhas mortas naquilo que fora antes o jardim da casa. Ela ia admirando o que via, a aguardar uma explicação.
                - A casa onde nasci e onde vivi até ser maior – adiantou – durante quinze ou vinte anos o meu mundo não tinha mais do que dois quilómetros quadrados, dentro dos quais está esta casa, a escola primária um pouco mais abaixo e a mercearia da aldeia onde íamos comprar géneros alimentares e outras coisas de que precisávamos. Também levávamos lá fruta do nosso pomar para vender, e figos, carnudos e enormes, das árvores da banda de baixo do terreno. Eu disse-te que um dia chegava para te mostrar tudo.
                - Quem é que vivia na casa? Quantos eram e para onde é que foram?
                Ele fez um esforço para continuar, contrariado.
                - Fomos oito irmãos nascidos, e nenhum deles além de mim chegou à idade adulta. Eram todos muito fracos, morriam de febres palustres ou até de constipações. Se espirravam muito ficavam quase em coma, pálidos como cadáveres. Além destes, e antes de todos nós, houve cinco mais que a minha mãe abortou por morrerem de fraqueza dentro dela. Ela tinha horror de os enterrar e atirava-os para dentro do poço. Nunca bebemos água daquele poço.
                - E os teus pais?
                - O meu pai ainda é vivo. Os miolos dele deram o nó com tanta tragédia e nunca mais deu conta de si. Disseram-me que ele vive nas ruas de Braga a pedir às portas, já lá fui á procura dele mas nunca o consegui encontrar, mas confesso que também não procurei muito porque eu queria tirá-lo das ruas para o enfiar num asilo para velhos, e não sei onde é que ele estaria melhor, porque os asilos são como covas onde enterramos os nossos até os trasladarem para a cova definitiva no cemitério. A minha mãe, essa viveu até eu fazer vinte anos, com uma saúde muito débil mas sempre aterrorizada pela possibilidade de eu morrer também de fraqueza, e quando lhe disseram que eu nessa idade continuava vivo e de saúde, deixou de resistir, e morreu.
                - E não te lembras de mais nada?
                - Nada de que valha a pena falar – cortou, enfastiado de falar de si mesmo.
                Ele fechara-se novamente e ela resignou-se. Para surpresa dele, ela disse-lhe para voltar sozinho de carro que ela ia caminhar um pouco por ali mesmo e depois procurava um transporte. Ele fez-lhe a vontade, aliviado por se livrar dela. Na manhã seguinte, ele experimentou passar pelo prédio, um pouco na dúvida se o acordo dos dois se mantinha, mas ela já lá se encontrava à espera. Deteve o carro, e ela entrou, e como na véspera sorveu tranquilamente o fumo do seu cigarro com boquilha como se ele não tivesse direito a uma palavra a respeito disso.
                Vendo-o tomar as mesmas estradas que na véspera, ela julgou que fossem voltar à casa de família, mas depois de um desvio ele estacionou o carro junto á antiga escola primária, no extremo de uma aldeia desolada onde não se via quase ninguém. Abandonaram o carro e ele sentou-se sobre a bagageira do carro com os pés assentes no para-choques. Ela olhou em redor e transpôs a cerca baixa da escola, andando ao acaso pelo recinto degradado. A escola era um edifício geminado, com uma sala de aulas para cada um dos sexos e uma seção mais baixa ao centro que unia as duas partes do edifício, janelas de vidros grandes – partidos e depois forrados por dentro as janelas com placas de contraplacado. A entrada fazia-se pela parte central, por uma porta grande com cercadura em xisto com forma ogival e um escudo de Portugal ao alto. Como ele permanecesse sem dizer nada, ela começou com as perguntas.
                - Brincavas muito aqui? Tinhas amigos?
                - Sim e não, o mesmo que qualquer criança naquelas idades, suponho eu. O ensino era muito rígido, demasiada disciplina, punham-nos de castigo quando revelávamos ignorância ou se nos ríamos um tom acima do que seria desejável e aconselhado. E se as infrações fossem mais graves eram convocados os pais para continuarem a reabilitação em casa com castigos, privações e sovas.
                - E tu aguentavas as sovas? Não eras fraco como os teus irmãos?
                - Não me lembro bem…sei que quando vim para aqui, uma vez o diretor pôs-me de castigo, ajoelhado durante uma hora virado para a parede, e dessa vez desmaiei e tiveram de chamar um médico. Mas também me lembro de mais tarde jogar e correr no recreio como qualquer criança normal.
                - E os teus amigos, eram todos como tu? gostavam de jogar e de brincar? Não havia daquelas crianças de que quase nunca se fala, com problemas físicos ou mentais?
                - Havia uma miúda muito gorda que trazia de casa puré de batata-doce numa caixa de lata e comia com as mãos, besuntando-se toda, parecia um animal, e também havia uma menina atrasada que vinha numa cadeira de rodas e era deixada no fundo da sala a babujar-se e a guinchar palavras que ninguém percebia.
                - Se ela não estudava, porque é que a levavam para a escola?
                - Suponho que os pais tinham de deixá-la em algum lugar, naquele tempo quase toda a gente trabalhava nos campos, de sol a sol, e eles deviam conhecer o diretor para a deixarem lá, talvez lhe dessem em paga produtos do campo, aves de criação ou ovos. Mas essa menina devia ser alguma coisa à minha família, talvez fôssemos parentes, porque me lembro dela passar uns tempos na nossa casa, vem-me à memória a figura dela no jardim com aquele sorriso pateta, e a baba a escorrer-lhe para o pescoço e da minha mãe estar por trás da cadeira de rodas a pentear-lhe os longos cabelos com uma escova. E a minha mãe sorria, um sorriso radioso e enternecido, como se a vida só lhe tivesse dado motivos para estar feliz e expor o lado bonito das coisas.
                - E depois da Primária não estudaste mais?
                - Para quê? Não preciso de estudos, estive a aprender numa oficina e hoje sou mecânico automóvel. Trabalho quando aparece trabalho ou quando preciso de dinheiro, e estou muito bem assim.
                Entraram de novo para o carro, e ele comunicou-lhe a decisão que andara a congeminar durante aquela viagem.
                - Amanhã não te vou buscar! Pensei que pudéssemos ter uma relação boa para ambos, mas isto ficou muito chato. Fazes-me falar e lembrar do passado, e isso incomoda-me e é a última coisa de que eu preciso.
                - E se fizermos uma pequena variação a esse nosso arranjo? Hoje levas-me a um lugar aqui muito perto a que eu já não vou há algum tempo, e amanhã de manhã, para te compensar por todo o aborrecimento que tens sentido, em vez de sairmos vais ter ao meu apartamento, e lá havemos de improvisar alguma coisa que seja do agrado dos dois.
                A expressão dele iluminara-se, e rodou a chave na ignição.
                - A mim parece-me uma ideia ótima! Onde é que fica esse sítio onde queres ir?
                Ele pôs o carro em marcha enquanto ela lhe ia dando indicações, acompanhando-as com gestos agitados das mãos pálidas, e por fim mandou-o parar o carro. Outra casa degradada, e curiosamente, não muito distante da casa onde ele nascera e fora criado. Ela saiu com movimentos pausados, sendo seguido por ele que interrogava mudamente o seu silêncio. A casa quase não se via da estrada, erguida na encosta que declinava da estrada de alcatrão, soerguendo na linha de visão apenas a parte superior das paredes e os telhados abaulados a ameaçar ruína. Mas ela não se aproximou muito da casa, detendo-se a meio caminho, na sombra de um castanheiro vivaz. Quando ela se ajoelhou na sombra, é que ele se apercebeu que no meio das ervas se encontrava a lápide de uma campa. Apenas uma lápide, e a silhueta retangular do féretro sepulto recordado por lajes de granito colocadas de perfil. Ela passou as mãos pelos dizeres da lápide numa tentativa vã de a limpar do musgo seco que os velava e depois de longos momentos de recolhido pranto, regressou com ele ao carro, e não pronunciou mais palavra alguma até regressarem a casa. Quando o carro se deteve diante do prédio, ela avisou-o numa voz tranquila:
                - Amanhã, antes de vires, faz-me o favor de tomares banho, já não deves tomar banho há semanas e pareces um porco, aliás, o teu carro está como tu, imundo como um chiqueiro. Não tens vergonha de ser assim?
                E sem esperar pela resposta, saiu do carro. No outro dia, ele hesitou de novo quando deteve o carro defronte do mesmo prédio. Uma espécie de instinto como um aperto no peito dizia-lhe que o mais prudente a fazer era voltar à sua vida e deixar para trás aquela mulher meio desequilibrada que o desconcertava com o inesperado das suas palavras e atos. Mas acabou por abandonar a viatura e subir para o apartamento dela com algum medo e muita insegurança, aproximando-se do seu destino inexorável com cada falso passo que dava nas escadas. Ela abriu-lhe a porta mas escondeu-se dele com a porta de permeio.
                - Fecha os olhos e não te mexas – ordenou-lhe.
                Ele assim fez e ela colocou-lhe uma venda de veludo sobre os olhos, e em seguida, com gestos acariciantes, despiu-o da cintura para cima, fazendo roçar por ele o seu corpo inteiramente nu. Pegou-lhe pela mão e conduziu-o pelo apartamento, fazendo-o sentar-se numa cadeira onde o atou, ligando primeiro os pulsos e os pés pelos tornozelos com cordas de náilon, e depois com laços fortes prendeu o seu peito e braços às costas da cadeira e as pernas às pernas dianteiras da cadeira. Ele aguardou, expetante e excitado, pelo próximo passo, e o próximo passo dela foi aproximar-se do seu rosto, sentiu o toque delicado e macio de um mamilo na sua face, mas deu-se conta de que ela apenas lhe desatava a venda, e a atava de novo sobre a boca como uma mordaça apertada. Ele emitiu um protesto abafado, mas ela saiu do seu campo de visão, e enquanto ele se interrogava sobre o que ela tinha ido buscar, talvez uma chibata ou correias de couro, ela reapareceu de novo com um robe vestido sobre o seu corpo nu e empunhando um corta-papéis com o feitio de um sabre, ele arregalou os olhos de pavor e sacudiu-se na cadeira, mas era impossível soltar-se sozinho daqueles nós.
                Como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo, ela aproximou-se dele por trás, encostou a lâmina ao seu peito e fê-la correr ao de leve sobre a pele, abrindo-a num corte pouco profundo que ficou a gotejar sangue. Ele gritou como podia, sabendo que ninguém o ouvia, e ela tranquilizou-o.
                - Acalma-te, porque quero só conversar contigo.
                Puxou de uma cadeira e sentou-se à sua frente, a olhar pensativa para o sangue do sabre.
                - Como não te apetece falar, acena com a cabeça se eu te perguntar alguma coisa. De acordo? – Ele acenou afirmativamente, e ela prosseguiu – há vinte anos atrás tu eras uma criança débil como o fruto seco de uma árvore raquítica e sem seiva, o último sobrevivente de uma geração condenada, os teus pais andavam angustiados com a possibilidade de te perder, e então entrou em cena o médico da aldeia, um homem mesquinho e ganancioso a quem os teus pais recompensavam generosamente pelos seus cuidados e pelos seus conselhos. Esse homem, um criminoso, disse-lhes que a menina atrasada da escola tinha o mesmo tipo de sangue do que tu e que bastaria uma transfusão de sangue para garantir que tu sobrevivias. Essa criança atrasada era minha irmã, e viste ontem a sepultura dela sob o castanheiro. Com dinheiro ou com promessas de que a iriam criar e fazer-lhe também os bens, os teus pais convenceram os meus a fazer a transfusão de sangue. O médico mexeu os cordelinhos e fez-se a transfusão num hospital pequeno e as coisas correram mal, tiraram sangue a mais à minha irmã ou algo foi mal feito porque ela morreu de imediato, uma criança, percebes? uma criança que precisava de cuidados e de dedicação, que tinha problemas mas que era uma criatura doce que chorava de alegria quando lhe fazíamos festas nos cabelos ou lhe enchíamos a cara de beijos. Mataram-na para tu estares aqui, um traste de gente e um monte de lixo. Os teus pais devem ter-se sentido felizes com a transfusão, mas o remorso bateu forte no teu pai que era o mais sensível dos dois, começou a ir a minha casa, meio tresloucado, para rezar e pedir perdão diante da campa da minha irmã, a ponto do meu pai ter de o expulsar de lá de cada vez que ele aparecia, e ele nunca mais foi o mesmo, nem nós.
                Ela levantou-se e encostou a lâmina ao seu plexo solar, ele arfava de aflição e começara a chorar.
                - Eu devia cravar-te esta lâmina e sangrar-te como a um porco, retirar-te o sangue que foi roubado e não te pertence. Vou-te dar alguns minutos para pensares se é isso que desejas para ti, enquanto me visto para sair.
                Ela deixou-o sozinho na sala, e ele voltou a debater-se na cadeira a tentar libertar-se, e com tanta energia que a cadeira tombou para o lado sem que a sua situação melhorasse porque continuava preso a ela. Ela regressou e endireitou a cadeira do prisioneiro. Vestira-se e calçara-se, com uma mala de viagem aos pés.
                - Vou tirar-te a mordaça, e se gritares ou tentares gritar, ninguém te salvará de teres o pescoço cortado. Compreendes?
                Ele anuiu e ela desatou-lhe a mordaça.
                - O que me move é o desejo de justiça, esse é o meu norte, a flor-de-lis da minha bússola, e a justiça é sempre um equilíbrio entre os atos e os seus reflexos, entre o crime e a punição. Racionalmente, compreendo que não foste tu quem matou a minha irmã, mas também percebo que a morte da minha irmã possibilitou estares aqui e seres quem és. Vou fazer-te um repto, uma proposta de vida ou de morte que vai condicionar a duração da tua vida – eu vou soltar-te com a condição de fazeres alguma coisa por ti, de tentares ser uma pessoa melhor de alguma forma que esteja ao teu alcance, estuda ou aprende um outro ofício, ajuda os outros ou salva os animaizinhos abandonados, não me interessa. Vou-te dar dois anos para seres uma pessoa diferente, melhor, que não converta o sacrifício da minha irmã num absoluto desperdício. Ao fim desse tempo, decidirei se conservas o sangue da minha irmã ou se deves ser castigado. Temos acordo?
                - Sim! – respondeu ele num tom desesperado.

                Ela usou o pequeno sabre e libertou-o das cordas. Ele curvou-se sobre si mesmo a esfregar os pulsos, imóvel na raiz de dois rumos distintos, e ela abandonou o apartamento, saindo por uns tempos da vida dele como um juiz que entrasse em férias.

Geena

                No rincão das matas enegrecidas, onde as árvores carbonizadas se assemelhavam a costelas fraturadas do corpo de uma ...