Página principal e directório:

O estrangeiro em visita à cidade

     O estrangeiro em visita à cidade cruzou a entrada iluminada do pavilhão gigantesco onde decorria o certame de comércio e indústria. A luz e a música eram exageradas, uma agressão para os olhos e para os ouvidos, mas estoicamente, ponderou que deveria ser mister esse esbanjamento, era uma feira temporária em horário noturno, e cada hora e cada minuto teriam de ser compensadores e lucrativos para todos os vendedores e pregadores comerciais que aí trabalhavam sob a pressão dos dígitos e do tempo que, proverbialmente, também se traduzia por dinheiro. Logo no átrio da feira encontrou um pequeno grupo que num espaço aberto se demorava em volta de uma animadora vestida de mulher-palhaço. Tentou contornar o grupo, seguir a sua marcha tranquila e solitária no encalço do que o interessava, mas a animadora deteve-o com um grito estridente, apontando-lhe um balão alongado em forma de florete.
     - Venha cá! – ordenou, suscitando algumas risadinhas nos que assistiam -  onde é que você pensa que vai sem vir cumprimentar aqui a rainha?
     Encolheu os ombros, ignorando as novas risadinhas de hiena em volta.
     - Eu não quero nada de si! – atalhou – venho ver a feira e aquilo que me interessa encontrar.
     - Não quer nada de mim? – casquinou, saltitando em volta dele como um bobo imemorial, mas quando voltou a falar, a sua voz perdera o tom caricato de mulher-palhaço – eu sou uma fêmea, uma fêmea-rainha, e você não quer nada de mim? Talvez já não tenha uma espada para me servir, olhe, ofereço-lhe esta, é comprida e mais ou menos rija, talvez o ajude.
     O estrangeiro ouviu-a gargalhar enquanto ela prendia o balão alongado entre as próprias pernas e lhe imprimia um movimento de vaivém, mas ele não se conseguiu rir, e o pequeno grupo ocioso de pessoas desfez-se num instante, havia crianças pelo meio, dependuradas das mãos dos pais, e o constrangimento era visível.
     - Nunca gostei de palhaços, desde criança – voltou o estrangeiro – sempre os achei umas criaturas sinistras e vingativas, mas depois, ao longo da vida, conheci alguns palhaços que me fizeram mudar de ideias, pessoas com um íntimo tão generoso como uma nascente de água límpida e que sentiam uma verdadeira paixão em trazer alegria ao seu semelhante, mas você é o tipo de palhaço que eu temia em criança.
     A mulher alterou-se, esqueceu-se do que fazia ali, e deu largas à sua fúria.
     - Você é que é um palhaço, e da pior espécie, a sua mulher deve ter-lhe posto os cornos e você ainda não sabe, e ri-se como um perdido quando os seus amigos lhe contam anedotas sobre maridos chifrudos e as cabras das mulheres. É corno e é palhaço, bendito par de cornos que a sua mulher lhe pôs!
     - Não faça isso! – recomendou o calmo estrangeiro – você está a prejudicar-se, e precisa do dinheiro que ganha aqui.
     - Ah é? Está com pena de mim, seu palhaço?
     - Não é pena, apenas distingo o que é real! Você é uma pessoa triste com uma vida miserável, deve viver numa casa minúscula e bafienta com um marido alcoólatra que lhe torra o dinheiro e ainda lhe bate, e é possível que ainda tenha mais alguém a reclamar os seus cuidados a toda a hora, talvez uma mãe doente e acamada ou uma filha deficiente que não aguenta estar muito tempo sozinha. E quando se pinta e se mascara, não consegue esconder esse azedume e essa revolta surda que lhe rói as entranhas, e castiga os outros com isso. No país de onde eu venho, e à exceção dos palhaços, todas as pessoas se mascaram, mas possuem a sensatez de esconder os olhos, porque sem isso, nenhum disfarce seria suficiente. Você não faz isso, pinta o rosto e o pescoço, e usa o nariz vermelho e luvas desproporcionadas nas mãos, mas os seus olhos traem toda a dor e toda a revolta que lhe vai dentro.
     O estrangeiro fez uma pausa, à espera que a mulher replicasse às suas palavras, e diante do seu silêncio, acrescentou, um pouco desconfortável.
     - Desculpe-me se falei demasiado, não queria ser rude consigo…e tenho de ir, preciso mesmo de ir.
     E afastou-se em passadas largas, cedendo o seu lugar no átrio às outras pessoas que vinham a chegar depois de si, visitantes que continuavam o seu caminho para o interior do certame sem se deterem, pelo menos, não se detinham junto da estranha mulher-palhaço que chorava ajoelhada, esborratando a pintura do rosto.