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Dano e reparação


      Quando a sua irmã chegou com o novo namorado, o cego ergueu a cabeça do chão onde as suas mãos se afadigavam a distribuir feijões secos por uma grelha de quadrados desenhada na areia fina do chão do quintal.
     - Nzema – disse ela para o irmão – este é Omar, de quem lhe falei, meu amigo, companheiro, e meu futuro. Lembra-se de eu ter-te dito que o trazia cá hoje?
     Nzema estendeu debilmente a mão sinistra, que Omar apertou energicamente entre as suas, gesto coroado por uma audível exclamação de alegria da irmã, que anunciou que ia buscar uma cerveja fresca para cada um.
     - Nzema! Sua irmã falou-me muito em você e de sua sabedoria não-vedora. O que é que você faz com esses quadrados e esses feijões secos?
     - Imagine que você encontra um aldeamento com as palhotas encostadas todas umas às outras.       Estas palhotas são quadradas como os desenhos que eu fiz no chão, e não há espaços vazios entre elas, estão mesmo encostadas. Você tem, como aqui, vinte e quatro palhotas. Quantos moradores tinha de haver para você conseguir ter um morador, ou um feijão, em cada palhota?
     - Vinte e quatro! – apressou-se Omar a responder.
     Nzema masquiu, abanando negativamente a cabeça. 
     - Tenho estado a pensar nisso – voltou Nzema – são vinte e quatro moradores, mas na verdade há vinte e cinco moradores. Se você tem uma aldeia, um acampamento, um grupo de casas, então você tem uma pessoa coletiva, onde todos estão reunidos e em que todos têm uma porção dela, uma pequenina parte. Estou a falar de uma aldeia porque é mais fácil, mas podia falar de um povo, de uma cidade ou uma nação. Não importa, é tudo igual, só difere no tamanho e no número. Uma pessoa coletiva, uma aldeia, é como uma casa grande, uma família entre quatro paredes, que sofre quando há dor ou quando um dos seus perde a vida, mas que também se alegra, e festeja e dança, e assinala quanto de importante sucede de bom e de mau.
     A irmã tinha regressado entrementes e Nzema segurou a garrafa de cerveja que ela encostara às costas da sua mão.
     - Nunca tinha pensado nisso assim – disse Omar, sem ter ainda percebido fosse o que fosse. Bebeu a sua cerveja quase de um trago só, e depois de aclarar a garganta resolveu-se a perguntar – Se você tinha vinte e quatro covas na areia e estava a distribuir um feijão por cada quadrado, onde ia colocar o feijão número vinte e cinco? Na casa do soba?
     - Não! Só tenho vinte e quatro feijões, o vigésimo quinto feijão está em todos eles. O soba é um homem como os outros, tem coração, bexiga e testículos e não vive nem morre de maneira sobre-humana.
     - Continuo a não perceber – reconheceu Omar por fim - sua irmã foi para dentro de casa outra vez. Podia pedir a ela para cozinhar uma refeição para nós, talvez uma bela feijoada.
     - Espere, Omar! – pediu Nzema, o cego – vou explicar com outras palavras… lembra-se de eu lhe dizer que todas as casas estavam encostadas, sem espaço entre elas? Nós sabemos que isso não é preceito de gente sã, nem razoável porque não somos como o bio-bilana e não podemos sair a voar pelo buraco do fumeiro. Queria dizer com isso que as casas se apoiam umas nas outras para melhor resistir às tempestades e ameaças de fora, e como são partes de um mesmo aldeamento, quando alguém transgride e magoa ou prejudica outra pessoa, então ela tem de ser punida, e feita justiça a quem foi prejudicado …
     - Nzema – interrompeu Omar, baixando deliberadamente o tom de voz – eu continuo sem perceber nada do que você diz, para mim você além de cego é meio maluco.
     Nzema encolheu de novo os ombros, e com um prolongado suspiro, renunciou às alegorias.
     - Omar – recomeçou em tom de admoestação – eu e a minha irmã vivemos nesta aldeia, e toda a aldeia sabe que você está aqui hoje, é tudo gente de bem mas possuem machetes e machados e seriam bem capazes de o matar se achassem que você era uma ameaça para nós. Mas deixe-me tranquilizá-lo, Omar, porque sei que você não é uma ameaça, ainda que tenha voz de mentiroso e a dignidade e o bom nome desta família e desta aldeia tenha sido prejudicada pelo exemplo que você representa e pela vida que você leva. A minha irmã sabe da sua mulher branca na cidade grande? E dos filhos que tem pela comarca? E da mulher da vida que você instalou em sua casa para cuidar da machamba?
     - Ela sabe, Nzema, já falamos sobre isso e ela concorda com tudo. Estou disposto a entregar à aldeia duas cabeças de gado para reparar a minha ofensa.
     - Quatro cabeças de gado, uma carga de milho, e um transístor de pilhas para alegrar a minha solidão.
     - Temos acordo, Nzema! Hoje mesmo tratarei de tudo.
     - Então diga à minha irmã para cozinhar a feijoada, a minha fome é tanta que já me sinto a ver mal.




A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...