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Outros dados, e cartas, no final da página

O poço

Detalhe do mapa da fortaleza de Alcoutim
(inLivro das fortalezas situadas no extremo de Portugal e Castela por Duarte de Armas, escudeiro da casa do rei D. Manuel I,
cota DGA/ANTT, Códices e documentos de proveniência desconhecida, n.º 159, fl.3


«Assevera o Doutor Correia das Neves na sua Monografia de Reguengo do Mondego, que a bela e jovem fidalga se apaixonou por esse homem horripilante que a brutalizava, e que acossados no seu amor maldito, os dois amantes sacrificaram a vida, atirando-se de olhos fechados para dentro de um poço».
(Armindo Garçães, “Elêusia”, jornal Correio do Mondego,
Ano II, nº 37, 4 de Setembro de 1921)

                O nome de Elêusia, hoje, dirá pouco aos habitantes da aldeia de Mugartes, concelho de Reguengo do Mondego, recordarão ainda a sua história trágica algumas pessoas de mais idade que em pequeno a ouviram contar da boca dos avoengos, ou então aqueles que porventura a leram na sua forma embelezada em pasquins e jornais regionais da primeira metade do século XX. Elêusia foi uma jovem nascida na dita aldeia em finais do século XVIII que o pai, um fidalgo semiarruinado com uma verdadeira devoção pelos mitos e cultura dos antigos gregos, encaminhou para a casa de familiares em Coimbra para estudar e aprender com reconhecidos mestres. Completados os vinte anos, e com a morte do pai, Elêusia regressou a Mugartes. Havia muita coisa para fazer, deslindar a situação confusa dos bens do pai, e tratar de vender ou recuperar a Quinta que se contava ainda entre as suas parcas propriedades, e cuja vedação altaneira se estendia por quilómetros quando se saía de Mugartes em direção a Montemor-o-Velho. Quando regressou à Quinta, só encontrou nela uma mão-cheia de trabalhadores que cuidavam dos animais e viviam no casario da Quinta, os outros o pai costumava contratar à jorna quando necessitava de mais braços para os trabalhos agrícolas. A proprietária providenciou e alienação de outros bens esparsos, mesmo as joias da família, para concentrar os réditos na manutenção e prosperidade daquela herdade. Entre os que viviam na Quinta em permanência, contava-se um homem que tinha a reputação de ser gafo, e que ninguém queria a viver em casa de gente, pelo que dormia numa cabana feita com ramos e colmo junto aos estábulos e que ele próprio erguera com as suas mãos. Fora em tempos mendigo, pedindo pelas estradas e no adro da igreja com as suas roupas largas e o capuz em que mantinha sempre oculta a cabeça, até ao dia em que o pai de Elêusia o acolheu e lhe deu guarida e trabalho. O suposto leproso foi o primeiro assunto que os moradores da Quinta discutiram com Elêusia quando ela ali chegou porque ninguém queria que ele continuasse a viver ali, o patrão velho protegera-o, era verdade, mas o patrão velho falecera e já estava nos céus com todos os anjos e santos, pelo que competia à sua filha sanar esse erro e expulsar das suas terras aquela abominação de gente. Elêusia quis compreender porque é que o queriam fora dali – Não trabalhava e não cumpria com o que lhe era ordenado? Todos reconheceram que não era por isso, era um bom trabalhador, e não ficava atrás dos outros, tanto que nem parecia gafo, mas era como um animal em figura de gente, e não podia viver ali. A Elêusia, pareceu-lhe injusto expulsar um trabalhador sem sequer saber o que ele sentia ou pensava sobre o assunto. Procurou-o na sua cabana, mas ela estava vazia, pelo que desceu ociosamente o caminho entre as ervas até ao arroio que corria a nascente da Quinta perseguindo o rumorejar das águas do ribeiro e foi nas suas margens que avistou o seu empregado, estava despido da cintura para cima, e lavava-se de joelhos na água da concavidade de uma rocha. Elêusia sentiu um choque profundo. Aquele homem não era nenhum leproso mas também não tinha a pele como a de um homem comum, a epiderme parecia esticada e espessa, e da base do pescoço aos ombros exibia o que pareciam ser escamas largas de desenho ogival. Quando ele deu pela sua presença ficou estarrecido e apressou-se a vestir o gibão de capuz sobre a pele encharcada. Mantinha o rosto baixo, mas Elêusia poderia jurar que conseguia distinguir os seus olhos a refulgir na penumbra do capuz. O seu rosto também era diferente de tudo o que conhecia, de formato triangular com a testa larga e olhos encovados, o nariz era estreito e a boca apenas um traço acima do queixo afilado.                
                 Aos poucos o medo da jovem foi diminuindo, talvez mais depressa do que a do homem surpreendido. Ela sentou-se numa rocha a alguns metros dele, enquanto ele se mantinha imóvel, em pé, com o gibão manchado de água. Agora já não lhe via os olhos, ele olhava para baixo, para os seixos da margem do ribeiro, não sabia ela que o fazia por se sentir intimidado pela sua beleza, pela tez muito branca de olhos escuros e pelos cabelos ruivos que pareciam incendiados pela luz do sol.
                - Como é que te chamas?
                - O seu pai disse para eu me chamar Pedro, mas ele gostava de me chamar Tritão.
                A jovem riu-se, mas depois sentiu-se constrangida com receio de que ele se sentisse melindrado. A voz dele era um pouco cava e sibilava no final das frases, mas tranquilizou-a saber que ele falava e que podia comunicar com ele.
                - Foste batizado, Pedro?
                Ele encolheu os ombros.
                - Não me lembro, também não sei em que terra nasci ou a quem devo a minha geração. Não tenho casa mas o seu pai disse que eu podia viver na Quinta enquanto quisesse.
                Ela assentiu, tivera as respostas para as perguntas que lhe desejava fazer, e no seu íntimo afastou de imediato a possibilidade de o expulsar das suas terras. E estranhamente, desejou conhecer melhor aquele homem singular.
                - Costumas vir muito até ao rio, Pedro?
                - Sempre que não estou a trabalhar! – confessou – as árvores e a água não me odeiam e não me desejam ver morto.
                - Voltarei então aqui! – comunicou-lhe. E afastou-se, subindo a ladeira de regresso às casas a preencher o olhar dele com o brilho ígneo dos seus cabelos e os seus passos desenvoltos de criatura dócil dos bosques.
                A partir daí Elêusia voltou ao rio sempre que podia. Andava um pouco ao acaso para iludir os olhares perscrutadores dos que a rodeavam antes de tomar a direção do rio, e reunia-se a Pedro, e conversavam sentados na sua margem pedregosa. Pela sua educação, e porque via Pedro como um órfão largado no mundo sem educação nem catecismo, Elêusia adquiriu o costume de levar um livro consigo, e lia-lhe passagens de Ronsard ou Balzac e, porque se sentia compelida a isso, algum trecho casual dos Evangelhos ou dos Antigo Testamento. Pedro ouvia atentamente, e fazia-lhe perguntas sobre alguma palavra mais escusa ou sobre os quadros que ela esboçava com as suas leituras. Mas mostrava-se sempre agradado com as leituras e as explicações que ela lhe concedia, ainda que fosse evidente que a ideia de Deus era completamente estranha ao seu espírito, pelo que ela se coibiu de desenvolver questões de natureza espiritual ou teológica. Os laços entre os dois desenvolveram-se durante semanas e para ambos era cada vez mais necessário estarem juntos, e embalados pelo murmúrio das águas ou pela frescura do final do dia depois da canícula do Estio, a sua cumplicidade enriqueceu-se de ternura e desejo, e tornaram-se amantes sob o enleio da Hespéride do entardecer.
                O seu amor de segredos e mistérios urdiu-se com todos os cuidados na cumplicidade do ocaso e da noite, e no refúgio das margens do rio ou no quarto da jovem, que Pedro alcançava furtivamente depois de escalar a parede da casa grande como um ladrão. Mas as suspeitas não tardaram em nascer à volta deles, suscitadas pelas frequentes deambulações de Elêusia e por a verem a conversar com Pedro, criatura estranhíssima que não falava com mais ninguém. As suspeitas eram de natureza visceral nos Oliveiras, os caseiros da Quinta, Rosa, a mulher, que era a um tempo criada e cozinheira da patroa, tinha um ódio profundo por aquele gafo asqueroso, e já rogara ao pároco que o denunciasse por heresia ao Santo Ofício, a ver se o prendiam e queimavam de uma vez, que para ela aquele homem era o diabo em figura de gente, e não havia quem se lembrasse de o ter visto alguma vez a entrar numa igreja ou a persignar-se diante dos símbolos sagrados da Santa Madre Igreja. Rosa tomou sobre si uma empresa que a seu modo considerava abençoada e salvífica, transmitindo à jovem patroa conselhos avisados sobre a maldade dos homens e os meios que o Maligno usava para perdermos a alma e, não satisfeita com isso, protegia a casa onde viviam, ocultando no interior e junto às portas e janelas por onde se podia entrar nela, variegados talismãs de inspiração mais ou menos cristã; no átrio da entrada, qualquer morador ou visitante podia admirar aí um vaso solitário com flores, sem suspeitarem que eram flores benzidas pelo pároco a pedido de Rosa.
                Tendo em conta os rodeios e insinuações de Rosa, Elêusia redobrou de cuidados, os seus encontros com Pedro tornaram-se mais espaçados, e multiplicou-se as suas precauções para não serem vistos juntos, ele deixou de ir à casa grande e ela impôs-se fazer um longo périplo de cada vez que o queria encontrar nas margens do rio ou no seu modesto tugúrio. Havia dois caminhos sensatos, o que levava à estrada concelhia, fazendo-a sair dos terrenos da Quinta para regressar a eles um pouco mais abaixo, por um portão de cancela em madeira por onde as reses eram conduzidos aos baldios com pasto e pelo qual chegava facilmente à cabana dele que se erguia num extremo do casario da Quinta, e um outro caminho que se iniciava nas traseiras da casa grande e no sentido oposto ao primeiro, que serpenteava entre celeiros e cabanas antes de descer para as margens do rio por uma enxara apenas povoada por mato e salgueiros. Na noite em que tudo aconteceu, foi o primeiro desses caminhos que ela tomou na luz mortiça do entardecer, saindo pelos portões da Quinta com passos temerosos, a colar-se aos muros para não ser vista, e quando começava a sentir-se mais tranquila e confiante com cada passo que a aproximava mais de Pedro, o seu íntimo gelou-se de terror quando sentiu que alguém a agarrava pelo braço, olhou sobre o ombro e viu apenas a silhueta de um homem junto a si, que a envolvia com os seus braços para a tentar prender e subjugar, procurou libertar-se, mas o desconhecido redobrou a sua força, forcejava para a deitar ao solo, e enquanto ela gritava e se debatia, ele atingiu-a uma e outra vez para a dominar e calar, golpeando-a na cara, no ventre, nas pernas. Mas Elêusia não desistiu e a sacudir-se e a tentar atingi-lo também no desespero aflitivo que a tomara, conseguiu por fim libertar-se daquele estranho, levantou-se do chão e correu até ao portão mais pequeno, que cruzou, tomando o caminho da casa grande, a coxear e a gemer com as dores que sentia, mas sempre a olhar para o negrume da noite atrás de si, com medo que o homem que a atacara continuasse a persegui-la.
                Quando Rosa lhe abriu a porta, ficou estarrecida com a aparência de Elêusia, com as roupas rasgadas, e equimoses e sangue na cara e nos ombros. Gritou para o marido para que fosse buscar o médico, acomodou-a com gestos enérgicos, e começou a limpar e a tratar dos ferimentos. Não parece ter nada partido, repetia-lhe a mulher, cuidando dela sob o olhar perplexo e os trejeitos de dor na expressão de Elêusia. A notícia correu célere, e em poucos minutos aglomerou-se à porta da casa uma pequena multidão de trabalhadores da Quinta e moradores das vizinhanças. Quem foi? Perguntava-lhe Rosa, mas Elêusia não tinha respostas, tudo se passara na estrada, estava escuro, e não pudera perceber quem era. As respostas, criaram-nas no seio da multidão que aguardava lá fora, só podia ter sido aquela criatura a quem chamavam Pedro, um bicho e um diabo em figura de gente. Quando o médico finalmente chegou para a ver, já a multidão clamava por sangue, reuniram-se armas de todo o tipo, tudo o que pudesse ferir, rasgar e matar, machados e chuços, forquilhas e gadanhas - aquele monstro não tinha como levar a melhor. Quando Rosa explicou a Elêusia a causa de tantos gritos, já aqueles servos de Némesis tinham vasculhado a cabana de Pedro sem o encontrar, e discutiam como o deviam procurar ou em que lugares é que ele poderia estar acoitado. Elêusia levantou-se a custo sob os protestos do médico e de Rosa, e sem que a conseguissem deter, acabou de se vestir e calçar, muniu-se de um candeeiro de querosene e saiu pela porta das traseiras. Sentia que ele deveria ter ido para as margens do rio quando se havia dado conta do alvoroço, e talvez se demorasse lá um pouco à espera dela antes de arrepiar caminho e tentar fugir para longe dali. Com o candeeiro seguro na mão esquerda e a coxear com dores, Elêusia venceu a distância até à margem do rio, auxiliada pela poalha prateada do luar que avivava as formas e os detalhes. Encontrou Pedro na rocha onde o vira pela primeira vez, com a sua figura quase invisível no negrume da sombra das árvores. Abraçaram-se num quase desespero, as lágrimas corriam pelo rosto de Elêusia, e ciciaram argumentos, e réplicas. Apesar da insistência de Pedro, Elêusia foi inflexível, não voltaria para a segurança da casa porque queria permanecer ao seu lado. O latido de cães e o rumor de vozes e gritos indicou-lhes que vinham no encalço de Pedro, Rosa devia ter-lhe contado que ela fora ao seu encontro. Cruzaram o riacho, e subiram a encosta na margem oposta, um prado quase sem árvores. Olhando de cima, notaram que o grupo de perseguidores estava cada vez mais próximo, e que se alargara num cordão de gente onde pontilhava a luz dos candeeiros. Os dois avançaram a custo devido ao estado de Elêusia, e ao terreno bravio e sem caminhos abertos por onde pudessem prosseguir mais depressa, e Elêusia estava esgotada e dorida, e insistiu até não conseguir andar mais. Pedro disse-lhe que iria tentar alcançar o poço, asseverando que isso era importante, e ergueu-a nos seus braços e avançou com determinação. Com o som dos gritos e dos latidos cada vez mais próximo, avistaram o poço no cimo do monte, que lhes parecera de início apenas um murete de calcário. Num esforço desmesurado, Pedro alcançou-o o mais depressa que conseguiu, e sentou-a junto ao poço.
                - Foi aqui que tudo começou – disse-lhe Pedro, e ante o seu silêncio perplexo, explicou – quando se mergulha na água do poço atingimos uma correnteza que nos empurra com força. Sabes nadar?
                Ela aquiesceu.
                - Estive a pensar nisso, e acho que quando estivermos dentro da correnteza, temos de nadar contra ela, fazer o caminho inverso. Percebes? É a nossa única chance. Eu ajudo-te! – prometeu.
                Ajudou-a a subir para o topo do murete, e colocou-se ao lado dela, as mãos unidas e o medo e a esperança a disputar os seus íntimos. Foram avistados pelos primeiros perseguidores que se acercavam do poço com os seus cães furiosos, os candeeiros e os archotes, e quando os gritos recrudesciam de intensidade e pareciam quase a alcançá-los, os dois saltaram para o centro da boca circular do poço. Um mergulho vertiginoso, o baque violento na água e viram-se envolvidos pela correnteza que Pedro mencionara - naquela confusão de espuma e água revolta, Elêusia começou a nadar contra a corrente ao longo da caverna escura, auxiliado por Pedro que com um braço rodeava a sua cintura. Longos minutos de luta e desespero com os pulmões como se fossem implodir, e começaram a subir aos primeiros indícios de luz sobre as suas cabeças. Emergiram por fim à tona da água, e inspiraram o ar com sofreguidão a tossir e a cuspir água. Estavam dentro de um poço, ficaram silentes durante alguns momentos, em angústia, mas não ouviram vozes, nem o latido dos cães. Não era o mesmo poço em que haviam mergulhado, e a boca do poço estava próxima, delineada pelo fundo de céu noturno esbranquiçado por Selene.
                Elêusia segurou-se à parede do poço, com os dedos enclavinhados nas reentrâncias das pedras, e Pedro subiu primeiro, avançando os pés e as mãos como um crustáceo, e depois de alcançar a superfície, fez-lhe chegar a ponta de uma corda que achara aí, içando-a para o mundo sublunar. Sentaram-se no solo, encostados à parede do poço, e Elêusia susteve a custo o seu pranto, mas este um pranto de alegria, por estarem vivos e continuarem juntos. Aninharam-se um no outro, minimizando como podiam o frio da noite e das roupas encharcadas. Pedro disse-lhe com uma voz esperançosa que esperariam ali pela manhã para verem em que lugar é que se encontravam, e Elêusia confessou que desconhecia por completo aquele poço, e o lugar, parecia-lhe ouvir o rumor de água ou de coisas a agitarem-se na água, e ouviam-se gorjeios e guinchos de pássaros que não recordava dos terrenos da Quinta. Malgrado o frio e as dores, foi o extremo cansaço dos dois que se sobrepujou a eles, e dormiram profundamente pelo resto da noite, acordando apenas quando o sol ia já bem alto nos céus e o ar estava carregado de sons e cantos.
                Elêusia, sobretudo ela, ficou espantada. O poço abria-se no topo de um monte como aquele em que haviam mergulhado, mas no mais era tudo distinto. No sopé do monte, estendia-se um vale a perder de vista, quase todo ocupado por um rendilhado de dezenas de lagos de dimensões diversas e águas opalinas, entre os quais se erguiam pequenos grupos de casas de aspeto estranho, pareciam feitas de quartzo ou turmalina, e semelhavam-se quer ao quartzo com as suas formas poliédricas e lados facetados, quer a estruturas globulares de cores baças como se tivessem fundido esferas gigantes umas nas outras pulverizando uma parte da sua superfície curva. Alguns desses grupos de casas situavam-se dentro dos próprios lagos, mas Elêusia não divisava pontes nem caminhos enxutos por onde os seus habitantes pudessem alcançar as margens. Os habitantes… Elêusis conseguia vê-los, as suas figuras diminuídas pela distância, movendo-se de um lado para o outro nos campos de cultivo e nos pomares, ou caminhando aos grupos pelos montes como se fosse dia santo e todos tivessem saído para ir dar um passeio. Pedro ajudou-a a levantar-se e começaram a descer o monte. Havia aves por todo o lado, garças ou íbis ou algo de semelhante, mas de cores intensas, vivas, como algumas aves exóticas dos trópicos.
                A presença dos dois não passou despercebida, e aos poucos, os que estavam mais próximos deles, vieram ao seu encontro. Elêusia imobilizou-se, sentia-se perplexa. Os homens e mulheres que se acercavam eram idênticos a Pedro, de epiderme quase lisa e com um tom acinzentado, escamas nos ombros e nuca, e membros longos e delicados. Elêusia achou as mulheres particularmente belas, de olhos grandes e rasgados e longos cabelos negros de tom azulado que caíam lisos como algas marinhas sobre os seios cheios e de formas perfeitas. Uma delas adiantou-se um pouco mais e timidamente tocou-lhe ao de leve com os dedos afilados nas maçãs do rosto, sorrindo em seguida, divertida pelo toque. Elêusia refletiu que talvez ela lhes parecesse tão feia ou hedionda como Pedro pareceria aos humanos se tivesse tido a coragem de se expor à luz do Sol. Mas não sentiu neles qualquer tipo de medo ou repugnância.
                Uma das mulheres indicou-lhes uma rocha para eles se sentarem, enquanto outra chegava com frutos rubros e azuis dispostos sobre uma espadana de folha de bananeira.

                - Estamos em casa! – murmurou-lhe Pedro ao ouvido para a tranquilizar, pondo em palavras aquilo que ela já sentia, na verdade, nunca antes ela se sentira tão em casa como naquele momento.



Conhecimento é poder

                Uma angústia, um amofino, parecia ter tomado as casas e as ruas da vila entre muralhas alcandorada no monte. Andava o povo todo triste, preocupado, vergado sob o peso dos problemas e das inquietações e nem as crianças se atreviam a brincar nas ruas e nas muralhas da vila, tão densa era a tristeza que se respirava por todo o lado. Nesta situação de crise, um grupo de moradores foi falar com o alcaide, que logo se abalançou para a casa do Zé Mocho, que encontrou sentado na sua cadeira de espaldar no alpendre da casa a enrolar um cigarro de barba de milho.
                O autarca recusou o cigarro que o Zé Mocho lhe oferecia, e de imediato, com palavras constrangidas comunicou-lhe em tom de súplica.
                - Anda tudo perdido outra vez, Zé, preciso que morras mais uma vez!
                O Zé Mocho olhou-o de cima, não como um mocho, mas como uma águia ou um grifo. Imperial e autoritário, de olhos severos.
                - A minha vida tem pouco valor, mas preciso do dinheiro que ganho em morrer – refletiu – preparem as ruas e as pessoas para amanhã à tarde. Já arranjaram o cajado macio?
                - Sim, está tudo tratado, quisemos arranjar um feito de esponja, mas depois decidimos por um cajado em borracha que compramos nos salvados de uma companhia de teatro, e esse cajado não magoa nada, mesmo que dessem com ele na moleirinha de um bebé não chegava a aleijar – garantiu – não te volta a acontecer o que te aconteceu da outra vez.
                Zé Mocho assentiu mudo, mais tranquilo por dentro. Nos dias de invernia ou de muito calor ainda lhe latejavam as cicatrizes que se desenhavam na cabeça e nas costas.
                A notícia logo se espalhou pela terra, e naquela noite e na manhã seguinte, muitas eram as pessoas que se via a falarem sozinhas, fervilhando de entusiasmo, pensavam, por vezes com palavras audíveis, no que as atormentava, nas faltas e nos perjúrios que haviam saído dos seus lábios, em traições e em furtos, e em segredos terríveis que guardavam fundo desde há tanto tempo como se tivessem nascido com o primeiro homem que existira sobre a terra. Quando o sol começou a descer do seu ponto culminante na esfera celeste, a praça da vila estava cheia de gente. Ao centro, e ao lado do chafariz pombalino da vila, haviam colocado um cadeirão de madeira e várias selhas cheias de lama empapada em água. Um rumor de gritos e insultos pelas ruas era sinal de que o Zé Mocho se aproximava da praça. Quando ele aí entrou, o rumor converteu-se em ruído como as ondas caladas quando explodem em espuma nos rochedos da costa, Zé Mocho ostentava dois chifres de bode presos no alto da cabeça por correias que prendiam debaixo do maxilar, e um gibão de lã protegia-lhe as costas e os ombros. As crianças corriam em volta a tentar alvejá-lo com pedras apanhadas do chão, sob os ralhos dos mais velhos, mas estes, por sua vez, não se coibiam de mostrar a sua ira, e insultavam-no entre insultos cruéis, cuspindo para os seus pés ou tentando acertar-lhe com ramos de avelaneira e urze. Com o autarca e alguns funcionários a ajudá-lo, lá conseguiu libertar-se do aperto e sentar-se no trono do nojo, no centro de um círculo de pessoas iradas.    O alcaide foi berrando para um e outro lado para impor a ordem, e depois de colocar junto ao cadeirão o prato de lata da dádiva, retirou-se de cena, dando espaço aos angustiados que se organizavam espontaneamente numa fila ao topo da praça. Impaciente e no limite da violência, começaram a acercar-se dele à vez, colavam-se às suas costas aos seus ouvidos, fazendo concha sobre os seus segredos e crimes escondidos, e depois de atirarem uma moeda para o prato de lata no chão, descarregavam sobre ele as suas culpas, transmitindo o negro testemunho menti ao meu filho e ele agora odeia-me, carrega com isso, maldito! / roubei moedas consagradas a Deus e gastei-o na bebida / o meu diligente marido costuma ir caçar para os montes, e enquanto ele procura comida para pôr na mesa, o meu sexo é uma rosa sem dono que qualquer um pode colher / matei o meu tio quando ele tomou o caminho da costa, todos pensam que ele embarcou com o dinheiro que juntara para comprar uma terra nas ilhas, mas ninguém mais o voltará a ver porque ele está morto no fundo de um barranco esquecido… - e finalizavam as suas ciciadas narrativas com um mão-cheia de lama que espalhavam sobre as sua cabeça e costas, alguns faziam isso com cautela como se temessem que a lama os pintalgasse e atraísse de novo a culpa sobre eles, mas outros não se coibiam de esmagá-la sobre a pobre figura de gente que era o Zé Mocho, fazendo-o sufocar um gemido de dor. A fila dos confitentes foi diminuindo até todos terem passado pelo centro da praça, e quando os gritos e insultos recrudesciam após aquele silente interregno, os homens enviados pelo alcaide seguraram pelos ombros a figura cornígera do Zé Mocho, e arrastaram-no para fora das muralhas, enquanto o alcaide em pessoa os seguia, transportando o prato com moedas enquanto o castigava com o teatral cajado. A multidão irada não seguiu aquele estranho quarteto, antes se acotovelou à saída das muralhas, formando também um friso de cabeças de adultos e crianças na parte interna das ameias. E os olhos ansiosos de todos seguiram-nos enquanto subiam o carreiro do Monte da Forca que se erguia defronte dos portões da vila. O nome era inequívoco, ainda que já não se enforcasse ninguém, a não ser ele, o Zé Mocho, a esponja de faltas alheias, numa cerimónia que quase todos sabiam que era encenada, mas que cumpria a sua função de purificar e renovar a comunidade e o íntimo turvo das pessoas. Quando sob a luz crepuscular os viram no topo do monte, reatou-se os gritos e e as ameaças. Por trás do murete baixo, Zé Mocho posicionou-se sob um arco em madeira, uma corda foi lançada sobre a trave e laçada no seu pescoço e puxada até se esticar num repenão. O enforcamento ilusório foi coroado por gritos de aplausos e festejos entre as pessoas e como num passe de magia, a luz débil do entardecer pareceu ganhar um novo brilho e iluminar os edifícios e as almas como se fosse a manhã que ganhava alento para nascer e não a noite que tudo principiava a cobrir.
                Zé Mocho permaneceu quieto, os braços a pender inertes ao longo do corpo e a cabeça ornamentada descaída com o queixo pousado no peito. Quando lhes pareceu que a multidão se havia dispersado, os ajudantes do alcaide ampararam o corpo enquanto este cortava a corda da forca. Descido ao chão, Zé Mocho sentou-se numa pedra enquanto o alcaide, muito satisfeito, lhe dava palmadas no ombro, pousando-lhe na mão um saco com duas onças de tabaco. O bode expiatório libertou-se dos seus chifres, e enrolou pacientemente um cigarro. Despediu-se dos seus carrascos e permaneceu sentado na pedra a fumar. Sabia que a mulher não tardaria, e uns minutos decorridos ela alcançou-o, esbaforida, um vulto na noite a afeiçoar o xaile negro ao pescoço para se proteger da aragem que subira do vale com ela.
                - E então? -  inquiriu ansiosa.
                Zé Mocho casquinou, feliz.

                - Um prato com moedas, duas onças de tabaco oferecidas pelo nosso amigo, e muitos e gordos segredos. Este ano vai ser um ano de fartura para nós!

Dano e reparação


      Quando a sua irmã chegou com o novo namorado, o cego ergueu a cabeça do chão onde as suas mãos se afadigavam a distribuir feijões secos por uma grelha de quadrados desenhada na areia fina do chão do quintal.
     - Nzema – disse ela para o irmão – este é Omar, de quem lhe falei, meu amigo, companheiro, e meu futuro. Lembra-se de eu ter-te dito que o trazia cá hoje?
     Nzema estendeu debilmente a mão sinistra, que Omar apertou energicamente entre as suas, gesto coroado por uma audível exclamação de alegria da irmã, que anunciou que ia buscar uma cerveja fresca para cada um.
     - Nzema! Sua irmã falou-me muito em você e de sua sabedoria não-vedora. O que é que você faz com esses quadrados e esses feijões secos?
     - Imagine que você encontra um aldeamento com as palhotas encostadas todas umas às outras.       Estas palhotas são quadradas como os desenhos que eu fiz no chão, e não há espaços vazios entre elas, estão mesmo encostadas. Você tem, como aqui, vinte e quatro palhotas. Quantos moradores tinha de haver para você conseguir ter um morador, ou um feijão, em cada palhota?
     - Vinte e quatro! – apressou-se Omar a responder.
     Nzema masquiu, abanando negativamente a cabeça. 
     - Tenho estado a pensar nisso – voltou Nzema – são vinte e quatro moradores, mas na verdade há vinte e cinco moradores. Se você tem uma aldeia, um acampamento, um grupo de casas, então você tem uma pessoa coletiva, onde todos estão reunidos e em que todos têm uma porção dela, uma pequenina parte. Estou a falar de uma aldeia porque é mais fácil, mas podia falar de um povo, de uma cidade ou uma nação. Não importa, é tudo igual, só difere no tamanho e no número. Uma pessoa coletiva, uma aldeia, é como uma casa grande, uma família entre quatro paredes, que sofre quando há dor ou quando um dos seus perde a vida, mas que também se alegra, e festeja e dança, e assinala quanto de importante sucede de bom e de mau.
     A irmã tinha regressado entrementes e Nzema segurou a garrafa de cerveja que ela encostara às costas da sua mão.
     - Nunca tinha pensado nisso assim – disse Omar, sem ter ainda percebido fosse o que fosse. Bebeu a sua cerveja quase de um trago só, e depois de aclarar a garganta resolveu-se a perguntar – Se você tinha vinte e quatro covas na areia e estava a distribuir um feijão por cada quadrado, onde ia colocar o feijão número vinte e cinco? Na casa do soba?
     - Não! Só tenho vinte e quatro feijões, o vigésimo quinto feijão está em todos eles. O soba é um homem como os outros, tem coração, bexiga e testículos e não vive nem morre de maneira sobre-humana.
     - Continuo a não perceber – reconheceu Omar por fim - sua irmã foi para dentro de casa outra vez. Podia pedir a ela para cozinhar uma refeição para nós, talvez uma bela feijoada.
     - Espere, Omar! – pediu Nzema, o cego – vou explicar com outras palavras… lembra-se de eu lhe dizer que todas as casas estavam encostadas, sem espaço entre elas? Nós sabemos que isso não é preceito de gente sã, nem razoável porque não somos como o bio-bilana e não podemos sair a voar pelo buraco do fumeiro. Queria dizer com isso que as casas se apoiam umas nas outras para melhor resistir às tempestades e ameaças de fora, e como são partes de um mesmo aldeamento, quando alguém transgride e magoa ou prejudica outra pessoa, então ela tem de ser punida, e feita justiça a quem foi prejudicado …
     - Nzema – interrompeu Omar, baixando deliberadamente o tom de voz – eu continuo sem perceber nada do que você diz, para mim você além de cego é meio maluco.
     Nzema encolheu de novo os ombros, e com um prolongado suspiro, renunciou às alegorias.
     - Omar – recomeçou em tom de admoestação – eu e a minha irmã vivemos nesta aldeia, e toda a aldeia sabe que você está aqui hoje, é tudo gente de bem mas possuem machetes e machados e seriam bem capazes de o matar se achassem que você era uma ameaça para nós. Mas deixe-me tranquilizá-lo, Omar, porque sei que você não é uma ameaça, ainda que tenha voz de mentiroso e a dignidade e o bom nome desta família e desta aldeia tenha sido prejudicada pelo exemplo que você representa e pela vida que você leva. A minha irmã sabe da sua mulher branca na cidade grande? E dos filhos que tem pela comarca? E da mulher da vida que você instalou em sua casa para cuidar da machamba?
     - Ela sabe, Nzema, já falamos sobre isso e ela concorda com tudo. Estou disposto a entregar à aldeia duas cabeças de gado para reparar a minha ofensa.
     - Quatro cabeças de gado, uma carga de milho, e um transístor de pilhas para alegrar a minha solidão.
     - Temos acordo, Nzema! Hoje mesmo tratarei de tudo.
     - Então diga à minha irmã para cozinhar a feijoada, a minha fome é tanta que já me sinto a ver mal.




Sob o foco negro e no mesmo dia e momento em que as estátuas saíram dos seus lugares


     Sob o foco negro e no mesmo dia e momento em que as estátuas saíram dos seus lugares, abandonando os seus refúgios pusilânimes, a vida generosa e intensa das ruas e das casas imobilizou-se numa quietude dêndrica, mineral e metálica. Por todo o lado, o que antes eram pessoas vivas e em movimento foram convertidas em estátuas de granito, calcário, bronze, madeira, mármore e tantos outros materiais que essas mesmas pessoas e os seus avoengos haviam elegido para imprimir as fantasias da sua arte. As prístinas estátuas desceram dos seus pedestais e salões nas suas inéditas formas de carne e osso, despegaram-se das fachadas e pórticos das catedrais, cruzaram os salões dos museus pejados de figuras inéditas de estátuas, abandonaram os atelieres dos escultores nos seus traços e feições imperfeitas e angulosas. Foi mais fácil para os cavaleiros equestres, que apenas tiveram de saltar para o solo e correr pelas ruas, e para as estátuas em figura de gente, mesmo as gigantescas, que apenas precisaram de aprender a caminhar pelas ruas, enquanto as gárgulas aladas esvoaçavam sobre as suas cabeças. Uma tarefa mais árdua coube as estátuas de formas imaginárias e abstratas, que quase não abandonaram o lugar onde antes estavam expostas, rodando e bamboleando em desacerto com os seus elementos caóticos - fusiformes, anelados, globulares, cúbicos, tricúspides… À medida que o foco negro do eclipse rodava pelo planeta, arrancando e devolvendo o planeta à normalidade corrente de todos os dias, o fenómeno deixava atrás de si um mundo convulsionado onde as pessoas despertavam de um breve sono com o travo de seiva e sal nos lábios, e os monumentos, parques e praças das cidades se apesentavam delapidados numa devastação absurda, com as estátuas quietas a considerável distância dos seus lugares originais, e os curadores dos museus e catedrais em pânico e a conciliar hipóteses sobre como fixar de novo as esculturas góticas nas fachadas e frisos das sés e mosteiros. Os conjuntos escultóricos como a Fonte de Trevi, resultavam num quebra-cabeças de difícil resolução, e uma das últimas obras-primas a ser recuperada, foi a Vitória de Samotrácia, que só foi encontrada dois meses depois do fenómeno entre os ramos fortes de um castanheiro vetusto de Paris, como se dormisse um sono de séculos, com a sua túnica esvoaçante e as asas a penderem de ambos os lados do ramo onde estava reclinada. Enquanto as autoridades se interrogavam por que razão alguém roubaria uma escultura daquelas e a transformaria com escopro e cinzel apenas para a abandonar naquela árvore, a ninguém ocorreu que ela apenas voara desajeitadamente pelos ares com suas asas em busca da cabeça de que fora privada.



O estrangeiro em visita à cidade

     O estrangeiro em visita à cidade cruzou a entrada iluminada do pavilhão gigantesco onde decorria o certame de comércio e indústria. A luz e a música eram exageradas, uma agressão para os olhos e para os ouvidos, mas estoicamente, ponderou que deveria ser mister esse esbanjamento, era uma feira temporária em horário noturno, e cada hora e cada minuto teriam de ser compensadores e lucrativos para todos os vendedores e pregadores comerciais que aí trabalhavam sob a pressão dos dígitos e do tempo que, proverbialmente, também se traduzia por dinheiro. Logo no átrio da feira encontrou um pequeno grupo que num espaço aberto se demorava em volta de uma animadora vestida de mulher-palhaço. Tentou contornar o grupo, seguir a sua marcha tranquila e solitária no encalço do que o interessava, mas a animadora deteve-o com um grito estridente, apontando-lhe um balão alongado em forma de florete.
     - Venha cá! – ordenou, suscitando algumas risadinhas nos que assistiam -  onde é que você pensa que vai sem vir cumprimentar aqui a rainha?
     Encolheu os ombros, ignorando as novas risadinhas de hiena em volta.
     - Eu não quero nada de si! – atalhou – venho ver a feira e aquilo que me interessa encontrar.
     - Não quer nada de mim? – casquinou, saltitando em volta dele como um bobo imemorial, mas quando voltou a falar, a sua voz perdera o tom caricato de mulher-palhaço – eu sou uma fêmea, uma fêmea-rainha, e você não quer nada de mim? Talvez já não tenha uma espada para me servir, olhe, ofereço-lhe esta, é comprida e mais ou menos rija, talvez o ajude.
     O estrangeiro ouviu-a gargalhar enquanto ela prendia o balão alongado entre as próprias pernas e lhe imprimia um movimento de vaivém, mas ele não se conseguiu rir, e o pequeno grupo ocioso de pessoas desfez-se num instante, havia crianças pelo meio, dependuradas das mãos dos pais, e o constrangimento era visível.
     - Nunca gostei de palhaços, desde criança – voltou o estrangeiro – sempre os achei umas criaturas sinistras e vingativas, mas depois, ao longo da vida, conheci alguns palhaços que me fizeram mudar de ideias, pessoas com um íntimo tão generoso como uma nascente de água límpida e que sentiam uma verdadeira paixão em trazer alegria ao seu semelhante, mas você é o tipo de palhaço que eu temia em criança.
     A mulher alterou-se, esqueceu-se do que fazia ali, e deu largas à sua fúria.
     - Você é que é um palhaço, e da pior espécie, a sua mulher deve ter-lhe posto os cornos e você ainda não sabe, e ri-se como um perdido quando os seus amigos lhe contam anedotas sobre maridos chifrudos e as cabras das mulheres. É corno e é palhaço, bendito par de cornos que a sua mulher lhe pôs!
     - Não faça isso! – recomendou o calmo estrangeiro – você está a prejudicar-se, e precisa do dinheiro que ganha aqui.
     - Ah é? Está com pena de mim, seu palhaço?
     - Não é pena, apenas distingo o que é real! Você é uma pessoa triste com uma vida miserável, deve viver numa casa minúscula e bafienta com um marido alcoólatra que lhe torra o dinheiro e ainda lhe bate, e é possível que ainda tenha mais alguém a reclamar os seus cuidados a toda a hora, talvez uma mãe doente e acamada ou uma filha deficiente que não aguenta estar muito tempo sozinha. E quando se pinta e se mascara, não consegue esconder esse azedume e essa revolta surda que lhe rói as entranhas, e castiga os outros com isso. No país de onde eu venho, e à exceção dos palhaços, todas as pessoas se mascaram, mas possuem a sensatez de esconder os olhos, porque sem isso, nenhum disfarce seria suficiente. Você não faz isso, pinta o rosto e o pescoço, e usa o nariz vermelho e luvas desproporcionadas nas mãos, mas os seus olhos traem toda a dor e toda a revolta que lhe vai dentro.
     O estrangeiro fez uma pausa, à espera que a mulher replicasse às suas palavras, e diante do seu silêncio, acrescentou, um pouco desconfortável.
     - Desculpe-me se falei demasiado, não queria ser rude consigo…e tenho de ir, preciso mesmo de ir.
     E afastou-se em passadas largas, cedendo o seu lugar no átrio às outras pessoas que vinham a chegar depois de si, visitantes que continuavam o seu caminho para o interior do certame sem se deterem, pelo menos, não se detinham junto da estranha mulher-palhaço que chorava ajoelhada, esborratando a pintura do rosto.


Rainha

                Subiu lesto os parcos degraus que separavam o átrio do hotel do recinto sobrelevado onde haviam instalado a receção. Ab...