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Musa


     A minha musa vive comigo, diáfana, espetral, inocente como uma geada cáustica numa alva plantação de algodão.
     Ela vive comigo e na maior parte dos dias consigo alhear-me da sua presença, e circula discretamente pelas divisões da casa como um suspiro alado, a fazer oscilar as borlas dos cortinados quando ninguém está a olhar, ou a pisar e repisar os mosaicos do chão para tentar encontrar algum que esteja descolado e solto, mas por vezes ela sente necessidade de me lembrar que está por perto, e aí consigo sentir a sua respiração gelada na nuca, ou então ela deliberadamente sopra no espelho do meu quarto de banho enquanto eu lavo a cara ou me barbeio, desenhando um círculo de vapor de água condensado no vidro.
     Mas não sou um ingrato, e sei e reconheço o quanto ela me ajuda. Quanto me sento a escrever, o seu poder anula as dúvidas e o cansaço suicidário que me esmagam na maior parte do tempo e as palavras e as imagens emergem nítidas no meu consciente, e palavra sobre palavra, frase sobre frase, os textos nascem sem esforço como formigas num carreiro de formigas a carregar com pesos voláteis. Mas ela não se contenta com isso. É caprichosa e possessiva, e quando a minha companheira passa a noite em minha casa e comungamos os ritos do desejo e do prazer, a musa se converte em fúria, e sinto o seu olhar iracundo onde quer que a gente esteja, e o corrupio simultâneo de móveis que estalam e rangem pela casa, e de uivos débeis que a minha amada, na sua ignorância, atribui a cães de vizinhos distantes.

     Ontem foi um desses dias em que a minha companheira aportou em minha casa como numa enseada resguardada pelos meus braços, e esta manhã senti que as coisas se estavam a descontrolar. Enquanto a minha amada rumava à cozinha durante a noite para beber alguma coisa fresca, um dos seus pés desnudados chocou de encontro a um mosaico do chão, misteriosamente levantado por um dos cantos. A esquina viva do mosaico rasgou-lhe o pé entre dois dedos, fazendo-a sangrar em abundância. Acudi-lhe, fiz-lhe um penso improvisado com o que tinha à mão, e levei-a ao hospital, onde o pessoal de serviço lhe suturou a ferida. Esta manhã, com ela a dormir numa das camas do hospital, fiquei ao seu lado no quarto, a olhar distraidamente pela janela o pátio do hospital. Senti, mais do que nunca, que tinha de tomar uma atitude e anular a ameaça que crescia de proporções na minha existência. Não podia adiar mais essa atitude nem por um dia mais, para bem de todos, e para tal tentaria reunir toda a coragem que conseguisse para ter êxito. Paradoxalmente, e com tanta premência, teria também de ser muito paciente e esperar pela altura certa e pelo momento ideal para comunicar à minha companheira convalescente que não a queria ver mais, nem na minha casa, nem na minha vida.


A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...