Quatro poemas de Ibne Sara, poeta árabe nascido em Santarém (século XII)

Iluminura das Cantigas de Santa Maria,
obra do reinado de Afonso X de Leão e Castela (século XIII)

O BRASEIRO
O braseiro foi para nós esta noite. Bálsamo
quando debaixo da sombra nos picavam os escorpiões do frio.
Cheio de luz cortou para nós cálidas mantas
debaixo das quais não sabe o frio que estamos.
Alimenta o incêndio numa fornalha que rodeamos
como se fosse uma grande taça de vinho
de que bebemos todos.
Umas vezes consente que nos aproximemos
e outras nos afasta
como mãe que umas vezes amamenta
e outra nos retira o peito.

O ZÉFIRO E A CHUVA
Se buscas remédio no sopro do vento
sabe que em suas baforadas há perfume e almíscar.
Vêm a ti carregadas de aromas como mensageiros
com saudações da amada.
O ar prova os trajes das nuvens, escolhe
um manto negro.
Uma nuvem carregada de chuva faz sinais
ao jardim, saudando-o
e logo chora enquanto as flores riem.
A terra dá pressa à nuvem para que lhe acabe o manto
e a nuvem com um das mãos tece os fios da chuva
enquanto com a outra borda flores de enfeitar.

Muitas vezes me aconteceu passar uma noite tornada sem fim
porque o tempo prolongava a sua duração
dando-lhe a sua própria vida.
Alguns entretinham-se conversando sobre a lentidão
desta noite mas ela apenas deixou passar
o momento do isa.
A sombra das nuvens tornara-se de tal modo espessa
que os olhos não poderiam distinguir o céu da terra.
Quando ao longe sorria o relâmpago nas trevas
imitava um abissínio que ria com as suas lágrimas.
Com o sabre da vontade feri o colo da escuridão.
e tingi o manto da aurora
com o sangue desta noite interminável.

LARANJEIRA
São as laranjas brasas que mostram sobre os ramos
as suas cores vivas
ou rostos que assomam
entre as verdes cortinas dos palanquins?
São os ramos que se balouçam ou formas delicadas
por cujo amor sofro o que sofro?
Vejo a laranjeira que nos mostra os seus frutos:
parecem lágrimas coloridas de vermelho
pelos tormentos do amor.
Estão congeladas mas se se fundissem seriam vinho
Mãos mágicas moldaram a terra para as formar.
São como bolas de cornalina em ramos de topázio
e na mão do zéfiro há martelos para as golpear.
Umas vezes beijamos os frutos
outras cheiramos o seu olor
e assim são alternadamente
rosto de donzelas ou pomos de perfume.

Olha o rio no seu manto
que uma noiva tingiu com o açafrão da tarde.
Quando a brisa soprou sacudiu os seus flancos
numa couraça de guerreiro
armado da cabeça aos pés.

[retirados da antologia de poesia árabe organizada por António Borges Coelho, em "Portugal na Espanha Árabe", volume IV, Empresa de Publicidade Seara Nova S.A.R.L., Lisboa, 1975].

Iluminura das Cantigas de Santa Maria,
obra do reinado de Afonso X de Leão e Castela (século XIII)

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