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Outros dados, e cartas, no final da página

Céu e terra




Só depois de ouvir o vizinho do andar de cima descer a correr as escadas do prédio, é que Ivã achou que eram horas de se levantar da cama, e o vizinho desceu as escadas depois do toque do despertador de Ivã, depois da buzinadela da carrinha do pão a chamar os fregueses, depois do longo e sibilante suspiro que D. Rosinda sempre soltava no apartamento do lado, infeliz por arrostar mais um dia cheio de silêncios espinhosos e fria indiferença. Ivã levantou-se, tomou o seu banho matinal e ingeriu o pequeno-almoço, uni três ações na mesma frase apenas por amor da síntese porque em Ivã, cada uma delas representava um demorado e complexo ritual, tão solene como a bênção de um novo templo. No universo de Ivan, todas as coisas tinham um lugar estabelecido, adequado, ideal, e os objectos e os lugares que eles tinham de ocupar estavam vinculados de uma forma intensa, férrea, visceral, sem margem para trocas anárquicas ou adúlteros esquecimentos. Se queria aquecer leite no bico do fogão, ia buscar a cafeteira cromada que estava sempre arrumada entre o galheteiro de vidro e a caixa metálica dos biscoitos de manteiga, o pacote de leite, por sua vez, ocupava a segunda posição a contar da sua esquerda na terceira prateleira da porta do frigorífico. Podia ir buscar as coisas de olhos fechados, porque as arrumava sempre de olhos muito abertos, medindo distâncias em centímetros e milímetros, conferindo o posicionamento das coisas e a relação intrínseca entre elas. Escusado será dizer que Ivã queimava nesses preparos um tempo excessivo e quando acabava de tomar o pequeno-almoço eram já quase horas de almoçar. Ivã gostava de pensar que tinha uma vida preenchida e não circunscrita aos seus hábitos meticulosos, e por isso, entre cada uma das refeições e antes de se deitar, ocupava-se com alguma das coisas de que gostava - ouvir em vinil a sua coleção de álbuns de Jazz - Coltrane, Mingus, Miles Davis e tantos outros – ou simplesmente, ler. E o acto de ler para Ivã poderia reduzir-se a um nome: “Zola”. Pegava em qualquer um dos seus romances, arrumados, lembramos, com o maior preceito e exatidão, e lia um ou dois capítulos até a fome ou o sono o chamar. O Jazz acalmava Ivã, e deixava-o menos nervoso e apreensivo – o seu estado psicológico normal – e ler acabava por ter o mesmo efeito, mas não logo no início, porque Ivã sentia sempre um frémito de ressudada angústia quando tirava um dos livros de Zola da estante, com medo que de entre as suas páginas escapasse algum personagem, uma palavra, ou ainda algo tão ínfimo e tão importante como uma vírgula. Neste dia em especial que começamos a narrar e em que a correria do vizinho na escada o tirou da modorra dos lençóis, Ivâ sentiu-se um pouco à deriva quando acabou de tomar o pequeno-almoço e lavar e acondicionar as coisas que arrancara dos seus lugares cativos, e isso porque se sentiu sem vontade de ler ou ouvir música, e essas eram as únicas ocupações que mantinha. E se eu fosse até à rua um bocado? Interrogou-se. E logo se sentiu arrependido dessa ideia absurda. A rua era um lugar assustador, caótico, violento, cheio de sons sem harmonia e pessoas que corriam de um lugar para o outro a arrulhar palavras que ninguém podia entender e exibindo caretas e momices de mimos embriagados. Com o coração ainda a palpitar com o medo que essa ideia lhe causou, tranquilizou-se, murmurando para si mesmo: talvez-eu-possa-apenas-espreitar-a-rua-pela-janela. Claro que sim, não era nada de mais, quando lhe traziam os géneros e as coisas que encomendava por telefone, chegava a ter aberta a porta do apartamento durante cinco minutos, às vezes mesmo, seis minutos e meio e sete minutos inteiros, e não havia problemas nenhuns com isso. Era isso mesmo, arredaria os cortinados das janelas para espreitar a rua. Assim fez. Depois de contornar a alcatifa grande da sala – a alcatifa tinha uma borla franjada que ele não gostava de desfeitear – aproximou-se animado da janela grande da sala, afastou os cortinados opacos e abriu muito os olhos, abismado, não pela luz, que era estranha àquela casa, mas porque no cerúleo firmamento descobriu o Sol e a Lua, um ao lado da outra e aparentemente a pouca distância. Não era normal, era mesmo impossível, absurdo, desarrumado, de loucos. Correu apressadamente os cortinados, fechando a casa ao Caos. Que terrível ideia que tivera, e como se arrependia desse gesto desvairado e imprudente. Ainda com o coração a bater forte dentro de si, bumba-cabum-bumba-cabum, colocou a tocar com as mãos trémulas um disco de Ella Fitzgerald, e refugiou-se na cozinha para iniciar a preparação do almoço.

Quatro poemas de Ibne Sara, poeta árabe nascido em Santarém (século XII)

Iluminura das Cantigas de Santa Maria,
obra do reinado de Afonso X de Leão e Castela (século XIII)

O BRASEIRO
O braseiro foi para nós esta noite. Bálsamo
quando debaixo da sombra nos picavam os escorpiões do frio.
Cheio de luz cortou para nós cálidas mantas
debaixo das quais não sabe o frio que estamos.
Alimenta o incêndio numa fornalha que rodeamos
como se fosse uma grande taça de vinho
de que bebemos todos.
Umas vezes consente que nos aproximemos
e outras nos afasta
como mãe que umas vezes amamenta
e outra nos retira o peito.

O ZÉFIRO E A CHUVA
Se buscas remédio no sopro do vento
sabe que em suas baforadas há perfume e almíscar.
Vêm a ti carregadas de aromas como mensageiros
com saudações da amada.
O ar prova os trajes das nuvens, escolhe
um manto negro.
Uma nuvem carregada de chuva faz sinais
ao jardim, saudando-o
e logo chora enquanto as flores riem.
A terra dá pressa à nuvem para que lhe acabe o manto
e a nuvem com um das mãos tece os fios da chuva
enquanto com a outra borda flores de enfeitar.

Muitas vezes me aconteceu passar uma noite tornada sem fim
porque o tempo prolongava a sua duração
dando-lhe a sua própria vida.
Alguns entretinham-se conversando sobre a lentidão
desta noite mas ela apenas deixou passar
o momento do isa.
A sombra das nuvens tornara-se de tal modo espessa
que os olhos não poderiam distinguir o céu da terra.
Quando ao longe sorria o relâmpago nas trevas
imitava um abissínio que ria com as suas lágrimas.
Com o sabre da vontade feri o colo da escuridão.
e tingi o manto da aurora
com o sangue desta noite interminável.

LARANJEIRA
São as laranjas brasas que mostram sobre os ramos
as suas cores vivas
ou rostos que assomam
entre as verdes cortinas dos palanquins?
São os ramos que se balouçam ou formas delicadas
por cujo amor sofro o que sofro?
Vejo a laranjeira que nos mostra os seus frutos:
parecem lágrimas coloridas de vermelho
pelos tormentos do amor.
Estão congeladas mas se se fundissem seriam vinho
Mãos mágicas moldaram a terra para as formar.
São como bolas de cornalina em ramos de topázio
e na mão do zéfiro há martelos para as golpear.
Umas vezes beijamos os frutos
outras cheiramos o seu olor
e assim são alternadamente
rosto de donzelas ou pomos de perfume.

Olha o rio no seu manto
que uma noiva tingiu com o açafrão da tarde.
Quando a brisa soprou sacudiu os seus flancos
numa couraça de guerreiro
armado da cabeça aos pés.

[retirados da antologia de poesia árabe organizada por António Borges Coelho, em "Portugal na Espanha Árabe", volume IV, Empresa de Publicidade Seara Nova S.A.R.L., Lisboa, 1975].

Iluminura das Cantigas de Santa Maria,
obra do reinado de Afonso X de Leão e Castela (século XIII)

O Grande Terramoto de 1755 - um testemunho de Jácome Ratton (1736-1821)


Época e sucessos respetivos ao Terramoto de 1755
     Entre os acontecimentos extraordinários da minha vida não devo omitir a meus filhos o que passei na ocasião do memorável terramoto de Lisboa, que teve lugar no 1º de Novembro de 1755, pelas nove horas e meia da manhã; e como fosse dia de Todos os Santos, tinha eu ido à missa à Igreja do Carmo, cujo teto era de abóbada de pedra, e derrubado matou muito povo que ali se achava, de cujo perigo escapei por ter ido mais cedo e me achar na dita hora nas águas-furtadas das minhas casas, mostrando a um comprador uma partida de papel que nos tinha vindo avariado, e ali se tinha posto a enxugar. Ao sentir o primeiro abalo me ocorreram muitas reflexões tendentes a salvar a minha vida, e não ficar sepultado debaixo das ruínas da própria casa, ou das casas vizinhas, se descendo as escadas fugisse para a rua; mas tomei o partido de subir ao telhado, nas vistas de que abatendo a casa, eu ficasse sempre superior às ruínas. Já quando eu tomei este expediente, era tanta a poeira que, à maneira do mais denso nevoeiro, impedia a vista a duas braças de distância; só passados alguns minutos, em que a dita poeira se foi dissipando, é que eu pude ver o interior das casas vizinhas, por terem caído as paredes fronteiras até aos primeiros andares, ficando os telhados apenas sustidos pelas paredes divisórias. Os seus habitantes, alguns ainda em camisa, correndo espavoridos de uma a outra parte, imprecavam os auxílios do Céu, e dos homens em seu socorro. À vista desta horrível cena, resolvi-me a descer as escadas e fugir para a rua, a fim de buscar alguma parte onde me julgasse mais seguro. Ao descer as escadas encontrei os meus pais que, aflitos, me procuravam nas ruínas de um grande pano de chaminé que tinha caído, e debaixo do qual me julgavam sepultado. Foi inexplicável o nosso contentamento quando nos encontramos; mas eu sem perder tempo lhes pedi que me acompanhassem para o largo mais próximo, que era ao fundo da rua do Alecrim; e encontrando de passagem D. Maria Castre, nossa vizinha, pouco mais ou menos da minha idade, que também fugia, a tomei pelo braço e seguimos a Rua dos Remolares por cima de entulhos e muitos corpos mortos até à beira-mar, aonde nos julgávamos mais seguros. Mas pouco depois de ali termos chegado, assim como muita gente, se gritou que o mar vinha subindo furiosamente dos seus limites; facto que presenciamos e que redobrou o nosso pavor, obrigando-nos a retroceder pelo mesmo caminho, e a procurar, pela rua de S. Roque, o alto da Cotovia, então obras do Conde de Tarouca, depois Patriarcal, e hoje Erário Novo, aonde também vieram ter, por diversos caminhos, os meus pais e os parentes da dita senhora, todos na maior inquietação por não saberem uns dos outros, como aconteceu a imenso povo, que procurou aquele sítio descampado, então terras de pão, desde o alto da rua de S. Bento até à travessa de Pombal e Cardais de Jesus, havendo apenas algumas casas na rua que vai desde o Pátio do Tijolo, ou obras do conde de Soure, até à fábrica de seda, que já existia, assim como também a casa de D. Rodrigo, atualmente Imprensa Régia, e o Convento dos Jesuítas, hoje Colégio dos Nobres. O descampado daquele alto dava lugar a descobrir-se a cidade por todos os lados, a qual, logo que foi noite, apresentou à vista o mais horrivel espetáculo das chamas que a devoravam, cujo clarão alumiava, como se fosse dia, não só o própria cidade, mas todos os seus contornos, não se ouvindo senão choros, lamentações, e coros entoando o Bendito, ladainhas, e o Miserere. Por fortuna, o céu se conservava claro e sereno, e o terreno enxuto, por não ter até então havido chuvas, nem as haver por oito dias mais, o que deu ocasião a fazer cada um os arranjos que lhes permitiam as circunstâncias.
     Na madrugada do dia seguinte, o meu pai convidou-me a acompanhá-lo às nossas casas, e ver se delas podíamos salvar alguma coisa, principalmente o precioso, livros, e papéis de maior importância. Não foi sem bastante trabalho que nos saímos bem desta empresa; porquando descendo pela rua de S. Bento, ainda com poucas casas, atravessamos do Poço dos Negros para o Poço Novo, tomamos a Calçada do Combro, e Rua do Loreto, para descermos ao fundo da Rua do Alecrim, de cujo lugar avistamos já em chamas a propriedade pegada com a nossa casa, restando-nos apenas tempo para tirar os artigos acima ditos, que metemos num baú, que meu pai por uma banda, e eu por outra, trouxemos, por entre as chamas em que ardiam as ruas do Alecrim, S. Roque e S. Pedro de Alcântara, até ao alto da Cotovia, aonde a minha mãe nos esperava. Dali partimos com o baú numa besta de carga que, por fortuna, apareceu, e nos dirigimos a uma quinta de uma pessoa de nossa amizade, sita na estrada do Lumiar, adiante do Campo Grande, aonde fomos bem recebidos, e alojados no jardim, debaixo de uma barraca feita de lençóis, e alastrada de colchões, sobre os quais dormiam promíscuamente, e sem se despir, tanto a gente de casa como a de fora, porque ninguém se animava a dormir debaixo de telha. Os hóspedes eram muitos, e pouco o comer porque todos tinham receio de se demorar na cozinha, que havia pago em comum era mal feito, e houve tanta escassez de pão que o meu pai e eu fomos com uma besta de ceirão buscar uma carga a Linda-a-Pastora [linhá pastora] nas vizinhaças da Barcarena.      Naquela quinta nos demoramos somente os dias necessários para nos refazer do vestuário indispensável, principalmente roupa branca; visto que não foi possível a cada um salvar mais do que aquela que tinha no corpo.



RATTON, Jácome, Recordações de Jacome Ratton sobre ocorrências do seu tempo, de maio de 1747 a setembro de 1810, 2-ª edição, páginas 18-21, Imprensa da Universidade, Coimbra, 1920.
Obra disponível em formato eletrónico no endereço:
https://archive.org/details/recordaesdejaco00ratt




O fogo no mar

Ilha vulcânica surgida a 31 de Dezembro de 1719 entre a Ilha Terceira e S. Miguel e desaparecida novamente depois de um tremor de terra.

Cortesia do portal Gallica da Biblioteca Nacional de França.


Saber reconhecer os inimigos pela cara - um tutorial


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Venetia





Retirada de: NUOVA GEOGRAFIA di Ant Federico Busching, Tomo primo, Veneza, 1773
(e temos, em redor do globo, a América, a África, a Ásia e, claro, a vaca de Europa)



TAU


A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...