Gratidão, lá para o fim

Edward Hopper, Hotel Room, 1931 (Museo Thyssen-Bomemisza, Madrid)

             - Amor, ajudas-me a pendurar os cortinados?
     O marido respondeu que sim, renunciou ao seu canal de televisão que bombardeava notícias 24 horas sobre 24 horas, calçou-se e respondeu à invocação. Helena estava empoleirada num banco para chegar ao varão de madeira por cima da janela.
     - Doem-me os braços de os ter levantados – justificou-se.
     Ela desceu e ele tomou o seu lugar, vacilando sobre os seus pés com as pantufas felpudas calçados. Desencaixou uma das pontas do varão do aro do suporte e começou a enfiar as argolas do cortinado novo, que ela lhe ia alcançando. Ele estava a ganhar peso, notava-se na barriga alva que descaía sobre a camisola do pijama, a mulher também o notou, o desemprego, a suspeita do médico de que ele tinha cancro – suspeita que se revelou infundada, mas as mazelas psicológicas do episódio duravam há dois anos e meio – e a pouca vontade de procurar trabalho, convergiam para aquela modorra de sofás, cerveja, televisão, e pornografia no portátil.
     - Devias tentar fazer exercício… - sugeriu ela – podíamos inscrever-te num ginásio.
     - Está fora de questão! Era mais uma despesa e não nos podemos dar a esse luxo com um salário apenas a suportar a casa. E por enquanto está muito frio para me pôr a fazer jogging ou caminhadas.
     Ela admitiu em silêncio, calando o que lhe apetecia dizer. Ele finalizou a sua tarefa e ela ajudou-o a descer, segurando-lhe uma mão para ele dar um pequeno salto para o chão. O marido apressou-se a voltar ao seu lugar no sofá e Helena, depois de dar um jeito nas pregas do cortinado, aproximou-se dele e abrindo as pernas, sentou-se sobre os seus joelhos, com os antebraços encostados às costas do sofá, e as suas bocas muito próximas, quase juntas.
     - Há outras maneiras de fazer exercício – sugeriu com um sorriso dengoso.
     O marido olhou para mim, e afastou-a com um movimento libertador dos braços que pretendia que tivesse sido delicado.
     - Não me sinto à vontade com ele a olhar – murmurou – logo, no quarto, quando vieres das compras. Fecho os cortinados, acendo umas velas e ponho umas músicas de Artie Shaw ou Benny Goodman para acompanhar o champanhe.
     Ela suspirou e deixou-o plantado no sofá, afastou os cortinados novos, correu a porta de vidro e refugiou-se na varanda do apartamento. Apoiou os cotovelos no murete, a olhar a rua. A vida tem de ser mais do que isto, pensou, não aguento muito mais tempo esta xaropada. E desta vez, a sua contemplação não foi ociosa. O apartamento deles situava-se no primeiro andar do prédio, e do outro lado da rua, entre uma casa de Sushi e uma igreja evangélica, existia um stand de automóveis, o Stand Paris, onde o vendedor estava de novo perfilado na porta, a fazer-lhe olhinhos como sempre, airoso no seu fato e gravata irrepreensíveis e nos cabelos alisados com gel. Ele ergueu os braços na sua direção e formou a silhueta de um coração com os dedos polegar e indicador de ambas as mãos. Eu bem vi, porque estava ao seu lado a admirar a rua, mas desta vez ela não foi indiferente à mensagem, e sorriu-lhe abertamente. Entusiasmado com esse prémio inesperado, o vendedor apontou um café que existia mais abaixo, e por gestos, convidou-a a ir lá beber um. Ainda a sorrir, e encapotada do marido pelo seu próprio corpo, ergueu o polegar direito num sinal de aceitação.
     Voltamos a entrar na sala. Ela fechou a porta da varanda, e com gestos decididos tirou o som da televisão e, ante o pasmo do marido, recitou:
     - Já gastámos as palavras pela rua, meu amor, / e o que nos ficou não chega / para afastar o frio de quatro paredes. / Gastámos tudo menos o silêncio.
     - O que é isso? Andas a delirar?
     - Eugénio de Andrade, amor. A poesia corre-nos nas veias e só temos de a saber escutar, mas suponho que tu não consegues porque os teus neurónios não conseguem ir a lugar algum, porque ou têm o pijama vestido ou já calçaram as pantufas.
     E enquanto ele gestava uma resposta condigna, Helena saía já pela porta do apartamento, deixando-me a sós com ele. O desconforto dele durou pouco tempo, os neurónios deveriam ter voltado de imediato para dentro dos respetivos pijamas. Repôs o som da televisão e aproximou-se de mim. Abriu o fecho de um pacote e tirou uns biscoitos que colocou no chão à minha frente enquanto me fazia umas festas na cabeça.
     - Tu é que tens uma vida boa! – considerou, semi-ajoelhado diante de mim – ninguém te exige nada e só tens de te portar bem e abanar o rabo de vez em quando.
     E logo voltou para o seu sofá, capturando de passagem o portátil que estava em cima de uma camilha; e eu saboreei os biscoitos - saborear era o verbo justo porque eram mesmo bons. E senti-me intimamente agradecido por aquela benesse, e por ter aqueles donos tão bondosos. E a minha gratidão ficava por ali, porque não sabia se os cães tinham direito a ter um Deus.


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