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O rio de Heráclito


Ninguém se banha duas vezes nas águas do mesmo rio.
(Heráclito)

            A chuva chegou, miudinha e insistente, e logo mudou de intensidade. As copas das árvores sacudiam-se ao vento, com o céu sobre elas iluminado pelos relâmpagos.
            Luna esperava, as mãos espalmadas nos vidros das janelas e o olhar fixo na curva do caminho. Sentiu a mãe chegar-se ao pé pelo ranger do sobrado velho da casa sob o peso dos seus anos e da sua ciência.
            - O teu homem?
            Ela encolheu os ombros, não sabia dele, a mãe estendeu-lhe uma capa.
            - Vai buscá-lo, não pode andar por aí com este temporal.
            Ela hesitou, sabia que ele estava lá fora por causa de uma experiência qualquer que envolvia a trovoada. Não acreditava que conseguisse trazê-lo de volta.
            -Trá-lo antes que se mate – insistiu a velha, como se lhe lesse os pensamentos.
            Ela vestiu a capa e saiu para a tormenta. Tentou caminhar sobre as ervas para evitar a lama, e experimentou primeiro a cabana de madeira na colina, o seu refúgio habitual. A porta estava encostada, mas não estava lá ninguém. Refugiou-se lá dentro durante uns minutos, a sacudir a capa. Por todo o lado havia restos de máquinas e aparatos, bobines de fio elétrico, ferramentas, caixas de divisórias com parafusos, díodos e relés. Sobre uma das mesas encontrava-se um livro enorme com desenhos de peças - ele devia ter estado a lê-lo, notava-se pelo modo como o livro estava pousado sobre a bancada, aberto, como duas asas largas em tons de sépia a planar sobre o tampo de madeira.
            Chamou pelo seu nome, na vaga esperança que ele surgisse do nada, por detrás das pilhas de livros que lia e relia em marés de entusiasmo. O silêncio que se seguiu ao seu chamamento pareceu-lhe assustador. Vestiu novamente a capa e saiu para a chuva, contornou o cercado das ovelhas e tomou o caminho de saibro que descia para o vale. Levava as mãos ao peito, sob o medo de uma nova trovoada, quando o avistou, ele estava sentado numa rocha a uns cinquenta metros, curvado sobre os joelhos. Correu até ele, e sentou-se ao seu lado, dividindo a capa. O seu homem estava muito quieto, esmagado por uma perda que não conseguia traduzir por gestos ou palavras. Próximo a eles, ela divisou a carcaça retorcida e fumegante de uma máquina calcinada por um raio mergulhada numa cratera enegrecida pelo fumo. Ele esticou as mãos e procurou falar, com a voz embargada pelos soluços que emergiam agora, tentava explicar o que quisera construir, a função sonhada da máquina destruída que jazia diante deles. E soltou por fim as palavras, desfiando quimeras, fórmulas e raciocínios que ela mal conseguia escutar, e que não perceberia se isso fosse possível, mais preocupada com a chuva e com os raios, com os dois quietos sob a fúria dos elementos enquanto o riacho corria junto às plantações a engrossar com a água da chuva; se aquilo continuava, não teriam o que comer.
            - Vamos voltar – pediu ela com firmeza, ajudando-o a levantar-se.
            Correram abraçados de regresso à casa, mas ela fê-lo parar. Ouvira alguma coisa, um cântico que se insinuava entre o marulhar da chuva, conhecia-o das noites em que a Lua estava prenha. Ela apontou na direção do riacho. Quando se aproximaram, descobriram a velha imóvel junto ao leito, ajoelhada no meio de figuras traçadas na areia, entoando uma melopeia repetitiva. As águas lambiam a orla da sua saia e pareciam afundar-se no solo. Quando os viu, a anciã ordenou:
            - Fechem o açude, a água está carregada e tem de repousar.
            O casal subiu um pouco mais o rio e entre os dois fizeram rodar com esforço a roda metálica que fez descer a comporta de guilhotina encaixada no centro de um muro largo de pedra. Com o rio selado, a água esbravejava contra as pedras a encher rapidamente a pequena albufeira. A mulher tocou-lhe no ombro, fazendo-o acompanhar o seu olhar – nas águas lodosas, iluminadas pelo clarão dos relâmpagos, divisavam-se formas translúcidas que evoluíam no seio das águas, pareciam pessoas ou serpentes, retorciam-se nervosamente, desinquietadas pela eletricidade no ar, e por vezes emergiam, explodindo em imagens fugazes e efémeras de lugares e pessoas que doía tentar contemplar, perceber, sentir. Por precaução ou respeito, os dois subiram a encosta do talude e sentaram-se no topo, a admirar a água e os seus habitantes mercuriais. A tempestade parecia estar a desvanecer-se, e à luz clara que se insinuava por entre as nuvens, avistaram um homem que subia o talude na margem oposta, talvez já ali estivesse antes sem que o tivessem visto ou então tinha acabado de sair das águas, aquele homem, ou espírito, tinha as mãos atadas atrás das costas e envergava o sambenito da vergonha, em pano grosseiro, com o capuz, e com a cruz de Santo André desenhada no peito e nas costas. Subiu o declive com desenvoltura e desapareceu entre as hastes do cerrado canavial.
            - Gostaria de analisar esta água! - considerou Miguel, já animado com uma nova ideia e um projeto a germinar – talvez encontre nela algo de diferente…
            - É claro que não vais encontrar nada! Nunca ouves a minha mãe? Os rios lavam o mundo e transportam as suas memórias. Por vezes, sob a energia da tempestade ou no frio lunar do fundo dos poços e das grutas, elas despertam, olham as coisas em volta, e por vezes ensaiam alguns passos e resgatam o uso da voz ou dos gestos. É só isso!
            Mas ainda não acabara de falar e já o homem com nome de arcanjo se afastara à procura de um recipiente qualquer onde pudesse recolher um pouco de água. Ela deixou-se ficar, sentada, a contemplar o vale em baixo. As nuvens afastavam-se e o vento amainara. Dobrou a capa com a parte molhada para dentro e deitou-a no seu colo. Voltou a ouvir o cântico da sua mãe, talvez tentasse sossegar as águas nervosas. Miguel regressou num frenesi doido, passou por si a correr e desceu a ladeira com um frasco de vidro vazio na mão. Ajoelhou-se ao lado das águas e elas começaram de imediato a borbulhar como se estivessem a ferver. Miguel pareceu sentir-se intimidado com isso, mas lá reuniu coragem e encheu de água o frasco e enroscou a tampa, procurando ignorar o rosto fugidio que se formava aos seus pés com o improvável relevo das águas. Voltou a subir a ladeira, afastando-se com passos apressados na direção do seu barracão de quimeras. Luna, por sua vez, sabia o que tinha de fazer. Voltou ao muro do açude, fez girar a roda e abriu a comporta durante algum tempo, a água que libertou criava algum espaço para aquela que o ribeiro continuava a trazer, e quando a fechava de novo, pôde ouvir gritos de dor vindos do canavial da margem, acompanhados pelo odor intenso a carvão e a carne queimada que impregnava o ar. Ignorou o que os sentidos lhe traziam e regressou a casa, atirou a capa para o balaústre do alpendre e, ainda encharcada dos pés à cabeça, empunhou a sachola e desceu à almuinha, onde sabia que encontraria a mãe. A anciã tentava reparar os danos, desobstruindo os regos e valas para drenar o excesso de água das hortas e jeiras de trigo. Luna juntou-se a ela, e enquanto golpeava e puxava, a arfar com o esforço, olhava a espaços, sempre à espera de ver aparecer o Miguel do outro lado do muro da almuinha e da ladeira do rio, era bom que ele as viesse ajudar, mas sabia que isso não iria acontecer. Miguel deveria ter já analisado a água do rio, sem sucesso, como o prevenira, e agora era capaz de ter começado a construir uma nova máquina, uma máquina para criar sons a partir do vazio ou para acender fogos sem calor dentro das paredes das casas, fantasias que alimentava e o enlouqueciam ao estudar os livros e objetos que trazia da velha cidade de prédios altos do vale, desabitada e em ruínas. Sentiu-se tomada de uma angústia surda – Mãe! - chamou – e diante da paz dos seus olhos azuis, desabafou: estou pejada!
            A mãe imobilizou-se, tirou-lhe a sachola das mãos e fê-la sentar-se, pousando docemente a mão sobre o seu ventre. O vale aquietava-se à sua volta como uma serpente a enrolar-se na sua loca de pedras batidas pelo Sol. A mãe sentiu a semente sagrada e o medo que a envolvia. Luna sabia que a mãe a censurava por não ter falado antes, por não ter tomado cuidados.
            - O meu filho há-de ser forte e bravio como as ervas que nascem entre as pedras dos muros – afirmou - e possuirá raízes tão vigorosas que nunca ninguém o arrancará de onde ele não quiser ser apartado.
            - Falas do teu filho como se ele fosse um homem, e isso porque estás preocupada com o teu homem. Se o teu fruto tiver a nossa natureza, o seu coração saberá reconhecer e viver ao ritmo da terra e dos astros e caminhará ao passo dos animais como se lhes pertencesse, mas se for um segundo Miguel, tudo é possível.
            - O Miguel tem um coração bom…
            - …um coração que venera a manhã que está para vir, e a semente adormecida do robusto carvalho. É como se não existisse a terra sob os seus pés e os céus que o coroam, o cereal pode morrer e os frutos apodrecer, que ele não faz nada para os salvar. A fome e o desterro é a única coisa que ele pode atrair sobre nós e se não queres que a sua loucura se transmita ao teu filho e nos desgrace, deves repudiá-lo ou matá-lo com a lucidez da amazona que corta o seu próprio seio para melhor poder usar o arco de combate. Eu fiz o mesmo com a tua idade, e criei um ser precioso como tu, e valeu a pena, mesmo que os espíritos não cessem de mo recordar.
            A réplica de Luna foi emudecida pelo som dos passos da mãe que se afastava dali. Permitiu-se prantear um pouco, abrir o açude inóspito das suas dúvidas, e depois recompôs-se, aferrou na mão o cabo da sachola e foi à procura de Miguel à luz do lusco-fusco. Esperava encontrá-lo na cabana mas enquanto subia a ladeira divisou o seu vulto na parede da albufeira. Pousou furtivamente a sachola no meio de umas ervas e reuniu-se a ele. Por um movimento ligeiro da sua cabeça, ela percebeu que ele a tinha visto, e quando se chegou à beira, ele passou um braço por cima dos ombros e começou a chorar encostado a ela. Ela abraçou-o com força e afagou-lhe a cabeça, reconfortando-o de uma dor ignara. Talvez consiga mudá-lo – pensou ela – talvez não seja preciso mais do que isso. Quando sentiu que ele se acalmara um pouco, puxou-o ao de leve e tomaram o caminho da casa, e logo ao subir o declive da ladeira, ele quis ajudá-la a escalar e amparou-a pela cintura e os seus ombros tocaram-se e a mão dele em concha afagou-lhe as nádegas, e logo os seus corpos cobraram o desejo que os consumia em acesos beijos e carícias desesperadas, e quando os dois estavam unidos, mesclados num amplexo furioso, animal, ele ciciou ao seu ouvido – esta é a nossa última noite! Ela não o ouviu ou não deu conta do que ele dissera, obcecada em o sentir mais fundo e fundo em si, a desalojar o prazer dos seus esconderijos cómodos e a fazê-lo ascender e atear o seu ventre.
            Quando voltaram à casa, era já noite cerrada. A anciã encontrava-se sentada no alpendre, sobre um cadeirão de costas de ripas. Luna sentiu entre os dois uma visceral emanação de nojo ou ódio e puxou-o para dentro de casa. Acenderam um candeeiro de petróleo, e envoltos naquela luz bruxuleante, ela tentou não indagar sobre motivos do desespero que manifestara no muro do açude, e perguntou-lhe antes:
            - Analisaste a água do rio, não foi? Encontraste alguma coisa?
            Ele encolheu os ombros e respondeu de forma estranha, como se enunciasse um enigma:
            - Era apenas água comum, mas olhando para ela, vi-me ao espelho.
            Ela condescendeu, e minimizou a resposta, a esgravatar por um pouco de quietude e paz naquele dia insano.
            - A água é tudo, ou o todo, é o sangue da terra. Se não encontrarmos respostas nela, elas também não existirão nas estrelas ou no brilho do fogo.
            E nada mais disseram um ao outro naquela noite, e recolheram-se ao leito para singrar pela noite dentro, abraçados como dois náufragos à deriva num mundo sem ninguém. Luna acordou na manhã seguinte como em tantas outras, com o brilho do dia na janela de vidro e o arrulhar das rolas no carvalho ao lado da casa, mas estava sozinha na cama. Chamou por Miguel, mas ninguém respondeu. Levantou-se de um salto, com um aperto no peito e correu para o exterior compondo sobre si uma manta pequena. Subiu descalça a ladeira até ao barracão, e já a dor se erguia do seu peito num gemido desesperado. A sua mãe estava sentada no chão à porta da cabana, em pranto, e Luna soube o que iria encontrar lá dentro. Miguel estava caído a um canto da cabana, sem vida, no mesmo lugar onde se recordava de ter encontrado o seu próprio pai há tantos anos atrás. Luna abraçou o seu corpo e sacudiu-o com força como se esse gesto inútil pudesse ressuscitá-lo. Por fim, abriu muito os olhos e desistiu, resignou-se, e contemplou o seu homem. Não havia sangue, não havia cordas nem facas, estava morto e lívido com um vago sorriso de paz no rosto ossudo e magro. Fechou-lhe os olhos, e colocou a sua cabeça no seu colo. E foi assim que permaneceu, consumida pelas dúvidas e pela angústia, a tentar não olhar a mãe ou as pessoas que chegavam, circulando diante do corpo num cortejo sombrio de estranhos. Quando o Sol alcançou o vértice do céu, confiou Miguel aos sacerdotes tatuados que o ataviaram e colocaram numa liteira para o carregarem para o alto da montanha, onde sabiam que ele queria ser sepultado, à vista de tudo e no meio de uma grande e festiva celebração - as montanhas altas são adequadas aos que voam amiúde em vida, e às águias e arcanjos que se atrevem a acompanhar os seus sonhos.
            Depois da morte de Miguel, as águas e os ciclos seguiram o seu caminho, e a vida recolheu e expandiu-se nos seus ritmos discretos e obsidiantes. Quando nasceu o filho de Luna, um rapaz, como ela supusera, a mãe e a avó ensinaram-no desde pequeno a reconhecer esses ciclos e a viver de acordo com eles. Era com um orgulho que o admiravam enquanto reunia gravetos para o fogo ou ajudava nos campos na medida da pequenez do seu corpo, ou quando, de coração aberto, as ouvia a ensinar o nome e as propriedades de cada planta e de cada árvore, e a interpretar os sinais dos céus e o comportamento dos animais. Mas, apesar de tudo isso, e dos olhos azuis que copiara da avó, Luna reconhecia nele um certo despreendimento e um adejar onírico sobre as coisas que eram apanágio do pai. Não o surpreendia, pois, vê-lo a seguir atentamente o voo errante das moscas, ou o dos falcões nos horizontes cerúleos, e foi sem preocupação – antes, com uma indizível ternura - que o viu esgueirar-se pela porta semiaberta do barracão da colina, onde foi dar com ele a indagar as letras e os desenhos herméticos dos velhos livros, enquanto fazia rodar nas mãos, segura pelo eixo, uma roda dentada corroída pela ferrugem.



Geena

                No rincão das matas enegrecidas, onde as árvores carbonizadas se assemelhavam a costelas fraturadas do corpo de uma ...