INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

A sombra dos dias




               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes, porque aquele cliente, um cliente muito especial, fazia sempre o mesmo pedido todos os dias, quase sempre à mesma hora, sentava-se de preferência na mesa de canto ao pé da janela munido do jornal que capturava na entrada, distante e misterioso. Enquanto esperava, ela olhou-se ao espelho do balcão e passou a ponta humedecida do dedo indicador por uma sobrancelha. Estivera a arranjá-las, e parecia-lhe que não estavam iguais. Levou-lhe o pequeno-almoço, que ele agradeceu polidamente na sua voz grave, mas sem entoação. Ela foi servir outros clientes, mas sempre com ele no canto da retina, bebia-lhe os gestos e as expressões, descobria entre sobressaltada e incrédula quando ele tinha uma palavra inusitada ou um movimento insólito, como se ele o fizesse para sair da rotina, para lhe dar a entender em silêncio que sabia que ela estava ali, a olhá-lo, e que vivia como ela numa pálida e morna ansiedade, a esperar por algo na névoa dos gestos de todos os dias. Ela também notou que ele se demorava sempre na página dos classificados, escrutinando com gravidade os anúncios como se procurasse algum anúncio específico, talvez fosse daqueles homens que não são capazes de estar com uma mulher sem ter de pagar por isso e, ao mesmo tempo, isso parecia-lhe uma ideia absurda, porque ele emanava uma confiança viril e uma tranquila segurança, que fora o que a atraíra nele. Quando ele abandonava o café, ela sentia a saudade sofrida de quem fica no cais, só desanuviada por saber que o voltaria a ver na manhã seguinte, enamorada de um estranho, e afeiçoada ao sentimento de se sentir assim enamorada. Durante a noite, no seu quartinho dos fundos, quando o dono do café entrava nele à socapa para vencer com o seu peso as relutâncias do seu corpo crispado e ausente, vinham-lhe aos olhos lágrimas de infelicidade e desespero, que o homem nojento interpretava como se fosse dor por ele a penetrar, mas encolhia os ombros e masquindo de passagem, servia-se do seu corpo e largava-a prostrada e suja sobre a cama como restos de comida na beira de um prato.
                Durante o dia, ela só amanhecia com a chegada do cliente misterioso. Mas será que ele dava por ela? - angustiava-se ela em segredo. Discretamente, tentou acentuar aquela relação cúmplice entre os dois. Começou a providenciar flores novas todos os dias para a jarra da mesa do canto, e punha lá o jornal que já lá o esperava quando ele se encaminhava para a mesa, dobrado ao alto a exibir a página dos classificados com a impressão ténue dos seus lábios com bâton no topo da página, e sempre um guardanapo de papel dobrado e espalmado num origami de fantasia a um canto da mesa. Estranhamente, quando a sua expetativa por uma reação aumentava, ele deixou de aparecer. Ela sentiu-se angustiada. Teria ido depressa demais? Ele podia ser incorrigivelmente tímido e ter-se recolhido na carapaça. Também podia ter acontecido alguma desgraça, e ela não tinha como saber. Passaram-se três, quatro, cinco dias, e ele sem aparecer. Ela foi-se abaixo, chorava pelos cantos ao mínimo pretexto, e desfazia-se em lágrimas no seu quarto dos fundos. Um dia, o patrão fora visitá-la ao quarto a meio da noite e surpreendeu-a em pranto e disse que não iria tolerar por muito tempo aquela choradeira. Deu-lhe uns dias de licença, para ela ir ver a família ou o campo para espairecer, para depois voltar e retomar o seu trabalho e os seus deveres como antes. Ela ripostou que isso não era suficiente e que se ia embora dali, ia morar para a casa de uma amiga e procuraria um novo trabalho, e a conversa entre os dois resolveu-se em gritos e insultos mútuos. Reuniu os seus parcos haveres e rumou à casa da colega de café, que a alojou e ajudou-a na busca de um outro emprego. A oportunidade surgiu apenas dois dias depois, para o balcão de uma perfumaria situada na mesma rua do café onde trabalhara. A perfumaria abria mais tarde do que o café, mas ela habituou-se a sair para a rua mais cedo do que era preciso, apenas para passar diante do café, e espreitar de relance a mesa de canto junto à janela, mas eram sempre outras pessoas, outros estranhos, que surpreendia sentados nela. Com poucos dias dessa rotina inusitada, a sua procura surtiu efeito. Encontrou-o junto à entrada da perfumaria, a fumar, ela sentiu-se eufórica e a um tempo assustada, e levada por movimentos quase involuntários, caminhou na direção dele e parou à sua frente. Olharam-se demoradamente num silêncio de devaneio. Ela notou a bata branca de padeiro sob o casaco de napa, e um traço de massa seca na face.
                - Agora trabalho de noite – disse-lhe ele, quando começava a duvidar de que ele a reconhecesse e que poderia estar a tomá-la por uma louca – encontrei este emprego depois de muitas semanas à procura. Na minha folga fui ao café para te ver, mas a tua amiga contou-me que já não trabalhavas lá.
                - Quase dei em maluca porque pensei que lhe tivesse acontecido alguma coisa! - ripostou ela, sem acreditar que fora capaz de dizer aquilo.
                Ele atirou fora o cigarro, puxou da carteira e tirou do porta-moedas um dos origamis que ela lhe havia deixado na mesa do café. Ela sentiu-se serenar, as dúvidas, o medo, a solidão, tudo se aquietou como uma onda que se estende no areal. Desprezando as palavras, que as palavras não eram para eles, ela tomou entre as suas, as mãos frias que expunham a figura de papel, e recolheu-se no seu peito entre os braços que se abriam.


Dicionário

                O “seu” dicionário não tinha muitas palavras, e entre estas, havia muitas quase virginais, intocadas, outras devassadas e puídas pelos seus olhos ansiosos.
                Apenas algumas:
                Ausência, ciúme, comida, desejo, desprezo, dor, horário, insónia, perda, resignação, rotina, saudade, sonho, sono, trabalho, trabalho [outra vez, mas não é lapso, as palavras mais usuais vinham repetidas duas e três vezes, outras havia de tão pequenas que quase não se conseguiam ler], vanidade, volúpia…
                Complicado se tornava acrescentar uma nova palavra. Um dia, achou que estava apaixonado por uma vizinha que caminhava diante de si e o deixava numa vertigem inebriante. Não era bem desejo ou volúpia porque havia outros sintomas associados, uma lufada fresca no peito e uma inquietação sonhadora que lhe fazia estremecer as pupilas. Tinha de ser paixão, mas para estar apaixonado, tinha de existir paixão no seu dicionário. Consultou o seu editor, mas aquele ancião muito atarefado com a sua infindável Biblioteca de Babel, perguntou-lhe se ele conseguia definir paixão, premissa incontornável para a criação de um novo étimo. Aquela questão ocupou-o durante dias, dias infinitamente cruéis porque todos os dias via a sua vizinha e os sintomas agravavam-se. Por fim levou-lhe a sua definição possível (que o ancião acabou por aceitar) e que apresentou assim: sentimento indefinível, que se fosse definido não seria paixão. Acrescentado a paixão ao seu dicionário, e ao procurar explorar os seus sinónimos, fez acrescentar ao verbete: (ver também: desprezo).

                Outras vezes, a palavra era acrescentada pelo próprio editor, por se ter imposto à sua vida. Melancolia foi uma dessas palavras, e não era apenas uma palavra isolada, inerte, era uma doença, um verme do papel que cavou túneis para baixo e para cima nas folhas mais próximas, a comer letras e acentuação de outras palavras. O pó e os pedacinhos de papel que o verme de melancolia espalhava sobre outras palavras, ocultava-as do seu olhar, aumentando a sua confusão e a sua melancolia. A palavra melancolia foi das últimas que o seu dicionário recebeu, mais precisamente, a última adição que ele teve em vida, porque a palavra morte foi acrescentada depois pelo editor, antes de selar e cintar o dicionário e o arquivar na biblioteca sem fim de galerias hexagonais.


A segunda Parca

                «Sê a minha bússola» pediu ela, enquanto ele, estremunhado, se tentava lembrar de como era o rosto dela, e ter presente a maciez das suas coxas ou o cheiro do seu sexo. Muita coisa reunida para se ter êxito numa reflexão em meio à penumbra numa cama de refúgio depois de uma noite regada com álcool, e comprimidos.
                - Só nos conhecemos esta noite, e acho que nem sei o teu nome – protestou, e logo se arrependeu da arrevesada súplica de intimidade e partilha que parecia existir naquela frase de improviso.
                - Não importa! Eu não podia pedir isso a alguém que eu amasse, um irmão ou um amante. Mas tu não és nada para mim, apenas um estranho que eu pedi emprestado para não acordar completamente sozinha, e isso simplifica as coisas. Apenas te peço que sejas a minha bússola, que me guies durante alguns dias através dos lugares do mundo que tu conheces e sentes como teus. Isso é importante para mim, porque pode acrescentar algo à minha vida seca e sem interesse.
                Ele emudeceu, refreou um forte impulso para fugir dali ou responder-lhe com escárnio. Mas por fim recolheu as suas defesas, os espinhos e barreiras, e suspirou na obscuridade, tentou racionalizar a experiência que estava a ter enquanto ela brincava com ele como uma gata brincaria com um novelo de lã, acariciando-lhe e prendendo os seus mamilos entre os dedos.
                - E isso vai levar muito …tempo…isso…da bússola? – titubeou, a sentir-se de novo excitado.
                Ela riu-se, vencera as suas hesitações.
                - Três manhãs, vens-me buscar e vamos de pé ou de carro aos lugares de que tu gostas. Vais guiar-me durante três dias.
                Ele concordou com um aceno, procurando alcançar os seios dela com as mãos abertas em taça, mas ainda replicou: um dia chegava, gosto de poucos lugares e de poucas pessoas!
                Na manhã seguinte, ele foi buscá-la de carro, tinha a ideia algo lasciva de subir ao apartamento dela, mas ela já o aguardava cá em baixo junto à entrada do prédio. Ao entrar no carro, beijaram-se de fugida, um pouco intimidados por uma intimidade que nenhum dos dois sentia como real. Ela tinha o cabelo ainda húmido, e toda ela cheirava a lavanda e madressilvas, também notara agora as sardas rosadas que pontilhavam as suas faces pálidas.
                - Aonde vamos?
                Ele não respondeu, como se não a tivesse ouvido. Ela abriu mais o vidro da janela, capturou um maço de tabaco que ele deixara largado entre os dois assentos da frente e acendeu um cigarro que cravou na ponta de uma boquilha da cor do marfim que tirou da carteira. Como ele parecia desaprovar o gesto, ela oferecia-lhe pequenos anelos de fumo que se desfaziam na sua face carrancuda. Saíram da cidade, e o carro rodou uma meia hora por estradas secundárias de alcatrão em mau estado, até o condutor o encostar na berma.
                Saíram ambos. Estavam diante da entrada de um portão. Divisava-se o acesso a uma mansão que se erguia entre as árvores da propriedade, e um poço com tampa de betão e alguns cepos de madeira a apodrecer numa pilha ao lado. Tudo tinha o aspeto de ruína e de degradação, o ferro forjado e enferrujado do portão, as árvores de folhas amarelecidas, o mato e as folhas mortas naquilo que fora antes o jardim da casa. Ela ia admirando o que via, a aguardar uma explicação.
                - A casa onde nasci e onde vivi até ser maior – adiantou – durante quinze ou vinte anos o meu mundo não tinha mais do que dois quilómetros quadrados, dentro dos quais está esta casa, a escola primária um pouco mais abaixo e a mercearia da aldeia onde íamos comprar géneros alimentares e outras coisas de que precisávamos. Também levávamos lá fruta do nosso pomar para vender, e figos, carnudos e enormes, das árvores da banda de baixo do terreno. Eu disse-te que um dia chegava para te mostrar tudo.
                - Quem é que vivia na casa? Quantos eram e para onde é que foram?
                Ele fez um esforço para continuar, contrariado.
                - Fomos oito irmãos nascidos, e nenhum deles além de mim chegou à idade adulta. Eram todos muito fracos, morriam de febres palustres ou até de constipações. Se espirravam muito ficavam quase em coma, pálidos como cadáveres. Além destes, e antes de todos nós, houve cinco mais que a minha mãe abortou por morrerem de fraqueza dentro dela. Ela tinha horror de os enterrar e atirava-os para dentro do poço. Nunca bebemos água daquele poço.
                - E os teus pais?
                - O meu pai ainda é vivo. Os miolos dele deram o nó com tanta tragédia e nunca mais deu conta de si. Disseram-me que ele vive nas ruas de Braga a pedir às portas, já lá fui á procura dele mas nunca o consegui encontrar, mas confesso que também não procurei muito porque eu queria tirá-lo das ruas para o enfiar num asilo para velhos, e não sei onde é que ele estaria melhor, porque os asilos são como covas onde enterramos os nossos até os trasladarem para a cova definitiva no cemitério. A minha mãe, essa viveu até eu fazer vinte anos, com uma saúde muito débil mas sempre aterrorizada pela possibilidade de eu morrer também de fraqueza, e quando lhe disseram que eu nessa idade continuava vivo e de saúde, deixou de resistir, e morreu.
                - E não te lembras de mais nada?
                - Nada de que valha a pena falar – cortou, enfastiado de falar de si mesmo.
                Ele fechara-se novamente e ela resignou-se. Para surpresa dele, ela disse-lhe para voltar sozinho de carro que ela ia caminhar um pouco por ali mesmo e depois procurava um transporte. Ele fez-lhe a vontade, aliviado por se livrar dela. Na manhã seguinte, ele experimentou passar pelo prédio, um pouco na dúvida se o acordo dos dois se mantinha, mas ela já lá se encontrava à espera. Deteve o carro, e ela entrou, e como na véspera sorveu tranquilamente o fumo do seu cigarro com boquilha como se ele não tivesse direito a uma palavra a respeito disso.
                Vendo-o tomar as mesmas estradas que na véspera, ela julgou que fossem voltar à casa de família, mas depois de um desvio ele estacionou o carro junto á antiga escola primária, no extremo de uma aldeia desolada onde não se via quase ninguém. Abandonaram o carro e ele sentou-se sobre a bagageira do carro com os pés assentes no para-choques. Ela olhou em redor e transpôs a cerca baixa da escola, andando ao acaso pelo recinto degradado. A escola era um edifício geminado, com uma sala de aulas para cada um dos sexos e uma seção mais baixa ao centro que unia as duas partes do edifício, janelas de vidros grandes – partidos e depois forrados por dentro as janelas com placas de contraplacado. A entrada fazia-se pela parte central, por uma porta grande com cercadura em xisto com forma ogival e um escudo de Portugal ao alto. Como ele permanecesse sem dizer nada, ela começou com as perguntas.
                - Brincavas muito aqui? Tinhas amigos?
                - Sim e não, o mesmo que qualquer criança naquelas idades, suponho eu. O ensino era muito rígido, demasiada disciplina, punham-nos de castigo quando revelávamos ignorância ou se nos ríamos um tom acima do que seria desejável e aconselhado. E se as infrações fossem mais graves eram convocados os pais para continuarem a reabilitação em casa com castigos, privações e sovas.
                - E tu aguentavas as sovas? Não eras fraco como os teus irmãos?
                - Não me lembro bem…sei que quando vim para aqui, uma vez o diretor pôs-me de castigo, ajoelhado durante uma hora virado para a parede, e dessa vez desmaiei e tiveram de chamar um médico. Mas também me lembro de mais tarde jogar e correr no recreio como qualquer criança normal.
                - E os teus amigos, eram todos como tu? gostavam de jogar e de brincar? Não havia daquelas crianças de que quase nunca se fala, com problemas físicos ou mentais?
                - Havia uma miúda muito gorda que trazia de casa puré de batata-doce numa caixa de lata e comia com as mãos, besuntando-se toda, parecia um animal, e também havia uma menina atrasada que vinha numa cadeira de rodas e era deixada no fundo da sala a babujar-se e a guinchar palavras que ninguém percebia.
                - Se ela não estudava, porque é que a levavam para a escola?
                - Suponho que os pais tinham de deixá-la em algum lugar, naquele tempo quase toda a gente trabalhava nos campos, de sol a sol, e eles deviam conhecer o diretor para a deixarem lá, talvez lhe dessem em paga produtos do campo, aves de criação ou ovos. Mas essa menina devia ser alguma coisa à minha família, talvez fôssemos parentes, porque me lembro dela passar uns tempos na nossa casa, vem-me à memória a figura dela no jardim com aquele sorriso pateta, e a baba a escorrer-lhe para o pescoço e da minha mãe estar por trás da cadeira de rodas a pentear-lhe os longos cabelos com uma escova. E a minha mãe sorria, um sorriso radioso e enternecido, como se a vida só lhe tivesse dado motivos para estar feliz e expor o lado bonito das coisas.
                - E depois da Primária não estudaste mais?
                - Para quê? Não preciso de estudos, estive a aprender numa oficina e hoje sou mecânico automóvel. Trabalho quando aparece trabalho ou quando preciso de dinheiro, e estou muito bem assim.
                Entraram de novo para o carro, e ele comunicou-lhe a decisão que andara a congeminar durante aquela viagem.
                - Amanhã não te vou buscar! Pensei que pudéssemos ter uma relação boa para ambos, mas isto ficou muito chato. Fazes-me falar e lembrar do passado, e isso incomoda-me e é a última coisa de que eu preciso.
                - E se fizermos uma pequena variação a esse nosso arranjo? Hoje levas-me a um lugar aqui muito perto a que eu já não vou há algum tempo, e amanhã de manhã, para te compensar por todo o aborrecimento que tens sentido, em vez de sairmos vais ter ao meu apartamento, e lá havemos de improvisar alguma coisa que seja do agrado dos dois.
                A expressão dele iluminara-se, e rodou a chave na ignição.
                - A mim parece-me uma ideia ótima! Onde é que fica esse sítio onde queres ir?
                Ele pôs o carro em marcha enquanto ela lhe ia dando indicações, acompanhando-as com gestos agitados das mãos pálidas, e por fim mandou-o parar o carro. Outra casa degradada, e curiosamente, não muito distante da casa onde ele nascera e fora criado. Ela saiu com movimentos pausados, sendo seguido por ele que interrogava mudamente o seu silêncio. A casa quase não se via da estrada, erguida na encosta que declinava da estrada de alcatrão, soerguendo na linha de visão apenas a parte superior das paredes e os telhados abaulados a ameaçar ruína. Mas ela não se aproximou muito da casa, detendo-se a meio caminho, na sombra de um castanheiro vivaz. Quando ela se ajoelhou na sombra, é que ele se apercebeu que no meio das ervas se encontrava a lápide de uma campa. Apenas uma lápide, e a silhueta retangular do féretro sepulto recordado por lajes de granito colocadas de perfil. Ela passou as mãos pelos dizeres da lápide numa tentativa vã de a limpar do musgo seco que os velava e depois de longos momentos de recolhido pranto, regressou com ele ao carro, e não pronunciou mais palavra alguma até regressarem a casa. Quando o carro se deteve diante do prédio, ela avisou-o numa voz tranquila:
                - Amanhã, antes de vires, faz-me o favor de tomares banho, já não deves tomar banho há semanas e pareces um porco, aliás, o teu carro está como tu, imundo como um chiqueiro. Não tens vergonha de ser assim?
                E sem esperar pela resposta, saiu do carro. No outro dia, ele hesitou de novo quando deteve o carro defronte do mesmo prédio. Uma espécie de instinto como um aperto no peito dizia-lhe que o mais prudente a fazer era voltar à sua vida e deixar para trás aquela mulher meio desequilibrada que o desconcertava com o inesperado das suas palavras e atos. Mas acabou por abandonar a viatura e subir para o apartamento dela com algum medo e muita insegurança, aproximando-se do seu destino inexorável com cada falso passo que dava nas escadas. Ela abriu-lhe a porta mas escondeu-se dele com a porta de permeio.
                - Fecha os olhos e não te mexas – ordenou-lhe.
                Ele assim fez e ela colocou-lhe uma venda de veludo sobre os olhos, e em seguida, com gestos acariciantes, despiu-o da cintura para cima, fazendo roçar por ele o seu corpo inteiramente nu. Pegou-lhe pela mão e conduziu-o pelo apartamento, fazendo-o sentar-se numa cadeira onde o atou, ligando primeiro os pulsos e os pés pelos tornozelos com cordas de náilon, e depois com laços fortes prendeu o seu peito e braços às costas da cadeira e as pernas às pernas dianteiras da cadeira. Ele aguardou, expetante e excitado, pelo próximo passo, e o próximo passo dela foi aproximar-se do seu rosto, sentiu o toque delicado e macio de um mamilo na sua face, mas deu-se conta de que ela apenas lhe desatava a venda, e a atava de novo sobre a boca como uma mordaça apertada. Ele emitiu um protesto abafado, mas ela saiu do seu campo de visão, e enquanto ele se interrogava sobre o que ela tinha ido buscar, talvez uma chibata ou correias de couro, ela reapareceu de novo com um robe vestido sobre o seu corpo nu e empunhando um corta-papéis com o feitio de um sabre, ele arregalou os olhos de pavor e sacudiu-se na cadeira, mas era impossível soltar-se sozinho daqueles nós.
                Como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo, ela aproximou-se dele por trás, encostou a lâmina ao seu peito e fê-la correr ao de leve sobre a pele, abrindo-a num corte pouco profundo que ficou a gotejar sangue. Ele gritou como podia, sabendo que ninguém o ouvia, e ela tranquilizou-o.
                - Acalma-te, porque quero só conversar contigo.
                Puxou de uma cadeira e sentou-se à sua frente, a olhar pensativa para o sangue do sabre.
                - Como não te apetece falar, acena com a cabeça se eu te perguntar alguma coisa. De acordo? – Ele acenou afirmativamente, e ela prosseguiu – há vinte anos atrás tu eras uma criança débil como o fruto seco de uma árvore raquítica e sem seiva, o último sobrevivente de uma geração condenada, os teus pais andavam angustiados com a possibilidade de te perder, e então entrou em cena o médico da aldeia, um homem mesquinho e ganancioso a quem os teus pais recompensavam generosamente pelos seus cuidados e pelos seus conselhos. Esse homem, um criminoso, disse-lhes que a menina atrasada da escola tinha o mesmo tipo de sangue do que tu e que bastaria uma transfusão de sangue para garantir que tu sobrevivias. Essa criança atrasada era minha irmã, e viste ontem a sepultura dela sob o castanheiro. Com dinheiro ou com promessas de que a iriam criar e fazer-lhe também os bens, os teus pais convenceram os meus a fazer a transfusão de sangue. O médico mexeu os cordelinhos e fez-se a transfusão num hospital pequeno e as coisas correram mal, tiraram sangue a mais à minha irmã ou algo foi mal feito porque ela morreu de imediato, uma criança, percebes? uma criança que precisava de cuidados e de dedicação, que tinha problemas mas que era uma criatura doce que chorava de alegria quando lhe fazíamos festas nos cabelos ou lhe enchíamos a cara de beijos. Mataram-na para tu estares aqui, um traste de gente e um monte de lixo. Os teus pais devem ter-se sentido felizes com a transfusão, mas o remorso bateu forte no teu pai que era o mais sensível dos dois, começou a ir a minha casa, meio tresloucado, para rezar e pedir perdão diante da campa da minha irmã, a ponto do meu pai ter de o expulsar de lá de cada vez que ele aparecia, e ele nunca mais foi o mesmo, nem nós.
                Ela levantou-se e encostou a lâmina ao seu plexo solar, ele arfava de aflição e começara a chorar.
                - Eu devia cravar-te esta lâmina e sangrar-te como a um porco, retirar-te o sangue que foi roubado e não te pertence. Vou-te dar alguns minutos para pensares se é isso que desejas para ti, enquanto me visto para sair.
                Ela deixou-o sozinho na sala, e ele voltou a debater-se na cadeira a tentar libertar-se, e com tanta energia que a cadeira tombou para o lado sem que a sua situação melhorasse porque continuava preso a ela. Ela regressou e endireitou a cadeira do prisioneiro. Vestira-se e calçara-se, com uma mala de viagem aos pés.
                - Vou tirar-te a mordaça, e se gritares ou tentares gritar, ninguém te salvará de teres o pescoço cortado. Compreendes?
                Ele anuiu e ela desatou-lhe a mordaça.
                - O que me move é o desejo de justiça, esse é o meu norte, a flor-de-lis da minha bússola, e a justiça é sempre um equilíbrio entre os atos e os seus reflexos, entre o crime e a punição. Racionalmente, compreendo que não foste tu quem matou a minha irmã, mas também percebo que a morte da minha irmã possibilitou estares aqui e seres quem és. Vou fazer-te um repto, uma proposta de vida ou de morte que vai condicionar a duração da tua vida – eu vou soltar-te com a condição de fazeres alguma coisa por ti, de tentares ser uma pessoa melhor de alguma forma que esteja ao teu alcance, estuda ou aprende um outro ofício, ajuda os outros ou salva os animaizinhos abandonados, não me interessa. Vou-te dar dois anos para seres uma pessoa diferente, melhor, que não converta o sacrifício da minha irmã num absoluto desperdício. Ao fim desse tempo, decidirei se conservas o sangue da minha irmã ou se deves ser castigado. Temos acordo?
                - Sim! – respondeu ele num tom desesperado.

                Ela usou o pequeno sabre e libertou-o das cordas. Ele curvou-se sobre si mesmo a esfregar os pulsos, imóvel na raiz de dois rumos distintos, e ela abandonou o apartamento, saindo por uns tempos da vida dele como um juiz que entrasse em férias.

O poço

Detalhe do mapa da fortaleza de Alcoutim
(inLivro das fortalezas situadas no extremo de Portugal e Castela por Duarte de Armas, escudeiro da casa do rei D. Manuel I,
cota DGA/ANTT, Códices e documentos de proveniência desconhecida, n.º 159, fl.3


«Assevera o Doutor Correia das Neves na sua Monografia de Reguengo do Mondego, que a bela e jovem fidalga se apaixonou por esse homem horripilante que a brutalizava, e que acossados no seu amor maldito, os dois amantes sacrificaram a vida, atirando-se de olhos fechados para dentro de um poço».
(Armindo Garçães, “Elêusia”, jornal Correio do Mondego,
Ano II, nº 37, 4 de Setembro de 1921)

                O nome de Elêusia, hoje, dirá pouco aos habitantes da aldeia de Mugartes, concelho de Reguengo do Mondego, recordarão ainda a sua história trágica algumas pessoas de mais idade que em pequeno a ouviram contar da boca dos avoengos, ou então aqueles que porventura a leram na sua forma embelezada em pasquins e jornais regionais da primeira metade do século XX. Elêusia foi uma jovem nascida na dita aldeia em finais do século XVIII que o pai, um fidalgo semiarruinado com uma verdadeira devoção pelos mitos e cultura dos antigos gregos, encaminhou para a casa de familiares em Coimbra para estudar e aprender com reconhecidos mestres. Completados os vinte anos, e com a morte do pai, Elêusia regressou a Mugartes. Havia muita coisa para fazer, deslindar a situação confusa dos bens do pai, e tratar de vender ou recuperar a Quinta que se contava ainda entre as suas parcas propriedades, e cuja vedação altaneira se estendia por quilómetros quando se saía de Mugartes em direção a Montemor-o-Velho. Quando regressou à Quinta, só encontrou nela uma mão-cheia de trabalhadores que cuidavam dos animais e viviam no casario da Quinta, os outros o pai costumava contratar à jorna quando necessitava de mais braços para os trabalhos agrícolas. A proprietária providenciou e alienação de outros bens esparsos, mesmo as joias da família, para concentrar os réditos na manutenção e prosperidade daquela herdade. Entre os que viviam na Quinta em permanência, contava-se um homem que tinha a reputação de ser gafo, e que ninguém queria a viver em casa de gente, pelo que dormia numa cabana feita com ramos e colmo junto aos estábulos e que ele próprio erguera com as suas mãos. Fora em tempos mendigo, pedindo pelas estradas e no adro da igreja com as suas roupas largas e o capuz em que mantinha sempre oculta a cabeça, até ao dia em que o pai de Elêusia o acolheu e lhe deu guarida e trabalho. O suposto leproso foi o primeiro assunto que os moradores da Quinta discutiram com Elêusia quando ela ali chegou porque ninguém queria que ele continuasse a viver ali, o patrão velho protegera-o, era verdade, mas o patrão velho falecera e já estava nos céus com todos os anjos e santos, pelo que competia à sua filha sanar esse erro e expulsar das suas terras aquela abominação de gente. Elêusia quis compreender porque é que o queriam fora dali – Não trabalhava e não cumpria com o que lhe era ordenado? Todos reconheceram que não era por isso, era um bom trabalhador, e não ficava atrás dos outros, tanto que nem parecia gafo, mas era como um animal em figura de gente, e não podia viver ali. A Elêusia, pareceu-lhe injusto expulsar um trabalhador sem sequer saber o que ele sentia ou pensava sobre o assunto. Procurou-o na sua cabana, mas ela estava vazia, pelo que desceu ociosamente o caminho entre as ervas até ao arroio que corria a nascente da Quinta perseguindo o rumorejar das águas do ribeiro e foi nas suas margens que avistou o seu empregado, estava despido da cintura para cima, e lavava-se de joelhos na água da concavidade de uma rocha. Elêusia sentiu um choque profundo. Aquele homem não era nenhum leproso mas também não tinha a pele como a de um homem comum, a epiderme parecia esticada e espessa, e da base do pescoço aos ombros exibia o que pareciam ser escamas largas de desenho ogival. Quando ele deu pela sua presença ficou estarrecido e apressou-se a vestir o gibão de capuz sobre a pele encharcada. Mantinha o rosto baixo, mas Elêusia poderia jurar que conseguia distinguir os seus olhos a refulgir na penumbra do capuz. O seu rosto também era diferente de tudo o que conhecia, de formato triangular com a testa larga e olhos encovados, o nariz era estreito e a boca apenas um traço acima do queixo afilado.                
                 Aos poucos o medo da jovem foi diminuindo, talvez mais depressa do que a do homem surpreendido. Ela sentou-se numa rocha a alguns metros dele, enquanto ele se mantinha imóvel, em pé, com o gibão manchado de água. Agora já não lhe via os olhos, ele olhava para baixo, para os seixos da margem do ribeiro, não sabia ela que o fazia por se sentir intimidado pela sua beleza, pela tez muito branca de olhos escuros e pelos cabelos ruivos que pareciam incendiados pela luz do sol.
                - Como é que te chamas?
                - O seu pai disse para eu me chamar Pedro, mas ele gostava de me chamar Tritão.
                A jovem riu-se, mas depois sentiu-se constrangida com receio de que ele se sentisse melindrado. A voz dele era um pouco cava e sibilava no final das frases, mas tranquilizou-a saber que ele falava e que podia comunicar com ele.
                - Foste batizado, Pedro?
                Ele encolheu os ombros.
                - Não me lembro, também não sei em que terra nasci ou a quem devo a minha geração. Não tenho casa mas o seu pai disse que eu podia viver na Quinta enquanto quisesse.
                Ela assentiu, tivera as respostas para as perguntas que lhe desejava fazer, e no seu íntimo afastou de imediato a possibilidade de o expulsar das suas terras. E estranhamente, desejou conhecer melhor aquele homem singular.
                - Costumas vir muito até ao rio, Pedro?
                - Sempre que não estou a trabalhar! – confessou – as árvores e a água não me odeiam e não me desejam ver morto.
                - Voltarei então aqui! – comunicou-lhe. E afastou-se, subindo a ladeira de regresso às casas a preencher o olhar dele com o brilho ígneo dos seus cabelos e os seus passos desenvoltos de criatura dócil dos bosques.
                A partir daí Elêusia voltou ao rio sempre que podia. Andava um pouco ao acaso para iludir os olhares perscrutadores dos que a rodeavam antes de tomar a direção do rio, e reunia-se a Pedro, e conversavam sentados na sua margem pedregosa. Pela sua educação, e porque via Pedro como um órfão largado no mundo sem educação nem catecismo, Elêusia adquiriu o costume de levar um livro consigo, e lia-lhe passagens de Ronsard ou Balzac e, porque se sentia compelida a isso, algum trecho casual dos Evangelhos ou dos Antigo Testamento. Pedro ouvia atentamente, e fazia-lhe perguntas sobre alguma palavra mais escusa ou sobre os quadros que ela esboçava com as suas leituras. Mas mostrava-se sempre agradado com as leituras e as explicações que ela lhe concedia, ainda que fosse evidente que a ideia de Deus era completamente estranha ao seu espírito, pelo que ela se coibiu de desenvolver questões de natureza espiritual ou teológica. Os laços entre os dois desenvolveram-se durante semanas e para ambos era cada vez mais necessário estarem juntos, e embalados pelo murmúrio das águas ou pela frescura do final do dia depois da canícula do Estio, a sua cumplicidade enriqueceu-se de ternura e desejo, e tornaram-se amantes sob o enleio da Hespéride do entardecer.
                O seu amor de segredos e mistérios urdiu-se com todos os cuidados na cumplicidade do ocaso e da noite, e no refúgio das margens do rio ou no quarto da jovem, que Pedro alcançava furtivamente depois de escalar a parede da casa grande como um ladrão. Mas as suspeitas não tardaram em nascer à volta deles, suscitadas pelas frequentes deambulações de Elêusia e por a verem a conversar com Pedro, criatura estranhíssima que não falava com mais ninguém. As suspeitas eram de natureza visceral nos Oliveiras, os caseiros da Quinta, Rosa, a mulher, que era a um tempo criada e cozinheira da patroa, tinha um ódio profundo por aquele gafo asqueroso, e já rogara ao pároco que o denunciasse por heresia ao Santo Ofício, a ver se o prendiam e queimavam de uma vez, que para ela aquele homem era o diabo em figura de gente, e não havia quem se lembrasse de o ter visto alguma vez a entrar numa igreja ou a persignar-se diante dos símbolos sagrados da Santa Madre Igreja. Rosa tomou sobre si uma empresa que a seu modo considerava abençoada e salvífica, transmitindo à jovem patroa conselhos avisados sobre a maldade dos homens e os meios que o Maligno usava para perdermos a alma e, não satisfeita com isso, protegia a casa onde viviam, ocultando no interior e junto às portas e janelas por onde se podia entrar nela, variegados talismãs de inspiração mais ou menos cristã; no átrio da entrada, qualquer morador ou visitante podia admirar aí um vaso solitário com flores, sem suspeitarem que eram flores benzidas pelo pároco a pedido de Rosa.
                Tendo em conta os rodeios e insinuações de Rosa, Elêusia redobrou de cuidados, os seus encontros com Pedro tornaram-se mais espaçados, e multiplicou-se as suas precauções para não serem vistos juntos, ele deixou de ir à casa grande e ela impôs-se fazer um longo périplo de cada vez que o queria encontrar nas margens do rio ou no seu modesto tugúrio. Havia dois caminhos sensatos, o que levava à estrada concelhia, fazendo-a sair dos terrenos da Quinta para regressar a eles um pouco mais abaixo, por um portão de cancela em madeira por onde as reses eram conduzidos aos baldios com pasto e pelo qual chegava facilmente à cabana dele que se erguia num extremo do casario da Quinta, e um outro caminho que se iniciava nas traseiras da casa grande e no sentido oposto ao primeiro, que serpenteava entre celeiros e cabanas antes de descer para as margens do rio por uma enxara apenas povoada por mato e salgueiros. Na noite em que tudo aconteceu, foi o primeiro desses caminhos que ela tomou na luz mortiça do entardecer, saindo pelos portões da Quinta com passos temerosos, a colar-se aos muros para não ser vista, e quando começava a sentir-se mais tranquila e confiante com cada passo que a aproximava mais de Pedro, o seu íntimo gelou-se de terror quando sentiu que alguém a agarrava pelo braço, olhou sobre o ombro e viu apenas a silhueta de um homem junto a si, que a envolvia com os seus braços para a tentar prender e subjugar, procurou libertar-se, mas o desconhecido redobrou a sua força, forcejava para a deitar ao solo, e enquanto ela gritava e se debatia, ele atingiu-a uma e outra vez para a dominar e calar, golpeando-a na cara, no ventre, nas pernas. Mas Elêusia não desistiu e a sacudir-se e a tentar atingi-lo também no desespero aflitivo que a tomara, conseguiu por fim libertar-se daquele estranho, levantou-se do chão e correu até ao portão mais pequeno, que cruzou, tomando o caminho da casa grande, a coxear e a gemer com as dores que sentia, mas sempre a olhar para o negrume da noite atrás de si, com medo que o homem que a atacara continuasse a persegui-la.
                Quando Rosa lhe abriu a porta, ficou estarrecida com a aparência de Elêusia, com as roupas rasgadas, e equimoses e sangue na cara e nos ombros. Gritou para o marido para que fosse buscar o médico, acomodou-a com gestos enérgicos, e começou a limpar e a tratar dos ferimentos. Não parece ter nada partido, repetia-lhe a mulher, cuidando dela sob o olhar perplexo e os trejeitos de dor na expressão de Elêusia. A notícia correu célere, e em poucos minutos aglomerou-se à porta da casa uma pequena multidão de trabalhadores da Quinta e moradores das vizinhanças. Quem foi? Perguntava-lhe Rosa, mas Elêusia não tinha respostas, tudo se passara na estrada, estava escuro, e não pudera perceber quem era. As respostas, criaram-nas no seio da multidão que aguardava lá fora, só podia ter sido aquela criatura a quem chamavam Pedro, um bicho e um diabo em figura de gente. Quando o médico finalmente chegou para a ver, já a multidão clamava por sangue, reuniram-se armas de todo o tipo, tudo o que pudesse ferir, rasgar e matar, machados e chuços, forquilhas e gadanhas - aquele monstro não tinha como levar a melhor. Quando Rosa explicou a Elêusia a causa de tantos gritos, já aqueles servos de Némesis tinham vasculhado a cabana de Pedro sem o encontrar, e discutiam como o deviam procurar ou em que lugares é que ele poderia estar acoitado. Elêusia levantou-se a custo sob os protestos do médico e de Rosa, e sem que a conseguissem deter, acabou de se vestir e calçar, muniu-se de um candeeiro de querosene e saiu pela porta das traseiras. Sentia que ele deveria ter ido para as margens do rio quando se havia dado conta do alvoroço, e talvez se demorasse lá um pouco à espera dela antes de arrepiar caminho e tentar fugir para longe dali. Com o candeeiro seguro na mão esquerda e a coxear com dores, Elêusia venceu a distância até à margem do rio, auxiliada pela poalha prateada do luar que avivava as formas e os detalhes. Encontrou Pedro na rocha onde o vira pela primeira vez, com a sua figura quase invisível no negrume da sombra das árvores. Abraçaram-se num quase desespero, as lágrimas corriam pelo rosto de Elêusia, e ciciaram argumentos, e réplicas. Apesar da insistência de Pedro, Elêusia foi inflexível, não voltaria para a segurança da casa porque queria permanecer ao seu lado. O latido de cães e o rumor de vozes e gritos indicou-lhes que vinham no encalço de Pedro, Rosa devia ter-lhe contado que ela fora ao seu encontro. Cruzaram o riacho, e subiram a encosta na margem oposta, um prado quase sem árvores. Olhando de cima, notaram que o grupo de perseguidores estava cada vez mais próximo, e que se alargara num cordão de gente onde pontilhava a luz dos candeeiros. Os dois avançaram a custo devido ao estado de Elêusia, e ao terreno bravio e sem caminhos abertos por onde pudessem prosseguir mais depressa, e Elêusia estava esgotada e dorida, e insistiu até não conseguir andar mais. Pedro disse-lhe que iria tentar alcançar o poço, asseverando que isso era importante, e ergueu-a nos seus braços e avançou com determinação. Com o som dos gritos e dos latidos cada vez mais próximo, avistaram o poço no cimo do monte, que lhes parecera de início apenas um murete de calcário. Num esforço desmesurado, Pedro alcançou-o o mais depressa que conseguiu, e sentou-a junto ao poço.
                - Foi aqui que tudo começou – disse-lhe Pedro, e ante o seu silêncio perplexo, explicou – quando se mergulha na água do poço atingimos uma correnteza que nos empurra com força. Sabes nadar?
                Ela aquiesceu.
                - Estive a pensar nisso, e acho que quando estivermos dentro da correnteza, temos de nadar contra ela, fazer o caminho inverso. Percebes? É a nossa única chance. Eu ajudo-te! – prometeu.
                Ajudou-a a subir para o topo do murete, e colocou-se ao lado dela, as mãos unidas e o medo e a esperança a disputar os seus íntimos. Foram avistados pelos primeiros perseguidores que se acercavam do poço com os seus cães furiosos, os candeeiros e os archotes, e quando os gritos recrudesciam de intensidade e pareciam quase a alcançá-los, os dois saltaram para o centro da boca circular do poço. Um mergulho vertiginoso, o baque violento na água e viram-se envolvidos pela correnteza que Pedro mencionara - naquela confusão de espuma e água revolta, Elêusia começou a nadar contra a corrente ao longo da caverna escura, auxiliado por Pedro que com um braço rodeava a sua cintura. Longos minutos de luta e desespero com os pulmões como se fossem implodir, e começaram a subir aos primeiros indícios de luz sobre as suas cabeças. Emergiram por fim à tona da água, e inspiraram o ar com sofreguidão a tossir e a cuspir água. Estavam dentro de um poço, ficaram silentes durante alguns momentos, em angústia, mas não ouviram vozes, nem o latido dos cães. Não era o mesmo poço em que haviam mergulhado, e a boca do poço estava próxima, delineada pelo fundo de céu noturno esbranquiçado por Selene.
                Elêusia segurou-se à parede do poço, com os dedos enclavinhados nas reentrâncias das pedras, e Pedro subiu primeiro, avançando os pés e as mãos como um crustáceo, e depois de alcançar a superfície, fez-lhe chegar a ponta de uma corda que achara aí, içando-a para o mundo sublunar. Sentaram-se no solo, encostados à parede do poço, e Elêusia susteve a custo o seu pranto, mas este um pranto de alegria, por estarem vivos e continuarem juntos. Aninharam-se um no outro, minimizando como podiam o frio da noite e das roupas encharcadas. Pedro disse-lhe com uma voz esperançosa que esperariam ali pela manhã para verem em que lugar é que se encontravam, e Elêusia confessou que desconhecia por completo aquele poço, e o lugar, parecia-lhe ouvir o rumor de água ou de coisas a agitarem-se na água, e ouviam-se gorjeios e guinchos de pássaros que não recordava dos terrenos da Quinta. Malgrado o frio e as dores, foi o extremo cansaço dos dois que se sobrepujou a eles, e dormiram profundamente pelo resto da noite, acordando apenas quando o sol ia já bem alto nos céus e o ar estava carregado de sons e cantos.
                Elêusia, sobretudo ela, ficou espantada. O poço abria-se no topo de um monte como aquele em que haviam mergulhado, mas no mais era tudo distinto. No sopé do monte, estendia-se um vale a perder de vista, quase todo ocupado por um rendilhado de dezenas de lagos de dimensões diversas e águas opalinas, entre os quais se erguiam pequenos grupos de casas de aspeto estranho, pareciam feitas de quartzo ou turmalina, e semelhavam-se quer ao quartzo com as suas formas poliédricas e lados facetados, quer a estruturas globulares de cores baças como se tivessem fundido esferas gigantes umas nas outras pulverizando uma parte da sua superfície curva. Alguns desses grupos de casas situavam-se dentro dos próprios lagos, mas Elêusia não divisava pontes nem caminhos enxutos por onde os seus habitantes pudessem alcançar as margens. Os habitantes… Elêusis conseguia vê-los, as suas figuras diminuídas pela distância, movendo-se de um lado para o outro nos campos de cultivo e nos pomares, ou caminhando aos grupos pelos montes como se fosse dia santo e todos tivessem saído para ir dar um passeio. Pedro ajudou-a a levantar-se e começaram a descer o monte. Havia aves por todo o lado, garças ou íbis ou algo de semelhante, mas de cores intensas, vivas, como algumas aves exóticas dos trópicos.
                A presença dos dois não passou despercebida, e aos poucos, os que estavam mais próximos deles, vieram ao seu encontro. Elêusia imobilizou-se, sentia-se perplexa. Os homens e mulheres que se acercavam eram idênticos a Pedro, de epiderme quase lisa e com um tom acinzentado, escamas nos ombros e nuca, e membros longos e delicados. Elêusia achou as mulheres particularmente belas, de olhos grandes e rasgados e longos cabelos negros de tom azulado que caíam lisos como algas marinhas sobre os seios cheios e de formas perfeitas. Uma delas adiantou-se um pouco mais e timidamente tocou-lhe ao de leve com os dedos afilados nas maçãs do rosto, sorrindo em seguida, divertida pelo toque. Elêusia refletiu que talvez ela lhes parecesse tão feia ou hedionda como Pedro pareceria aos humanos se tivesse tido a coragem de se expor à luz do Sol. Mas não sentiu neles qualquer tipo de medo ou repugnância.
                Uma das mulheres indicou-lhes uma rocha para eles se sentarem, enquanto outra chegava com frutos rubros e azuis dispostos sobre uma espadana de folha de bananeira.

                - Estamos em casa! – murmurou-lhe Pedro ao ouvido para a tranquilizar, pondo em palavras aquilo que ela já sentia, na verdade, nunca antes ela se sentira tão em casa como naquele momento.



Conhecimento é poder

                Uma angústia, um amofino, parecia ter tomado as casas e as ruas da vila entre muralhas alcandorada no monte. Andava o povo todo triste, preocupado, vergado sob o peso dos problemas e das inquietações e nem as crianças se atreviam a brincar nas ruas e nas muralhas da vila, tão densa era a tristeza que se respirava por todo o lado. Nesta situação de crise, um grupo de moradores foi falar com o alcaide, que logo se abalançou para a casa do Zé Mocho, que encontrou sentado na sua cadeira de espaldar no alpendre da casa a enrolar um cigarro de barba de milho.
                O autarca recusou o cigarro que o Zé Mocho lhe oferecia, e de imediato, com palavras constrangidas comunicou-lhe em tom de súplica.
                - Anda tudo perdido outra vez, Zé, preciso que morras mais uma vez!
                O Zé Mocho olhou-o de cima, não como um mocho, mas como uma águia ou um grifo. Imperial e autoritário, de olhos severos.
                - A minha vida tem pouco valor, mas preciso do dinheiro que ganho em morrer – refletiu – preparem as ruas e as pessoas para amanhã à tarde. Já arranjaram o cajado macio?
                - Sim, está tudo tratado, quisemos arranjar um feito de esponja, mas depois decidimos por um cajado em borracha que compramos nos salvados de uma companhia de teatro, e esse cajado não magoa nada, mesmo que dessem com ele na moleirinha de um bebé não chegava a aleijar – garantiu – não te volta a acontecer o que te aconteceu da outra vez.
                Zé Mocho assentiu mudo, mais tranquilo por dentro. Nos dias de invernia ou de muito calor ainda lhe latejavam as cicatrizes que se desenhavam na cabeça e nas costas.
                A notícia logo se espalhou pela terra, e naquela noite e na manhã seguinte, muitas eram as pessoas que se via a falarem sozinhas, fervilhando de entusiasmo, pensavam, por vezes com palavras audíveis, no que as atormentava, nas faltas e nos perjúrios que haviam saído dos seus lábios, em traições e em furtos, e em segredos terríveis que guardavam fundo desde há tanto tempo como se tivessem nascido com o primeiro homem que existira sobre a terra. Quando o sol começou a descer do seu ponto culminante na esfera celeste, a praça da vila estava cheia de gente. Ao centro, e ao lado do chafariz pombalino da vila, haviam colocado um cadeirão de madeira e várias selhas cheias de lama empapada em água. Um rumor de gritos e insultos pelas ruas era sinal de que o Zé Mocho se aproximava da praça. Quando ele aí entrou, o rumor converteu-se em ruído como as ondas caladas quando explodem em espuma nos rochedos da costa, Zé Mocho ostentava dois chifres de bode presos no alto da cabeça por correias que prendiam debaixo do maxilar, e um gibão de lã protegia-lhe as costas e os ombros. As crianças corriam em volta a tentar alvejá-lo com pedras apanhadas do chão, sob os ralhos dos mais velhos, mas estes, por sua vez, não se coibiam de mostrar a sua ira, e insultavam-no entre insultos cruéis, cuspindo para os seus pés ou tentando acertar-lhe com ramos de avelaneira e urze. Com o autarca e alguns funcionários a ajudá-lo, lá conseguiu libertar-se do aperto e sentar-se no trono do nojo, no centro de um círculo de pessoas iradas.    O alcaide foi berrando para um e outro lado para impor a ordem, e depois de colocar junto ao cadeirão o prato de lata da dádiva, retirou-se de cena, dando espaço aos angustiados que se organizavam espontaneamente numa fila ao topo da praça. Impaciente e no limite da violência, começaram a acercar-se dele à vez, colavam-se às suas costas aos seus ouvidos, fazendo concha sobre os seus segredos e crimes escondidos, e depois de atirarem uma moeda para o prato de lata no chão, descarregavam sobre ele as suas culpas, transmitindo o negro testemunho menti ao meu filho e ele agora odeia-me, carrega com isso, maldito! / roubei moedas consagradas a Deus e gastei-o na bebida / o meu diligente marido costuma ir caçar para os montes, e enquanto ele procura comida para pôr na mesa, o meu sexo é uma rosa sem dono que qualquer um pode colher / matei o meu tio quando ele tomou o caminho da costa, todos pensam que ele embarcou com o dinheiro que juntara para comprar uma terra nas ilhas, mas ninguém mais o voltará a ver porque ele está morto no fundo de um barranco esquecido… - e finalizavam as suas ciciadas narrativas com um mão-cheia de lama que espalhavam sobre as sua cabeça e costas, alguns faziam isso com cautela como se temessem que a lama os pintalgasse e atraísse de novo a culpa sobre eles, mas outros não se coibiam de esmagá-la sobre a pobre figura de gente que era o Zé Mocho, fazendo-o sufocar um gemido de dor. A fila dos confitentes foi diminuindo até todos terem passado pelo centro da praça, e quando os gritos e insultos recrudesciam após aquele silente interregno, os homens enviados pelo alcaide seguraram pelos ombros a figura cornígera do Zé Mocho, e arrastaram-no para fora das muralhas, enquanto o alcaide em pessoa os seguia, transportando o prato com moedas enquanto o castigava com o teatral cajado. A multidão irada não seguiu aquele estranho quarteto, antes se acotovelou à saída das muralhas, formando também um friso de cabeças de adultos e crianças na parte interna das ameias. E os olhos ansiosos de todos seguiram-nos enquanto subiam o carreiro do Monte da Forca que se erguia defronte dos portões da vila. O nome era inequívoco, ainda que já não se enforcasse ninguém, a não ser ele, o Zé Mocho, a esponja de faltas alheias, numa cerimónia que quase todos sabiam que era encenada, mas que cumpria a sua função de purificar e renovar a comunidade e o íntimo turvo das pessoas. Quando sob a luz crepuscular os viram no topo do monte, reatou-se os gritos e e as ameaças. Por trás do murete baixo, Zé Mocho posicionou-se sob um arco em madeira, uma corda foi lançada sobre a trave e laçada no seu pescoço e puxada até se esticar num repenão. O enforcamento ilusório foi coroado por gritos de aplausos e festejos entre as pessoas e como num passe de magia, a luz débil do entardecer pareceu ganhar um novo brilho e iluminar os edifícios e as almas como se fosse a manhã que ganhava alento para nascer e não a noite que tudo principiava a cobrir.
                Zé Mocho permaneceu quieto, os braços a pender inertes ao longo do corpo e a cabeça ornamentada descaída com o queixo pousado no peito. Quando lhes pareceu que a multidão se havia dispersado, os ajudantes do alcaide ampararam o corpo enquanto este cortava a corda da forca. Descido ao chão, Zé Mocho sentou-se numa pedra enquanto o alcaide, muito satisfeito, lhe dava palmadas no ombro, pousando-lhe na mão um saco com duas onças de tabaco. O bode expiatório libertou-se dos seus chifres, e enrolou pacientemente um cigarro. Despediu-se dos seus carrascos e permaneceu sentado na pedra a fumar. Sabia que a mulher não tardaria, e uns minutos decorridos ela alcançou-o, esbaforida, um vulto na noite a afeiçoar o xaile negro ao pescoço para se proteger da aragem que subira do vale com ela.
                - E então? -  inquiriu ansiosa.
                Zé Mocho casquinou, feliz.

                - Um prato com moedas, duas onças de tabaco oferecidas pelo nosso amigo, e muitos e gordos segredos. Este ano vai ser um ano de fartura para nós!

Dano e reparação


      Quando a sua irmã chegou com o novo namorado, o cego ergueu a cabeça do chão onde as suas mãos se afadigavam a distribuir feijões secos por uma grelha de quadrados desenhada na areia fina do chão do quintal.
     - Nzema – disse ela para o irmão – este é Omar, de quem lhe falei, meu amigo, companheiro, e meu futuro. Lembra-se de eu ter-te dito que o trazia cá hoje?
     Nzema estendeu debilmente a mão sinistra, que Omar apertou energicamente entre as suas, gesto coroado por uma audível exclamação de alegria da irmã, que anunciou que ia buscar uma cerveja fresca para cada um.
     - Nzema! Sua irmã falou-me muito em você e de sua sabedoria não-vedora. O que é que você faz com esses quadrados e esses feijões secos?
     - Imagine que você encontra um aldeamento com as palhotas encostadas todas umas às outras.       Estas palhotas são quadradas como os desenhos que eu fiz no chão, e não há espaços vazios entre elas, estão mesmo encostadas. Você tem, como aqui, vinte e quatro palhotas. Quantos moradores tinha de haver para você conseguir ter um morador, ou um feijão, em cada palhota?
     - Vinte e quatro! – apressou-se Omar a responder.
     Nzema masquiu, abanando negativamente a cabeça. 
     - Tenho estado a pensar nisso – voltou Nzema – são vinte e quatro moradores, mas na verdade há vinte e cinco moradores. Se você tem uma aldeia, um acampamento, um grupo de casas, então você tem uma pessoa coletiva, onde todos estão reunidos e em que todos têm uma porção dela, uma pequenina parte. Estou a falar de uma aldeia porque é mais fácil, mas podia falar de um povo, de uma cidade ou uma nação. Não importa, é tudo igual, só difere no tamanho e no número. Uma pessoa coletiva, uma aldeia, é como uma casa grande, uma família entre quatro paredes, que sofre quando há dor ou quando um dos seus perde a vida, mas que também se alegra, e festeja e dança, e assinala quanto de importante sucede de bom e de mau.
     A irmã tinha regressado entrementes e Nzema segurou a garrafa de cerveja que ela encostara às costas da sua mão.
     - Nunca tinha pensado nisso assim – disse Omar, sem ter ainda percebido fosse o que fosse. Bebeu a sua cerveja quase de um trago só, e depois de aclarar a garganta resolveu-se a perguntar – Se você tinha vinte e quatro covas na areia e estava a distribuir um feijão por cada quadrado, onde ia colocar o feijão número vinte e cinco? Na casa do soba?
     - Não! Só tenho vinte e quatro feijões, o vigésimo quinto feijão está em todos eles. O soba é um homem como os outros, tem coração, bexiga e testículos e não vive nem morre de maneira sobre-humana.
     - Continuo a não perceber – reconheceu Omar por fim - sua irmã foi para dentro de casa outra vez. Podia pedir a ela para cozinhar uma refeição para nós, talvez uma bela feijoada.
     - Espere, Omar! – pediu Nzema, o cego – vou explicar com outras palavras… lembra-se de eu lhe dizer que todas as casas estavam encostadas, sem espaço entre elas? Nós sabemos que isso não é preceito de gente sã, nem razoável porque não somos como o bio-bilana e não podemos sair a voar pelo buraco do fumeiro. Queria dizer com isso que as casas se apoiam umas nas outras para melhor resistir às tempestades e ameaças de fora, e como são partes de um mesmo aldeamento, quando alguém transgride e magoa ou prejudica outra pessoa, então ela tem de ser punida, e feita justiça a quem foi prejudicado …
     - Nzema – interrompeu Omar, baixando deliberadamente o tom de voz – eu continuo sem perceber nada do que você diz, para mim você além de cego é meio maluco.
     Nzema encolheu de novo os ombros, e com um prolongado suspiro, renunciou às alegorias.
     - Omar – recomeçou em tom de admoestação – eu e a minha irmã vivemos nesta aldeia, e toda a aldeia sabe que você está aqui hoje, é tudo gente de bem mas possuem machetes e machados e seriam bem capazes de o matar se achassem que você era uma ameaça para nós. Mas deixe-me tranquilizá-lo, Omar, porque sei que você não é uma ameaça, ainda que tenha voz de mentiroso e a dignidade e o bom nome desta família e desta aldeia tenha sido prejudicada pelo exemplo que você representa e pela vida que você leva. A minha irmã sabe da sua mulher branca na cidade grande? E dos filhos que tem pela comarca? E da mulher da vida que você instalou em sua casa para cuidar da machamba?
     - Ela sabe, Nzema, já falamos sobre isso e ela concorda com tudo. Estou disposto a entregar à aldeia duas cabeças de gado para reparar a minha ofensa.
     - Quatro cabeças de gado, uma carga de milho, e um transístor de pilhas para alegrar a minha solidão.
     - Temos acordo, Nzema! Hoje mesmo tratarei de tudo.
     - Então diga à minha irmã para cozinhar a feijoada, a minha fome é tanta que já me sinto a ver mal.




Sob o foco negro e no mesmo dia e momento em que as estátuas saíram dos seus lugares


     Sob o foco negro e no mesmo dia e momento em que as estátuas saíram dos seus lugares, abandonando os seus refúgios pusilânimes, a vida generosa e intensa das ruas e das casas imobilizou-se numa quietude dêndrica, mineral e metálica. Por todo o lado, o que antes eram pessoas vivas e em movimento foram convertidas em estátuas de granito, calcário, bronze, madeira, mármore e tantos outros materiais que essas mesmas pessoas e os seus avoengos haviam elegido para imprimir as fantasias da sua arte. As prístinas estátuas desceram dos seus pedestais e salões nas suas inéditas formas de carne e osso, despegaram-se das fachadas e pórticos das catedrais, cruzaram os salões dos museus pejados de figuras inéditas de estátuas, abandonaram os atelieres dos escultores nos seus traços e feições imperfeitas e angulosas. Foi mais fácil para os cavaleiros equestres, que apenas tiveram de saltar para o solo e correr pelas ruas, e para as estátuas em figura de gente, mesmo as gigantescas, que apenas precisaram de aprender a caminhar pelas ruas, enquanto as gárgulas aladas esvoaçavam sobre as suas cabeças. Uma tarefa mais árdua coube as estátuas de formas imaginárias e abstratas, que quase não abandonaram o lugar onde antes estavam expostas, rodando e bamboleando em desacerto com os seus elementos caóticos - fusiformes, anelados, globulares, cúbicos, tricúspides… À medida que o foco negro do eclipse rodava pelo planeta, arrancando e devolvendo o planeta à normalidade corrente de todos os dias, o fenómeno deixava atrás de si um mundo convulsionado onde as pessoas despertavam de um breve sono com o travo de seiva e sal nos lábios, e os monumentos, parques e praças das cidades se apesentavam delapidados numa devastação absurda, com as estátuas quietas a considerável distância dos seus lugares originais, e os curadores dos museus e catedrais em pânico e a conciliar hipóteses sobre como fixar de novo as esculturas góticas nas fachadas e frisos das sés e mosteiros. Os conjuntos escultóricos como a Fonte de Trevi, resultavam num quebra-cabeças de difícil resolução, e uma das últimas obras-primas a ser recuperada, foi a Vitória de Samotrácia, que só foi encontrada dois meses depois do fenómeno entre os ramos fortes de um castanheiro vetusto de Paris, como se dormisse um sono de séculos, com a sua túnica esvoaçante e as asas a penderem de ambos os lados do ramo onde estava reclinada. Enquanto as autoridades se interrogavam por que razão alguém roubaria uma escultura daquelas e a transformaria com escopro e cinzel apenas para a abandonar naquela árvore, a ninguém ocorreu que ela apenas voara desajeitadamente pelos ares com suas asas em busca da cabeça de que fora privada.



O estrangeiro em visita à cidade

     O estrangeiro em visita à cidade cruzou a entrada iluminada do pavilhão gigantesco onde decorria o certame de comércio e indústria. A luz e a música eram exageradas, uma agressão para os olhos e para os ouvidos, mas estoicamente, ponderou que deveria ser mister esse esbanjamento, era uma feira temporária em horário noturno, e cada hora e cada minuto teriam de ser compensadores e lucrativos para todos os vendedores e pregadores comerciais que aí trabalhavam sob a pressão dos dígitos e do tempo que, proverbialmente, também se traduzia por dinheiro. Logo no átrio da feira encontrou um pequeno grupo que num espaço aberto se demorava em volta de uma animadora vestida de mulher-palhaço. Tentou contornar o grupo, seguir a sua marcha tranquila e solitária no encalço do que o interessava, mas a animadora deteve-o com um grito estridente, apontando-lhe um balão alongado em forma de florete.
     - Venha cá! – ordenou, suscitando algumas risadinhas nos que assistiam -  onde é que você pensa que vai sem vir cumprimentar aqui a rainha?
     Encolheu os ombros, ignorando as novas risadinhas de hiena em volta.
     - Eu não quero nada de si! – atalhou – venho ver a feira e aquilo que me interessa encontrar.
     - Não quer nada de mim? – casquinou, saltitando em volta dele como um bobo imemorial, mas quando voltou a falar, a sua voz perdera o tom caricato de mulher-palhaço – eu sou uma fêmea, uma fêmea-rainha, e você não quer nada de mim? Talvez já não tenha uma espada para me servir, olhe, ofereço-lhe esta, é comprida e mais ou menos rija, talvez o ajude.
     O estrangeiro ouviu-a gargalhar enquanto ela prendia o balão alongado entre as próprias pernas e lhe imprimia um movimento de vaivém, mas ele não se conseguiu rir, e o pequeno grupo ocioso de pessoas desfez-se num instante, havia crianças pelo meio, dependuradas das mãos dos pais, e o constrangimento era visível.
     - Nunca gostei de palhaços, desde criança – voltou o estrangeiro – sempre os achei umas criaturas sinistras e vingativas, mas depois, ao longo da vida, conheci alguns palhaços que me fizeram mudar de ideias, pessoas com um íntimo tão generoso como uma nascente de água límpida e que sentiam uma verdadeira paixão em trazer alegria ao seu semelhante, mas você é o tipo de palhaço que eu temia em criança.
     A mulher alterou-se, esqueceu-se do que fazia ali, e deu largas à sua fúria.
     - Você é que é um palhaço, e da pior espécie, a sua mulher deve ter-lhe posto os cornos e você ainda não sabe, e ri-se como um perdido quando os seus amigos lhe contam anedotas sobre maridos chifrudos e as cabras das mulheres. É corno e é palhaço, bendito par de cornos que a sua mulher lhe pôs!
     - Não faça isso! – recomendou o calmo estrangeiro – você está a prejudicar-se, e precisa do dinheiro que ganha aqui.
     - Ah é? Está com pena de mim, seu palhaço?
     - Não é pena, apenas distingo o que é real! Você é uma pessoa triste com uma vida miserável, deve viver numa casa minúscula e bafienta com um marido alcoólatra que lhe torra o dinheiro e ainda lhe bate, e é possível que ainda tenha mais alguém a reclamar os seus cuidados a toda a hora, talvez uma mãe doente e acamada ou uma filha deficiente que não aguenta estar muito tempo sozinha. E quando se pinta e se mascara, não consegue esconder esse azedume e essa revolta surda que lhe rói as entranhas, e castiga os outros com isso. No país de onde eu venho, e à exceção dos palhaços, todas as pessoas se mascaram, mas possuem a sensatez de esconder os olhos, porque sem isso, nenhum disfarce seria suficiente. Você não faz isso, pinta o rosto e o pescoço, e usa o nariz vermelho e luvas desproporcionadas nas mãos, mas os seus olhos traem toda a dor e toda a revolta que lhe vai dentro.
     O estrangeiro fez uma pausa, à espera que a mulher replicasse às suas palavras, e diante do seu silêncio, acrescentou, um pouco desconfortável.
     - Desculpe-me se falei demasiado, não queria ser rude consigo…e tenho de ir, preciso mesmo de ir.
     E afastou-se em passadas largas, cedendo o seu lugar no átrio às outras pessoas que vinham a chegar depois de si, visitantes que continuavam o seu caminho para o interior do certame sem se deterem, pelo menos, não se detinham junto da estranha mulher-palhaço que chorava ajoelhada, esborratando a pintura do rosto.


Musa


     A minha musa vive comigo, diáfana, espetral, inocente como uma geada cáustica numa alva plantação de algodão.
     Ela vive comigo e na maior parte dos dias consigo alhear-me da sua presença, e circula discretamente pelas divisões da casa como um suspiro alado, a fazer oscilar as borlas dos cortinados quando ninguém está a olhar, ou a pisar e repisar os mosaicos do chão para tentar encontrar algum que esteja descolado e solto, mas por vezes ela sente necessidade de me lembrar que está por perto, e aí consigo sentir a sua respiração gelada na nuca, ou então ela deliberadamente sopra no espelho do meu quarto de banho enquanto eu lavo a cara ou me barbeio, desenhando um círculo de vapor de água condensado no vidro.
     Mas não sou um ingrato, e sei e reconheço o quanto ela me ajuda. Quanto me sento a escrever, o seu poder anula as dúvidas e o cansaço suicidário que me esmagam na maior parte do tempo e as palavras e as imagens emergem nítidas no meu consciente, e palavra sobre palavra, frase sobre frase, os textos nascem sem esforço como formigas num carreiro de formigas a carregar com pesos voláteis. Mas ela não se contenta com isso. É caprichosa e possessiva, e quando a minha companheira passa a noite em minha casa e comungamos os ritos do desejo e do prazer, a musa se converte em fúria, e sinto o seu olhar iracundo onde quer que a gente esteja, e o corrupio simultâneo de móveis que estalam e rangem pela casa, e de uivos débeis que a minha amada, na sua ignorância, atribui a cães de vizinhos distantes.

     Ontem foi um desses dias em que a minha companheira aportou em minha casa como numa enseada resguardada pelos meus braços, e esta manhã senti que as coisas se estavam a descontrolar. Enquanto a minha amada rumava à cozinha durante a noite para beber alguma coisa fresca, um dos seus pés desnudados chocou de encontro a um mosaico do chão, misteriosamente levantado por um dos cantos. A esquina viva do mosaico rasgou-lhe o pé entre dois dedos, fazendo-a sangrar em abundância. Acudi-lhe, fiz-lhe um penso improvisado com o que tinha à mão, e levei-a ao hospital, onde o pessoal de serviço lhe suturou a ferida. Esta manhã, com ela a dormir numa das camas do hospital, fiquei ao seu lado no quarto, a olhar distraidamente pela janela o pátio do hospital. Senti, mais do que nunca, que tinha de tomar uma atitude e anular a ameaça que crescia de proporções na minha existência. Não podia adiar mais essa atitude nem por um dia mais, para bem de todos, e para tal tentaria reunir toda a coragem que conseguisse para ter êxito. Paradoxalmente, e com tanta premência, teria também de ser muito paciente e esperar pela altura certa e pelo momento ideal para comunicar à minha companheira convalescente que não a queria ver mais, nem na minha casa, nem na minha vida.


Céu e terra




Só depois de ouvir o vizinho do andar de cima descer a correr as escadas do prédio, é que Ivã achou que eram horas de se levantar da cama, e o vizinho desceu as escadas depois do toque do despertador de Ivã, depois da buzinadela da carrinha do pão a chamar os fregueses, depois do longo e sibilante suspiro que D. Rosinda sempre soltava no apartamento do lado, infeliz por arrostar mais um dia cheio de silêncios espinhosos e fria indiferença. Ivã levantou-se, tomou o seu banho matinal e ingeriu o pequeno-almoço, uni três ações na mesma frase apenas por amor da síntese porque em Ivã, cada uma delas representava um demorado e complexo ritual, tão solene como a bênção de um novo templo. No universo de Ivan, todas as coisas tinham um lugar estabelecido, adequado, ideal, e os objectos e os lugares que eles tinham de ocupar estavam vinculados de uma forma intensa, férrea, visceral, sem margem para trocas anárquicas ou adúlteros esquecimentos. Se queria aquecer leite no bico do fogão, ia buscar a cafeteira cromada que estava sempre arrumada entre o galheteiro de vidro e a caixa metálica dos biscoitos de manteiga, o pacote de leite, por sua vez, ocupava a segunda posição a contar da sua esquerda na terceira prateleira da porta do frigorífico. Podia ir buscar as coisas de olhos fechados, porque as arrumava sempre de olhos muito abertos, medindo distâncias em centímetros e milímetros, conferindo o posicionamento das coisas e a relação intrínseca entre elas. Escusado será dizer que Ivã queimava nesses preparos um tempo excessivo e quando acabava de tomar o pequeno-almoço eram já quase horas de almoçar. Ivã gostava de pensar que tinha uma vida preenchida e não circunscrita aos seus hábitos meticulosos, e por isso, entre cada uma das refeições e antes de se deitar, ocupava-se com alguma das coisas de que gostava - ouvir em vinil a sua coleção de álbuns de Jazz - Coltrane, Mingus, Miles Davis e tantos outros – ou simplesmente, ler. E o acto de ler para Ivã poderia reduzir-se a um nome: “Zola”. Pegava em qualquer um dos seus romances, arrumados, lembramos, com o maior preceito e exatidão, e lia um ou dois capítulos até a fome ou o sono o chamar. O Jazz acalmava Ivã, e deixava-o menos nervoso e apreensivo – o seu estado psicológico normal – e ler acabava por ter o mesmo efeito, mas não logo no início, porque Ivã sentia sempre um frémito de ressudada angústia quando tirava um dos livros de Zola da estante, com medo que de entre as suas páginas escapasse algum personagem, uma palavra, ou ainda algo tão ínfimo e tão importante como uma vírgula. Neste dia em especial que começamos a narrar e em que a correria do vizinho na escada o tirou da modorra dos lençóis, Ivâ sentiu-se um pouco à deriva quando acabou de tomar o pequeno-almoço e lavar e acondicionar as coisas que arrancara dos seus lugares cativos, e isso porque se sentiu sem vontade de ler ou ouvir música, e essas eram as únicas ocupações que mantinha. E se eu fosse até à rua um bocado? Interrogou-se. E logo se sentiu arrependido dessa ideia absurda. A rua era um lugar assustador, caótico, violento, cheio de sons sem harmonia e pessoas que corriam de um lugar para o outro a arrulhar palavras que ninguém podia entender e exibindo caretas e momices de mimos embriagados. Com o coração ainda a palpitar com o medo que essa ideia lhe causou, tranquilizou-se, murmurando para si mesmo: talvez-eu-possa-apenas-espreitar-a-rua-pela-janela. Claro que sim, não era nada de mais, quando lhe traziam os géneros e as coisas que encomendava por telefone, chegava a ter aberta a porta do apartamento durante cinco minutos, às vezes mesmo, seis minutos e meio e sete minutos inteiros, e não havia problemas nenhuns com isso. Era isso mesmo, arredaria os cortinados das janelas para espreitar a rua. Assim fez. Depois de contornar a alcatifa grande da sala – a alcatifa tinha uma borla franjada que ele não gostava de desfeitear – aproximou-se animado da janela grande da sala, afastou os cortinados opacos e abriu muito os olhos, abismado, não pela luz, que era estranha àquela casa, mas porque no cerúleo firmamento descobriu o Sol e a Lua, um ao lado da outra e aparentemente a pouca distância. Não era normal, era mesmo impossível, absurdo, desarrumado, de loucos. Correu apressadamente os cortinados, fechando a casa ao Caos. Que terrível ideia que tivera, e como se arrependia desse gesto desvairado e imprudente. Ainda com o coração a bater forte dentro de si, bumba-cabum-bumba-cabum, colocou a tocar com as mãos trémulas um disco de Ella Fitzgerald, e refugiou-se na cozinha para iniciar a preparação do almoço.

Quatro poemas de Ibne Sara, poeta árabe nascido em Santarém (século XII)

Iluminura das Cantigas de Santa Maria,
obra do reinado de Afonso X de Leão e Castela (século XIII)

O BRASEIRO
O braseiro foi para nós esta noite. Bálsamo
quando debaixo da sombra nos picavam os escorpiões do frio.
Cheio de luz cortou para nós cálidas mantas
debaixo das quais não sabe o frio que estamos.
Alimenta o incêndio numa fornalha que rodeamos
como se fosse uma grande taça de vinho
de que bebemos todos.
Umas vezes consente que nos aproximemos
e outras nos afasta
como mãe que umas vezes amamenta
e outra nos retira o peito.

O ZÉFIRO E A CHUVA
Se buscas remédio no sopro do vento
sabe que em suas baforadas há perfume e almíscar.
Vêm a ti carregadas de aromas como mensageiros
com saudações da amada.
O ar prova os trajes das nuvens, escolhe
um manto negro.
Uma nuvem carregada de chuva faz sinais
ao jardim, saudando-o
e logo chora enquanto as flores riem.
A terra dá pressa à nuvem para que lhe acabe o manto
e a nuvem com um das mãos tece os fios da chuva
enquanto com a outra borda flores de enfeitar.

Muitas vezes me aconteceu passar uma noite tornada sem fim
porque o tempo prolongava a sua duração
dando-lhe a sua própria vida.
Alguns entretinham-se conversando sobre a lentidão
desta noite mas ela apenas deixou passar
o momento do isa.
A sombra das nuvens tornara-se de tal modo espessa
que os olhos não poderiam distinguir o céu da terra.
Quando ao longe sorria o relâmpago nas trevas
imitava um abissínio que ria com as suas lágrimas.
Com o sabre da vontade feri o colo da escuridão.
e tingi o manto da aurora
com o sangue desta noite interminável.

LARANJEIRA
São as laranjas brasas que mostram sobre os ramos
as suas cores vivas
ou rostos que assomam
entre as verdes cortinas dos palanquins?
São os ramos que se balouçam ou formas delicadas
por cujo amor sofro o que sofro?
Vejo a laranjeira que nos mostra os seus frutos:
parecem lágrimas coloridas de vermelho
pelos tormentos do amor.
Estão congeladas mas se se fundissem seriam vinho
Mãos mágicas moldaram a terra para as formar.
São como bolas de cornalina em ramos de topázio
e na mão do zéfiro há martelos para as golpear.
Umas vezes beijamos os frutos
outras cheiramos o seu olor
e assim são alternadamente
rosto de donzelas ou pomos de perfume.

Olha o rio no seu manto
que uma noiva tingiu com o açafrão da tarde.
Quando a brisa soprou sacudiu os seus flancos
numa couraça de guerreiro
armado da cabeça aos pés.

[retirados da antologia de poesia árabe organizada por António Borges Coelho, em "Portugal na Espanha Árabe", volume IV, Empresa de Publicidade Seara Nova S.A.R.L., Lisboa, 1975].

Iluminura das Cantigas de Santa Maria,
obra do reinado de Afonso X de Leão e Castela (século XIII)

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...