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A viagem




            Tonino saiu do elétrico na paragem do topo da Rua D. Dinis. Das paragens mais próximas de casa, era a que ficava mais longe. Parecia um contrassenso mas ocultava uma motivação dissimulada, é que Tonino não tinha pressa nenhuma de voltar a casa, preferia andar um pouco mais, espreitar as gordas dos jornais no quiosque do Silvério, meter a cabeça pela porta entreaberta do barbeiro para se meter com o pessoal, ou parar na entrada majestosa do hotel de cinco estrelas para ter dois dedos de conversa com o porteiro e falar de coisas sumamente importantes como o tempo por aqueles dias ou as obras do momento nas ruas da cidade. Mas quarenta e cinco minutos depois de se apear do elétrico, e apesar de todas as delongas e pretextos a que recorrera, Tonino estava perfilado à porta do apartamento. Abriu a porta com a chave – era daquelas portas que tinham a fechadura no punho, e por dentro abria-se sem precisar dela – e depositou as suas bagagens de trabalho no bengaleiro, o casaco e o chapéu-de-chuva, e o outro chapéu, cinza-escuro, de abas do tipo Fedora, que usava agora no exterior por se sentir melhor com ele – dera algum trabalho a convencer a companheira de que aquilo não era uma bizarrice parva da sua parte – e que o fazia sentir-se um ator de filmes de série B dos anos cinquenta ou um personagem de Chandler ou Dashiell Hammett, o que ia dar ao mesmo.
            Depois de aligeirar a bagagem, passou à sala comum do apartamento onde a companheira, Isabel, o aguardava, folheando uma revista de atualidades. Beijou-a nos lábios e sentou-se ao pé dela. Temia a pergunta. Talvez ela não chegasse… e logo a mulher, como se lesse os seus pensamentos, perguntou.
            - Quando é que começas a fazer as malas? Tens viagem marcada para depois de amanhã e só vejo as malas abertas e vazias no quarto de hóspedes.
            Suspirou, um suspiro fundo do fundo da alma, que mereceu a Isabel um ténue e compassivo olhar carinhoso. De feições e olhar recomposto, ela desenvolveu o tema num tom doutrinário.
            - Já te coloquei numa das malas a roupa e a maleta com as coisas de higiene, mais as toalhas de reserva. Não vais precisar mais do que aquilo para os dias que vais estar fora, agora, tens de fazer o resto, não sei o que queres levar mais, nem sequer sei para que é que precisas de tantas malas.
            Ele anuiu com um movimento da cabeça e foi tomar um banho. Depois de se vestir, rumou à cozinha, onde já se encontrava Isabel, a comer uma lasanha embalada que aquecera no micro-ondas. Como nem ele nem Isabel tinham a menor inclinação ou talento para a culinária, as refeições de ambos baseavam-se nisso, comida já confecionada de compra, intercalada por alguma salada, ou sopa, também de compra, enriquecido por outras coisas compradas que não precisavam de preparação, como pão, fruta ou cerveja. Aqueceu também a sua comida, uma sopa que vinha acondicionada dentro de uma embalagem branca que parecia de esferovite, com uma tampa plástica.
            - Vou começar hoje a fazer as malas – anunciou com uma determinação que teve o condão de o assustar um pouco – logo que acabe de jantar!
            Isabel afagou-lhe a mão, numa manifestação de simpatia, e comeram em silêncio o resto do tempo. Terminada a refrega culinária e arrumadas as armas sujas de comida, Isabel ficou na expetativa de o ver rumar ao quarto de hóspedes, mas Tonino puxou de uma cadeira e sentou-se junto à estante maior de livros - «Não vais carregar as malas de livros» rugiu Isabel de si para si, mas conseguiu conter-se e não disse nada, e foi uma decisão acertada porque não viu Tonino carregar livros. Apenas escolhia-os pelas suas lombadas e depositava-os no chão ao lado da cadeira, e sentado novamente, folheava-os com uma fleumática concentração, detendo-se numa página dobrada num canto, numa passagem sublinhada ou uma ilustração, outras páginas, em vez de terem o canto dobrado e vincado em cima, tinham mesmo um post-it colado no topo da página, e essas ele relia com uma atenção redobrada. Os livros que revia, colocava no chão do outro lado da cadeira e depois de terminar com esse molhe de livros que escolhera, recolocava-os no seu devido lugar com uma exatidão metódica – ele era muito rigoroso e inflexível no que tocava ao lugar que os seus livros ocupavam e na forma como estavam arrumados – e escolhia mais uns quantos livros para folhear. Tonino andou nisso umas horas, aliás, estava embrenhado nessa tarefa quando Isabel se foi deitar e adormeceu atravessada em diagonal na cama sem se dar conta disso. Na manhã seguinte, acordou com a porta da rua a fechar, estava deitada e aconchegada dentro das mantas, espreitou o relógio e confirmou que era a hora habitual a que Tonino saía para trabalhar. Soube que ele não passara a noite acordado porque o colchão e a almofada guardavam a sua silhueta, e os lençóis mantinham o cheiro quente do seu corpo. Levantou-se, enrolou uma camisa de dormir sobre a sua acobreada nudez e foi espreitar a estante de livros – estava igual, preenchida de livros e arrumados na sua devida ordem. Deixara apenas a cadeira no mesmo sítio, que Isabel arrumou na cozinha antes de ir ao quarto de hóspedes. Para sua estranheza, duas das malas estavam feitas, pareciam infladas como odres cheios, mas ao tomar o seu peso, notou que estavam leves como se estivessem cheias de ar. Resistiu à tentação de correr o fecho e deixou as malas como as encontrara.
            Tonino, inocente da curiosidade de Isabel, foi trabalhar e passou o dia mais atento do que o habitual, e mesmo no regresso a casa fez um périplo pela cidade à procura de recantos e lugares que significavam muito para ele, o banco de jardim sob o salgueiro-chorão podado do parque do largo das azinheiras onde se refugiava para ler durante horas, o cais enlodaçado da margem do rio que era o seu pouso habitual quando o rio enchia a ponto de sobrepujar as margens e inundar as ruas ribeirinhas, ou a varanda da estação de caminhos-de-ferro de estilo neoclássico onde era possível como em mais lugar algum sentir a cidade como um negro coração, com os carros nas suas artérias de alcatrão, os telhados como chapéus que abrigavam ou escondiam sonhos ensandecidos e as pessoas diminutas e ridículas, erráticas e esmaecidas como as personagens de um sonho em trajetos labirínticos.
            Com tantas voltas e sendas chegou mais tarde a casa. Notou que mulher já deveria ter jantado porque o balcão da cozinha estava repleto de migalhas e a sua boca cheirava-lhe a maionese e a atum de lata. Petiscou também alguma coisa, tomou um banho frugal e fechou-se no quarto de hóspedes. A mulher sentiu algum desagrado nisso, mas atenuou esse mal-estar com a ideia de que na manhã seguinte as malas estariam feitas depois de tanto tempo de atrasos e adiamentos, e Tonino poderia partir na viagem solitária que planeava há tantos anos. Viu um pouco de televisão e enfiou-se na cama, e quase coincidindo com esse ato, viu Tonino abandonar o quarto de hóspedes e arrastar as malas para ao pé da porta da entrada. Quando ele entrou no quarto com uma nítida sensação de triunfo, ela perguntou-lhe se a odisseia das malas já estava acabada, e ele fez oscilar a mão direita aberta num gesto vago.
            - Falta acabar de fazer a última mala, mas acabo-a amanhã antes de sair de casa.
            E despiu-se e entrou na cama, já meio destroçado da ausência que iria sentir dela. Abraçaram-se e amaram-se em ânsias como se cada carícia, cada incursão da língua e da boca, cada roçar e roçagar da pele e dos membros pudesse anular a separação que se aproximava e esvaziá-la de sentido e de realidade, como um momento suspenso sobre a eternidade ou um lugar capturado na retina durante uma longa viagem. Mas o tempo passou sobre os dois e sobre as suas paisagens íntimas, e no remanso das horas seguiu a vigília insone de Tonino que cruzou a noite a pensar nos acasos e nos acidentes da sua vida, com o rosto adormecido de Isabel pousado no seu peito, um rosto de uma dolorosa beleza e paz emoldurado pelas ondas e volutas dos cabelos desalinhados.
            Na manhã da partida, Tonino correu o fecho da última mala enquanto Isabel preparava o pequeno-almoço para os dois. Juntou-a às outras no vestíbulo do apartamento e juntou-se a ela, instalando-se num dos bancos altos do balcão da cozinha. As torradas estavam demasiado queimadas e o tampo do fogão sujo do leite que extravasara da cafeteira – esse era um dos cenários comuns na cozinha da sua vida conjunta.
            - Levas tudo o que precisas? – perguntou-lhe ela enquanto raspava o carvão da superfície enegrecida de uma torrada.
            - Julgo que sim...pelo menos, as cruciais. Deveria ter começado a fazer as malas mais cedo porque ficaram algumas imagens e sons a que tive de abdicar e que poderia ter reavivado, como a aldeia da infância, a mole escura dos edifícios do seminário ou o brilho de Hefesto dos maçaricos na armação metálica dos barcos no estaleiro. Mas fiz o que consegui e estou tranquilo…
            - E a última mala? O que é que puseste nela esta manhã? Alguma coisa minha como um aroma, uma ideia ou a sensação de uma carícia?
            - Não, nada teu, claro que não! E isto porque eu nunca te deixo para trás e viajas comigo como se estivesses lá, de corpo e alma.
            Ela sorriu abertamente, afagando-lhe o rosto com as mãos abertas.
            - A lisonja beneficia o adulador, meu tesouro, embora eu desconfie sempre um pouco dessas tuas respostas convictas e enérgicas.
            Ela levantou-se do banco, aninhou-se entre as suas pernas fletidas e abraçou-o com força. Enquanto a sustinha junto ao seu corpo, Tonino pensava na última coisa que guardara na bagagem – Isabel e a expressão de Isabel enquanto dormia com a cabeça no seu peito. De certa forma, era uma imagem desajustada, sacrílega, como se arrancassem um objeto sagrado do templo onde se encontrava para a levarem para longe.
            O fim daquele abraço desatou o nó das suas vidas, como um Fio de Ariadne sem préstimo, inoperante para qualquer tipo de regresso.

            A viagem era apenas de ida.

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...