INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

Números e perónios

                Princípio para uma história: um menino perneta reencontra o seu cão de três pernas.

                No caminho onde isso aconteceu, não havia jardins, nem sebes podadas, apenas lírios e papoilas silvestres colorindo a espaços a desolação enlameada do carreiro que serpenteava por um vale onde abundavam as ruínas calcinadas de casas. As ruínas estavam frias, como a água da chuva nas suas entranhas e a dos charcos à epiderme da terra.
                As ruínas, e a chuva nelas, e o menino e o cão com uma perna a menos, tinham uma causa inusual – a guerra que despoletara entre os defensores do número par e os defensores do número ímpar.
                Os primeiros tinham aceite como uma lei inexorável do universo (ou uma dupla lei), que todas as coisas tinham o seu par e tudo o que não o tivesse teria de o procurar e encontrar ou anular-se em razão do seu insucesso. Dia e noite, gelo e fogo, deus e o demónio, mulher e homem ou mulher e mulher e homem e homem, caos e cosmos, vazio e absoluto, amor e ódio. Os exemplos eram intermináveis, mas era iniludível a verdade primordial de que emanavam. Os defensores da dualidade, da união, do par, criaram leis para a manter e para punir os seus desvios. À nascença, excetuando quando sucedia existir um irmão gémeo, todos eram únicos, mas acreditava-se que o par desse nascituro via a luz ao mesmo tempo que ele, e porque era feito de vapor e fantasia, partia logo que nascia para o outro lado do vale para viver na companhia dos espíritos e das sombras na floresta impenetrável. À medida que as crianças cresciam, se eram filhos únicos ou se um casal tinha um número ímpar de filhos, providenciava-se para que essa criança singular tivesse um irmão nominal fora do seu círculo familiar – a criança singular, única ou ímpar de outro casal e de outra casa; e era aceite e comum que os dois irmãos que se emparelhavam vivessem algum tempo juntos, a brincar ou estudar, a dar passeios com as suas famílias alargadas, ou que fossem juntos aos ritos religiosos do templo da união. O conselho da fratria poderia atribuir a uma dessas duas famílias o irmão suplementar, fazendo-o mudar de casa e rejeitar a família em que nascera. Numa fase ulterior das suas vidas, realizados os ritos de iniciação à vida adulta, a cada jovem era atribuído um prometido ou prometida consoante o seu sexo. Era um par germinal, em potência, para aquietar os espíritos e harmonizar os ritmos e os ciclos do universo; mas raras vezes esse par arranjado se desfazia pela vontade dos próprios ou em virtude de qualquer outra força do universo, por mais poderosa que pudesse ser. O par acabava por se unir em casamento, e durante os dois primeiros meses da sua vida de casados, a lei obrigava-os a ter uma corda de vinte metros atada à cintura de ambos e a mantê-la durante todas as suas tarefas diárias, se um caçava, o outro seguia-o, e a mesma complementaridade para tudo o mais que fizessem, trabalhar nos campos, levar os animais às pastagens, ou recolher o orvalho matinal da urze para purificar o lar. A natureza sagrada do número par acompanhava a vida do casal, os filhos que deveriam ter, as datas dos seus ritos e viagens, o número de portas da casa, ou as contadas mãos-cheias de sementes que esparziam sobre a terra fértil e fremente de desejo. Neste universo, a morte, e o suicídio em particular, eram olhados como nefandos ou afortunados segundo o efeito que produzia. Se morria um viúvo ou viúva, fosse de que maneira fosse, a sua morte era celebrada com cânticos e festins porque se diluía a singularidade desafiadora, e se repunha a natureza dúplice do cosmos. Mas quando era um membro de um casal – efetivo ou prometido – como um jovem tomado de uma abissal melancolia, que cedia à sedução da morte, então, esse ato era visto como aziago e maldito porque ameaçava a segurança do universo e a benevolência do divino, e o seu par era encorajado a tomar o mesmo caminho dos gémeos de vapor, ou a seguir o seu par para os braços da morte, o que resultava sumariamente no mesmo.
                No vale vizinho a esse, tenuemente ligado ao primeiro por um caminho serpenteante que NINGUÉM tinha a coragem de percorrer, e que bordejava a floresta densa que povoava os seus sonhos e os seus mitos, viviam os defensores do número ímpar, que era uma forma difusa da veneração que manifestavam pelo uno. As leis que haviam criado e sob as quais viviam, privilegiavam a singularidade e a ímpar multiplicidade. Na sua cosmologia mística, o Um tinha ascendente sobre todas as coisas, e desdobrava-se numa expansão de forma triangular pelo três, cinco, sete, nove; e subsequentes números ímpares. As uniões e os casais eram necessárias e olhados com bons olhos, mas na sua conceção mística, quando duas pessoas uniam as suas vidas, fundiam as suas almas, tornavam-se apenas um; e a mesma adequação numérica – frágil e oscilante, mas útil – aplicavam-na ao número de filhos que nasciam dessa união. Se um casal tinha um par de gémeos, ou dois filhos nascidos em anos diferentes, tomavam a família pelo número total de membros, um, o casal, e os dois filhos, o que os conduzia ao número três; mas se porventura, tinham um número ímpar de filhos, eles dissociavam-nos deles próprios, e era na mesma o um, o casal, que tinha um número não-par, feliz, de filhos. As famílias, graças a esse malabarismo aritmético, acrescentavam ao seu apelido tradicional, um algarismo, sempre ímpar, que representava o número total de membros da família ou o número de filhos que haviam trazido à existência. Este sentido de equilíbrio produzia uma indiferença social pela união dos jovens – nominal ou real – que acontecia de forma espontânea, desencadeada pelas suas pulsões e vontades. Os viúvos, os celibatários e os eremitas eram estimados e homenageados por todos como pessoas honradas e nobres, porque no seio daquela sociedade, não havia mal algum em que alguém escolhesse viver sozinho, ou sozinho morrer. O suicídio era, de qualquer das formas, encarado com admiração, e as famílias em que ele ocorria eram louvadas em todos os atos religiosos e cerimónias públicas, e o motivo era óbvio - se o suicídio ocorria com um dos membros de um casal, ele singularizava o par, restaurava o número um primordial, se ele fosse perpetrado por alguém que já estivesse sozinho, esse ato coroava uma existência digna e invejável e essa pessoa era identificada com o vértice do triângulo cósmico, fundia-se no Um, e tomava o caminho da floresta profunda e sagrada como se entrasse no paraíso.
                Entre os dois vales, e as duas populações, tão distintas e diferenciadas entre si como os números par e ímpar, manteve-se durante séculos uma distância cautelosa, conheciam-se mas não se aproximavam, tinham medo da mesma forma que inspiravam temor. O equilíbrio foi mantido durante gerações, de tal forma que o caminho que unia os dois vales caiu no esquecimento e na incúria e quase desapareceu sobre as ervas e as flores silvestres. O que perturbou aquele precário equilíbrio não foi desejado por nenhuma das populações. Com os filhos a aumentar – em números pares e ímpares – e a população a crescer, precisaram de mais terra e de mais comida, ergueram novas casas nas margens do caminho de união, e desbravou-se a floresta cerrada que haviam tido até aí a sensatez de preservar. O corte das árvores, as queimadas, os campos arroteados, expulsou os espíritos e as sombras, que se disseminaram pelos arredores. Essas criaturas vaporosas entraram em contato com os humanos, falaram com eles, indagaram sobre os seus familiares e, por vezes, escarneciam dos seus gestos e dos seus atos e ritos. Não escolhiam as casas em que entravam, porque a sua própria casa, a floresta, fora devassada sem lhes darem a escolher. Em pouco tempo, a população dos dois vales ficou a saber mais do que aquilo que conseguia suportar, o conhecimento transformou-se em ódio, atribuíam ao Outro as culpas pelo que se estava a viver, e logo se ateou a guerra entre os dois vales, travada com ferocidade com aço e fogo, e na noite que desceu sobre o primeiro – e o último - dia de guerra, as casas e os campos ardiam como luminárias descidas do céu, e a sua luz alumiava os corpos mortos e os feridos e mutilados que agonizavam pelo chão. Quando o dia rompeu, uma chuva repentina e intensa lavou um pouco a loucura de todos enquanto se cuidava dos vivos e dos mortos, e as sombras e os espíritos regressavam como farrapos de névoa para a sua floresta empobrecida mas, por algum tempo, resguardada.
                O menino e o seu cão, foram os últimos a regressar à floresta, o rapaz apoiado num varapau de madeira de ulmeiro, e o cão a saltitar ao seu lado com o rabo a abanar de contentamento. Perguntava-se quem os viu a eclipsar-se nos bambus da fímbria da floresta, se eles haviam sido proscritos dos que veneravam o número par pelo número ímpar de pernas que possuíam, ou se haviam sido escorraçados do vale oposto porque tinham no total um número par de pernas, ainda que a sua amizade fosse uma coisa única e insólita.


A viagem




            Tonino saiu do elétrico na paragem do topo da Rua D. Dinis. Das paragens mais próximas de casa, era a que ficava mais longe. Parecia um contrassenso mas ocultava uma motivação dissimulada, é que Tonino não tinha pressa nenhuma de voltar a casa, preferia andar um pouco mais, espreitar as gordas dos jornais no quiosque do Silvério, meter a cabeça pela porta entreaberta do barbeiro para se meter com o pessoal, ou parar na entrada majestosa do hotel de cinco estrelas para ter dois dedos de conversa com o porteiro e falar de coisas sumamente importantes como o tempo por aqueles dias ou as obras do momento nas ruas da cidade. Mas quarenta e cinco minutos depois de se apear do elétrico, e apesar de todas as delongas e pretextos a que recorrera, Tonino estava perfilado à porta do apartamento. Abriu a porta com a chave – era daquelas portas que tinham a fechadura no punho, e por dentro abria-se sem precisar dela – e depositou as suas bagagens de trabalho no bengaleiro, o casaco e o chapéu-de-chuva, e o outro chapéu, cinza-escuro, de abas do tipo Fedora, que usava agora no exterior por se sentir melhor com ele – dera algum trabalho a convencer a companheira de que aquilo não era uma bizarrice parva da sua parte – e que o fazia sentir-se um ator de filmes de série B dos anos cinquenta ou um personagem de Chandler ou Dashiell Hammett, o que ia dar ao mesmo.
            Depois de aligeirar a bagagem, passou à sala comum do apartamento onde a companheira, Isabel, o aguardava, folheando uma revista de atualidades. Beijou-a nos lábios e sentou-se ao pé dela. Temia a pergunta. Talvez ela não chegasse… e logo a mulher, como se lesse os seus pensamentos, perguntou.
            - Quando é que começas a fazer as malas? Tens viagem marcada para depois de amanhã e só vejo as malas abertas e vazias no quarto de hóspedes.
            Suspirou, um suspiro fundo do fundo da alma, que mereceu a Isabel um ténue e compassivo olhar carinhoso. De feições e olhar recomposto, ela desenvolveu o tema num tom doutrinário.
            - Já te coloquei numa das malas a roupa e a maleta com as coisas de higiene, mais as toalhas de reserva. Não vais precisar mais do que aquilo para os dias que vais estar fora, agora, tens de fazer o resto, não sei o que queres levar mais, nem sequer sei para que é que precisas de tantas malas.
            Ele anuiu com um movimento da cabeça e foi tomar um banho. Depois de se vestir, rumou à cozinha, onde já se encontrava Isabel, a comer uma lasanha embalada que aquecera no micro-ondas. Como nem ele nem Isabel tinham a menor inclinação ou talento para a culinária, as refeições de ambos baseavam-se nisso, comida já confecionada de compra, intercalada por alguma salada, ou sopa, também de compra, enriquecido por outras coisas compradas que não precisavam de preparação, como pão, fruta ou cerveja. Aqueceu também a sua comida, uma sopa que vinha acondicionada dentro de uma embalagem branca que parecia de esferovite, com uma tampa plástica.
            - Vou começar hoje a fazer as malas – anunciou com uma determinação que teve o condão de o assustar um pouco – logo que acabe de jantar!
            Isabel afagou-lhe a mão, numa manifestação de simpatia, e comeram em silêncio o resto do tempo. Terminada a refrega culinária e arrumadas as armas sujas de comida, Isabel ficou na expetativa de o ver rumar ao quarto de hóspedes, mas Tonino puxou de uma cadeira e sentou-se junto à estante maior de livros - «Não vais carregar as malas de livros» rugiu Isabel de si para si, mas conseguiu conter-se e não disse nada, e foi uma decisão acertada porque não viu Tonino carregar livros. Apenas escolhia-os pelas suas lombadas e depositava-os no chão ao lado da cadeira, e sentado novamente, folheava-os com uma fleumática concentração, detendo-se numa página dobrada num canto, numa passagem sublinhada ou uma ilustração, outras páginas, em vez de terem o canto dobrado e vincado em cima, tinham mesmo um post-it colado no topo da página, e essas ele relia com uma atenção redobrada. Os livros que revia, colocava no chão do outro lado da cadeira e depois de terminar com esse molhe de livros que escolhera, recolocava-os no seu devido lugar com uma exatidão metódica – ele era muito rigoroso e inflexível no que tocava ao lugar que os seus livros ocupavam e na forma como estavam arrumados – e escolhia mais uns quantos livros para folhear. Tonino andou nisso umas horas, aliás, estava embrenhado nessa tarefa quando Isabel se foi deitar e adormeceu atravessada em diagonal na cama sem se dar conta disso. Na manhã seguinte, acordou com a porta da rua a fechar, estava deitada e aconchegada dentro das mantas, espreitou o relógio e confirmou que era a hora habitual a que Tonino saía para trabalhar. Soube que ele não passara a noite acordado porque o colchão e a almofada guardavam a sua silhueta, e os lençóis mantinham o cheiro quente do seu corpo. Levantou-se, enrolou uma camisa de dormir sobre a sua acobreada nudez e foi espreitar a estante de livros – estava igual, preenchida de livros e arrumados na sua devida ordem. Deixara apenas a cadeira no mesmo sítio, que Isabel arrumou na cozinha antes de ir ao quarto de hóspedes. Para sua estranheza, duas das malas estavam feitas, pareciam infladas como odres cheios, mas ao tomar o seu peso, notou que estavam leves como se estivessem cheias de ar. Resistiu à tentação de correr o fecho e deixou as malas como as encontrara.
            Tonino, inocente da curiosidade de Isabel, foi trabalhar e passou o dia mais atento do que o habitual, e mesmo no regresso a casa fez um périplo pela cidade à procura de recantos e lugares que significavam muito para ele, o banco de jardim sob o salgueiro-chorão podado do parque do largo das azinheiras onde se refugiava para ler durante horas, o cais enlodaçado da margem do rio que era o seu pouso habitual quando o rio enchia a ponto de sobrepujar as margens e inundar as ruas ribeirinhas, ou a varanda da estação de caminhos-de-ferro de estilo neoclássico onde era possível como em mais lugar algum sentir a cidade como um negro coração, com os carros nas suas artérias de alcatrão, os telhados como chapéus que abrigavam ou escondiam sonhos ensandecidos e as pessoas diminutas e ridículas, erráticas e esmaecidas como as personagens de um sonho em trajetos labirínticos.
            Com tantas voltas e sendas chegou mais tarde a casa. Notou que mulher já deveria ter jantado porque o balcão da cozinha estava repleto de migalhas e a sua boca cheirava-lhe a maionese e a atum de lata. Petiscou também alguma coisa, tomou um banho frugal e fechou-se no quarto de hóspedes. A mulher sentiu algum desagrado nisso, mas atenuou esse mal-estar com a ideia de que na manhã seguinte as malas estariam feitas depois de tanto tempo de atrasos e adiamentos, e Tonino poderia partir na viagem solitária que planeava há tantos anos. Viu um pouco de televisão e enfiou-se na cama, e quase coincidindo com esse ato, viu Tonino abandonar o quarto de hóspedes e arrastar as malas para ao pé da porta da entrada. Quando ele entrou no quarto com uma nítida sensação de triunfo, ela perguntou-lhe se a odisseia das malas já estava acabada, e ele fez oscilar a mão direita aberta num gesto vago.
            - Falta acabar de fazer a última mala, mas acabo-a amanhã antes de sair de casa.
            E despiu-se e entrou na cama, já meio destroçado da ausência que iria sentir dela. Abraçaram-se e amaram-se em ânsias como se cada carícia, cada incursão da língua e da boca, cada roçar e roçagar da pele e dos membros pudesse anular a separação que se aproximava e esvaziá-la de sentido e de realidade, como um momento suspenso sobre a eternidade ou um lugar capturado na retina durante uma longa viagem. Mas o tempo passou sobre os dois e sobre as suas paisagens íntimas, e no remanso das horas seguiu a vigília insone de Tonino que cruzou a noite a pensar nos acasos e nos acidentes da sua vida, com o rosto adormecido de Isabel pousado no seu peito, um rosto de uma dolorosa beleza e paz emoldurado pelas ondas e volutas dos cabelos desalinhados.
            Na manhã da partida, Tonino correu o fecho da última mala enquanto Isabel preparava o pequeno-almoço para os dois. Juntou-a às outras no vestíbulo do apartamento e juntou-se a ela, instalando-se num dos bancos altos do balcão da cozinha. As torradas estavam demasiado queimadas e o tampo do fogão sujo do leite que extravasara da cafeteira – esse era um dos cenários comuns na cozinha da sua vida conjunta.
            - Levas tudo o que precisas? – perguntou-lhe ela enquanto raspava o carvão da superfície enegrecida de uma torrada.
            - Julgo que sim...pelo menos, as cruciais. Deveria ter começado a fazer as malas mais cedo porque ficaram algumas imagens e sons a que tive de abdicar e que poderia ter reavivado, como a aldeia da infância, a mole escura dos edifícios do seminário ou o brilho de Hefesto dos maçaricos na armação metálica dos barcos no estaleiro. Mas fiz o que consegui e estou tranquilo…
            - E a última mala? O que é que puseste nela esta manhã? Alguma coisa minha como um aroma, uma ideia ou a sensação de uma carícia?
            - Não, nada teu, claro que não! E isto porque eu nunca te deixo para trás e viajas comigo como se estivesses lá, de corpo e alma.
            Ela sorriu abertamente, afagando-lhe o rosto com as mãos abertas.
            - A lisonja beneficia o adulador, meu tesouro, embora eu desconfie sempre um pouco dessas tuas respostas convictas e enérgicas.
            Ela levantou-se do banco, aninhou-se entre as suas pernas fletidas e abraçou-o com força. Enquanto a sustinha junto ao seu corpo, Tonino pensava na última coisa que guardara na bagagem – Isabel e a expressão de Isabel enquanto dormia com a cabeça no seu peito. De certa forma, era uma imagem desajustada, sacrílega, como se arrancassem um objeto sagrado do templo onde se encontrava para a levarem para longe.
            O fim daquele abraço desatou o nó das suas vidas, como um Fio de Ariadne sem préstimo, inoperante para qualquer tipo de regresso.

            A viagem era apenas de ida.

Rainha

                Subiu lesto os parcos degraus que separavam o átrio do hotel do recinto sobrelevado onde haviam instalado a receção. Ab...