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O silêncio magoado de Dramra Rion

Dramra Rion é uma jovem, e porque é jovem reúne os atributos razoáveis para alguém que seja jovem, a pele lisa e bem irrigada pelo sangue, o espírito generoso e cândido de quem ainda não se encerrou dentro da carapaça áspera do cinismo e do desdém, Dramra gosta de se levantar de manhã à hora em que o sono claudica, levanta-se quando quer e come quando tem fome, vive do lado de fora das janelas como se o mundo fosse o seu quarto. Não gosta de pessoas mal encaradas, e também não suporta o excesso de maquilhagem que fabrica um rosto artificioso sem contato com a realidade, Dramra junta folhas secas de Outono que enterra perto das raízes das árvores porque lhes pertenciam, e tem uma paciência infinita por bichos, varejas, lagartas, cães vadios e gatos sobranceiros, e detenho-me por aqui para não encher muito o texto de coisas pegajosas e peludas e com veneno.. Quando Dramra Rion chega a qualquer lado, é forçoso que lhe prestem atenção porque também ela enche muito os espaços com a sua boa disposição e a natureza freática das suas palavras, elas, as suas palavras, tem algo de paciente e profundo, chegam discretamente, apenas humedecendo os pés da gente desatenta, e quando alguém se apercebe, as palavras de Dramra já encheram açudes, moveram noras, e desceram pelos espíritos como um regato novo a correr da montanha para a planície e a desdobrar-se pelas pedras e sulcos das encostas. Mas o silêncio de Dramra  também é uma coisa digna de se presenciar, o seu silêncio é sempre diferente, aparece e reaparece com roupagens novas, mascara-se, encara-se, pinta-se de ocre e de sangue como os bisontes de Lascaux e vemos através delas que por baixo da superfície se metamorfoseia de igual forma e que as raízes do seu silêncio devem despontar muito fundo e muito longe, talvez do outro lado do tempo. Falei de Dramra e e falei do silêncio, e deveria explicar porque é que o seu silêncio é um silêncio magoado, mas não o posso fazer aqui porque teria de esmiuçar as razões que Dramra Rion, invoca para não falar comigo que a inventei, e falar disso seria uma devassa, minha e dela, e só agravaria o seu amuo de Eva temperamental.

Geena

                No rincão das matas enegrecidas, onde as árvores carbonizadas se assemelhavam a costelas fraturadas do corpo de uma ...