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handicap

     Conheço muitas pessoas que possuem um handicap qualquer (perdoem-me o duplo estrangeirismo, mas pensarei nalguma forma de expiação, soft). Não digo todas as pessoas, porque isso seria generalizar demasiado, e por isso vou particularizar apenas o meu caso. O meu único handicap (outra vez!), ou o que eu pensava ser um, era não conseguir entrar numa divisão qualquer e ver um quadro torto, noventa e nove por cento das vezes tinha de lá ir discretamente com um dedo e endireitá-lo para me sentir mais tranquilo; e isso já me causou alguns dissabores. Num café em Torres Vedras que exibia nas paredes dezenas de fotografias emolduradas, todas inclinadas, fiz um sprint para as endireitar que mereceu a reprimenda da dona do café, sobretudo por andar a saltar de mesa em mesa. Uns meses mais tarde, a coisa meteu mesmo a polícia, isto porque no Museu Nacional de Arte Antiga tentei fazer o mesmo a um único pobre quadro solitário descaído para o lado direito, aquilo fez disparar o alarme e o resto já adivinharam, pensaram que eu queria roubá-lo, e enquanto tentavam que eu confessasse torturaram-me com a exibição de um vídeo psiquicamente violento do nosso presidente a dançar o vira do Minho. Foi traumático e continuo em terapia devido a isso. Mas apesar de tudo, os polícias até foram simpáticos, e um deles explicou-me com muita paciência que eu tinha aquela obsessão pelos quadros tortos porque o meu eixo de gravidade une a minha rótula do pé esquerdo a um ponto indeterminado a dois palmos de distância do meu ombro direito; e eu, apesar de atribuir algum mérito à sua dedução, e mesmo com os neurónios semi-liquefeitos pela trepidante primavera marcelista, consegui argumentar que se isso fosse verdade eu "veria" os quadros inclinados sempre para o mesmo lado, o que não acontecia, e o mesmo polícia, que deve andar a tirar um doutoramento em Dialética, contra-argumentou que as exceções no desalinho do quadro sucediam nas vezes em que eu inclinava instintivamente o corpo para o lado oposto por temer perder o equilíbrio e desabar no chão como uma árvore serrada por um madeireiro. Não discuti mais, mas posso assegurar que nunca mais tentei endireitar os quadros tortos das paredes, feito alcançado à custa de alguma desvalorização social porque agora, de cada vez que descubro um quadro torto, balanço-me para um lado e para o outro como uma agulha de metrónomo até descobrir a inclinação do corpo que faz o quadro parecer direito. Tenho de admitir que talvez isso não seja muito grave, socialmente falando, se tivermos em conta que já alvoracei um café a saltar de mesa em mesa, e que já fui arrastado pelas salas de um museu por seguranças que exibiam sorrisos primaveris a condizer com os smiles que traziam colados no crachá. E estou aqui ainda a pensar, ou a esticar o lençol - ter o corpo inclinado (ou um eixo de gravidade particular e não-newtoniano) tem as suas vantagens (só penso nas vantagens para não me sentir deprimido). Se eu estiver a disputar uma corrida e chegar à meta colado a outro adversário, posso cruzar primeiro a linha de chegada se correr um pouco de lado com o ombro esquerdo em feitio de aspas, enquanto finjo que estou a acenar para a minha tia Alda que me veio ver, sentada nas bancadas. Esta minha desvantagem também pode ser útil para arrombar portas com o ombro, caso eu me torne polícia e vá parar a alguma esquadra que desconheça os aríetes de aço, ou me esqueça da chave de casa ou esteja demasiado ébrio para conciliar a chave de casa com o buraco da fechadura, ou ser polícia e acontecer tudo o mais e eu não querer pedir a ajuda de um gatuno para ele não saber onde eu moro. Quando passo nas portas, porque são quase sempre muito estreitas, eu inclino-me sempre um pouco para não dar nenhuma coquinada ou cabeçada em alguma das ombreiras, e isso poderia ser considerado uma desvantagem mas em geral, as pessoas, quando eu inicio aquela manobra graciosa pensam sempre que eu estou a ensaiar algum passo de dança, e já houve uma colega de trabalho que me perguntou se eu tinha aulas de salsa, o que é agradável de ouvir, ainda que umas semanas mais tarde essa mesma colega tivesse abandonado o meu apartamento por se queixar que eu ocupava literalmente toda a cama de casal e não haver dança no mundo que compensasse isso. Uma última vantagem que me lembro agora, e pensando sempre no lado positivo das coisas (novos rumos, novas caras e novas oportunidades) é que eu, tendo um carrito comercial de dois lugares, tive de optar por mudanças automáticas e pedais adaptados porque, para o conseguir conduzir, tenho de me sentar no banco do pendura e manobrar o volante no lado dito do condutor, o que desencoraja qualquer um de me pedir boleia, o que me poupa a inventar desculpas manhosas ou fingir que sofro de bloqueio auricular. Pensando melhor, o que eu pensava que era um handicap não o era e o handicap que existia em vez desse também não o é verdadeiramente, e se alguma vez competirem comigo numa corrida, sejam educados e acenem também à minha tia Alda que acompanha sempre as minha provas, aonde quer que eu vá.


A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...