AveRARA


     Na vida tudo parte sem aviso, a esperança, a juventude, a luz dos olhos, a fé, a vida mesmo. Eugénia sabia disso e vivia avisada e precavida, com a sua arara falante guardada na gaiola asseada e fechada a sete chaves. Para onde ia, Eugénia levava a sua ave, mantinha a gaiola e a voz da ave próximas da vista e do coração, e vibrava a sua alma ao som da voz dela como a alma das rezadeiras ao repicar das torres sineiras na hora do Terço. Em sua casa e era sua porque vivia, quase, sozinha, mandou deitar paredes abaixo e abrir clareiras no concreto escuro para que não tivesse de estar sempre a mudar a gaiola de lugar. De todos os lugares da casa via e ouvia a arara, rodando para ela de quando em vez a sua cabeça loura como um girassol coroado de pétalas douradas que buscasse o Sol que o inspirava. Se viajava para algum lugar, a voz e as plumas coloridas da arara viajavam consigo, e as pessoas acostumaram-se, quotidianizaram-se à arara, como quem assiste ao passeio em trela pelas ruas de cães e quimeras. Mas todos estranhavam que a arara falante não falasse, da passagem dentre o seu bico não saíam vozes de aves ou imitações de pessoas, ela era muda, dançarina mas sisuda, um passaroco triste e mudo de penas a descolorirem-se. E por fim, numa das suas saídas, alguém se arremedou de coragem para lhe falar nisso, e confidenciou a Eugénia – mulher, a tua arara está a morrer de tristeza, ela perdeu a voz e até os movimentos do seu corpo parecem o balançar de uma carpideira! - Eugénia não quis, não queria acreditar, gente tacanha e insensível que não conseguia perceber a beleza dos cânticos da sua arara colorada! Voltou para casa com a arara, mas a dúvida foi com ela, aninhada no seu peito, raspando com o bico na face interna do ovo, a querer nascer. A vida não voltou a restar igual. Talvez os seus cânticos e vozearia estivessem um pouco menos alegres, admitia agora, talvez as penas não tivessem o viço de outra hora, principalmente agora que a arara já não voava, deitada sempre a dormir no chão exíguo da gaiola. Colocou-a na janela aberta para se alegrar e para absorver a luz prismática do sol, reunida nas cores das suas penas, e enquanto ela ali estava, Eugénia ficava sempre de vigia, de sentinela contra os gatos e os invejosos, estes mais matreiros e perigosos do que aqueles. Mas o cuidado recompensou porque a medida pareceu resultar, a arara deitada a dormir voltou a cantar com alegria. Cantava a sonhar como há pessoas que falam enquanto dormem. Deviam ser felizes os seus sonhos, porque a sua voz vibrante enchia a casa e auxiliava a luz do exterior a alcançar os recantos mais sombrios e bolorentos da casa. Mas a dúvida permanecia dentro de Eugénia, semente teimosa. Talvez a sua arara não fosse mesmo feliz e por isso sonhasse tanto. Devia haver florestas frondosas nos seus sonhos, ou pelo menos, bosques copados com outras aves e araras cantarolantes. Talvez devesse soltá-la, acabou por concluir de si para si, triste com o sono arredio da ave. Por fim, e com uma lágrima teimosa na face, transportou a gaiola para a janela do sótão, abriu a portinhola da gaiola mas a arara não voou. Encolheu os ombros e inclinou a gaiola até a arara sair em voo picado sobre o jardim da casa. Amainado o sofrimento de Eugénia pela alegria que a arara buscava com o seu voo colorido, a dona sentiu uma sorte de felicidade tranquila. Depositou a gaiola vazia a um canto da sala, porque a gaiola já não tinha qualquer utilidade. A casa da arara era agora o mundo no exterior, e conseguia ouvir o seu canto dissipado entre o chilrear dos pardais e melros, e as cores das suas penas cruzavam em voo a moldura das janelas no ondular das rosas e açucenas do jardim.


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