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A mostrar mensagens de Maio, 2016

AveRARA

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Na vida tudo parte sem aviso, a esperança, a juventude, a luz dos olhos, a fé, a vida mesmo. Eugénia sabia disso e vivia avisada e precavida, com a sua arara falante guardada na gaiola asseada e fechada a sete chaves. Para onde ia, Eugénia levava a sua ave, mantinha a gaiola e a voz da ave próximas da vista e do coração, e vibrava a sua alma ao som da voz dela como a alma das rezadeiras ao repicar das torres sineiras na hora do Terço. Em sua casa e era sua porque vivia, quase, sozinha, mandou deitar paredes abaixo e abrir clareiras no concreto escuro para que não tivesse de estar sempre a mudar a gaiola de lugar. De todos os lugares da casa via e ouvia a arara, rodando para ela de quando em vez a sua cabeça loura como um girassol coroado de pétalas douradas que buscasse o Sol que o inspirava. Se viajava para algum lugar, a voz e as plumas coloridas da arara viajavam consigo, e as pessoas acostumaram-se, quotidianizaram-se à arara, como quem assiste ao passeio em trela pelas ruas …

Partida

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Sentou-se ao seu lado no lugar vazio do banco do comboio. Ela levantou os olhos por um segundo e foi tudo o que se atreveu a fazer, esfregando nervosamente as mãos. Ele aquietou a tremura das suas mãos, pousando sobre elas a sua mão serena, grande e serena como uma casa segura. Olharam-se, agora sem pavor nem pensamentos grandes de mais para eles, estavam juntos, finalmente estavam juntos e partiam em direção ao desconhecido, ele trouxera a pequena mala com algumas roupas e alguns artigos de higiene, e a sua amante provera-se de elementos semelhantes usando para o efeito um saco de ginástica casual. Ela sentiu o desejo de falar, mas a sua garganta permaneceu silenciosa e árida. Podia, podiam, falar de quem tinham deixado para trás, das suas vidas anteriores, dos casamentos, dos filhos e das casas. Podiam falar disso como coisas pretéritas, mas sabiam que isso era escusado e doloroso. Beijaram-se, sofridamente, e enroscaram os seus torsos e membros como barcos adernados a um cais…