enganos

Anda metade do mundo a enganar a outra metade. É o que se ouve por toda a parte. Mas qual é a metade em que nós nos posicionamos? A metade dos tolos e ingénuos, dos crédulos e dos sonhadores? Ou a outra metade que também é a metade de si? Os que são enganados não enganam? e os que são burlados não procuram tirar a desforra numa mentira ou logro comezinho, inventado apenas para sossegar a ira e a frustração? Somos enganados todos os dias e todos os dias enganamos. Apertamos calorosamente a mão a quem desejaríamos apertar o pescoço ou, num registo mais suave, apertar o nó da gravata de sisal em redor do seu pescoço. E debitamos mentiras atrás de mentiras, likes&spikes, sorrisos de máscara de gel sobre caveiras podres, ocas palavras talhadas no fel e no espato da nossa ignomínia íntima. E quando a conversa escala ao sentimento, o engano torna-se exponencial. Amas-me? pergunta ela ou ele como se a negativa fosse possível. Vais ter saudades minhas? Gostaste dos meus amigos? Ainda sentes desejo por mim? E ele ou ela dá pulinhos de excitação na ansiedade de dizer o que esperam ouvir de si, e o coração longe, ao largo, ancorado na púbis ou nos lábios de outra mulher, sonhando lençóis distantes sob a prata da Lua, sorrindo com um sorriso mais vivo, um desejo mais poderoso, uma saudade que ata nós na garganta e tece seda nas palavras caladas no peito.

Anda metade do mundo a enganar a outra metade e todo o mundo a enganar-se a si mesmo.

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