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A mostrar mensagens de Abril, 2016

A dignidade do trabalho

Esperou que amanhecesse, na fragilidade trémula da sua velhice. Tinha de sair de casa, mas sentia-se cansado e por isso resignou-se a esperar que a manhã rompesse na esperança de se sentir então com um pouco mais de forças. Sentou-se no chão, encostado ao verso da porta da rua, a armadura já vestida sobre o corpo de pele empergaminhada e o elmo e a gadanha pousados ao seu lado no chão. Ao fim de umas horas ouviu por fim a passarada e a passárgada nas copas das árvores, e admirou um feixe de luz dourada que se alongou junto a si através do vidro da janela ogival. Suspirou de resignação e ergueu-se sobre as colunas anciãs das suas pernas com um esforço titânico e saiu para a rua. O seu cavalo de olhos amarelos como esponjas salientes escoicinhou de impaciência quando o viu, ajaezado com sela púrpura e uma cota metálica tinta de sangue. Mesmo em esforço, e ainda exausto, a Morte montou na sua montada maldita, reiniciando o labor incessante e eterno a que estava condenado.


enganos

Anda metade do mundo a enganar a outra metade. É o que se ouve por toda a parte. Mas qual é a metade em que nós nos posicionamos? A metade dos tolos e ingénuos, dos crédulos e dos sonhadores? Ou a outra metade que também é a metade de si? Os que são enganados não enganam? e os que são burlados não procuram tirar a desforra numa mentira ou logro comezinho, inventado apenas para sossegar a ira e a frustração? Somos enganados todos os dias e todos os dias enganamos. Apertamos calorosamente a mão a quem desejaríamos apertar o pescoço ou, num registo mais suave, apertar o nó da gravata de sisal em redor do seu pescoço. E debitamos mentiras atrás de mentiras, likes&spikes, sorrisos de máscara de gel sobre caveiras podres, ocas palavras talhadas no fel e no espato da nossa ignomínia íntima. E quando a conversa escala ao sentimento, o engano torna-se exponencial. Amas-me? pergunta ela ou ele como se a negativa fosse possível. Vais ter saudades minhas? Gostaste dos meus amigos? Ainda sente…

Imagem "roubada" ao jornal «Público»

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Bilhete de despedida de Mário de Sá-Carneiro, dirigido a Fernando Pessoa:

Um grande, grande  adeus do teu pobre  Mário de Sá Carneiro ________ Paris, 26 Abril de 1916


Alcheringa

- Sabes dizer-me alguma coisa do Tempo do Sonho? – perguntou o jovem ao ancião – ele existiu, como dizem, na Primeira Idade do mundo ou será alcançado por nós quando os tempos acabarem?
O ancião de olhos baços olhou uma vez mais a autoestrada rasgada num campo de cravos rubros e desfez o silêncio com palavras distantes:

- O Tempo do Sonho não se encontra no princípio nem no fim do mundo, ele acompanha o nosso caminho, sepultado sob os nossos passos.