O homem que pintava nuvens


     Delacroix pintava nuvens como ninguém, brancas como carneirinhos mansos ou de linhas carregadas e rubras como se estivessem prestes a explodir. Se Delacroix não pintasse mais motivo nenhum, as suas nuvens continuariam a pairar sobre as nossas cabeças, mesmo com um céu limpo como um espelho côncavo. Quando dei os meus primeiros passos no mundo da criação artística, decidi que era isso que eu queria fazer para o resto da vida- pintar nuvens, grafitadas em paredes esboroadas, ou pinceladas em tetos tristes de casa ou no céu sequioso dos desertos. Julgo que não me dei muito mal nesse ofício, talvez não me tenha aproximado sequer do meu mestre Delacroix, mas realizei algumas pinturas que podem testemunhar o meu nível de perícia artística, e ser o meu próprio legado para outros homens que sintam o chamado e a inspiração de pintar nuvens. A minha única frustração é já não ter muito para mostrar aos vindouros, apenas algumas poucas nuvens aprisionadas no tetos dentro do recinto das paredes das casas, porque as outras dispersou-as o vento, ou desapareceram depois de se transmutarem em insólita chuva.


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