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O homem-efeméride



     O homem na cadeira de rodas (que tal como tem a liberdade de suspeitar, é o anunciado homem-efeméride), e vou repetir porque os parêntesis quebram a fluidez da narrativa - o homem na cadeira de rodas rodou pelo lajeado da gare até ver o que procurava, uma jovem não muito jovem encostada a um dos pilares de ferro com o telemóvel seguro com ambas as mãos como se estivesse à espera de uma chamada. Aproximou-se dela sem pudor e estacionou a cadeira a menos de um metro, merecendo dela um olhar casual e enojado. Ele sabia porquê. As suas roupas sujas, a mantinha sobre as pernas desvitalizadas, o gorro esgarçado a envolver-lhe os cabelos, os dentes cariados e amarelos, o olhar de tarado assumido. No sentido contrário, o seu exame foi favorável. Era uma mulher cheia sem ser gorda, com a pouca gordura excedente bem disfarçada pela roupa larga, de rosto em pêra e alguma maquilhagem discreta, um meio-termo de suculência entre o naco de carne e o saco de ossos, um meio-termo de atração entre a topmodel que dá tusa e a vendedeira ranhosa que dá vontade de fugir.
     - Olá, morena - meteu-se - queres comemorar comigo o Dia da Mulher?
     Ela não lhe respondeu, tal como esperava. Fugiu com o olhar para o painel de azulejos do outro lado da linha férrea.
     - Posso amar-te como um fauno e escrever uma elegia ao teu sexo numa pele de carneiro esborratada com nódoas de vinho, deixar que me arranques a pele com um látego de couro para comemorarmos a força do sexo fraco, deixar que empurres a minha cadeira até ao inferno para dares corpo à bondade e elevação de sentimentos do sexo feminino, dares-me a felicidade de ser teu chulo e alugar-te a outros homens para escrevermos juntos uma tese-depoimento sobre a escravatura branca. O que me dizes?
    Nada.
     - Vá lá, não tarda o Dia da Mulher acaba e ainda não fizemos nada, e eu já fui ultrapassado à velocidade da luz pelas redes sociais desde as zero horas, e só para falar no nosso fuso horário.
    Nada vezes nada.
     - Como é? Nem sequer um beijo de língua para eu me lembrar de como uma mulher é?
     O comboio entra na gare e a sua musa corre para ele ou para se afastar de si. Roda a cadeira de rodas, tira do bolso do casaco uma beata de cigarro ainda com um troço de tabaco, prende-a ao canto dos lábios como o Bogart, e filosofa tristemente.
     - As mulheres continuarão a ser um eterno mistério para os homens, sobretudo, porque nunca lhes respondem a nada!


Geena

                No rincão das matas enegrecidas, onde as árvores carbonizadas se assemelhavam a costelas fraturadas do corpo de uma ...