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A mostrar mensagens de Março, 2016

Tonino Guerra

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Por três vias diferentes (email) fui visado numa corrente simpática de citação de textos literários preferidos. Não sigo correntes, sou um junco (um junco pensante, como no Pensamento de Pascal) no meio delas. Ainda assim, e por deferência para com as pessoas que me enviaram o mail, deixo aqui uma citação, na margem (pelo poema, e porque foi uma das coisas que me vieram à mente quando soube da morte de Gabriel García Márquez).





Canto Noveno
A Gabriel Garcia Márquez
Habrá llovido unos cien dias y el agua se metió
tras las raices de la hierba
y llegó a la biblioteca y mojó las palabras santas
que estaban encerradas en el convento.

Cuando salió el sol,
Sajat-Novà quien era el fraile más joven
subió con la escalera todos los libros a los techos
y los abrió al sol para que el aire caliente
secara el papel mojado.

Pasó un mes de buen tiempo
y el fraile estaba de rodillas en el patio
a la espera de que los libros dieran una señal de vida.
Y por fin una manãna las páginas empezaron
a crujir ligeras en l…

Abril de 1918 - o caminho para uma Primavera de sangue

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O Portugal do alvor do século XX, o Portugal da implantação da República e da entrada na Guerra, é um país retalhado por diversas clivagens políticas e sociais, e cuja massa populacional é maioritariamente analfabeta (segundo os resultados do Censo de 1911) e consagrada ao trabalho nos campos, e a emigração cresce de ano para ano.

     A guerra efetiva contra a Alemanha começa, não nos campos da Flandres, mas no continente africano, no rio Rovuma, fronteira norte de Moçambique, e no sul de Angola, iniciada com os ataques alemães de 24 de Agosto de 1914 ao posto moçambicano de Maziua, e de 19 de Outubro de 1914 a Naulila, na fronteira de Angola, e a 30 do mesmo mês, ao forte de Cuangar e aos postos de Sâmbio, Bunja e Dirico, também em Angola. São enviadas de Portugal forças expedicionárias para as duas costas africanas sob as ordens do tenente-coronel Alves Roçadas (para Angola, com 1477 soldados) e do tenente-coronel Massano de Amorim, que contava com 1525 homens, destacamentos mi…

O homem que pintava nuvens

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Delacroix pintava nuvens como ninguém, brancas como carneirinhos mansos ou de linhas carregadas e rubras como se estivessem prestes a explodir. Se Delacroix não pintasse mais motivo nenhum, as suas nuvens continuariam a pairar sobre as nossas cabeças, mesmo com um céu limpo como um espelho côncavo. Quando dei os meus primeiros passos no mundo da criação artística, decidi que era isso que eu queria fazer para o resto da vida- pintar nuvens, grafitadas em paredes esboroadas, ou pinceladas em tetos tristes de casa ou no céu sequioso dos desertos. Julgo que não me dei muito mal nesse ofício, talvez não me tenha aproximado sequer do meu mestre Delacroix, mas realizei algumas pinturas que podem testemunhar o meu nível de perícia artística, e ser o meu próprio legado para outros homens que sintam o chamado e a inspiração de pintar nuvens. A minha única frustração é já não ter muito para mostrar aos vindouros, apenas algumas poucas nuvens aprisionadas no tetos dentro do recinto das pare…

Uma palavra

Pseudo-letrados, meditadores de profundis, interventores em procrastinação, falsários, versejadores em regime de plagiato, juízes de pés de sarro, advogados de causas pútridas. expositores de chagas íntimas e pústulas em lugares esconsos, fotógrafos profissionais de pores-do-sol e as suas derivadas exclamações de espanto, eminências parvas da escrita criativa, enciclopedistas do futebol e da política, opinadores de barbearia, ratos-de-esgoto vestidos de elefantes persas. Estes e outros peixes de semelhante calibre embrulhados e em festim apoteótico nas REDES sociais.

O homem-efeméride

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O homem na cadeira de rodas (que tal como tem a liberdade de suspeitar, é o anunciado homem-efeméride), e vou repetir porque os parêntesis quebram a fluidez da narrativa - o homem na cadeira de rodas rodou pelo lajeado da gare até ver o que procurava, uma jovem não muito jovem encostada a um dos pilares de ferro com o telemóvel seguro com ambas as mãos como se estivesse à espera de uma chamada. Aproximou-se dela sem pudor e estacionou a cadeira a menos de um metro, merecendo dela um olhar casual e enojado. Ele sabia porquê. As suas roupas sujas, a mantinha sobre as pernas desvitalizadas, o gorro esgarçado a envolver-lhe os cabelos, os dentes cariados e amarelos, o olhar de tarado assumido. No sentido contrário, o seu exame foi favorável. Era uma mulher cheia sem ser gorda, com a pouca gordura excedente bem disfarçada pela roupa larga, de rosto em pêra e alguma maquilhagem discreta, um meio-termo de suculência entre o naco de carne e o saco de ossos, um meio-termo de atração entr…

Babel

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Um novo contículo meu no Babelicus, o Ezine internacional de contos.