A meias

Entrou na meia-idade, a idade incompleta, não lhe cobravam impostos porque recebia agora metade do ordenado, deixaram de contar com ele para a guerra porque a nação pouco podia fazer com um soldado privado de um braço e de uma perna. O mundo mudou por completo para o homem que entrou na meia-idade, e mudou para melhor, aligeirou-se de anos de vida, ficou com um nome mais fácil de fixar, passou a fazer as coisas pela metade sem que alguém tivesse coragem de lhe exigir o que exigiam antes, i.e., o dobro. Apenas a mulher do homem que entrou na meia-idade é que não apreciou particularmente que o tivesse feito. E isto não era por ele ter ficado com metade dos atributos sexuais porque a sua novel felicidade haviam-no tornado um amante mais completo e um ser humano mais compassivo e terno. Mas ela preocupava-se, como quase sempre se preocupam as mulheres, com mais dedicação e empenho do que ninguém para o fazer. O problema, é que ela era jovem e temia o que vinha pela frente. Se o seu homem de meia-idade se completava na mulher inteira e redobrada que ela era, quando ela atingisse a meia-idade, ele deixaria de a ver, ela se eclipsaria como se fosse apenas um quarto de mulher que minguaria ao lado de qualquer mulher nova que ele pusesse os olhos em cima.

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