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O terceiro elemento

     Simon Cthulhu, nascido ainda na Terra, foi o primeiro homem a reproduzir-se de forma assexuada por regeneração, tal como no seu planeta de origem o fazem seres terrivelmente simples como a estrela-do-mar ou algumas algas.
     Depois de um grave acidente na órbita do planeta que o fragmentou em três partes, essas porções do indivíduo foram levadas apressadamente para os laboratórios, rodeado por um grande frenesi de cientistas e técnicos. O corpo de Simon Cthulhu fora rasgado de alto a baixo como se tivesse sofrido uma divisão binária, desconchavada a frágil arquitetura óssea e nervosa das costelas, e esse corte soltou o coração que ficou desligado do resto, pequeno órgão palpitante com as suas veias e artérias cortadas. Mergulhados os três fragmentos de Simon Cthulhu em três cápsulas com líquido amniótico, iniciou-se a regeneração (Simon estava mentalmente morto, era um objeto com vida orgânica inconsciente, mas isso não importava aos cientistas e técnicos).
     Um dos fragmentos maiores de Simon regenerou-se e recriou a parte que lhe faltava com o coração dentro dele. Com o outro fragmento maior ocorreu o mesmo de forma simétrica, e os cientistas e técnicos viram surgir diante deles dois Simon Cthulhu, idênticos como gémeos perfeitos. O terceiro fragmento de Cthulhu, o seu coração, teve um processo diverso que carece de mais estudos e teorias: em vez de criar um corpo completo que o envolvesse, um terceiro Simon Cthulhu, esse coração apenas gerou cobras.

Da série «Títulos que parecem micro-ficções»:

Viver todos os dias cansa
(Pedro Paixão)

Primeiro morrem os sonhos
(Harold Robbins)

Recordações da Casa dos Mortos
(Dostoiévski)

Do androids dream with electric sheep?
(Phillip K. Dick)

O Deus das Pequenas Coisas
(Arundhati Roy)


A meias

Entrou na meia-idade, a idade incompleta, não lhe cobravam impostos porque recebia agora metade do ordenado, deixaram de contar com ele para a guerra porque a nação pouco podia fazer com um soldado privado de um braço e de uma perna. O mundo mudou por completo para o homem que entrou na meia-idade, e mudou para melhor, aligeirou-se de anos de vida, ficou com um nome mais fácil de fixar, passou a fazer as coisas pela metade sem que alguém tivesse coragem de lhe exigir o que exigiam antes, i.e., o dobro. Apenas a mulher do homem que entrou na meia-idade é que não apreciou particularmente que o tivesse feito. E isto não era por ele ter ficado com metade dos atributos sexuais porque a sua novel felicidade haviam-no tornado um amante mais completo e um ser humano mais compassivo e terno. Mas ela preocupava-se, como quase sempre se preocupam as mulheres, com mais dedicação e empenho do que ninguém para o fazer. O problema, é que ela era jovem e temia o que vinha pela frente. Se o seu homem de meia-idade se completava na mulher inteira e redobrada que ela era, quando ela atingisse a meia-idade, ele deixaria de a ver, ela se eclipsaria como se fosse apenas um quarto de mulher que minguaria ao lado de qualquer mulher nova que ele pusesse os olhos em cima.

Rainha

                Subiu lesto os parcos degraus que separavam o átrio do hotel do recinto sobrelevado onde haviam instalado a receção. Ab...