João Algoz vinha até ao café na marginal todos os dias pela manhã, bebericava um café como se esse ato pudesse durar horas e depois de espiar por cima dos ombros os outros frequentadores do estabelecimento, puxava de um bloco de notas e de uma esferográfica animado da vontade ou do desejo de escrever, as palavras corriam no seu sangue, faiscavam entre as sinapses dos neurónios, ensaiando a vertigem do exterior com o fumo do tabaco que soprava pela boca sem dentes. Mas não chegavam nunca ao papel que amarelecera de tanto esperar. João Algoz fumava um cigarro mais numa réstia de esperança enquanto a esferográfica aferrada à outra mão humedecia na sua mão suada. Depois de acabar o cigarro e da esferográfica se liquefazer, João Algoz guardava o bloco de notas e saía para as ruas como se horríveis Harpias caligráficas o tivessem expulsado dali. Na manhã seguinte voltaria ao café, a medo, intimamente dividido entre a esperança e a agonia.

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