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Chá

Bebia o chá de forma tradicional numa infusão de folhas.
Bebia e agitava o chá com uma colher de prata. Quando o líquido estava quase no fim, fechava os olhos e levava-o á boca até sentir as folhinhas a acariciar-lhe a pele sensível dos lábios, então, soprava, um sopro único, cósmico, como o sopro de um Demiurgo que transmite vida a um homem moldado em argila ou pasta de milho.
Sempre de olhos fechados, pousava a chávena e aguardava, a recitar uma oração antiga que aprendera da bisavó. Só no final dessa oração abria docemente os olhos e estudava a disposição das folhas de chá.
Uma vez tinha a aparência de um tigre agachado no ramo forte de uma árvore.
E via o seu futuro.
Ou uma mão de dedos pendentes ou um espanta-espírito de bambu.
E via o futuro.
A vela de um barco num lago reduzido coroado de rochedos como lâminas.
E o futuro diante dos seus olhos.
Um barranco ou precipício onde uma folha na vertical parecia um homem a cair.

E não é necessário repetir que ela via o futuro. Vez após vez, o futuro era mais certo e mais próximo. Já sentia as veias a fecharem-se lentamente empurrando o sangue pelo nervuras do seu corpo e o pescoço e os ombros a enrijecer a cada dose de veneno que acrescentava ao chá, abreviando pela sua mão um futuro que de outra forma seria mais longo e mais doloroso.

Geena

                No rincão das matas enegrecidas, onde as árvores carbonizadas se assemelhavam a costelas fraturadas do corpo de uma ...