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Chá

Bebia o chá de forma tradicional numa infusão de folhas.
Bebia e agitava o chá com uma colher de prata. Quando o líquido estava quase no fim, fechava os olhos e levava-o á boca até sentir as folhinhas a acariciar-lhe a pele sensível dos lábios, então, soprava, um sopro único, cósmico, como o sopro de um Demiurgo que transmite vida a um homem moldado em argila ou pasta de milho.
Sempre de olhos fechados, pousava a chávena e aguardava, a recitar uma oração antiga que aprendera da bisavó. Só no final dessa oração abria docemente os olhos e estudava a disposição das folhas de chá.
Uma vez tinha a aparência de um tigre agachado no ramo forte de uma árvore.
E via o seu futuro.
Ou uma mão de dedos pendentes ou um espanta-espírito de bambu.
E via o futuro.
A vela de um barco num lago reduzido coroado de rochedos como lâminas.
E o futuro diante dos seus olhos.
Um barranco ou precipício onde uma folha na vertical parecia um homem a cair.

E não é necessário repetir que ela via o futuro. Vez após vez, o futuro era mais certo e mais próximo. Já sentia as veias a fecharem-se lentamente empurrando o sangue pelo nervuras do seu corpo e o pescoço e os ombros a enrijecer a cada dose de veneno que acrescentava ao chá, abreviando pela sua mão um futuro que de outra forma seria mais longo e mais doloroso.

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Vem amiga, murmurou-lhe, refugiemo-nos um no outro! Ela acedeu, tranquilizando os seus temores, e ficou dentro dos seus braços que a envolviam como dois pontões quebra-mar de um porto de abrigo. Juntos num remanso de serena felicidade, souberam que podiam descansar, querenar, consertar o velame e o casco, refazer a bússola, a quilha, reconstituir o portulano rasgado. Os mares e litorais aguarelados pareciam menos estranhos, impolutos de monstros e dragões marinhos e as rosas-dos-ventos resplandeciam nos seus rumos de cor e ouro, e enquanto selavam com beijos o asilo e o refúgio, deixaram de ouvir o macaréu que se aproximava deles como uma onda tóxica de despeito e inveja.

João Algoz vinha até ao café na marginal todos os dias pela manhã, bebericava um café como se esse ato pudesse durar horas e depois de espiar por cima dos ombros os outros frequentadores do estabelecimento, puxava de um bloco de notas e de uma esferográfica animado da vontade ou do desejo de escrever, as palavras corriam no seu sangue, faiscavam entre as sinapses dos neurónios, ensaiando a vertigem do exterior com o fumo do tabaco que soprava pela boca sem dentes. Mas não chegavam nunca ao papel que amarelecera de tanto esperar. João Algoz fumava um cigarro mais numa réstia de esperança enquanto a esferográfica aferrada à outra mão humedecia na sua mão suada. Depois de acabar o cigarro e da esferográfica se liquefazer, João Algoz guardava o bloco de notas e saía para as ruas como se horríveis Harpias caligráficas o tivessem expulsado dali. Na manhã seguinte voltaria ao café, a medo, intimamente dividido entre a esperança e a agonia.

Rainha

                Subiu lesto os parcos degraus que separavam o átrio do hotel do recinto sobrelevado onde haviam instalado a receção. Ab...