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A mostrar mensagens de 2016

germinar no Inverno

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Números e perónios

Princípio para uma história: um menino perneta reencontra o seu cão de três pernas.
                No caminho onde isso aconteceu, não havia jardins, nem sebes podadas, apenas lírios e papoilas silvestres colorindo a espaços a desolação enlameada do carreiro que serpenteava por um vale onde abundavam as ruínas calcinadas de casas. As ruínas estavam frias, como a água da chuva nas suas entranhas e a dos charcos à epiderme da terra.                 As ruínas, e a chuva nelas, e o menino e o cão com uma perna a menos, tinham uma causa inusual – a guerra que despoletara entre os defensores do número par e os defensores do número ímpar.                 Os primeiros tinham aceite como uma lei inexorável do universo (ou uma dupla lei), que todas as coisas tinham o seu par e tudo o que não o tivesse teria de o procurar e encontrar ou anular-se em razão do seu insucesso. Dia e noite, gelo e fogo, deus e o demónio, mulher e homem ou mulher e mulher e homem e homem, caos e cos…

A viagem

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Tonino saiu do elétrico na paragem do topo da Rua D. Dinis. Das paragens mais próximas de casa, era a que ficava mais longe. Parecia um contrassenso mas ocultava uma motivação dissimulada, é que Tonino não tinha pressa nenhuma de voltar a casa, preferia andar um pouco mais, espreitar as gordas dos jornais no quiosque do Silvério, meter a cabeça pela porta entreaberta do barbeiro para se meter com o pessoal, ou parar na entrada majestosa do hotel de cinco estrelas para ter dois dedos de conversa com o porteiro e falar de coisas sumamente importantes como o tempo por aqueles dias ou as obras do momento nas ruas da cidade. Mas quarenta e cinco minutos depois de se apear do elétrico, e apesar de todas as delongas e pretextos a que recorrera, Tonino estava perfilado à porta do apartamento. Abriu a porta com a chave – era daquelas portas que tinham a fechadura no punho, e por dentro abria-se sem precisar dela – e depositou as suas bagagens de trabalho no bengaleiro, o casaco e o…
Uma verdade evidente e, a um tempo mesmo, ignorada e desprezada: A AMIZADE, É UMA FORMA DE GOSTAR.
Não se diz: gosto daquela pessoa! Sinto-me bem na sua presença! Nutro-me tranquilamente das palavras na sua boca, dos seu riso ou da sua melancolia, do aprumo ou desleixo que a carateriza. Diz-se em vez disso: sou amigo de fulano ou sicrana, como se essa afirmação traduzisse um estatuto exterior a nós, desligado do que somos e sentimos, tão inútil como os dígitos de um cartão de desconto de uma loja de confeções, ou a mancha castanho-prateado na superfície externa do vidro da janela do nosso escritório que assinala o ponto de colisão de um inseto cego. A AMIZADE É UMA FORMA DE GOSTAR, e quando chamamos amigo a alguém, e quando de amizade se trata sem sarcasmos nem toxicidades, aprendamos a reconhecer a musicalidade e a riqueza da palavra, e de como ela possui fundas raízes em nós e se arvora acima do labirinto dos dias vãos em frutos que nos alimentam e nos tornam um pouco melhor do que…

O silêncio magoado de Dramra Rion

Dramra Rion é uma jovem, e porque é jovem reúne os atributos razoáveis para alguém que seja jovem, a pele lisa e bem irrigada pelo sangue, o espírito generoso e cândido de quem ainda não se encerrou dentro da carapaça áspera do cinismo e do desdém, Dramra gosta de se levantar de manhã à hora em que o sono claudica, levanta-se quando quer e come quando tem fome, vive do lado de fora das janelas como se o mundo fosse o seu quarto. Não gosta de pessoas mal encaradas, e também não suporta o excesso de maquilhagem que fabrica um rosto artificioso sem contato com a realidade, Dramra junta folhas secas de Outono que enterra perto das raízes das árvores porque lhes pertenciam, e tem uma paciência infinita por bichos, varejas, lagartas, cães vadios e gatos sobranceiros, e detenho-me por aqui para não encher muito o texto de coisas pegajosas e peludas e com veneno.. Quando Dramra Rion chega a qualquer lado, é forçoso que lhe prestem atenção porque também ela enche muito os espaços com a sua boa…

Babelicus em português, versão 2

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A ESTALAGEM, conto um pouco gótico escrito para o e-zine Babelicus.

Outros caminhantes da torre: Ana Carvalhosa, Angela Schnoor, Eduardo Oliveira Freire, João Ventura, Samir Karimo e Vitor Leite


handicap

Conheço muitas pessoas que possuem um handicap qualquer (perdoem-me o duplo estrangeirismo, mas pensarei nalguma forma de expiação, soft). Não digo todas as pessoas, porque isso seria generalizar demasiado, e por isso vou particularizar apenas o meu caso. O meu único handicap (outra vez!), ou o que eu pensava ser um, era não conseguir entrar numa divisão qualquer e ver um quadro torto, noventa e nove por cento das vezes tinha de lá ir discretamente com um dedo e endireitá-lo para me sentir mais tranquilo; e isso já me causou alguns dissabores. Num café em Torres Vedras que exibia nas paredes dezenas de fotografias emolduradas, todas inclinadas, fiz um sprint para as endireitar que mereceu a reprimenda da dona do café, sobretudo por andar a saltar de mesa em mesa. Uns meses mais tarde, a coisa meteu mesmo a polícia, isto porque no Museu Nacional de Arte Antiga tentei fazer o mesmo a um único pobre quadro solitário descaído para o lado direito, aquilo fez disparar o alarme e o rest…

AveRARA

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Na vida tudo parte sem aviso, a esperança, a juventude, a luz dos olhos, a fé, a vida mesmo. Eugénia sabia disso e vivia avisada e precavida, com a sua arara falante guardada na gaiola asseada e fechada a sete chaves. Para onde ia, Eugénia levava a sua ave, mantinha a gaiola e a voz da ave próximas da vista e do coração, e vibrava a sua alma ao som da voz dela como a alma das rezadeiras ao repicar das torres sineiras na hora do Terço. Em sua casa e era sua porque vivia, quase, sozinha, mandou deitar paredes abaixo e abrir clareiras no concreto escuro para que não tivesse de estar sempre a mudar a gaiola de lugar. De todos os lugares da casa via e ouvia a arara, rodando para ela de quando em vez a sua cabeça loura como um girassol coroado de pétalas douradas que buscasse o Sol que o inspirava. Se viajava para algum lugar, a voz e as plumas coloridas da arara viajavam consigo, e as pessoas acostumaram-se, quotidianizaram-se à arara, como quem assiste ao passeio em trela pelas ruas …

Partida

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Sentou-se ao seu lado no lugar vazio do banco do comboio. Ela levantou os olhos por um segundo e foi tudo o que se atreveu a fazer, esfregando nervosamente as mãos. Ele aquietou a tremura das suas mãos, pousando sobre elas a sua mão serena, grande e serena como uma casa segura. Olharam-se, agora sem pavor nem pensamentos grandes de mais para eles, estavam juntos, finalmente estavam juntos e partiam em direção ao desconhecido, ele trouxera a pequena mala com algumas roupas e alguns artigos de higiene, e a sua amante provera-se de elementos semelhantes usando para o efeito um saco de ginástica casual. Ela sentiu o desejo de falar, mas a sua garganta permaneceu silenciosa e árida. Podia, podiam, falar de quem tinham deixado para trás, das suas vidas anteriores, dos casamentos, dos filhos e das casas. Podiam falar disso como coisas pretéritas, mas sabiam que isso era escusado e doloroso. Beijaram-se, sofridamente, e enroscaram os seus torsos e membros como barcos adernados a um cais…

A dignidade do trabalho

Esperou que amanhecesse, na fragilidade trémula da sua velhice. Tinha de sair de casa, mas sentia-se cansado e por isso resignou-se a esperar que a manhã rompesse na esperança de se sentir então com um pouco mais de forças. Sentou-se no chão, encostado ao verso da porta da rua, a armadura já vestida sobre o corpo de pele empergaminhada e o elmo e a gadanha pousados ao seu lado no chão. Ao fim de umas horas ouviu por fim a passarada e a passárgada nas copas das árvores, e admirou um feixe de luz dourada que se alongou junto a si através do vidro da janela ogival. Suspirou de resignação e ergueu-se sobre as colunas anciãs das suas pernas com um esforço titânico e saiu para a rua. O seu cavalo de olhos amarelos como esponjas salientes escoicinhou de impaciência quando o viu, ajaezado com sela púrpura e uma cota metálica tinta de sangue. Mesmo em esforço, e ainda exausto, a Morte montou na sua montada maldita, reiniciando o labor incessante e eterno a que estava condenado.


enganos

Anda metade do mundo a enganar a outra metade. É o que se ouve por toda a parte. Mas qual é a metade em que nós nos posicionamos? A metade dos tolos e ingénuos, dos crédulos e dos sonhadores? Ou a outra metade que também é a metade de si? Os que são enganados não enganam? e os que são burlados não procuram tirar a desforra numa mentira ou logro comezinho, inventado apenas para sossegar a ira e a frustração? Somos enganados todos os dias e todos os dias enganamos. Apertamos calorosamente a mão a quem desejaríamos apertar o pescoço ou, num registo mais suave, apertar o nó da gravata de sisal em redor do seu pescoço. E debitamos mentiras atrás de mentiras, likes&spikes, sorrisos de máscara de gel sobre caveiras podres, ocas palavras talhadas no fel e no espato da nossa ignomínia íntima. E quando a conversa escala ao sentimento, o engano torna-se exponencial. Amas-me? pergunta ela ou ele como se a negativa fosse possível. Vais ter saudades minhas? Gostaste dos meus amigos? Ainda sente…

Imagem "roubada" ao jornal «Público»

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Bilhete de despedida de Mário de Sá-Carneiro, dirigido a Fernando Pessoa:

Um grande, grande  adeus do teu pobre  Mário de Sá Carneiro ________ Paris, 26 Abril de 1916


Alcheringa

- Sabes dizer-me alguma coisa do Tempo do Sonho? – perguntou o jovem ao ancião – ele existiu, como dizem, na Primeira Idade do mundo ou será alcançado por nós quando os tempos acabarem?
O ancião de olhos baços olhou uma vez mais a autoestrada rasgada num campo de cravos rubros e desfez o silêncio com palavras distantes:

- O Tempo do Sonho não se encontra no princípio nem no fim do mundo, ele acompanha o nosso caminho, sepultado sob os nossos passos. 

Tonino Guerra

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Por três vias diferentes (email) fui visado numa corrente simpática de citação de textos literários preferidos. Não sigo correntes, sou um junco (um junco pensante, como no Pensamento de Pascal) no meio delas. Ainda assim, e por deferência para com as pessoas que me enviaram o mail, deixo aqui uma citação, na margem (pelo poema, e porque foi uma das coisas que me vieram à mente quando soube da morte de Gabriel García Márquez).





Canto Noveno
A Gabriel Garcia Márquez
Habrá llovido unos cien dias y el agua se metió
tras las raices de la hierba
y llegó a la biblioteca y mojó las palabras santas
que estaban encerradas en el convento.

Cuando salió el sol,
Sajat-Novà quien era el fraile más joven
subió con la escalera todos los libros a los techos
y los abrió al sol para que el aire caliente
secara el papel mojado.

Pasó un mes de buen tiempo
y el fraile estaba de rodillas en el patio
a la espera de que los libros dieran una señal de vida.
Y por fin una manãna las páginas empezaron
a crujir ligeras en l…

Abril de 1918 - o caminho para uma Primavera de sangue

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O Portugal do alvor do século XX, o Portugal da implantação da República e da entrada na Guerra, é um país retalhado por diversas clivagens políticas e sociais, e cuja massa populacional é maioritariamente analfabeta (segundo os resultados do Censo de 1911) e consagrada ao trabalho nos campos, e a emigração cresce de ano para ano.

     A guerra efetiva contra a Alemanha começa, não nos campos da Flandres, mas no continente africano, no rio Rovuma, fronteira norte de Moçambique, e no sul de Angola, iniciada com os ataques alemães de 24 de Agosto de 1914 ao posto moçambicano de Maziua, e de 19 de Outubro de 1914 a Naulila, na fronteira de Angola, e a 30 do mesmo mês, ao forte de Cuangar e aos postos de Sâmbio, Bunja e Dirico, também em Angola. São enviadas de Portugal forças expedicionárias para as duas costas africanas sob as ordens do tenente-coronel Alves Roçadas (para Angola, com 1477 soldados) e do tenente-coronel Massano de Amorim, que contava com 1525 homens, destacamentos mi…