INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

Números e perónios

                Princípio para uma história: um menino perneta reencontra o seu cão de três pernas.

                No caminho onde isso aconteceu, não havia jardins, nem sebes podadas, apenas lírios e papoilas silvestres colorindo a espaços a desolação enlameada do carreiro que serpenteava por um vale onde abundavam as ruínas calcinadas de casas. As ruínas estavam frias, como a água da chuva nas suas entranhas e a dos charcos à epiderme da terra.
                As ruínas, e a chuva nelas, e o menino e o cão com uma perna a menos, tinham uma causa inusual – a guerra que despoletara entre os defensores do número par e os defensores do número ímpar.
                Os primeiros tinham aceite como uma lei inexorável do universo (ou uma dupla lei), que todas as coisas tinham o seu par e tudo o que não o tivesse teria de o procurar e encontrar ou anular-se em razão do seu insucesso. Dia e noite, gelo e fogo, deus e o demónio, mulher e homem ou mulher e mulher e homem e homem, caos e cosmos, vazio e absoluto, amor e ódio. Os exemplos eram intermináveis, mas era iniludível a verdade primordial de que emanavam. Os defensores da dualidade, da união, do par, criaram leis para a manter e para punir os seus desvios. À nascença, excetuando quando sucedia existir um irmão gémeo, todos eram únicos, mas acreditava-se que o par desse nascituro via a luz ao mesmo tempo que ele, e porque era feito de vapor e fantasia, partia logo que nascia para o outro lado do vale para viver na companhia dos espíritos e das sombras na floresta impenetrável. À medida que as crianças cresciam, se eram filhos únicos ou se um casal tinha um número ímpar de filhos, providenciava-se para que essa criança singular tivesse um irmão nominal fora do seu círculo familiar – a criança singular, única ou ímpar de outro casal e de outra casa; e era aceite e comum que os dois irmãos que se emparelhavam vivessem algum tempo juntos, a brincar ou estudar, a dar passeios com as suas famílias alargadas, ou que fossem juntos aos ritos religiosos do templo da união. O conselho da fratria poderia atribuir a uma dessas duas famílias o irmão suplementar, fazendo-o mudar de casa e rejeitar a família em que nascera. Numa fase ulterior das suas vidas, realizados os ritos de iniciação à vida adulta, a cada jovem era atribuído um prometido ou prometida consoante o seu sexo. Era um par germinal, em potência, para aquietar os espíritos e harmonizar os ritmos e os ciclos do universo; mas raras vezes esse par arranjado se desfazia pela vontade dos próprios ou em virtude de qualquer outra força do universo, por mais poderosa que pudesse ser. O par acabava por se unir em casamento, e durante os dois primeiros meses da sua vida de casados, a lei obrigava-os a ter uma corda de vinte metros atada à cintura de ambos e a mantê-la durante todas as suas tarefas diárias, se um caçava, o outro seguia-o, e a mesma complementaridade para tudo o mais que fizessem, trabalhar nos campos, levar os animais às pastagens, ou recolher o orvalho matinal da urze para purificar o lar. A natureza sagrada do número par acompanhava a vida do casal, os filhos que deveriam ter, as datas dos seus ritos e viagens, o número de portas da casa, ou as contadas mãos-cheias de sementes que esparziam sobre a terra fértil e fremente de desejo. Neste universo, a morte, e o suicídio em particular, eram olhados como nefandos ou afortunados segundo o efeito que produzia. Se morria um viúvo ou viúva, fosse de que maneira fosse, a sua morte era celebrada com cânticos e festins porque se diluía a singularidade desafiadora, e se repunha a natureza dúplice do cosmos. Mas quando era um membro de um casal – efetivo ou prometido – como um jovem tomado de uma abissal melancolia, que cedia à sedução da morte, então, esse ato era visto como aziago e maldito porque ameaçava a segurança do universo e a benevolência do divino, e o seu par era encorajado a tomar o mesmo caminho dos gémeos de vapor, ou a seguir o seu par para os braços da morte, o que resultava sumariamente no mesmo.
                No vale vizinho a esse, tenuemente ligado ao primeiro por um caminho serpenteante que NINGUÉM tinha a coragem de percorrer, e que bordejava a floresta densa que povoava os seus sonhos e os seus mitos, viviam os defensores do número ímpar, que era uma forma difusa da veneração que manifestavam pelo uno. As leis que haviam criado e sob as quais viviam, privilegiavam a singularidade e a ímpar multiplicidade. Na sua cosmologia mística, o Um tinha ascendente sobre todas as coisas, e desdobrava-se numa expansão de forma triangular pelo três, cinco, sete, nove; e subsequentes números ímpares. As uniões e os casais eram necessárias e olhados com bons olhos, mas na sua conceção mística, quando duas pessoas uniam as suas vidas, fundiam as suas almas, tornavam-se apenas um; e a mesma adequação numérica – frágil e oscilante, mas útil – aplicavam-na ao número de filhos que nasciam dessa união. Se um casal tinha um par de gémeos, ou dois filhos nascidos em anos diferentes, tomavam a família pelo número total de membros, um, o casal, e os dois filhos, o que os conduzia ao número três; mas se porventura, tinham um número ímpar de filhos, eles dissociavam-nos deles próprios, e era na mesma o um, o casal, que tinha um número não-par, feliz, de filhos. As famílias, graças a esse malabarismo aritmético, acrescentavam ao seu apelido tradicional, um algarismo, sempre ímpar, que representava o número total de membros da família ou o número de filhos que haviam trazido à existência. Este sentido de equilíbrio produzia uma indiferença social pela união dos jovens – nominal ou real – que acontecia de forma espontânea, desencadeada pelas suas pulsões e vontades. Os viúvos, os celibatários e os eremitas eram estimados e homenageados por todos como pessoas honradas e nobres, porque no seio daquela sociedade, não havia mal algum em que alguém escolhesse viver sozinho, ou sozinho morrer. O suicídio era, de qualquer das formas, encarado com admiração, e as famílias em que ele ocorria eram louvadas em todos os atos religiosos e cerimónias públicas, e o motivo era óbvio - se o suicídio ocorria com um dos membros de um casal, ele singularizava o par, restaurava o número um primordial, se ele fosse perpetrado por alguém que já estivesse sozinho, esse ato coroava uma existência digna e invejável e essa pessoa era identificada com o vértice do triângulo cósmico, fundia-se no Um, e tomava o caminho da floresta profunda e sagrada como se entrasse no paraíso.
                Entre os dois vales, e as duas populações, tão distintas e diferenciadas entre si como os números par e ímpar, manteve-se durante séculos uma distância cautelosa, conheciam-se mas não se aproximavam, tinham medo da mesma forma que inspiravam temor. O equilíbrio foi mantido durante gerações, de tal forma que o caminho que unia os dois vales caiu no esquecimento e na incúria e quase desapareceu sobre as ervas e as flores silvestres. O que perturbou aquele precário equilíbrio não foi desejado por nenhuma das populações. Com os filhos a aumentar – em números pares e ímpares – e a população a crescer, precisaram de mais terra e de mais comida, ergueram novas casas nas margens do caminho de união, e desbravou-se a floresta cerrada que haviam tido até aí a sensatez de preservar. O corte das árvores, as queimadas, os campos arroteados, expulsou os espíritos e as sombras, que se disseminaram pelos arredores. Essas criaturas vaporosas entraram em contato com os humanos, falaram com eles, indagaram sobre os seus familiares e, por vezes, escarneciam dos seus gestos e dos seus atos e ritos. Não escolhiam as casas em que entravam, porque a sua própria casa, a floresta, fora devassada sem lhes darem a escolher. Em pouco tempo, a população dos dois vales ficou a saber mais do que aquilo que conseguia suportar, o conhecimento transformou-se em ódio, atribuíam ao Outro as culpas pelo que se estava a viver, e logo se ateou a guerra entre os dois vales, travada com ferocidade com aço e fogo, e na noite que desceu sobre o primeiro – e o último - dia de guerra, as casas e os campos ardiam como luminárias descidas do céu, e a sua luz alumiava os corpos mortos e os feridos e mutilados que agonizavam pelo chão. Quando o dia rompeu, uma chuva repentina e intensa lavou um pouco a loucura de todos enquanto se cuidava dos vivos e dos mortos, e as sombras e os espíritos regressavam como farrapos de névoa para a sua floresta empobrecida mas, por algum tempo, resguardada.
                O menino e o seu cão, foram os últimos a regressar à floresta, o rapaz apoiado num varapau de madeira de ulmeiro, e o cão a saltitar ao seu lado com o rabo a abanar de contentamento. Perguntava-se quem os viu a eclipsar-se nos bambus da fímbria da floresta, se eles haviam sido proscritos dos que veneravam o número par pelo número ímpar de pernas que possuíam, ou se haviam sido escorraçados do vale oposto porque tinham no total um número par de pernas, ainda que a sua amizade fosse uma coisa única e insólita.


A viagem




            Tonino saiu do elétrico na paragem do topo da Rua D. Dinis. Das paragens mais próximas de casa, era a que ficava mais longe. Parecia um contrassenso mas ocultava uma motivação dissimulada, é que Tonino não tinha pressa nenhuma de voltar a casa, preferia andar um pouco mais, espreitar as gordas dos jornais no quiosque do Silvério, meter a cabeça pela porta entreaberta do barbeiro para se meter com o pessoal, ou parar na entrada majestosa do hotel de cinco estrelas para ter dois dedos de conversa com o porteiro e falar de coisas sumamente importantes como o tempo por aqueles dias ou as obras do momento nas ruas da cidade. Mas quarenta e cinco minutos depois de se apear do elétrico, e apesar de todas as delongas e pretextos a que recorrera, Tonino estava perfilado à porta do apartamento. Abriu a porta com a chave – era daquelas portas que tinham a fechadura no punho, e por dentro abria-se sem precisar dela – e depositou as suas bagagens de trabalho no bengaleiro, o casaco e o chapéu-de-chuva, e o outro chapéu, cinza-escuro, de abas do tipo Fedora, que usava agora no exterior por se sentir melhor com ele – dera algum trabalho a convencer a companheira de que aquilo não era uma bizarrice parva da sua parte – e que o fazia sentir-se um ator de filmes de série B dos anos cinquenta ou um personagem de Chandler ou Dashiell Hammett, o que ia dar ao mesmo.
            Depois de aligeirar a bagagem, passou à sala comum do apartamento onde a companheira, Isabel, o aguardava, folheando uma revista de atualidades. Beijou-a nos lábios e sentou-se ao pé dela. Temia a pergunta. Talvez ela não chegasse… e logo a mulher, como se lesse os seus pensamentos, perguntou.
            - Quando é que começas a fazer as malas? Tens viagem marcada para depois de amanhã e só vejo as malas abertas e vazias no quarto de hóspedes.
            Suspirou, um suspiro fundo do fundo da alma, que mereceu a Isabel um ténue e compassivo olhar carinhoso. De feições e olhar recomposto, ela desenvolveu o tema num tom doutrinário.
            - Já te coloquei numa das malas a roupa e a maleta com as coisas de higiene, mais as toalhas de reserva. Não vais precisar mais do que aquilo para os dias que vais estar fora, agora, tens de fazer o resto, não sei o que queres levar mais, nem sequer sei para que é que precisas de tantas malas.
            Ele anuiu com um movimento da cabeça e foi tomar um banho. Depois de se vestir, rumou à cozinha, onde já se encontrava Isabel, a comer uma lasanha embalada que aquecera no micro-ondas. Como nem ele nem Isabel tinham a menor inclinação ou talento para a culinária, as refeições de ambos baseavam-se nisso, comida já confecionada de compra, intercalada por alguma salada, ou sopa, também de compra, enriquecido por outras coisas compradas que não precisavam de preparação, como pão, fruta ou cerveja. Aqueceu também a sua comida, uma sopa que vinha acondicionada dentro de uma embalagem branca que parecia de esferovite, com uma tampa plástica.
            - Vou começar hoje a fazer as malas – anunciou com uma determinação que teve o condão de o assustar um pouco – logo que acabe de jantar!
            Isabel afagou-lhe a mão, numa manifestação de simpatia, e comeram em silêncio o resto do tempo. Terminada a refrega culinária e arrumadas as armas sujas de comida, Isabel ficou na expetativa de o ver rumar ao quarto de hóspedes, mas Tonino puxou de uma cadeira e sentou-se junto à estante maior de livros - «Não vais carregar as malas de livros» rugiu Isabel de si para si, mas conseguiu conter-se e não disse nada, e foi uma decisão acertada porque não viu Tonino carregar livros. Apenas escolhia-os pelas suas lombadas e depositava-os no chão ao lado da cadeira, e sentado novamente, folheava-os com uma fleumática concentração, detendo-se numa página dobrada num canto, numa passagem sublinhada ou uma ilustração, outras páginas, em vez de terem o canto dobrado e vincado em cima, tinham mesmo um post-it colado no topo da página, e essas ele relia com uma atenção redobrada. Os livros que revia, colocava no chão do outro lado da cadeira e depois de terminar com esse molhe de livros que escolhera, recolocava-os no seu devido lugar com uma exatidão metódica – ele era muito rigoroso e inflexível no que tocava ao lugar que os seus livros ocupavam e na forma como estavam arrumados – e escolhia mais uns quantos livros para folhear. Tonino andou nisso umas horas, aliás, estava embrenhado nessa tarefa quando Isabel se foi deitar e adormeceu atravessada em diagonal na cama sem se dar conta disso. Na manhã seguinte, acordou com a porta da rua a fechar, estava deitada e aconchegada dentro das mantas, espreitou o relógio e confirmou que era a hora habitual a que Tonino saía para trabalhar. Soube que ele não passara a noite acordado porque o colchão e a almofada guardavam a sua silhueta, e os lençóis mantinham o cheiro quente do seu corpo. Levantou-se, enrolou uma camisa de dormir sobre a sua acobreada nudez e foi espreitar a estante de livros – estava igual, preenchida de livros e arrumados na sua devida ordem. Deixara apenas a cadeira no mesmo sítio, que Isabel arrumou na cozinha antes de ir ao quarto de hóspedes. Para sua estranheza, duas das malas estavam feitas, pareciam infladas como odres cheios, mas ao tomar o seu peso, notou que estavam leves como se estivessem cheias de ar. Resistiu à tentação de correr o fecho e deixou as malas como as encontrara.
            Tonino, inocente da curiosidade de Isabel, foi trabalhar e passou o dia mais atento do que o habitual, e mesmo no regresso a casa fez um périplo pela cidade à procura de recantos e lugares que significavam muito para ele, o banco de jardim sob o salgueiro-chorão podado do parque do largo das azinheiras onde se refugiava para ler durante horas, o cais enlodaçado da margem do rio que era o seu pouso habitual quando o rio enchia a ponto de sobrepujar as margens e inundar as ruas ribeirinhas, ou a varanda da estação de caminhos-de-ferro de estilo neoclássico onde era possível como em mais lugar algum sentir a cidade como um negro coração, com os carros nas suas artérias de alcatrão, os telhados como chapéus que abrigavam ou escondiam sonhos ensandecidos e as pessoas diminutas e ridículas, erráticas e esmaecidas como as personagens de um sonho em trajetos labirínticos.
            Com tantas voltas e sendas chegou mais tarde a casa. Notou que mulher já deveria ter jantado porque o balcão da cozinha estava repleto de migalhas e a sua boca cheirava-lhe a maionese e a atum de lata. Petiscou também alguma coisa, tomou um banho frugal e fechou-se no quarto de hóspedes. A mulher sentiu algum desagrado nisso, mas atenuou esse mal-estar com a ideia de que na manhã seguinte as malas estariam feitas depois de tanto tempo de atrasos e adiamentos, e Tonino poderia partir na viagem solitária que planeava há tantos anos. Viu um pouco de televisão e enfiou-se na cama, e quase coincidindo com esse ato, viu Tonino abandonar o quarto de hóspedes e arrastar as malas para ao pé da porta da entrada. Quando ele entrou no quarto com uma nítida sensação de triunfo, ela perguntou-lhe se a odisseia das malas já estava acabada, e ele fez oscilar a mão direita aberta num gesto vago.
            - Falta acabar de fazer a última mala, mas acabo-a amanhã antes de sair de casa.
            E despiu-se e entrou na cama, já meio destroçado da ausência que iria sentir dela. Abraçaram-se e amaram-se em ânsias como se cada carícia, cada incursão da língua e da boca, cada roçar e roçagar da pele e dos membros pudesse anular a separação que se aproximava e esvaziá-la de sentido e de realidade, como um momento suspenso sobre a eternidade ou um lugar capturado na retina durante uma longa viagem. Mas o tempo passou sobre os dois e sobre as suas paisagens íntimas, e no remanso das horas seguiu a vigília insone de Tonino que cruzou a noite a pensar nos acasos e nos acidentes da sua vida, com o rosto adormecido de Isabel pousado no seu peito, um rosto de uma dolorosa beleza e paz emoldurado pelas ondas e volutas dos cabelos desalinhados.
            Na manhã da partida, Tonino correu o fecho da última mala enquanto Isabel preparava o pequeno-almoço para os dois. Juntou-a às outras no vestíbulo do apartamento e juntou-se a ela, instalando-se num dos bancos altos do balcão da cozinha. As torradas estavam demasiado queimadas e o tampo do fogão sujo do leite que extravasara da cafeteira – esse era um dos cenários comuns na cozinha da sua vida conjunta.
            - Levas tudo o que precisas? – perguntou-lhe ela enquanto raspava o carvão da superfície enegrecida de uma torrada.
            - Julgo que sim...pelo menos, as cruciais. Deveria ter começado a fazer as malas mais cedo porque ficaram algumas imagens e sons a que tive de abdicar e que poderia ter reavivado, como a aldeia da infância, a mole escura dos edifícios do seminário ou o brilho de Hefesto dos maçaricos na armação metálica dos barcos no estaleiro. Mas fiz o que consegui e estou tranquilo…
            - E a última mala? O que é que puseste nela esta manhã? Alguma coisa minha como um aroma, uma ideia ou a sensação de uma carícia?
            - Não, nada teu, claro que não! E isto porque eu nunca te deixo para trás e viajas comigo como se estivesses lá, de corpo e alma.
            Ela sorriu abertamente, afagando-lhe o rosto com as mãos abertas.
            - A lisonja beneficia o adulador, meu tesouro, embora eu desconfie sempre um pouco dessas tuas respostas convictas e enérgicas.
            Ela levantou-se do banco, aninhou-se entre as suas pernas fletidas e abraçou-o com força. Enquanto a sustinha junto ao seu corpo, Tonino pensava na última coisa que guardara na bagagem – Isabel e a expressão de Isabel enquanto dormia com a cabeça no seu peito. De certa forma, era uma imagem desajustada, sacrílega, como se arrancassem um objeto sagrado do templo onde se encontrava para a levarem para longe.
            O fim daquele abraço desatou o nó das suas vidas, como um Fio de Ariadne sem préstimo, inoperante para qualquer tipo de regresso.

            A viagem era apenas de ida.


Uma verdade evidente e, a um tempo mesmo, ignorada e desprezada: A AMIZADE, É UMA FORMA DE GOSTAR.
Não se diz: gosto daquela pessoa! Sinto-me bem na sua presença! Nutro-me tranquilamente das palavras na sua boca, dos seu riso ou da sua melancolia, do aprumo ou desleixo que a carateriza. Diz-se em vez disso: sou amigo de fulano ou sicrana, como se essa afirmação traduzisse um estatuto exterior a nós, desligado do que somos e sentimos, tão inútil como os dígitos de um cartão de desconto de uma loja de confeções, ou a mancha castanho-prateado na superfície externa do vidro da janela do nosso escritório que assinala o ponto de colisão de um inseto cego. A AMIZADE É UMA FORMA DE GOSTAR, e quando chamamos amigo a alguém, e quando de amizade se trata sem sarcasmos nem toxicidades, aprendamos a reconhecer a musicalidade e a riqueza da palavra, e de como ela possui fundas raízes em nós e se arvora acima do labirinto dos dias vãos em frutos que nos alimentam e nos tornam um pouco melhor do que nada. A amizade também nos ensina a GOSTAR um pouco mais de nós, quando isso é possível, mesmo de uma forma pálida e atenuada, e ainda assim, excessiva.

O silêncio magoado de Dramra Rion

Dramra Rion é uma jovem, e porque é jovem reúne os atributos razoáveis para alguém que seja jovem, a pele lisa e bem irrigada pelo sangue, o espírito generoso e cândido de quem ainda não se encerrou dentro da carapaça áspera do cinismo e do desdém, Dramra gosta de se levantar de manhã à hora em que o sono claudica, levanta-se quando quer e come quando tem fome, vive do lado de fora das janelas como se o mundo fosse o seu quarto. Não gosta de pessoas mal encaradas, e também não suporta o excesso de maquilhagem que fabrica um rosto artificioso sem contato com a realidade, Dramra junta folhas secas de Outono que enterra perto das raízes das árvores porque lhes pertenciam, e tem uma paciência infinita por bichos, varejas, lagartas, cães vadios e gatos sobranceiros, e detenho-me por aqui para não encher muito o texto de coisas pegajosas e peludas e com veneno.. Quando Dramra Rion chega a qualquer lado, é forçoso que lhe prestem atenção porque também ela enche muito os espaços com a sua boa disposição e a natureza freática das suas palavras, elas, as suas palavras, tem algo de paciente e profundo, chegam discretamente, apenas humedecendo os pés da gente desatenta, e quando alguém se apercebe, as palavras de Dramra já encheram açudes, moveram noras, e desceram pelos espíritos como um regato novo a correr da montanha para a planície e a desdobrar-se pelas pedras e sulcos das encostas. Mas o silêncio de Dramra  também é uma coisa digna de se presenciar, o seu silêncio é sempre diferente, aparece e reaparece com roupagens novas, mascara-se, encara-se, pinta-se de ocre e de sangue como os bisontes de Lascaux e vemos através delas que por baixo da superfície se metamorfoseia de igual forma e que as raízes do seu silêncio devem despontar muito fundo e muito longe, talvez do outro lado do tempo. Falei de Dramra e e falei do silêncio, e deveria explicar porque é que o seu silêncio é um silêncio magoado, mas não o posso fazer aqui porque teria de esmiuçar as razões que Dramra Rion, invoca para não falar comigo que a inventei, e falar disso seria uma devassa, minha e dela, e só agravaria o seu amuo de Eva temperamental.

Babelicus em português, versão 2

A ESTALAGEM, conto um pouco gótico escrito para o e-zine Babelicus.

Outros caminhantes da torre: Ana Carvalhosa, Angela Schnoor, Eduardo Oliveira Freire, João Ventura, Samir Karimo e Vitor Leite


handicap

     Conheço muitas pessoas que possuem um handicap qualquer (perdoem-me o duplo estrangeirismo, mas pensarei nalguma forma de expiação, soft). Não digo todas as pessoas, porque isso seria generalizar demasiado, e por isso vou particularizar apenas o meu caso. O meu único handicap (outra vez!), ou o que eu pensava ser um, era não conseguir entrar numa divisão qualquer e ver um quadro torto, noventa e nove por cento das vezes tinha de lá ir discretamente com um dedo e endireitá-lo para me sentir mais tranquilo; e isso já me causou alguns dissabores. Num café em Torres Vedras que exibia nas paredes dezenas de fotografias emolduradas, todas inclinadas, fiz um sprint para as endireitar que mereceu a reprimenda da dona do café, sobretudo por andar a saltar de mesa em mesa. Uns meses mais tarde, a coisa meteu mesmo a polícia, isto porque no Museu Nacional de Arte Antiga tentei fazer o mesmo a um único pobre quadro solitário descaído para o lado direito, aquilo fez disparar o alarme e o resto já adivinharam, pensaram que eu queria roubá-lo, e enquanto tentavam que eu confessasse torturaram-me com a exibição de um vídeo psiquicamente violento do nosso presidente a dançar o vira do Minho. Foi traumático e continuo em terapia devido a isso. Mas apesar de tudo, os polícias até foram simpáticos, e um deles explicou-me com muita paciência que eu tinha aquela obsessão pelos quadros tortos porque o meu eixo de gravidade une a minha rótula do pé esquerdo a um ponto indeterminado a dois palmos de distância do meu ombro direito; e eu, apesar de atribuir algum mérito à sua dedução, e mesmo com os neurónios semi-liquefeitos pela trepidante primavera marcelista, consegui argumentar que se isso fosse verdade eu "veria" os quadros inclinados sempre para o mesmo lado, o que não acontecia, e o mesmo polícia, que deve andar a tirar um doutoramento em Dialética, contra-argumentou que as exceções no desalinho do quadro sucediam nas vezes em que eu inclinava instintivamente o corpo para o lado oposto por temer perder o equilíbrio e desabar no chão como uma árvore serrada por um madeireiro. Não discuti mais, mas posso assegurar que nunca mais tentei endireitar os quadros tortos das paredes, feito alcançado à custa de alguma desvalorização social porque agora, de cada vez que descubro um quadro torto, balanço-me para um lado e para o outro como uma agulha de metrónomo até descobrir a inclinação do corpo que faz o quadro parecer direito. Tenho de admitir que talvez isso não seja muito grave, socialmente falando, se tivermos em conta que já alvoracei um café a saltar de mesa em mesa, e que já fui arrastado pelas salas de um museu por seguranças que exibiam sorrisos primaveris a condizer com os smiles que traziam colados no crachá. E estou aqui ainda a pensar, ou a esticar o lençol - ter o corpo inclinado (ou um eixo de gravidade particular e não-newtoniano) tem as suas vantagens (só penso nas vantagens para não me sentir deprimido). Se eu estiver a disputar uma corrida e chegar à meta colado a outro adversário, posso cruzar primeiro a linha de chegada se correr um pouco de lado com o ombro esquerdo em feitio de aspas, enquanto finjo que estou a acenar para a minha tia Alda que me veio ver, sentada nas bancadas. Esta minha desvantagem também pode ser útil para arrombar portas com o ombro, caso eu me torne polícia e vá parar a alguma esquadra que desconheça os aríetes de aço, ou me esqueça da chave de casa ou esteja demasiado ébrio para conciliar a chave de casa com o buraco da fechadura, ou ser polícia e acontecer tudo o mais e eu não querer pedir a ajuda de um gatuno para ele não saber onde eu moro. Quando passo nas portas, porque são quase sempre muito estreitas, eu inclino-me sempre um pouco para não dar nenhuma coquinada ou cabeçada em alguma das ombreiras, e isso poderia ser considerado uma desvantagem mas em geral, as pessoas, quando eu inicio aquela manobra graciosa pensam sempre que eu estou a ensaiar algum passo de dança, e já houve uma colega de trabalho que me perguntou se eu tinha aulas de salsa, o que é agradável de ouvir, ainda que umas semanas mais tarde essa mesma colega tivesse abandonado o meu apartamento por se queixar que eu ocupava literalmente toda a cama de casal e não haver dança no mundo que compensasse isso. Uma última vantagem que me lembro agora, e pensando sempre no lado positivo das coisas (novos rumos, novas caras e novas oportunidades) é que eu, tendo um carrito comercial de dois lugares, tive de optar por mudanças automáticas e pedais adaptados porque, para o conseguir conduzir, tenho de me sentar no banco do pendura e manobrar o volante no lado dito do condutor, o que desencoraja qualquer um de me pedir boleia, o que me poupa a inventar desculpas manhosas ou fingir que sofro de bloqueio auricular. Pensando melhor, o que eu pensava que era um handicap não o era e o handicap que existia em vez desse também não o é verdadeiramente, e se alguma vez competirem comigo numa corrida, sejam educados e acenem também à minha tia Alda que acompanha sempre as minha provas, aonde quer que eu vá.


AveRARA


     Na vida tudo parte sem aviso, a esperança, a juventude, a luz dos olhos, a fé, a vida mesmo. Eugénia sabia disso e vivia avisada e precavida, com a sua arara falante guardada na gaiola asseada e fechada a sete chaves. Para onde ia, Eugénia levava a sua ave, mantinha a gaiola e a voz da ave próximas da vista e do coração, e vibrava a sua alma ao som da voz dela como a alma das rezadeiras ao repicar das torres sineiras na hora do Terço. Em sua casa e era sua porque vivia, quase, sozinha, mandou deitar paredes abaixo e abrir clareiras no concreto escuro para que não tivesse de estar sempre a mudar a gaiola de lugar. De todos os lugares da casa via e ouvia a arara, rodando para ela de quando em vez a sua cabeça loura como um girassol coroado de pétalas douradas que buscasse o Sol que o inspirava. Se viajava para algum lugar, a voz e as plumas coloridas da arara viajavam consigo, e as pessoas acostumaram-se, quotidianizaram-se à arara, como quem assiste ao passeio em trela pelas ruas de cães e quimeras. Mas todos estranhavam que a arara falante não falasse, da passagem dentre o seu bico não saíam vozes de aves ou imitações de pessoas, ela era muda, dançarina mas sisuda, um passaroco triste e mudo de penas a descolorirem-se. E por fim, numa das suas saídas, alguém se arremedou de coragem para lhe falar nisso, e confidenciou a Eugénia – mulher, a tua arara está a morrer de tristeza, ela perdeu a voz e até os movimentos do seu corpo parecem o balançar de uma carpideira! - Eugénia não quis, não queria acreditar, gente tacanha e insensível que não conseguia perceber a beleza dos cânticos da sua arara colorada! Voltou para casa com a arara, mas a dúvida foi com ela, aninhada no seu peito, raspando com o bico na face interna do ovo, a querer nascer. A vida não voltou a restar igual. Talvez os seus cânticos e vozearia estivessem um pouco menos alegres, admitia agora, talvez as penas não tivessem o viço de outra hora, principalmente agora que a arara já não voava, deitada sempre a dormir no chão exíguo da gaiola. Colocou-a na janela aberta para se alegrar e para absorver a luz prismática do sol, reunida nas cores das suas penas, e enquanto ela ali estava, Eugénia ficava sempre de vigia, de sentinela contra os gatos e os invejosos, estes mais matreiros e perigosos do que aqueles. Mas o cuidado recompensou porque a medida pareceu resultar, a arara deitada a dormir voltou a cantar com alegria. Cantava a sonhar como há pessoas que falam enquanto dormem. Deviam ser felizes os seus sonhos, porque a sua voz vibrante enchia a casa e auxiliava a luz do exterior a alcançar os recantos mais sombrios e bolorentos da casa. Mas a dúvida permanecia dentro de Eugénia, semente teimosa. Talvez a sua arara não fosse mesmo feliz e por isso sonhasse tanto. Devia haver florestas frondosas nos seus sonhos, ou pelo menos, bosques copados com outras aves e araras cantarolantes. Talvez devesse soltá-la, acabou por concluir de si para si, triste com o sono arredio da ave. Por fim, e com uma lágrima teimosa na face, transportou a gaiola para a janela do sótão, abriu a portinhola da gaiola mas a arara não voou. Encolheu os ombros e inclinou a gaiola até a arara sair em voo picado sobre o jardim da casa. Amainado o sofrimento de Eugénia pela alegria que a arara buscava com o seu voo colorido, a dona sentiu uma sorte de felicidade tranquila. Depositou a gaiola vazia a um canto da sala, porque a gaiola já não tinha qualquer utilidade. A casa da arara era agora o mundo no exterior, e conseguia ouvir o seu canto dissipado entre o chilrear dos pardais e melros, e as cores das suas penas cruzavam em voo a moldura das janelas no ondular das rosas e açucenas do jardim.


Partida


     Sentou-se ao seu lado no lugar vazio do banco do comboio. Ela levantou os olhos por um segundo e foi tudo o que se atreveu a fazer, esfregando nervosamente as mãos. Ele aquietou a tremura das suas mãos, pousando sobre elas a sua mão serena, grande e serena como uma casa segura. Olharam-se, agora sem pavor nem pensamentos grandes de mais para eles, estavam juntos, finalmente estavam juntos e partiam em direção ao desconhecido, ele trouxera a pequena mala com algumas roupas e alguns artigos de higiene, e a sua amante provera-se de elementos semelhantes usando para o efeito um saco de ginástica casual. Ela sentiu o desejo de falar, mas a sua garganta permaneceu silenciosa e árida. Podia, podiam, falar de quem tinham deixado para trás, das suas vidas anteriores, dos casamentos, dos filhos e das casas. Podiam falar disso como coisas pretéritas, mas sabiam que isso era escusado e doloroso. Beijaram-se, sofridamente, e enroscaram os seus torsos e membros como barcos adernados a um cais. Seguiram ao compasso cardíaco e metálico das rodas nos carris, a buscar a dissolução e a felicidade na distância crescente do passado de agora.

A dignidade do trabalho

Esperou que amanhecesse, na fragilidade trémula da sua velhice. Tinha de sair de casa, mas sentia-se cansado e por isso resignou-se a esperar que a manhã rompesse na esperança de se sentir então com um pouco mais de forças. Sentou-se no chão, encostado ao verso da porta da rua, a armadura já vestida sobre o corpo de pele empergaminhada e o elmo e a gadanha pousados ao seu lado no chão. Ao fim de umas horas ouviu por fim a passarada e a passárgada nas copas das árvores, e admirou um feixe de luz dourada que se alongou junto a si através do vidro da janela ogival. Suspirou de resignação e ergueu-se sobre as colunas anciãs das suas pernas com um esforço titânico e saiu para a rua. O seu cavalo de olhos amarelos como esponjas salientes escoicinhou de impaciência quando o viu, ajaezado com sela púrpura e uma cota metálica tinta de sangue. Mesmo em esforço, e ainda exausto, a Morte montou na sua montada maldita, reiniciando o labor incessante e eterno a que estava condenado.


enganos

Anda metade do mundo a enganar a outra metade. É o que se ouve por toda a parte. Mas qual é a metade em que nós nos posicionamos? A metade dos tolos e ingénuos, dos crédulos e dos sonhadores? Ou a outra metade que também é a metade de si? Os que são enganados não enganam? e os que são burlados não procuram tirar a desforra numa mentira ou logro comezinho, inventado apenas para sossegar a ira e a frustração? Somos enganados todos os dias e todos os dias enganamos. Apertamos calorosamente a mão a quem desejaríamos apertar o pescoço ou, num registo mais suave, apertar o nó da gravata de sisal em redor do seu pescoço. E debitamos mentiras atrás de mentiras, likes&spikes, sorrisos de máscara de gel sobre caveiras podres, ocas palavras talhadas no fel e no espato da nossa ignomínia íntima. E quando a conversa escala ao sentimento, o engano torna-se exponencial. Amas-me? pergunta ela ou ele como se a negativa fosse possível. Vais ter saudades minhas? Gostaste dos meus amigos? Ainda sentes desejo por mim? E ele ou ela dá pulinhos de excitação na ansiedade de dizer o que esperam ouvir de si, e o coração longe, ao largo, ancorado na púbis ou nos lábios de outra mulher, sonhando lençóis distantes sob a prata da Lua, sorrindo com um sorriso mais vivo, um desejo mais poderoso, uma saudade que ata nós na garganta e tece seda nas palavras caladas no peito.

Anda metade do mundo a enganar a outra metade e todo o mundo a enganar-se a si mesmo.

Imagem "roubada" ao jornal «Público»


Bilhete de despedida de Mário de Sá-Carneiro, dirigido a Fernando Pessoa:

Um grande, grande 
adeus do teu pobre 
Mário de Sá Carneiro
________
Paris, 26 Abril de 1916


Alcheringa

- Sabes dizer-me alguma coisa do Tempo do Sonho? – perguntou o jovem ao ancião – ele existiu, como dizem, na Primeira Idade do mundo ou será alcançado por nós quando os tempos acabarem?

O ancião de olhos baços olhou uma vez mais a autoestrada rasgada num campo de cravos rubros e desfez o silêncio com palavras distantes:


- O Tempo do Sonho não se encontra no princípio nem no fim do mundo, ele acompanha o nosso caminho, sepultado sob os nossos passos. 


Tonino Guerra


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     Por três vias diferentes (email) fui visado numa corrente simpática de citação de textos literários preferidos. Não sigo correntes, sou um junco (um junco pensante, como no Pensamento de Pascal) no meio delas. Ainda assim, e por deferência para com as pessoas que me enviaram o mail, deixo aqui uma citação, na margem (pelo poema, e porque foi uma das coisas que me vieram à mente quando soube da morte de Gabriel García Márquez).





Canto Noveno
A Gabriel Garcia Márquez

Habrá llovido unos cien dias y el agua se metió
tras las raices de la hierba
y llegó a la biblioteca y mojó las palabras santas
que estaban encerradas en el convento.

Cuando salió el sol,
Sajat-Novà quien era el fraile más joven
subió con la escalera todos los libros a los techos
y los abrió al sol para que el aire caliente
secara el papel mojado.

Pasó un mes de buen tiempo
y el fraile estaba de rodillas en el patio
a la espera de que los libros dieran una señal de vida.
Y por fin una manãna las páginas empezaron
a crujir ligeras en la brisa del viento,
parecia que habían llegado las abejas a los techos
y él se puso a llorar porque los libros hablaban.


(Tonino Guerra, La Miel - poema, traducción de Stefano Strazzabosco, Edicones sin nombre, México, 2004)


Abril de 1918 - o caminho para uma Primavera de sangue


     O Portugal do alvor do século XX, o Portugal da implantação da República e da entrada na Guerra, é um país retalhado por diversas clivagens políticas e sociais, e cuja massa populacional é maioritariamente analfabeta (segundo os resultados do Censo de 1911) e consagrada ao trabalho nos campos, e a emigração cresce de ano para ano.

     A guerra efetiva contra a Alemanha começa, não nos campos da Flandres, mas no continente africano, no rio Rovuma, fronteira norte de Moçambique, e no sul de Angola, iniciada com os ataques alemães de 24 de Agosto de 1914 ao posto moçambicano de Maziua, e de 19 de Outubro de 1914 a Naulila, na fronteira de Angola, e a 30 do mesmo mês, ao forte de Cuangar e aos postos de Sâmbio, Bunja e Dirico, também em Angola. São enviadas de Portugal forças expedicionárias para as duas costas africanas sob as ordens do tenente-coronel Alves Roçadas (para Angola, com 1477 soldados) e do tenente-coronel Massano de Amorim, que contava com 1525 homens, destacamentos mistos de Artilharia de Montanha, Infantaria, Cavalaria e Metralhadoras, destacamentos que foram avaliados como contendo ridículos efectivos (palavras do Tenente-coronel Eduardo Barbosa na Revista Militar, Ano LXXI, n.º 4, Abril de 1919), insuficientes para debelar a ofensiva das forças alemãs nessas zonas de África. Outros contingentes rumarão a África até ao final da guerra até perfazerem em 1918, 89.264 portugueses, somando-se a estes números os 16.278 das ditas praças indígenas (segundo Henrique Manuel GOMES DA CRUZ na sua tese de mestrado em História Contemporânea: Portugal na Grande Guerra: a construção do «mito» de La Lys na imprensa escrita entre 1918 e 1940, FCSH - Universidade Nova de Lisboa, Março de 2014). A mesma Revista Militar, nesse ano de 1919, historia e faz o balanço desse conflito africano de portugueses e ingleses contra os alemães, que se arrastaria até 1918 como a guerra na Europa e se saldaria em cerca de 5.600 mortos e um número dilatado de feridos e desaparecidos. Uma prova eloquente dessas baixas portugueses em África, são dois cadernos do Arquivo da Secretaria Geral do Ministério das Finanças, onde estão listados os nomes dos soldados portugueses mortos na Grande Guerra com o fito de se atribuir uma pensão de sangue aos herdeiros. Ao folhearmos essas páginas com os soldados mortos na Guerra, vemos que no local onde tombaram, a Campanha em África rivaliza com a Campanha em França.


[Leitura complementar: Naulila, de Augusto Casimiro, Seara Nova, Lisboa, 1922]

Militares portugueses a atravessar o rio Rovuma numa jangada
(Revista Militar, Ano LXXI, Números 6 e 7, Junho e Julho de 1919, página 343)

     Todos conhecemos dos livros de História os motivos imediatos da declaração de guerra da Alemanha a Portugal: Portugal requisita os navios alemães estacionados em portos portugueses (Decreto n.º 2.229 de 24 de Fevereiro de 1916), que terá como reacção a Declaração de Guerra da Alemanha a Portugal em 9 de Março de 1916. Mas a entrada de Portugal na Grande Guerra persegue não só objetivos externos, de política internacional, mas também objetivos internos - consolidação do novel regime e superação das profundas divisões políticas sob o pretexto do combate a um inimigo comum. Se a política intervencionista era partilhada pelo Partido Democrático, pelo Partido Socialista e pelos Partido Evolucionista de António José de Almeida, o anti-intervencionismo era defendido pelos monárquicos, unionistas, grande parte do anarco-sindicalismo, e uma facção crescente dentro do próprio Partido Democrático, de onde nascerá o golpe de Sidónio Pais.


     Teixeira de Pascoaes reagiu na Águia contra esse extremo partidarismo da vida política portuguesa: O português ou ama a República ou a Monarquia. Se é republicano é francófilo; se é monárquico é germanófilo, com algumas honrosas exceções. O português é profunda e lastimavelmente partidarista. Trocou os Lusíadas e a Bíblia pelo Século e pela Carta... Não há portugueses. Há políticos. Vale mais para nós o predomínio do nosso partido do que a honra e independência da Pátria. Se a vitória da Alemanha assegurasse as instituições republicanas não haveria um republicano que fosse francófilo. Se a vitória da França restaurasse a Monarquia, entre os monárquicos não haveria um germanófilo. Não há portugueses. Há políticos. A nossa terra é um cenário de acaso, onde se representam egoísmos, falcatruas, misérias... Portugal não existe; existem partidos... (citado por Augusto CASIMIRO (capitão) em Nas trincheiras da Flandres, edição da Renascença Portuguesa, Porto, 1918)


     Movidos pela dupla frente da oposição interna e do xadrez político internacional, os republicanos no poder forçaram a entrada do país na guerra. Escreve Nuno Severiano Teixeira: Fragilidade política do regime, no plano interno, e fragilidade internacional do país, no plano externo: ameaçado pela Alemanha nas colónias; ameaçado pela Espanha, na Península; e consciente da transigência de Inglaterra, a sua fiel aliada e garante da sua soberania, em relação à Alemanha e em relação à Espanha. Situação mais grave e crise mais profunda é difícil de imaginar: não estava só em causa a sobrevivência do regime; mais do que isso, estava em causa a soberania do Estado. A decisão da intervenção de Portugal na guerra europeia faz-se, pois, segundo uma estratégia intervencionista, isto é, uma estratégia diplomática que forçou, deliberadamente, a entrada em guerra. Uma estratégia que, aproveitando uma conjuntura internacional favorável, obrigou a Inglaterra, contra a sua própria vontade e quiçá contra o seu próprio interesse, a aceitar a entrada de Portugal na Grande Guerra (Teixeira, Nuno Severiano, PORTUGAL E A GRANDE GUERRA: ENTRE A MEMÓRIA DO PASSADO E OS DESAFIOS DO FUTURO, comunicação feita no colóquio Portugal e a I Guerra Mundial (1914-1918) realizado na Sala do Senado da Assembleia da República em Lisboa, a 7 de Outubro de 2014).


     O discurso "oficial" difundia a ideia de que a entrada na guerra no ano de 1916 se destinava a proteger as nossas colónias em África, onde lutávamos contra os alemães desde 1914. Mas mesmo na época essa explicação não era aceite sem reservas. Escreve nas suas memórias o alferes António Joaquim Henriques: Justo é dizer que Portugal foi para esta guerra sem preparação moral e que muitos não viam explicação suficiente para nela tomarmos parte, a começar pelos partidos políticos (...) Antes de marcharem houve até casos em Santarém e Figueira da Foz nos regimentos de infantaria que ali se encontravam aquartelados, que eram respectivamente os nº 34 e nº 28, que deram origem ao castigo de alguns oficiais e sargentos. E não se podia dizer que foi por cobardia que estes graduados tiveram tal atitude. Era apenas por entenderem que a nossa intervenção não tinha razão de ser em França, mas em África, nem para ela estávamos preparados (in  Revista Militar, edição 2561/2562).


    À declaração de guerra da Alemanha, segue-se a atabalhoada mobilização, e a preparação das tropas (sobretudo em Tancos) com vista ao envio do primeiro contingente para França. O discurso oficial falará do "milagre de Tancos" (na Ilustração Portuguesa e no Diário de Notícias), mas era notório que as tropas saíram de Portugal mal preparadas. É o que nos contam as Impressões do capitão Menezes Ferreira: Depois de ter suportado as soalheiras de "Paulôna", esse inolvidável acampamento de Tancos, besuntado ligeiramente de um treino guerreiro muito rudimentar - ora vai hoje, ora vai amanhã - lá foi chamado enfim para o embarque naquele áspero Inverno de 1917! Quantas hesitações. quanto comodismo, quantas contrariedades a vencer! E o pior de tudo era que os compromissos tinham sido tomados em nome da nação [Capitão Menezes FERREIRA (texto e desenhos), João Ninguém, soldado da Grande Guerra, composto e impresso nas Oficinas dos Serviços Gráficos do Exército em 1921] .

 
Dos campos para os quartéis
(Ilustração Portugueza, Edição semanal do jornal O SÉCULO, II Série, n.º 528, 3 de Abril de 1916)
Infantaria 7 (de Leiria) - Exercícios de tiro na charneca da Chamusca (Ilustração Portugueza, idem)

Manobras da artilharia em Tancos (Portugal na Guerra - revista quinzenal ilustrada, n.º 2, Paris, 15 de Junho de 1917)

     A 1.ª Brigada do Corpo Expedicionário Português (C.E.P.) parte do cais de Alcântara a 26 de Janeiro de 1917 a bordo de três vapores britânicos, sob o comando do general Gomes da Costa; e desembarcam em Brest. 

     ...foi curta a demora na cidade. Apenas o tempo de se encher os cantis e de atulhar os bornais com as rações de corned-beef, foram nessa mesma noite amontoados como sardinha em canastra pelo míseros «vagons J» (40 homens e 8 cavalos) onde "João Ninguém", meio aturdido e desconfiado, demonstra a evidência com o seu ar bisonho e o seu negro olhar, onde transparece o sentimentalismo lamuriento de uma raça de contemplativos (...) E assim, posto o comboio em andamento, afogadas as mágoas na aguardente da ração, já meio conformados e embrulhados no fatalismo que lhe vem da sua raça. lá se deixam conduzir, os soldados portugueses, para muito longe da sua terra, não sabendo bem para onde, e muitos deles talvez para nunca mais voltar (capitão Menezes Ferreira, op. cit.).



Embarque do Corpo Expedicionário Português
(fotografia de Joshua Benoliel)
(Ilustração Portugueza, Edição semanal do jornal O SÉCULO, II Série, n.º 582, 16 de Abril de 1917 - capa)


(Ilustração Portugueza, Edição semanal do jornal O SÉCULO, II Série, n.º 578, 19 de Março de 1917)

      Tomam o caminho do sul da Flandres, onde integraram as linhas britânicas segundo os termos da Convenção Luso-Britânica. A viagem para França será assinalada pelos primeiros incidentes disciplinares (e consequente punição) entre as tropas portuguesas, primeiros sintomas de um mal-estar e um desagrado no seio dos militares (praças e oficiais) que as duras condições da frente (o frio, a fome e os bombardeamentos e raids) irão agravar progressivamente. Os Boletins Individuais dos militares, guardados no Arquivo Histórico Militar, fazem transparecer esse ambiente, e estão pontuados nas Observações por punições disciplinares por desobediência ou altercações, e licenças gozadas para além do termo concedido.

     Jaime Cortesão, nas suas Memórias, explica o posicionamento no terreno das nossas forças: Estende-se a gente portuguesa por uma faixa do país mais ou menos limitável dentro de um grande triângulo isósceles. O vértice, que entesta com a nossa linha de batalha, longa de alguns quilómetros (12, com a entrada da 2.ª divisão, medeia entre Armentières, ao norte, e Bethune, ao sul; e a base, larga de 60 quilómetros, é a própria costa marítima, banhada do Mar da Mancha. Fecham-no duas linhas que, do vértice, vão terminar, uma em Calais, ao norte, outra em Etaples, a sul (...) São primeiro as tropas de infantaria ocupando as trincheiras e os apoios desde Fleurbaix a Festubert, passando pela Rur de Bois, Fanquissart, Neuve-Chapelle, Ferme du Bois. Segue-se-lhe logo a artilharia de campanha, e depois os quartéis de Brigada e as ambulãncias da frente, estes últimos gozando já um princípio de conforto. Vem depois, por Lestrem e Lagorgue os quartéis generais de Divisão com as suas muitas e variadas secções: Estado Maior, comandos de engenharia e artilharia, chefia dos serviços de saúdem serviços administrativos, serviços postais, etc, etc. (...) Logo após algumas escolas, oficinas e depósitos distribuídos por localidades de somenos importância. Agora Merville com o seu hospital de sangue n.º 1. Depois Saint-Venant, quartel-general do C.E.P., com a aristocracia dos galões. 

(Cortesão. Jaime, Memórias da Grande Guerra (1916-1919) edição da Renascença Portuguesa, Porto, 1919)

     O C.E.P. em França, e tendo como modelo a estrutura do exército inglês, ficou organizado em duas Divisões, cada uma delas comportando três Brigadas com quatro Batalhões de Infantaria. Quase todos os soldados do distrito de Leiria compunham inicialmente o Batalhão de Infantaria n.º 7, da 2.ª Brigada da 1.ª Divisão. O Infantaria 7 foi um dos três Batalhões envolvidos em motins das tropas portuguesas ocorridos em 4 de Abril de 1918 em Ferme du Bois. As outras unidades envolvidas foram o Batalhão de Infantaria 24 de Aveiro e o Batalhão de Infantaria 23, de Coimbra


     As condições de vida na frente, o desgaste do inferno das trincheiras, pode ser visto através das palavras de Jaime Cortesão ou Augusto Casimiro, Menezes Ferreira ou António Joaquim Henriques. Narra o primeiro:

     Um sistema de fossos rasga o chão até à altura de um homem e sucede-se em três linhas paralelas, ziguezagueando e entreunindo-se até aos parapeitos sobre a "terra-de-ninguém". Nestes fossos abriram-se lateralmente algumas cavernas, espécie de silos escuros para vegetar. As granadas e a chuva, aqui e ali revolvem, abrem, obstroem encharcam em lama e água. Todavia, nesses fossos e cavernas, sujos e viscosos, alguns homens habitam. 

     Tudo ali é lodo e miséria. A esperança da vida assenta apenas sobre o acaso. E a inquietação devora o peito nas horas lentas. 
     Estes homens, que vivem de um modo nunca visto, ganharam com o tempo uma fisionomia especial, tanto mais acusada, quanto mais próxima do inimigo. Era inevitável (...) A imobilidade e frescura especial do rosto, que dão a mocidade e a vida calma, secaram, murcharam inteiramente. 
     Há crianças com caras de velhos.
     A esta transformação dos rostos, corresponde uma outra mais profunda nas almas (...) Moços de 20 anos possuem a sabedoria de séculos.
     Quando se anda pela primeira linha, surdem a espaços, dos buracos do chão, rastejando e erguendo-se a custo, ou circulando nos traveses, uns espetros lamacentos.
     Às vezes esses fantasmas mostram os dentes num riso sinistro e olham com certos olhos implacáveis, como quem doutro planeta com mais aguda vista considerasse as baixezas e os erros dos humanos.
    No seu conjunto esta faixa estreita das trincheiras assemelha-se na hierarquia do risco ao conjunto do sector. Todos os que habitam fossos e cavernas vivem ao pé da morte, no meio das balas e granadas, que são cegas. Mas os oficiais do estado maior do batalhão, incluindo os médicos e o comandante, são nas horas mais calmas, os menos expostos aos perigos. Igual sorte, a de todos os subalternos que os acompanham. Seguem-se todos os homens dos comandos da companhia. Chegam na escala máxima do risco e da miséria os pelotões, desde o alferes ao soldado.
(Jaime Cortesão, op. cit,).

Portugal na Guerra - revista quinzenal ilustrada, n.º 5, Paris, Outubro de 1917
Foto de Arnaldo Garcês (Portugal na Guerra - revista quinzenal ilustrada, n.º 5, Paris, Outubro de 1917)
Portugal na Guerra - revista quinzenal ilustrada, n.º 5, Paris, Outubro de 1917

     Com a chegada de Sidónio Pais ao poder, cessa o envio de novos contingentes de tropas para França, por vontade do caudilho (que alguns reputavam de germanófilo), mas também pela inexistência de transportes, uma vez que os vasos britânicos estavam agora dedicados ao transporte de tropas norte-americanas para o velho continente. No sector português os soldados não são rendidos por novas tropas, e subsistiam em condições físicas e psicológicas deploráveis, permanecendo nas trincheiras durante cinco meses a fio (capitão Augusto CASIMIRO, Nas trincheiras da Flandres, edição da Renascença Portuguesa, Porto, 1918). Disso se apercebem os britânicos, que organizam a sua retirada da frente de batalha e a sua substituição por batalhões ingleses. Nesse interim, e com todo o peso de uma monstruosa ironia, dá-se o desastre de La Lys.


     A 4 de Abril, o chefe militar da Alemanha, o general Erich von Rudendorff, com as suas forças reforçadas pelas tropas que trouxera da frente oriental depois dos soviéticos assinarem o Tratado de Brest-Litovksi, inicia uma nova ofensiva no Somme, que suspende no dia seguinte ante a sua incapacidade de conquistar Amiens perante a tenacidade dos Aliados. Uma nova estratégia ofensiva se impunha, e os alemães preparam-na rapidamente, cunhando-a com o nome de código de Operação Georgette.

     No dia 8 de Abril, às 20 horas, o Quartel-General português anuncia aos batalhões portugueses que no dia seguinte iriam ser rendidos por tropas inglesas e abandonariam por completo a linha da frente, notícia confirmada duas horas mais tarde ante a incredulidade dos militares esgotados - Os batalhões estão cansados, exaustos. As rendições sucessivas dos últimos dias, as promessas, as esperanças, as desilusões de um descanso que não chega, a visão próxima dos horrores de Março, o desprezo a que Portugal parece ter votado os seus homens, a ausência de reforços, o sofrimento e a saudade, trazem o moral das unidades diminuído e leso. Os efetivos andam reduzidíssimos. A nova rendição, apesar de inesperada, traz, pois, um alívio (Augusto Casimiro, id.). 

     Na noite de 8 para 9 de Abril, às 4.15. os alemães começam o bombardeamento, intenso e ininterrupto, toneladas de granadas de gás chovem sobre Armentières e o setor português - Gases...gases...E as casas tombam num desabar que prolonga explosões. Homens correm pelas passadeiras, ao longo dos canais que cercam as fermes. Outros esperam, brancos...E a tormenta redobra, tombam os muros e os telhados, caem, num massacre, os altos troncos que a névoa reveste...A terra estremece, agita-se e, num delírio horrível, deforma-se...Sob a névoa há horrores que a névoa mal esconde...Às 5 h. o Batalhão encontra-se isolado completamente (Augusto Casimiro, ibid.). Quatro Divisões alemãs sob as ordens do general von Quast atacam a Divisão portuguesa, conseguem romper a linha das trincheiras e atacam pelos flancos e pela retaguarda, anulando as bolsas de resistência, o heroísmo desesperado de vários militares é registado, preservado, nas memórias do poeta Augusto Casimiro. A batalha estava perdida - Tudo perdido, menos a honra! Cercados! E agora? Os oficiais teem lágrimas nos olhos. A guarnição desequipa-se. Rende-se. «Na frente e nos flancos da trincheira vencida os uniformes feld-grün amontoavam-se no chão». E os prisioneiros, dolorosos, desfilaram entre os mortos sem conta, altivos e senhores de si.

     No dia 9 de Abril, Jaime Cortesão já não se encontrava na primeira linha, convalescia no hospital de Saint-Venant dos efeitos do gás-mostarda que o torturavam desde 22 de Março. Às 10 da manhã dizem-lhe que os alemães haviam rompido as linhas portuguesas e adentravam-se pelo território. O hospital enche-se de feridos, de gente mutilada, de gaseados em convulsões. Conta-lhe um: Depois, ao vir da manhã, atacaram. Atacaram em massa, às ondas, sempre em ondas, numa catadupa de homens. Só muito perto os vimos surgir do nevoeiro espesso da manhã. De nós, os que ficamos, raros intactos, resistimos até à última. Houve cargas de baionetas, uma fúria! Tu sabes: a coisa que mais detesto são os falsos heróis. Mas ninguém, ninguém faria mais! E tu conheces como estávamos cansados...A seguir, abateram ou manietaram tudo à força de número. Vi junto de mim, ali ao pé, oficiais alemães, pistola em punho, atirando sobre os poucos que tentavam salvar-se. Eu próprio estive envolvido. Atirei sobre um. Resisti. Furtei-me. O nevoeiro, o fumo da pólvora, a poeira levantada no ar eram tão densos, que pude escapar com duas ordenanças. Todo o meu terror era cair prisioneiro. Antes morrer, morrer mil vezes!

     As detonações, e os alemães, aproximam-se de Saint-Venant, e os portugueses são evacuados. Cortesão e alguns camaradas, debilitados como ele, recuam, a pé, como podem, e conseguem chegar a Ambleteuse, em cujo hospital ficam a recuperar.

     A Batalha de La Lys é o cerrar do pano para o C.E.P. Os dados estatísticos são impressionantes: 398 mortos, 4626 feridos, 1932 desaparecidos e 6585 prisioneiros (os números divergem). Depois dessa data ainda há militares portugueses a combater em França, mas de uma forma quase espontânea, autónoma, reorganizam-se, juntam-se aos Aliados e perseguem a vitória final. Jaime Cortesão dá notícia de alguns desses grupos de soldados que lutam à revelia do Estado português, que não os vê com bons olhos, ele próprio, quando regressa, ainda convalescente, é olhado com suspeição e preso por razões políticas.


     Quando a guerra termina, a 11 de Novembro de 1918, os alemães ainda têm em seu poder 6767 prisioneiros portugueses que são libertados; 233 haviam já morrido em cativeiro. A forma como haviam sido tratados era, e continua a ser, de alguma forma, um tema delicado, incómodo, suprimido (como o desaire da Batalha de La Lys). Ainda que já existam publicados relatos, e cartas de prisioneiros portugueses, e se tenham realizado estudos sobre eles, como a oportuna tese de Maria José Monteiro de Oliveira.


[Leituras complementares:

Carlos OLAVO, Jornal d'um prisioneiro de guerra na Alemanha, Guimarães e C.ª Editores, Lisboa, 1919.
Tese de Maria José Monteiro de OLIVEIRA, Deste triste viver - Memórias dos prisioneiros de guerra portugueses na primeira Guerra Mundial, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, Setembro de 2011]


Prisioneiros portugueses em Karlsruhe
(Ilustração Portugueza, Edição semanal do jornal O SÉCULO, II Série, n.º 647, 15 de Julho de 1918)

Os nossos prisioneiros
 (Ilustração Portugueza, Edição semanal do jornal O SÉCULO, II Série, n.º 650, 5 de agosto de 1918)

Os nossos prisioneiros
 (Ilustração Portugueza, Edição semanal do jornal O SÉCULO, II Série, n.º 650, 5 de agosto de 1918)
O desembarque dos prisioneiros portugueses repatriados pelo Northwestern Miller
(Ilustração Portugueza, Edição semanal do jornal O SÉCULO, II Série, n.º 676, 3 de Fevereiro de 1919)
O desembarque dos prisioneiros portugueses repatriados pelo cruzador inglês Helenus
 (Ilustração Portugueza, Edição semanal do jornal O SÉCULO, II Série, n.º 677, 10 de Fevereiro de 1919)

Cemitério na Rue de Bois, onde repousa grande número de portugueses
 (Ilustração Portugueza, Edição semanal do jornal O SÉCULO, II Série, n.º 646, 8 de Julho de 1918)
O glorioso sono... (gravura de Menezes Ferreira)

Uma nota sobre as fontes:

- Os dados estatísticos sobre a Grande Guerra e a Batalha de La Lys baseiam-se na tese de mestrado em História Contemporânea, já referida, de Henrique Manuel Gomes da Cruz: Portugal na Grande Guerra: a construção do «mito» de La Lys na imprensa escrita entre 1918 e 1940, FCSH - Universidade Nova de Lisboa, Março de 2014. Outras estatísticas distintas podem ser encontradas nos trabalhos de Nuno Severiano Teixeira ou Maria José Monteiro de Oliveira.

- As narrativas primárias sobre a Grande Guerra (Cortesão, Augusto Casimiro, Menezes Ferreira,  António Joaquim Henriques) podem ser acedidas através da hiperligação contida no título. Estamos conscientes de que são descrições subjetivas, pessoais e literárias, do conflito, com todas as limitações e imperfeições que possam conter. Mas assumimos o risco. São experiências pessoais, escritas ou vividas debaixo de fogo, mais autênticas (julgo) do que algumas "leituras" modernas do que se passou e sofreu na Front.

- A Ilustração Portuguesa e o Portugal na Guerra podem ser acedidas através da Hemeroteca Digital da Câmara Municipal de Lisboa, onde se podem consultar outros títulos da época, como O SéculoA Capital, ou a República.

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...