Vida profícua

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Cena do filme Forrest Gump, de Robert Zemeckis (1994)

     Se beberes 2 litros de água por dia, não odiares ninguém e comeres muito alho, vais ter saúde e ser feliz!

     Releu o que escrevera, e apagou antes de fazer uma nova tentativa:

     Se mudares para um emprego que te mereça, deixares de pagar a pensão à tua ex-mulher e com esse dinheiro pagares a joia de incrição numa academia de ioga, as coisas vão ficar mais fáceis e a felicidade virá ao teu encontro!

     Não precisou de reler para perceber que não prestava, fechou a publicação do Facebook, não, não queria permanecer na página, fez Log out, e levantou-se da cadeira. A biblioteca da Penitenciária não tinha quase ninguém àquela hora, o que se ajustava à vontade permanente que sentia de não ver nem falar com ninguém, aproximou-se do vidro espesso entre ele e as grades da janela e olhou para fora, no canto superior direito ainda se descortinava uma nesga de solo com com montes escurecidos e algumas árvores despontando na linha do horizonte como espinhos de cardos. O céu encontrava-se escuro ensem detalhes. Odiou-se por sentir calor e comichão nas faces e odiou o mundo por existir e estar lá fora, e haver grades e vidros-torpedo entre eles, e gente, gente inúmera e sem fim a encher todos os recantos e escaninhos do mundo dentro e fora da prisão, detestava pessoas e só sentia fascínio e atração pelas suas entranhas viscosas e olorentas, sentou-se de novo diante do computador. Leonardo Mascarenhas (era esse o seu nome público) era uma pequena estrela em ascensão. A sua página de conselhos e ensinamentos contava já com trinta mil seguidores e no YouTube o mesmo sucesso repetia-se com uma adesão maciça de viewers aos seus vídeos repletos de beleza e sabedoria. Consolidara o seu nome e o seu prestígio com fotos editadas de terceiros, do Taj Mahal, dos dançarinos ropiantes sufis, de jardins de meditação de um templo budista. Como isso não parecesse suficiente, enriqueceu o seu espólio com montagens fotográficas dele e de personalidades famosas: o Dalai Lama, Lanza del Vasto, a taróloga Quirina do Barreiro, e o Papa Francisco. O seu eu, o alter-ego de imagem que usava, eram as fotos de um modelo masculino que pilhara de uma sessão fotográfica gravada no portal de uma marca de vestuário.

     Ouviu bater na porta da biblioteca, e soube que o iam buscar. O guarda prendeu-lhe primeiro os pulsos com umas algemas, e depois verificou se não estava lassa a máscara que lhe cobria a cara, assim como o estado do respiradouro perfurado que lhe protegia a boca, ou protegia os outros da sua boca de antropófago esfaimado e obsessivo. Quando o retiraram da divisão, os outros presos entreolharam-se, mais aliviados, enquanto nas extremidades algodoadas da teia de comunicação que ligava aquele lugar a todos os pontos do mundo, centenas de olhares apreensivos notavam que nenhum ensinamento de vida era transmitido há dois dias por Leonardo Mascarenhas, e as suas almas inquietas, desamparadas como a de órfãos recentes, divagam então pela Web, a tentar ultrapassar o seu desalento e o seu recatado e corrosivo desespero.


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