O perigo


     Saúl foi contratado para trabalhar como paquete no hotel, no dia que se seguiu ao início das aulas. Foi mesmo assim. Começou as aulas e nesse mesmo dia a mãe viu que não havia dinheiro para os estudos dele e, no regresso a casa, parou no Hotel Estrela a conversar com o porteiro, velho amigo de família. Quando Saúl chegou a casa, ainda eufórico da alegria enfunada do primeiro dia de aulas - de rever os colegas, e de passear pela cidade com eles, a deitar o olho a tudo o que fosse mulher e tivesse menos de setenta anos - a mãe comunicou-lhe que arranjara emprego para ele, e que começava logo na manhã seguinte, sem delongas. Para Saúl foi como um cataclismo, com a terra de promissão avistada do alto de uma colina, e logo a terra a abrir-se debaixo dos seus pés, e ele a cair direto num inferno a abarrotar de línguas de fogo e demónios chifrudos.
     Naquela noite, Saúl revoltou-se, mas sozinho. Chorou, soltou imprecações, esmurrou a almofada. De manhã, quando o pai lhe bateu à porta do quarto, estava deitado no chão ao lado da cama, e as lágrimas já lhe haviam secado nas faces, deixando aí a sua epiderme salgada. Vestiu-se e foi para o hotel.
     O trabalho, até nem se revelou muito mau. Trabalhava de paquete no átrio da receção, e também ajudava na entrada e saída dos ascensores, ou a pôr as mesas quando se aproximava a hora das refeições. Quando não havia mesmo nada para fazer, ia conversar um pouco com o porteiro, tendo o cuidado de regressar ao interior do hotel sempre que avistava no passeio algum dos seus amigos da escola. Não queria ser visto ali, naquele uniforme ridículo, e com aqueles sapatos negros e antiquados que brilhavam mais do que um corvo que tivesse caído numa barrica de melaço. Por vezes, o porteiro, tirava da gaveta de uma mesinha uma garrafa espalmada que lhe oferecia sempre para beber (recusando logo ele) antes de erguer o gargalo aos lábios e beber, sôfrego, como um velho que tivesse encontrado o elixir da longevidade. Os dias foram correndo, e Saúl começou a sentir curiosidade pela garrafa e pelo líquido no seu interior. À primeira vez que se atreveu, desenroscou a tampa e o cheiro da aguardente fê-lo recuar a cabeça, conseguindo com isso dar uma violenta nucada num bengaleiro alto da entrada. Ficou meio aturdido, enquanto o porteiro, entre risos e fazendo desaparecer a garrafa num passe de mágica antes que aparecesse alguém, e lhe segredou: Amanhã, trago uma só para ti!
     No dia seguinte, o porteiro saudou-o com uma interjeição inusitada, talvez a sugerir cumplicidade e trato afável entre dois velhos compinchas, e apontou-lhe uma outra gaveta, a gaveta central de um móvel de apoio no átrio do hotel - e Saúl soube que a garrafa estava ali. A meio da manhã, resgatou-a, envolvendo-a numa revista e levando-a à socapa para a casa-de-banho. Fechou-se numa das divisões, sentou-se em cima do tampo da sanita, e sondou aquela oferenda do porteiro. Desenroscou-a e o mesmo cheiro entrou-lhe pelo nariz adentro como se fosse amónia ou cianeto. Encheu-se de coragem e experimentou saborear um gole, e aquela bebida queimou-o por dentro a boca e a garganta, fazendo-o tossir de aflição. Recobrou a compostura e a respiração, e bebeu um segundo gole, que encaixou com mais facilidade. Depois de esvaziar metade da garrafa, o sabor e a força da bebida já he pareciam razoáveis, e mesmo o cheiro parecia ter o seu quê de agradável e familiar, como o odor do tabaco de charuto, ou os perfumes carregados em exagero de algumas damas que entravam no hotel na fugaz companhia de hóspedes comprometidos. Sentia as pernas fracas, como se fossem de borracha, e a flor-de-lis anil do rodapé da casa-de-banho parecia iridiscer-se como uma lança de brilhante lápis-lazúli. Bateram à porta, pancadas secas mas firmes, que lhe fizeram estremecer os neurónios.
     - Saúl!?
     Era o porteiro. Deitou a garrafa no balde dos papéis e só com esse gesto sentiu a cabeça a andar à roda.
     - Tens de sair daí, pá! Está lá uma dama carregada de malas para tu levares para cima.
     Saúl estremeceu. Abriu a torneira do lavatório e sujeitou àquele jato de água fria a parte da cabeça que conseguiu colocar entre o perlator da torneira e a louça de grés, depois, tomando uma porção de água nas mãos em concha, encharcou o resto do cabelo e a cara transpirada como se isso o pudesse arrancar daquele torpor etílico. Enxugou-se como pôde e, determinado, abriu a porta de rompante. O porteiro já se tinha eclipsado e ele tomou o caminho da receção, encontrando nas paredes o suporte que as pernas lhe negavam por inteiro. Mal o viu, o rececionista debitou uma ordem para o ar e apontou uma figura diante de si. Saúl percebeu que ele falara no 304, sabia que o 304 se situava no quinto piso do hotel, menos mal, ainda se recordava de algumas coisas - empilhou três malas num trólei prateado para malas, mantendo o olhar baixo para ninguém perceber o seu estado mas foi assim, de olhos rasos de medo de encontrar outros olhares perscutadores e inquisitoriais, que ele chegou aos pés da nova hóspede, e admirou uns maravilhosos sapatos pretos de cunha, e umas pernas perfeitas e torneadas envoltas em meias negras de seda. A mulher usava uma saia subida ou recuada (não sabia como por as coisas) que terminava menos de um palmo abaixo do V entre as pernas. Tentando ocultar a sua excitação, começou a puxar o trólei das malas com tanto ímpeto que aquela que estava por cima caiu de imediato, rolando pelo chão alcatifado. Foi a própria hóspede que a recuperou e colocou de novo no carrinho, soltando uma risadinha cristalina que fez esfumar as desconfianças do rececionista que se avolumavam no ar como uma nuvem de tempestade. Antes que o efeito positivo daquela reacção se desvanecesse, Saúl tomou de novo o caminho do elevador com o carro de malas, seguido pela hóspede. Entraram no elevador, com ele sempre a fugir com o olhar para os pontos do cubículo onde ela não estava, o chão, o painel do ascensor, o tecto vítreo com uma lâmpada de luz amarelada na parte superior povoada de muitos insetos minúsculos. Quando o elevador se deteve, seguiu a mesma estratégia, a puxar pelo carro das malas, e ouvindo atrás de si o andar compassado da hóspede, amortecido pelo chão alcatifado. Parou frente ao quarto requisitado e enquanto ela abria a porta, teve de se apoiar na ombreira, com a cabeça às voltas.
     - Entre - convidou ela com uma voz brincalhona.
     Saúl cambaleou para dentro dos aposentos e deixou-se cair numa poltrona. O mundo rodou em volta e deslizou pelas paredes de uma torre alta como pedra e metal derretidos. com ele a oscilar no topo da torre, e as luzes do teto a encadearem-no como sóis ateados no quarto. Segurou-se aos braços da poltrona para se tentar levantar mas uma mão suave e macia pousou no seu peito e sossegou os seus terrores. Deixou-se ficar, admitindo a sua derrota e a sua impotência. Fechou os olhos, a tentar recuperar o auto-controlo, e adormeceu sem dar conta disso. Quando acordou, várias horas tinham decorrido. Estava deitado na cama do quarto, despido quase por inteiro, e sentiu junto ao seu o corpo nu e quente da hóspede, sentiu um lampejo de pânico, desvanecido de imediato pelo calor que emanava dela, e pelo perfume suave que se desprendia da sua pele. Ela abraçou o seu torso, refugiando-se sob o seu braço, com os seios macios pousados nas suas costelas. O seu rosto encontrava-se junto ao seu, com os lábios carnudos pintados de vermelho escuro. Os olhos grandes e cândidos com uma simplicidade de adolescente fitavam-no, cúmplices, como se ambos se conhecessem desde sempre, e fosse a coisa mais natural do mundo estarem juntos. Os seus rostos tocaram-se, e os lábios e as línguas desfaleceram numa vertigem de húmido desejo.
     Verónica, assim se chamava a hóspede, era casada e estanciava naquele hotel enquanto o marido participava num congresso numa cidade próxima. Verónica fazia tempo enquanto o marido ficava retido no congresso, havendo combinado que ambos regressariam então juntos a casa. Depois daquela experiência complicada com a garrafa de aguardente, Saúl focava-se agora e apenas em Verónica. Encontravam-se quase sempre, no quarto dela, em encontros fugazes e tórridos durante o dia, ou em momentos langorosos quando Saúl lá passava a noite. Mas ela também gostava da sensação do risco, de terem sexo no elevador, na lavandaria do hotel, ou no anexo da recepção onde se guardavam as malas dos hóspedes que aí as depositavam para serem levantadas mais tarde. Foi com satisfação e uma ponta de orgulho que Saúl constatou que no hotel todo o pessoal gostava de Verónica e simpatizava com a sua maneira alegre de ser. Dos cozinheiros ao seu amigo porteiro, todos os funcionários da receção, os cozinheiros e camareiras, e entre elas a carnuda e libidinosa morena que as chefiava. Todos sem exceção diziam maravilhas da sua simpatia e boa-disposição, e era com um misto de desejo e carinho que Saúl comparecia quando ela o chamava, como se ela e Verónica fossem passageiros permanentes de uma viagem que nunca iria acabar. De certo modo, notava-se que Verónica também sentia algo por ele, talvez estivesse apaixonada. Numa vez em que acordou a meio da noite e a viu entrar no quarto sem que tivesse notado que ela se ausentara daí, ela despiu-se e enfiou-se de novo na cama, explicando:
     - Sentia-me irrequieta e fui lá abaixo ao bar beber um drink.
     Ele pensou em argumentar que havia bebidas no quarto, mas isso pareceu-lhe algo estúpido de se fazer. Abraçou-a apenas.
     - Meu amigo, meu perigo! - sussurrou ela, usando pela primeira vez aquela frase que se tornaria corrente.
     - Não percebi...?
     - Quando somos muito amigos de alguém, amigos como nós somos, corre-se sempre o risco de nos envolvermos mais do que seria prudente. É aí que está o perigo...
     Ele sentiu um carinho sufocante por ela, e sentiu-se emocionado quando ela se alcandorou nele, envolvendo o seu corpo num amplexo faminto.

     A felicidade de Saúl durou apenas mais uns dias. Um recado deixado na receção preveniu a sua amante (era incrível como essa palavra aquecia o íntimo de Saúl) que o congresso havia terminado e que o marido dela a viria buscar na manhã seguinte. Verónica narrou isso entre lágrimas, abraçado a ele, e repetindo como numa litania: meu amigo, meu perigo!
     Saúl esteve com Verónica no quarto dela ao fim da tarde, e depois não mais a viu. Voltou a bater-lhe à porta do quarto depois do jantar e a altas horas da noite, mas ninguém abrira, nem se ouvia qualquer som vindo do interior, era como se ela já tivesse abandonado o Hotel. Angustiado e depois de muito esperar, Saúl adormeceu no corredor junto à porta do quarto dela. Foi um toque suave no seu ombro que o despertou e Saúl levantou-se de um salto. Verónica estava junto a si, com as malas feitas na entrada do quarto. Ajudou-a a transportá-las até ao elevador. No caminho cruzaram-se com a encarregada do serviço de quartos que despediu com um gesto uma camareira que conferenciava com ela, aproximou-se de Verónica e as duas abraçaram-se e beijaram-se na boca perante o olhar pasmo de Saúl - minha amiga, minha amiga!, disse-lhe Verónica num lamento. Ainda não refeito da surpresa, Saúl viu o velho Elias, que recolhia e engraxava os sapatos dos hóspedes, abraçar-se em pranto a Verónica, que o puxou para si com as mãos no seu traseiro enquanto sussurrava ao seu ouvido em jeito de consolação: meu amigo, meu perigo. As manifestações tórridas de carinho e aquele estribilho repetiram-se uma e outra vez até chegarem ao exterior do Hotel, sem falsos pudores nem reservas sociais, o cozinheiro, os empregados da copa, os funcionários da receção, o seu amigo porteiro.
     Cá fora na rua, o marido de Verónica esperava no estacionamento, de pé ao lado do carro, e enquanto Saúl puxava pelo trólei com as malas, ela, junto a si, lembrou-se de lhe afiançar:
    - Foste o meu maior perigo, amigo meu!
    Saúl não tinha como responder, carregou acabrunhado as malas na bagageira aberta da viatura, e quando a fechou, Verónica, em jeito de despedida, segurou-lhe nas mãos a pretexto de lhe dar uma gorjeta. Tinha as mãos a escaldar. Ou eram as dele que haviam gelado com a surpresa que tivera.


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