uma pessoa

A morte procurou o poeta, não a morte alegórica e negra de gadanha e face óssea-áspera, mas a morte interior-e-íntima, que semeia nas vísceras do corpo a podridão ectoplásmica que escorre do espírito e do coração. Mas a morte não encontrou o poeta, não às primeiras. Não o encontrou no cavalheiro de nome gentil que criara para resgatar a presença do pai falecido. Não o encontrou igualmente no Iskandar peregrino que procurava os limites do mundo anglo-saxónico, ou no pedante que embrulhava em latinismos as suas divagações de todos os dias, escapou-lhe enfim no engenheiro frustrado e amargo que mal se conseguia soerguer do seu opiáceo pessimismo, e fugiu-lhe por antecipação em Caeiro que se resolvera a morrer de tísica antes que ela o aniquilasse. Quando a morte alcançou o poeta numa cama de hospital, já não havia lugar para a morte. As palavras que criara em múltiplas vidas eram a antítese fecunda do nada que nada é e da vida pobre que em nada se torna.

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