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Névoa

     Ainda não me tinha apercebido de mim mesmo, e já sabia que desejava ser névoa, desejava-o com todas as moléculas de vapor que dançavam na corrente rubra das minhas veias, e nas nuvens algodoadas dos meus olhos azulínos. Logo na hora de nascer, a minha mãe e a parteira perceberam o mesmo, eu era mais nuvem que carne e só me conseguiam segurar e aconchegar enrolando-me o torso em mantas quentinhas que impediam que eu desejasse sair dali. Toda a minha vida foi uma luta incessante entre um eu absurdo e os outros que me tinham medo ou pavor, ao escárnio dos meus amigos e família eu equilibrava e compensava nas doces horas de recolhimento no meu quarto, repousando na cama, e debaixo dela, no ar junto às paredes, e no teto, onde a minha mãe pintara uma Lua, porque dizia que era ali que eu tinha a cabeça. E então, aconteceu Flâmula. Flâmula era uma jovem de longos cabelos dourados, tão bela e doce, quanto irrascível e dada a grandes fúrias, tudo dependendo do momento e da companhia. E Flâmula gostava de estar ao pé de mim, dizia que a minha presença lhe fazia bem, e acalmava-a, como se ela fosse um astro incandescente pousado na lama e eu me estendesse em volta como um lago de águas profundas e coroado de névoa. Flâmula começou a ficar em minha casa, no meu quarto, com a concordância benevolente, mas algo triste, dos meus pais. Dormíamos juntos, vapor e fogo, matéria e ar. A humidade e o fogo conjugavam-se como contrários na vertigem do beijo e na libertação do sémen, e os nossos corpos entrelaçavam-se numa orgia dionisíaca de elementos fecundos. O desejo era grande e os nossos tempos de intimidade pareciam que nunca iriam acabar. Mas pessoas não gostavam da Flâmula e não gostavam de mim. Éramos estranhos e bizarros, olhavam-nos de soslaio quando passeávamos juntos na encosta dos moinhos, apontando-nos as foicinhas com que colhiam o cereal, e o meirinho não disfarçava o ódio que me tinha, enquanto todos notavam que desejava Flâmula, que a queria ter. O meirinho veio a minha casa com os soldados e falou com os meus pais, primeiro tentou convencê-los a expulsarem Flâmula de casa para o seu próprio bem, porque eu tinha alma de demónio, porque só estes se transformam em nuvens, depois passou às ameaças, mutilaram o meu pai e queimaram o cereal que tínhamos guardado no celeiro. Flâmula e eu falamos em fugir, precisávamos fugir, mas demoramos muito tempo, porque os nossos corpos e aquele quarto casavam-se como uma solução nova na retorta do alquimista que a criou. E o meirinho agiu primeiro do que nós, com dois homens foi capturar Flâmula, enquanto outros dois foram ao meu quarto para acabar comigo. E conseguiram, quando saíram da casa, o meu corpo ficou no chão do quarto, trespassado e cortado pelas espadas, enquanto Flâmula livrou-se do meirinho e dos seus ajudantes ao carbonizar os seus corpos como quem deita um archote numa pilha de feno. A morte libertou-me, não da forma que eu queria, mas libertou-me. Segui Flâmula na sua fuga para longe, acompanhei os seus passos, velei pelo seu sono, envolvendo os sonhos que sonhava. De manhã, ela vê-me e sorri, esteja eu no seu quarto, ou pairando baixo entre as árvores de um pomar ou nos recessos dos vales fundos. Por umas horas, e até ao entardecer, deixamos de nos ver, nessas horas em que os seus cabelos louros e a sua tez dourada brilham com tons de fogo, e a sua beleza resplandece como um templo de ouro sob o sol do meio-dia.

Rainha

                Subiu lesto os parcos degraus que separavam o átrio do hotel do recinto sobrelevado onde haviam instalado a receção. Ab...