Um amor quântico


Dia após dia, os dois voltavam a encontrar-se. Como não? Trabalhavam juntos, gostavam das mesmas coisas e sentiam-se identificados um com o outro, o que um dizia, contava, gracejava, o outro ouvia, bebendo as suas palavras, e deslizando docilmente no caminho das suas palavras e piadas como um barquinho à vela com o vento de feição num lago de águas calmas. Por vezes, lembravam-se, percebiam a distância que se espraiava entre os dois, o arame farpado das suas próprias dúvidas e medos a alancear o coração. Então, ela falava dos filhos, da escola dos filhos, dos trabalhos e projetos do marido, e ele, contrafeito, sentia que tinha de representar as suas falas e o papel que lhe estava atribuído pelo universo, e falava também das suas próprias filhas e de como ele e a mulher se sentiam assoberbados por viverem com três filhas adolescentes em casa, uma ilha acossada por um mar de inquietações e hormonas. A amizade dos dois, terna e embaraçada, prosseguiu durante anos. Mas não em todos os dias do mês e do ano, porque eles deram um jeito, improvisaram, acreditaram que o impossível não existia. Uma vez por mês, os dois passaram a encontrar-se. Como dois namorados de liceu, iam ter a um lugar combinado, longe das famílias de ambos, um banco de jardim ou um promontório na costa com vista sobre o mar, e então namoravam um pouco. Refugiavam-se nos braços um do outro, comungavam carinho, desesperavam beijos, Era o seu oásis, o seu tempo condensado. Um minuto de felicidade juntos valia por dias e semanas de uma secreta e melancólica infelicidade. E, por ironia, foi esse tempo mínimo, exíguo, insuficiente e sôfrego, que os perdeu a ambos,

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