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          A noiva entrou na taberna escura e suja com a longa cauda do seu vestido apanhada na curva do braço. Arfava, tentando ser paciente e mostrar condescendência, o que representava um esforço condenado ao fracasso. O seu amado estava sentado a uma mesa de carvalho de tampo de mármore, com o cálice de aguardente vazio a rodar entre os seus indicadores inquietos, desapertara a gravata do fato e ela iria jurar que já distinguira nele uma ou duas nódoas gordurosas.
          - O que é que se passa? Mudaste de ideias?
          Ele encolheu os ombros, todas as palavras lhe pareciam bolas de sabão diante daquele tsunami de Hokaido, erguido aos píncaros a esbravejar de fúria e de espuma salgada.
          - Não te mereço...
          Ela continuava à espera de uma resposta, de uma que explicasse alguma coisa, que desse um ar decente àquele repentino caos.
          - És boa demais para mim, acho que deverias procurar outro homem, que estivesse à tua altura e te fizesse feliz.
          Ela não desarmou o seu olhar, continuava apontado a ele, ao seu coração ou a um ponto frágil no meio da sua testa suada. Ele percebeu que batera no fundo. Esgotara as frases feitas que absorvera de filmes e novelas de televisão. Já não tinha por onde fugir.
          - Eu vou voltar para a limusina e compor o véu. Quero-te ao pé do altar em menos de cinco minutos para fazer abortar toda a coscuvilhice e troça dos ciganos, que aquela igreja está cheia deles. Não percebo porquê, escolhi a Sé por ser o templo mais elegante da cidade e tinha de estar cheia daquela gente suja e mal-cheirosa. Vi-os entrar aos magotes, parecia que estavam em dia de feira - interrompeu-se, lembrando-se do que viera ali fazer - Cinco minutos, ouviste? Nem mais um minuto!
          Saiu disparada da taberna, e o tsunami amainou e ficou chão, marulhando apenas no eco do som dos seus passos e no olhar aturdido do velho taberneiro.
          Foi a sua vez de abandonar a taberna, Galgou os degraus polidos da Sé e deteve-se no topo da escada com o pretexto de compor o casaco e a gravata. A noiva estava dentro da limusina com as damas-de-honor, buliçosas, em volta dela como de uma abelha-mestra. Relanceou o olhar pela praça, e viu-a, àquela que amava, o seu tudo-que-mais. A cigana encontrava-se de pé, semi-eclipsada pela esquina de uma casa, com os longos cabelos a esvoaçar na brisa. Não lhe conseguia ver os olhos e não sabia dizer se chorava. Segurava pela mão o pequeno Breno, o seu Breno. Sentiu-se agoniado, tomado de uma dor que o atingiu como um soco no estômago.
          Encolheu os ombros, murmurou uma desculpa que ninguém ouviria a não ser o Criador, e entrou no velho templo.


Geena

                No rincão das matas enegrecidas, onde as árvores carbonizadas se assemelhavam a costelas fraturadas do corpo de uma ...